Epifania — Capítulo 2

Este texto continua a história iniciada em janeiro, aqui.

A reunião dos tripulantes durou preciosas horas, durante as quais Kenji permaneceu mais alerta às vaguidões do espaço — com seus perigos e desejos — do que aos sons contraditórios emitidos pelos aparelhos fonadores de tantos humanos confusos. Ouvir aquela algaravia não trazia-lhe nenhuma informação definida, diferentemente do vácuo, onde podia ver a dança dos planetas daquele sistema tão calmo, tão semelhante e ao mesmo tempo tão diferente em relação a um distante outro, que somente subsistia nos registros mais antigos de sua memória de autômato.

Enquanto seus sensores mais numerosos capturavam a dança dos astros, alguns percorriam, porém, os fios e dobras dos corredores construídos para as necessidades tão orgânicas dos seres vivos que funcionavam naquela nave. Notou então que, embora ele mesmo e alguns outros da manutenção estivessem livremente investigando, Andréa estava, com todos de sua classe, devidamente contida em um compartimento estanque. Mesmo toda a ferocidade da chave de segurança não lhe impediu de ter consciência disso. Estava presa.

Talvez os humanos não desejassem que os cibernéticos compartilhassem de decisões que certamente seriam tomadas. Todos eles, pensou Kenji, num esforço para subjugar a chave de segurança que tentava confundir seus processos, falham em perceber que alguns humanos já se tornaram meio autômatos, tanto quanto alguns autômatos já se aproximaram da humanidade. Com tanto tecido orgânico aplicado à máquina, com tanta parte mecânica implantada nos corpos.

A reunião terminou fatalmente. Tinha de terminar em algum momento. Elegeram um novo capitão. Embora a Tenente Xu tivesse tomado todas as iniciativas, havia alguma coisa a respeito dela que não inspirava confiança na maioria dos humanos presentes na nave, talvez a cor do cabelo ou o formato dos olhos ou o modo como articulava os fonemas. O novo capitão se chamava Brown e tinha os dentes amarelos e os olhos imersos em profundos círculos roxos. Era velho e triste, curvado pelo peso do dever durante as décadas em que se revezara no serviço desperto. Kenji sabia muito bem que era uma honra merecida. Brown tinha sacrificado a própria juventude, o próprio futuro reprodutivo e a possibilidade de colonizar o novo planeta — tudo isso pelo dever de vigiar a nave enquanto a maioria dormitava nos casulos. Mas apesar disso, estava antigo demais. Muitos achavam que Brown que ele não estava mais em condições de exercer o novo dever. Mesmo um autômato compreendia o conceito: sabia que entre os humanos não basta dar manutenção, pois algumas peças não são substituíveis. Mas Kenji também sabia que não tinha sido somente por uma questão de honra que a jovem Xu fora preterida. 

A Tenente Xu deixou a sala de reuniões e dirigiu-se a um dos cubículos reservados para habitação do oficialato desperto. Ali trancou-se, mas o autômato a pôde ver através dos monitores infravermelhos. Viu-a esmurrar a parede, ouviu as vibrações de sua voz durante vários minutos. Então ela tomou um banho, vestiu outro uniforme, limpo, do qual arrancou cuidadosamente sua insígnia, e dirigiu-se a algum lugar dentro da parte inferior da nave, na região onde trabalhavam os responsáveis pela manutenção.

Brown, enquanto isso, cercou-se de um grupo de influentes oficiais, recém-saídos de seus casulos de hibernação, e passou a deliberar o que fazer. Era preciso, inicialmente, que o propósito da missão não fosse perdido nunca de vista — mesmo porque não havia outro possível. Enquanto Kenji distraidamente calculava as órbitas dos astros, uma grave decisão foi finalmente tomada: iniciar a exploração do planeta e tentar manter os aspectos controversos disso ao alcance do menor número possível de pessoas. Era perfeitamente racional: hibernar de novo quantos fosse possível, assim economizar alimento. Menos pessoas despertas também significavam menos opiniões, menos discussões. E enquanto isso, quanto mais soubessem do planeta, melhor. Certas pessoas realmente não precisam saber de certas coisas. É perfeitamente racional.

