A Paisagem com Salgueiros

Original de Clark Ashton-Smith.
Traduzido a partir da versão online em Eldritch Dark.

A pintura tinha mais de quinhentos anos e o tempo não mudara suas cores, senão para tocá-las com a tenra suavidade das horas antigas, com a morbidez acumulada de coisas passadas. Fora pintada por um grande artista da dinastia Sung, em seda da mais fina trama, e montada em uma moldura de ébano arrematada em prata. Por doze gerações fora uma das mais queridas posses dos antepassados de Shih Liang e igualmente querida pelo próprio Shih Liang, que, como seus ancestrais, era um erudito, um poeta e um amante da arte e da natureza. Às vezes, em seus momentos mais sonhadores ou meditativos, desenrolava a pintura e contemplava seu idílico encanto com o sentimento de alguém que se retira para a discrição e a distância de um vale cercado de montanhas. Ela o consolava um pouco pela agitação e o ruído e a intriga da corte imperial, onde ele tinha um posto oficial de não pequena honra, pois ele não era muito afeito a tais coisas e teria preferido, como os sábios antigos, a paz filosófica de uma ermida coberta de folhas.

A pintura representava uma cena pastoral da mais visionária e idealizada beleza. Ao fundo se erguiam altas montanhas que pareciam vagas devido à dissipação gradual da neblina matinal, em primeiro plano corria um pequeno riacho que descia em turbulência muda até um lago tranquilo e era cruzado em seu percurso por uma rústica ponte de bambu, mais encantadora do que seria se feita de laca real. Além do riacho e em torno do lago havia salgueiros de um verde vernal mais adorável e delicioso que qualquer coisa contemplada senão em visões ou lembranças. Incomparável era a sua graça, inefável o seu balouçar: eles eram como os salgueiros de Shou Shan, o paraíso taoísta, e eles deitavam sua folhagem como uma mulher reclinada deixa pender seu cabelo desatado. E escondida entre eles havia uma cabaninha, e uma donzela vestida de braco e rosa peônia cruzava a pequena ponte de bambu. Mas de certa forma a figura era mais do que uma pintura, era mais do que uma cena verossímil: ela possuía o encantamento de coisas distantes por que o coração anseia em vão, de anos e lugares que estão perdidos além da lembrança. O artista certamente misturara em suas cores a mais divina íris do sonho e da saudade e as lágrimas doces e inebriantes de uma nostalgia há muito negada.

Shih Liang sentia que conhecia a paisagem mais intimamente que qualquer cena real. Cada vez que ele a contemplava, as suas sensações eram as de um viajante que retorna. Ela se tornou para ele o refúgio fresco e isolado em que achava uma fuga infalível do cansaço de seus dias. E embora ele fosse de um tipo ascético e nunca tivesse se casado ou buscado a companhia das mulheres, a presença na ponte da donzela vestida de rosa não era de forma alguma dispensável: de fato, a sua figurinha, com seu encanto mais do que mortal, era a seu modo uma parte essencial da composição, e não menos importante à sua perfeição do que o riacho, os salgueiros, o lago ou as distantes montanhas com seus véus de neblina rasgados. E ela parecia acompanhar-lhe em suas visitas e viagens de prazer, quando ele se imaginava consertando a pequena cabana ou caminhando sob a folhagem delicada.

Na verdade, Shih Liang precisava de tal refúgio e de tal companhia, ainda que ilusórios. Porque, a não ser por seu irmão mais novo, Po Lung, um garoto de dezesseis anos, ele era sozinho e não tinha parentes nem amigos, e a fortuna da família, declinando através de várias gerações, o deixara como herdeiro de muitos débitos e pouca propriedade ou dinheiro, a não ser por um número de tesouros artísticos inestimáveis. Sua vida era cada vez mais triste e oprimida pela má saúde e pela pobreza, pois muito de seu salário em seu posto secretarial na corte era necessariamente devotado ao cancelamento de suas obrigações herdadas e o restante mal era suficiente para seu próprio sustento e a educação de seu irmão.

Shih Liang se aproximava da meia idade e o seu honorável coração rejubilava ante o pagamento da última dívida da família quando lhe sobreveio outro golpe de infortúnio. Não por qualquer falha ou omissão de sua parte, mas pelas maquinações de um invejoso colega, Shih Liang foi subitamente privado de sua posição e se achou sem meios de sustento. Nenhuma outra posição se lhe ofereceu, pois certa medida de desgraça imerecida acompanhou a demissão imperial. Para satisfazer as necessidades da vida e continuar a educação de seu irmão, Shih Liang foi então forçado a vender, um a um, muitas das heranças insubstituíveis, as esculturas antigas em jade e marfim, as raras porcelanas e pinturas da coleção ancestral. Isto fez com extrema relutância, com um sentimento de total vergonha e profanação, tal como o que sente o verdadeiro amante de tais coisas, cuja própria alma fora consagrada ao passado e à memória de seus pais.

Dias e anos se passaram, a coleção diminuiu peça a peça e se aproximou o tempo em que os estudos de Po Lung seriam completados, quando ele se tornaria um erudito versado em todos os clássicos e eligível para uma posição de honra e riqueza. Mas, ah! As porcelanas e laqueados, os jades e marfins haviam sido todos vendidos e as pinturas tinham se ido também, todas exceto a paisagem com salgueiros tão adorada por Shih Liang.

Uma tristeza mortal e inconsolável, uma consternação mais gélida que o próprio frio da morte entrou no coração de Shih Liang quando ele percebeu a verdade. Pareceu-lhe que não poderia mais nem viver se vendesse a pintura. Mas se não a vendesse, como poderia completar a obrigação fraternal que devia a Po Lung? Não havia outro caminho possível, e ele fez saber logo ao mandarim Mung Li, um conhecedor que comprara outras peças de sua antiga coleção, que a pintura dos salgueiros estava então à venda.

