Não me Peçam que Salve a Nossa Cultura

Sou um escritor amador. Isto significa que me acomete uma série de dificuldades no exercício do que, para mim, está limitado a mero hobby. E mesmo assim ainda tenho de ouvir certas opiniões espantosas. O escritor — inclusive o amador — tornou-se subitamente um ser incensado com grandes responsabilidades: é ele quem deve dar continuar a tradição da “língua pátria”, construir a “identidade nacional”, oferecer “bons exemplos para os estudantes” etc. É muita atribuição para alguém que só tem algum respeito quando ganha muito dinheiro. […]

Raso, Largo, Estreito, Profundo?

A falta de profundidade é uma necessidade quando se escreve para pôr no Orkut, onde textos mais complexos geram comentários depreciativos de pessoas que os consideram… complexos demais. Felizmente já há um bom tempo em que eu não levo o Orkut tão a sério e brindo-o apenas com meus rascunhos, para talvez detectar pontos potenciais que possam ser melhorados. Cheguei a essa conclusão porque entendi que os leitores daqui não apreciarão o que eu escrevo de jeito nenhum. Nem quando eu estiver dentro do tema, […]

Uma Tarde no Hospital

Amanheci com náuseas. Não é infrequente que isso aconteça comigo: mesmo depois de ter removida a vesícula eu ainda passo por esses perrengues ocasionais. Especialmente depois de comer chocolate, ou frituras. Mas quem disse que eu vou deixar de comer um belo pastel de queijo só por causa de um fígado? Pois é, rendi-me à gula e amanheci mareado como um marujo de primeira viagem. Só não vomitei. Talvez tenha sido o meu azar: os males materiais, tanto quanto os espirituais, nos deixam de atormentar […]

Sonhos Para as Próximas Décadas

Eduardo Galeano — jornalista, cartunista e escritor uruguaio — publicou uma série de coisas que sonhava acontecessem no mundo após a virada do século. Considerando a natureza da prosa deste autor, o tipo de coisa que ele sonhava não é inesperado; mas para muitos soará estranho, pois há os que pensam que este autor se limitou às Veias Abertas da América Latina, obra que a esquerda toma como bíblia e a direita renega como se fosse um grimório satânico. Por causa do peso deste livro […]

Tem dias que dá vontade de esquecer o inglês…

Caro leitor, tenho de confessar, tem dias que me dá uma vontade estranha de esquecer o inglês! Lembro-me das palavras da velha Dolly Pentreath — que eu nunca conheci e cuja voz jamais ouvi — em seu leito de morte, gemendo para as paredes Me ne vidn kewsel Sowsnek! Me ne vidn kewsel Sowsnek! Como ela eu também gemo para as minhas paredes, com séculos de antecipação, que não quero ser obrigado a falar o inglês! Temo que meu brado seja em vão, mas eu […]

Reflexões de sábado à tarde

O narcisista é alguém que se mira em um espelho turvo e prefere mudar a si mesmo para ajustar o reflexo, em vez de trocar de espelho. As mulheres não sabem disso: mas os homens que elas querem conquistar são muito menos exigentes do que a opinião de suas amigas. Piada fresquinha recebida via Google Plus, de um americano preocupado com a economia: >A economia vai tão mal que eu recebi pelo correio um cartão de crédito previamente cancelado. Os empresários estão jogando mini-golfe. As […]

Romance Frustrado

Não estou conseguindo dormir. Deve ser sexta ou sétima vez só nesse mês. Minha mãe diz que passo tempo demais correndo solto por aí, vendo coisas que não devia e conversando com espíritos-de-porco. Se eu fosse viver de acordo com a vontade dela, ficaria trancado no porão mais fundo, sem uma vez sequer sair para ver a lua. Porém eu não sou um bicho medroso, gosto do frio da noite, do cheiro do ar limpo, do calor das pessoas. Quando não consigo dormir, como hoje, […]

O Melhor, o Médio e o Pior

Ontem meu amigo Ronaldo Brito Roque, uma dessas inexplicáveis criaturas de Cataguases, brindou aos seus seletos leitores com um texto que realmente é destes que me dá vontade de ter escrito. Tenho isso, às vezes: leio alguma coisa e penso comigo que eu precisava ter sido o autor daquilo. O texto em questão é um delicioso conto sobre um restaurante que só serve três pratos; intitulados “o melhor”, “o médio” e “o pior”; e as reações dos fregueses a tal estranho cardápio. Nas mãos de […]

O Meu Melhor Amigo

Um conto pessimista escrito em 2003, em homenagem a um melhor amigo real, que não quebrou um braço, mas disse algumas das coisas que o personagem expressa. O meu melhor amigo voltou das férias ontem com um braço quebrado.‭ ‬Ninguém ainda parece haver notado nada de estranho nisso, ‬como se férias normalmente quebrassem ossos.‭ ‬Mas eu não me contenho de perguntar por que motivo alguém voltaria do litoral com um membro na tipóia.‭ ‬Nada porém que me leve a romper o silêncio que ele,‭ ‬por […]

Sobre Contos e Contar Histórias

Escrever contos é uma atividade das mais prazerosas, se bem que difícil. Para mim especialmente, escrever histórias sempre foi — mais que um mero requinte — um objetivo que eu sentia essencial, um desafio de caráter quase pessoal a que me propus desde que escrevi meu primeiro poema sobre a “Chuva” (1988, perdido). No entanto, foram necessários muitos anos até que minhas primeiras tentativas bem-sucedidas viessem à luz. Esta demora deveu-se, em parte, à minha convicção de que escrever histórias era extremamente difícil e demandava […]

Caça às Bruxas

“Severo Snape” (nome fictício) era proprietário de uma empresa que ia razoavelmente bem. Era, no entanto, dotado de um ego maior do que sua grandeza e de uma insegurança que lhe obrigava a reinar sozinho. Por isso tratava de aproveitar-se do poder de todas as formas, submetendo seus empregados a um regime de intimidação e represálias, cuja principal finalidade era impedir que algum deles se destacasse mais que o proprietário. Era também amante de três funcionárias (e supostamente de um funcionário também). Seus relacionamentos se […]

O Lobo do Leme

Nos encontramos em um bar imaginário, durante uma digressão sonambúlica. Tentei assaltá-lo com uma pergunta, mas ele é refratário a tais abordagens e sempre reverte a tentativa com uma proposição inesperada. Ontem, por exemplo, quando lhe perguntei quem eram as pessoas cujos nomes ele me recomendara conhecer, ele ignorou o que eu dissera e me perguntou se eu tenho escrito. Reconheço que é inútil tentar conduzir a conversa quando se trata dele, então acabei aceitando a pergunta, na esperança de que as dobras do assunto acabassem por esbarrar na resposta do que eu queria descobrir.[…]