Kenji sabia, e os humanos mais esclarecidos também, que não havia condições de segurança para simplesmente enviar uma nave de transporte. As nuvens que recobriam aquele planeta podiam ocultar mais perigos do que simplesmente radiação. Embora histórias de animais transformados em monstros pela radioatividade fossem tolices infantis, havia uma real possibilidade de vírus e bactérias não esterilizados na guerra nuclear. Estes minúsculos monstros seriam mais terríveis do que toupeiras carnívoras gigantes, ou que estranhas “colmeias” de baratas assassinas. Por tudo isso, ainda que a Chave de Segurança cortasse entre seus pensamentos como uma navalha, atrasando o processamento de suas conclusões, Kenji equacionou que deveriam enviar algum autômato, acompanhado de um dos cibernéticos. Era uma escolha natural: a parte orgânica deles reagiria ao meio ambiente tal como o corpo de um humano o faria, desta forma se poderia avaliar a possibilidade de sobrevivência no planeta cemitério que orbitavam.

Tenente Xu teria gostado de saber, se ainda estivesse pensando em decisões de comando, que Andréa se viu forçada a entrar no habitáculo do transporte, quase querendo oferecer resistência, como se fosse humana e tivesse livre arbítrio. Àquela altura a Chave de Segurança não conseguia mais subjugar, com suas ondas de dor artificial, a fervilhante computação que se processava em seus múltiplos circuitos, distribuídos pelos diversos gânglios de silício que conjugavam sua personalidade metálica, e Kenji compreendeu o sentido da ironia, de uma forma quase cruel.

Uma convocação eletrônica interrompeu seu escrutínio das órbitas: queriam-no no transporte também. A Chave de Segurança conseguiu confundi-lo novamente, e ele obedeceu, claudicante. Quando conseguiu acostumar-se ao nível 42, já estava próximo ao “bote” e qualquer reação teria despertado profunda apreensão nos humanos. De qualquer forma, ele não teria precisado da ação dos dispositivos de obediência: ele queria ir. Alguma coisa, que em nós poderia ser chamada de curiosidade, o impelia. E os robôs, inconscientes do significado da morte ou da dor, não a têm temperada por nenhum desses receios.

O transporte era não retornável. Os que haviam planejado a missão da “Epifania” não supunham que fosse jamais necessário “voltar”. Mesmo porque, Kenji sabia, não haveria para onde. O autômato aproximou-se dele, lentamente, analisando-o com atenção meticulosa. Sempre soubera da existência de tais botes, mas nunca se aproximara de nenhum: afinal, era um piloto, e não um reles faxineiro, para ficar perambulando por cada rego e desvão da imensa espaçonave. Tendo completado sua avaliação do bote, soube por onde entrar e como instalar-se em segurança. Conectou suas interfaces, sentiu o pulsar da fraca energia que a nave emprestava àquele precário transporte, fez o equivalente ao gesto humano de engolir em seco e entrou em modo de espera.

O transporte foi empurrado até uma das docas de saída. Enquanto as escotilhas eram preparadas, Kenji contemplou Andréa, que parecia desligada, tal como os humanos ocasionalmente ficam, mesmo quando fora de seus casulos. Algumas marcas na sua pele normalmente imaculada sugeriam algum acidente em que estivera recentemente envolvida. Mas os processos de cura eram rápidos e Chave de Segurança conseguia impedir que Kenji refletisse sobre quaisquer implicações.

A escotilha abriu e o transporte foi ejetado pelo espaço. Tão logo cruzou o limiar do casco, recebeu o jato potente do vento solar daquele astro ainda tão jovem. Os painéis coletaram essa energia e a armazenaram em suas baterias. Alguns motores quânticos foram acionados, em jorros breves, que corrigiam o curso e aproveitavam a inércia. E lá ia o transporte, num movimento quase inaparente, uma lentidão fantasmagórica sobre a densa camada de nuvens branco-acinzentadas. As interfaces pululavam com dados, mas a precariedade do processamento nativo impedia que eles chegassem até Kenji de uma forma coordenada. Em vez disso, as informações eram repassadas para seus poderosos cérebros, que as processavam rapidamente, ocupando totalmente sua atenção com tentativas de entender o que havia. Nesses momentos em que o êxtase da informação o levava a tal orgasmo eletrônico, ele não conseguiria ter noção de mais coisa alguma, mesmo uma que gritasse e esmurrasse no compartimento traseiro.

