Impressões da Leitura de “Piquenique na Estrada”, dos Irmãos Strugatsky

Retornando hoje de meu breve exí­lio da inter­net, relato um feito pro­por­ci­o­nado pelo meu iso­la­mento em rela­ção às dis­tra­ções que exis­tem na Rede: ter­mi­nei final­mente a lei­tura de Roadside Picnic (título da tra­du­ção ame­ri­cana), um clás­sico da fic­ção cien­tí­fica sovié­tica, de auto­ria dos irmãos Bóris e Arcádio Strugatsky. Aproveito agora para com­par­ti­lhar com vocês minhas impres­sões.

Inicialmente vou dizer umas bre­ves pala­vras sobre os auto­res. São tidos pela crí­tica espe­ci­a­li­zada como ver­da­dei­ros gênios lite­rá­rios incom­pre­en­di­dos, cuja obra não pode ser per­fei­ta­mente fruída pelos oci­den­tais devido à pro­funda carga lin­guís­tica que ela pos­sui, mes­clando neo­lo­gis­mos e arcaís­mos, colo­qui­a­lis­mos e ter­mi­no­lo­gia cien­tí­fica (e pseu­do­ci­en­tí­fica). Não pude, obvi­a­mente, ver nada disso na tra­du­ção ame­ri­cana (que, aliás, me pare­ceu bas­tante “porca”), mas detec­tei vários dos outros ele­men­tos que são apon­ta­dos como evi­dên­cias da geni­a­li­dade dos irmãos: a curi­osa (e sem­pre inqui­e­tante) mis­tura entre sátira, ide­a­lismo, cinismo, ateísmo, supers­ti­ções e cons­tru­ção psi­co­ló­gica de per­so­na­gens muito den­sos e com­ple­xos. Resumindo: trata-​se real­mente de um tra­ba­lho lite­rá­rio de alta enver­ga­dura. Os irmãos estão, no gênero fic­ção cien­tí­fica, na mesma cate­go­ria dos “qua­tro gran­des” (Asimov, Brabury, Clarke e Heinlein) e, sob cer­tos aspec­tos, estão acima.

Pode pare­cer sur­pre­en­dente que eu afirme isso sem ter lido sua obra no ori­gi­nal, mas o que de pode entre­ver nesta tra­du­ção que li jus­ti­fica ple­na­mente a repu­ta­ção dos dois: eles são sim­ples­mente ousa­dos além da conta, em todo e qual­quer aspecto (exceto na for­ma­li­dade da nar­ra­tiva e da pon­tu­a­ção). Vamos por par­tes.

Roadside Picnic é uma obra car­re­gada de sátira. Pelo que leio das sinop­ses, todas as obras dos irmãos Strugatsky são amar­ga­mente satí­ri­cas. É sur­pre­en­dente que eles não tenham sido depor­ta­dos para a Sibéria e mor­rido lá. Talvez o expe­di­ente de des­lo­car sua sátira para mun­dos inven­ta­dos do futuro ou paí­ses estran­gei­ros (como o Canadá, nesse romance) tenha per­mi­tido que os cen­so­res não per­ce­bes­sem que o alvo da sátira era o comu­nismo. É pre­ciso ser “muito macho” para sati­ri­zar o comu­nismo se você nas­ceu em 1925 na União Soviética. Os irmãos Strugatsky foram, e mor­re­ram de velhice (embora algu­mas de suas obras, entre elas esta, tenham sido seve­ra­mente cen­su­ra­das antes da publi­ca­ção e só tenham sido res­tau­ra­das após o fim do comu­nismo). Em Roadside Picnic a sátira não está exa­ta­mente diri­gida ao comu­nismo, mas ao seu cien­ti­fismo. Ao longo do livro os cien­tis­tas (mos­tra­dos como pes­soas ide­a­lis­tas, mas ingê­nuas) comportam-​se como cri­an­ças que pro­cu­ram enten­der os brin­que­dos que ganha­ram. A reli­gião tam­bém é sati­ri­zada (neste livro está a céle­bre frase “A hipó­tese de Deus nos dá uma opor­tu­ni­dade abso­lu­ta­mente incom­pa­rá­vel de enten­der tudo e não saber nada”), bem como o ideal do self made man (os herói­cos per­so­na­gens do livro se reve­lam pes­soas abso­lu­ta­mente detes­tá­veis, como Burbridge, ou meros ins­tru­men­tos da ganân­cia do “sis­tema”, como o pro­ta­go­nista).