Mung Li tinha desejado a pintura por muito tempo. Veio pessoalmente, com os seus olhos brilhando em sua face gorda, com a avidez de um colecionador que cheira uma pechincha, e a transação foi logo concluída. O dinheiro foi pago imediatamente, mas Shih Liang implorou para ficar com a pintura por mais um dia antes de entregá-la ao mandarim. Sabendo que Shih Liang era um homem de honra, Mung Li concordou prontamente com este pedido.

Quando o mandarim saiu, Shih Liang desenrolou a paisagem e a pendurou na parede. Sua solicitação a Mung Li fora causada pelo sentimento irresistível de que deveria ter uma hora a mais em comunhão com a cena adorada, deveria reparar mais uma vez no prazer de seu refúgio inviolado. Depois disso ele estaria sozinho, sem um lar ou um santuário, pois sabia que não havia em todo o mundo nada que pudesse tomar o lugar da pintura dos salgueiros ou conseguir-lhe um asilo para seus sonhos.

Os raios maduros do entardecer precoce se espalharam sobre o volume de seda pendurado na parede nua, mas para Shih Liang, a pintura estava imersa em uma luz de sobrenatural encantamento, tocada por mais do que o esplendor mudo do sol poente. E lhe pareceu que nunca antes a folhagem fora tão tenra na primavera imortal, ou a neblina em torno dos morros tão glamorosa em sua eterna dissolução em luz opala, ou a donzela na ponte rústica tão amável em sua juventude incorruptível. E de algum modo, por uma imperceptível feitiçaria da perspectiva, a própria pintura era maior e mais profunda do que antes, e assumira misteriosamente ainda mais realidade, ou a ilusão de um lugar real.

Com o coração banhado em lágrimas incontidas, como um exilado que dá adeus ao vale natal, Shih Liang experimentou a luxúria triste de contemplar a paisagem dos salgueiros pela última vez. Tal como em milhares de vezes anteriores, sua fantasia se perdeu entre os galhos e além do normal ela habitou a pequena cabana cujo teto tão tantalizante revelava e ocultava, ela observou os cimos das montanhas por detrás da folhagem pendente, ou pausou sobre a ponte para conversar com a donzela vestida de rosa.

Então aconteceu uma coisa estranha e inexplicável. Embora o sol tivesse se posto enquanto Shih Liang continuava a olhar e sonhar, e o crepúsculo tivesse adentrado o quarto, a pintura mesmo não estava menos clara e luminosa do que antes, tal como se fosse iluminada por outro sol que do tempo e o do espaço contemporâneos. E a paisagem tinha se tornado ainda maior, até que pareceu a Shih Liang que ele a contemplava através de uma porta para a própria cena real.

Então, enquanto a perplexidade o assaltava, ele ouviu um sussurro que não era o de uma voz verdadeira, mas parecia emanado da própria paisagem e tornado audível como um pensamento dentro de sua mente mais profunda. E o sussurro disse:

“Porque tu me amaste tanto e por tanto tempo, e porque teu coração aqui se encontra natural, mas é alheio a todo o mundo, agora é permitido que eu me torne para ti o refúgio inviolável que sonhaste, um lugar onde poderás vagar e viver para sempre.”

Então, com a alegria incomensurável daquele cuja mais desejada visão se torna verdade, o arrebatamento de alguém que herda o paraíso dos prazeres, Shih Liang passou da sala crepuscular para a pintura matinal. E o chão era macio com uma relva bordada de flores sob seu calcanhar, e as folhas dos salgueiros murmuravam ao vento de Abril que soprava há muito tempo, e ele viu a porta da cabana semioculta de uma forma que ele nunca a vira a não ser na fantasia, e a donzela vestida de rosa sorriu e respondeu ao seu cumprimento quando ele se aproximou, e sua voz era como a fala dos salgueiros e das flores.

O desaparecimento de Shih Liang foi assunto de breve e leve preocupação para os que o conheceram. Logo se concluiu que seus percalços financeiros o haviam impelido ao suicídio, provavelmente por afogamento no grande rio que atravessava a capital.

Po Lung, tendo recebido o dinheiro deixado por seu irmão pela venda da última pintura, pôde terminar sua educação e a paisagem com salgueiros, que fora achada pendurada na parede da morada de Shih Liang, foi prontamente reclamada pelo mandarim Mung Li, seu comprador.

Mung Li estava deliciado com sua aquisição, mas houve um detalhe que o intrigou consideravelmente quando desenrolou o volume e o examinou. Lembrava-se de ser somente uma figura, uma donzela vestida de branco e rosa, na pequena ponte de bambu, e havia duas figuras! Mung Li inspecionou a segunda figura com muita curiosidade e ficou mais do que surpreso quando notou que ela tinha uma semelhança singular com Shih Liang. Mas era muito pequena, tal como a da donzela, e os seus olhos estavam baços de tanto contemplarem porcelanas e laqueados e pinturas, de forma que ele não pôde se certificar totalmente. De qualquer maneira, a pintura era muito antiga, ele deveria ter se enganado sobre a quantidade das figuras. Mesmo assim, era indubitavelmente peculiar.

Mung Li poderia ter achado o assunto realmente estranho se tivesse o hábito de contemplar a pintura mais frequentemente. Ele poderia ter notado que a donzela de rosa e a pessoa que parecia Shih Liang estavam, às vezes, entretidos em outras diversões que não o mero passar do dia na ponte de bambu!

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