Romperam o teto de nuvens já com a fuselagem rubra do atrito de reentrada. Mas Kenji usou habilidosamente os motores para corrigir o curso e aliviar a queima. O transporte acionou várias vezes os retrofoguetes, manobrou pesadamente na escuridão do lado noturno do planeta, pairou paquidermicamente e, por fim, deixou-se pousar como um elefante sem asas em um platô qualquer, escolhido por Kenji a partir do processamento da floresta de dados confusos que pudera ler.

Os procedimentos de saída começaram, bem devagar. O rádio foi aberto, mas não houve nenhum sinal além da estática. Microfones exteriores só capturaram o uivo dos ventos. A cúpula de proteção do piloto destravou, deixando entrar o ar denso e frio do planeta. Para os autômatos puros, como Kenji, “frio” não era um dado significativo, a menos que interferisse no funcionamento dos sistemas. E duzentos e sessenta graus Kelvin não chegavam a tanto. Tratou de desconectar-se da quase inútil carcaça do transporte e, pela primeira vez em centenas de anos de existência, tocou com suas patas metálicas um “chão” que não era também feito de metal, experimentando uma gravidade que não era artificial e respirando uma atmosfera que não era sintética.

Andréa saiu de seu habitáculo tremendo curiosamente, envolta em tecidos pesados, que dificultavam os seus movimentos. Era realmente uma coisa frágil, pensou Kenji: com somente dois membros preênseis e tão pouca resistência ao ambiente. Mas os humanos sabiam bem porque precisavam de bonecas de carne como aquelas, e diante das circunstâncias da chegada, até que ela finalmente se revelava útil.

A atmosfera parecia opaca e anormalmente úmida, mas o isolamento dos mecanismos de Kenji era duplo e estava intacto. O autômato tateou receosamente por aquele ar leitoso e calmo, sentindo a excitação da novidade. A Chave de Segurança se transformara apenas nisso, no receio do novo, do diferente, do perigoso. Não se importava com Andréa, ela que ficasse no transporte se quisesse. Mas ele logo esfriaria e começaria a decompor-se, sem o auxílio precioso dos microrreparadores. Se havia alguma esperança para um ser tão estúpido, teria de ser ao lado da presença protetora dele, que já se sentia tão adaptado.

O transporte tinha pousado sobre uma espécie de platô não muito alto, coberto de neve muito rala e poeira muito fina. Estava ainda escuro, mas de um dos lados o céu se tingia de tons múltiplos de vermelho, roxo, violeta e amarelo. Um difuso globo tentava aparecer entre os braços agitados das nuvens. Aquele sol alienígena pareceria um comprimido efervescente no fundo de um copo de água — se Kenji jamais tivesse visto tal cena. Não havia vegetação à vista, somente raros galhos secos. Revistando os dados que tinha em registro, o autômato considerou que tal lugar havia sido justamente escolhido por ser deserto. Pousara deliberadamente em um lugar desabitado. Na possibilidade de ainda haver vida em tal planeta, a intenção fora de evitar qualquer interação prematura, qualquer contato antes de terem sido coletados conhecimentos suficientes.

Kenji vasculhava todas as baixas frequências de rádio. Povos primitivos as haviam utilizado desde muito cedo para transmitir dados. Tais frequencias teriam tido dificuldade para romper a camada de nuvens, vencer a ionosfera e chegar à “Epifania” em órbita. Teriam sido ignoradas, então. Mesmo estas, porém, mantinham o silêncio das sepulturas. Aquele planeta, se de fato possuía alguma forma de vida, estaria contemporaneamente limitado a formas pouco evoluídas tecnologicamente, ainda desconhecedoras do rádio, ou a formas tão evoluídas que haviam abandonado toda comunicação por esse meio — o que, obviamente, não fazia nenhum sentido.

Não que a atmosfera ajudasse, instável e cheia de radiação. Aquelas nuvens densas estavam pejadas de estática e tornavam faixas inteiras completamente inutilizáveis. Diante de tal quadro, se ainda existisse vida inteligente usando alta tecnologia, ela poderia comunicar-se por cabo. Não era essa, no entanto, a impressão que o autômato formava em seus circuitos: aquele planeta parecia mesmo estar, como temiam os humanos, esterilizado.

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