O livro lite­ral­mente atira para todos os lados: os per­so­na­gens são de vários tipos, um comer­ci­ante cor­rupto, um cien­tista ingê­nuo, um ladrão que se acha um tipo de herói, um cien­tista abso­lu­ta­mente cínico, um poli­cial vio­lento, um bar­man covarde, um negro supers­ti­ci­oso… cada um deles se rela­ci­ona de uma forma dife­rente com o grande mis­té­rio de que fala o livro: as “Zonas”.

Roadside Picnic é um livro sobre uma visita extra­ter­res­tre ao nosso mundo. Dito assim, parece um livro igual a cen­te­nas de outros. Mas quando você o lê, per­cebe que há pou­cos livros pare­ci­dos. Para come­çar, a visita em si é ape­nas uma hipó­tese desen­vol­vida para expli­car um fato: o apa­re­ci­mento sobre a Terra de sete estra­nhas “zonas” onde ocor­rem fenô­me­nos que con­tra­di­zem a lei da física, onde se encon­tram obje­tos estra­nhos e inex­pli­cá­veis, onde tudo subi­ta­mente parece que se tor­nou hos­til à vida como a conhe­ce­mos (os pás­sa­ros não voam sobre as “zonas” e lá não há inse­tos).

Os extra­ter­res­tres não apa­re­cem, nin­guém os viu (ou sobre­vi­veu após vê-​los para poder con­tar). Mas o seu legado, os obe­tos e fenô­me­nos que eles dei­xam para trás, assom­bram o livro do começo ao fim e, reve­lando o alcance do cinismo dos auto­res, demonstram-​se tão indi­fe­ren­tes à nossa exis­tên­cia que um per­so­na­gem chega a dizer que isso foi um sorte, pois se nos tives­sem notado, teriam feito conosco como faze­mos com as for­mi­gas que pode­riam atra­pa­lhar nosso pique­ni­que à beira da estrada (nesse ponto, lá pelo meio do livro, você entende o porquê do título). Para os extra­ter­res­tres nós nem sequer somos visí­veis. Se os espa­nhóis tive­ram dúvi­das se os ame­rín­dios eram huma­nos, Strugatsky argu­menta que tal­vez nós e os Visitantes nem nos reco­nhe­cês­se­mos como seres vivos e pen­san­tes: “Usualmente uma defi­ni­ção tri­vial [de raci­o­na­li­dade] é usada: a razão é a fun­ção humana que nos dis­tin­gue dos ani­mais. Ou seja, uma ten­ta­tiva de dis­tin­guir entre o homem e o seu cão, que a tudo entende mas não sabe falar.”

Resta-​nos, então, cole­tar os res­tos de suas foguei­ras, as pilhas des­car­re­ga­das de seus rádios, miga­lhas de seu pão, uma pola de pingue-​pongue per­dida no lago, um talher de plás­tico que­brado, gotas do óleo de seu carro que pin­ga­ram na grama, o lenço per­fu­mado, tal­vez uma cami­si­nha usada… “Exatamente. Um pique­ni­que durante a via­gem, à beira de alguma estrada do uni­verso. E você me per­gunta se eles vão vol­tar.”

Estou agora deter­mi­nado a con­ti­nuar lendo as obras de Bóris e Arcádio Strugatsky. Eles são bons, são livros den­sos e que fazem pen­sar. São fic­ção cien­tí­fica para gente que gosta de refle­tir, e não para jovens obce­ca­dos com um vírus que faz zum­bis ou com robôs ali­e­ní­ge­nas que se trans­for­mam em car­rões. E os títu­los pro­me­tem: Um Besouro no Formigueiro, Segunda Começa no Sábado, Certamente Talvez, Como É Duro Ser um Deus, Um Arco Íris ao Longe, Meio-​Dia no Século XXII, O Último Círculo do Paraíso, O Mowgli do Espaço… Seria ótimo se estas obras geni­ais esti­ves­sem dis­po­ní­veis em por­tu­guês, mas quase me dá von­tade de apren­der russo para lê-​las.

3 thoughts on “Impressões da Leitura de “Piquenique na Estrada”, dos Irmãos Strugatsky

  1. Bem, três coi­sas a dizer.

    1. Eu não li em por­tu­guês, mas em inglês.
    2. Que eu saiba, se há ver­são em por­tu­guês foi uma antiga edi­ção de Portugal nos anos oitenta, que nin­guém sabe onde se acha.
    3. Eu tam­bém estou pro­cu­rando.

    😉

  2. Impressões da Leitura de “Piqueniq...

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This blog is kept spam free by WP-SpamFree.