Cogumelos

Jonas é um verdadeira “figura”. Conheci-o há vários anos, na época em que eu era rico e tinha um carro novo. Fomos colegas de noitada por muito tempo até que o destino nos separou e nesse meio tempo vivemos muitos momentos divertidos dos quais eu me lembro com razoável saudade.

Entre as suas esquisitices estava sua fixação por cogumelos. Lembro-me que quando passávamos perto de algum lugar onde houvesse umidade e sombra ele cheirava o ar e dizia: “aqui nasce cogumelo do bom…”

Da primeira vez eu nem fiz nada além de rir, mas depois fiquei curioso e comecei a perguntar como ele sabia tanto de cogumelos. Ele então começou a a me confidenciar suas aventuras com “chás” e outras substâncias. E no meio de tantas aventuras ele acabou contando uma que jamais me esqueci devido às imagens marcantes que me traz à mente toda vez que a relembro.

Fora um menino tímido e um pré-adolescente contido. Filho de mãe solteira casada com pastor evangélico, desde cedo era estimulado a comportar-se como devia, a ser um “bom menino” e evitar as inclinações más trazidas pelo “sangue ruim” do pai que nunca conhecera.

Mas quando os hormônios começaram a manifestar-se e a voz deixou de ser aquele falsete bonitinho de criança ele entrou numa longa fase de rebeldia da qual não tinha saído até quinta-feira passada. Foi mais ou menos nessa época que conheceu uma turma de amigos pouco recomendáveis, que o apresentou a sensações, tratados e experiências que um filhinho de pastor vivendo em cidade do interior normalmente não experimentaria.

Certa vez ele e os amigos pegaram a Brasília do pai de Jonas e foram para a roça tomar chá. Não, não era chazinho de menta e nem de camomila, era de cogumelo mesmo.

Foram até um sítio localizado a uns cinco quilômetros do perímetro urbano, um lugar bem bonito, cercado de morros cobertos de pastos verdejantes, cortado por um tranquilo regato. Do alto de um dos morros se descortinava uma paisagem linda e lá também havia uma pedra de formato curioso que eles chamaram de “Grande Sapão”, ao pé da qual acenderam uma fogueirinha.

Daí pegaram os benditos cogumelos (e até acharam outros no lugar) e prepararam o “xarope”. Pronta a beberagem, tomaram-na e ficaram olhando para a paisagem tentando ver fadinhas de açúcar. Dali a pouco começaram a acontecer aquelas coisas que só acontecem nessas viagens psicodélicas: montanhas saíam voando, vários sóis de cores diferentes perfumavam o céu, nuvens que escorriam gotejantes e empoçavam nas árvores, pedras pulsavam com olhos chamejantes de lírios, a grama sussurrava sensualmente enquanto crescia e trovejava macias palavras azedas…

De repente Jonas viu um “duende”, um serzinho de pele azul e gorrinho colorido na cabeça (não sei se era mesmo um duende ou um smurf, mas isto é detalhe). O trocinho olhava para ele e ria, dizendo bobagens em uma língua cheia de consoantes. Ofendido meu amigo se levantou, xingou a aparição e resolveu pisotear Papai Smurf, digo, o duende, mas logo notou que não adiantava pois ele reaparecia sempre em outro lugar. E lá se foi Jonas a pisotear de novo, depois de xingar de novo, e logo Papai Smurf aparecia em outro lugar ainda cacarejando consoantes concatenadas.

Imagino que deve ter sido uma cena muito linda de se ver aquele momento: um adolescente meio cabeludo, com olhos arregalados e “mucho loco” de “chá de caramelo” pisoteando duendezinhos azuis imaginários no alto de um morro, perto de uma pedra. Pelo menos deve ter sido engraçado até que Jonas tropeçou e rolou morro abaixo, bateu a cabeça e perdeu os sentidos.

Quando acordou Jesus Cristo o estava chamando e dizendo alguma coisa em húngaro. Jonas não entendia nada de húngaro e jamais vira Jesus Cristo antes — só o reconheceu por causa do boné azul, da camiseta fluorescente que faiscava com figuras de cobras e elefantes iridescentes que efervesciam num mar de olhares úmidos e mãos nervosas.

Olhou nos olhos de Jesus Cristo e lhe disse “Sacanagem, J.C., se eu soubesse que você vinha eu tinha feito a barba”. E tendo proferido tais sábias considerações sucumbiu definitivamente às alucinações cada vez mais complicadas que pousavam.

Sentiu-se flutuar acima do capim como Aladin sobre as areias do deserto em seu tapete mágico, só que em vez de sentado ia deitado de costas e por alguma razão suas costas esfregavam de vez em quando em algo duro.

Acordou duas horas depois e “Jesus Cristo” lhe dava café numa caneca de esmalte, um café tão forte que agarrava na língua e não queria descer pelo esôfago. Estava todo frio, como se lhe tivessem dado trinta banhos de água gelada — o que não estava tão longe da verdade, principalmente considerando que urinara nas calças e vomitara várias vezes num intervalo de menos de uma hora.

Ainda estava vendo coisas coloridas e sussurrantes nas esquinas das coisas e no rabo dos olhos. Mas já conseguia perceber que havia se arranhado todo nas costas e estava todo sujo e fedendo a vômito e a bosta de vaca.

Mesmo temendo a resposta, perguntou a um dos amigos o que ocorrera.

“De repente você começou a gritar desesperado em esperanto e a correr para lá e para cá pulando em cima de tudo quanto era bosta de boi que via pela frente, então escorregou numa que tava fresca e desceu rolando uns duzentos metros de morro abaixo até que bateu numa cerca na beira do córrego…”

Jonas lembrava-se vagamente de alguma coisa. Alguma voz idêntica à sua que gritava coisas como Vi stulta elfo, feku al vi! e Viaj fratrinoj estas malgrandajn!

Depois de recuperar-se Jonas jurou nunca mais tomar chá de cogumelo e abandonou para sempre seus estudos de esperanto. Só depois que ele me contou essa história entendi porque de vez em quando alguém lhe gritava na rua: stulta elfo!

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