[Tradução] O Explosivo de Baumoff (William Hope Hodgson)

Este é um conto de ficção científica e horror escrito por Hodgson em 1915, após ter sido ferido pela primeira vez na Primeira Guerra Mundial, enquanto convalescia. William Hope Hodgson foi um pioneiro da ficção fantástica moderna, tendo escrito algumas obras influentes do gênero, como “A Casa no Limiar” e “Terra Noturna”.

*Dally, Whitlaw e eu discutíamos a estupenda explosão que recentemente ocorrera nas cercanias de Berlim. Nos maravilhávamos com o extraordinário período de escuridão que se seguira, e que dera curso a tanto comentário nos jornais, com teorias a rodo.*

*Os jornais tinham tomado conhecimento do fato de que as autoridades de guerra estariam experimentando um novo explosivo, inventado por certo químico chamado Baumoff, e se referiam a ele constantemente como “O Novo Explosivo de Baumoff”.*

*Estávamos no Clube e o quarto em nossa mesa era John Stafford, que era médico de profissão, mas também, secretamente, do Departamento de Inteligência. Uma vez ou outra, enquanto conversávamos, eu olhara para o Stafford, desejando atirar-lhe uma pergunta, pois ele conhecera Baumoff. Mas conseguira segurar a minha língua porque sabia que, se lhe perguntasse à queima-roupa, Stafford (que é um tipo agradável, mas um tanto teimoso em relação ao seu rígido código de silêncio) provavelmente nada diria que era um assunto sobre o qual não estava autorizado a falar.*

*Oh, eu conheço os modos do velho burro e sei que, uma vez que ele dissesse isso, poderíamos nos conformar em nunca obter dele nenhuma outra palavra sobre o assunto enquanto vivêssemos. Mas eu me excitei ao notar que ele parecia um tanto inquieto, como a se coçar de vontade de meter sua colher de pau na conversa,[^1] com o que supus que os jornais estávamos citando tinham entendido as coisas de uma forma muito confusa mesmo, de um jeito ou outro, pelo menos em relação ao seu amigo Baumoff. De repente, ele falou:*

Que bobagem indesculpável e maliciosa! Digo-lhes que é maliciosa esta associação do nome de Baumoff com invenções de guerra e tais horrores. Ele era o mais sincero e poeticamente intenso dos seguidores de Cristo que eu jamais conheci, e é somente por uma brutal ironia das circunstâncias que ele tentou usar um das criações de seu gênio para um propósito de destruição. Mas vocês notarão que eles não poderão usá-la, apesar de terem obtido a fórmula de Baumoff. Como explosivo ela não é prática. Ela é, como poderia dizer, muito imparcial. Não há como controlá-la.

Sei mais sobre isso do que, talvez, qualquer outro homem vivo, porque eu era o maior dos amigos de Baumoff e quando ele morreu eu perdi o melhor camarada que um homem jamais teve. Não preciso fazer segredo disso para vocês, caras. Eu estava “em missão” em Berlim, e estava designado para me encontrar com Baumoff. O governo tinha um olho nele havia bastante tempo, ele era um químico experimental, vocês sabem, e inteligente demais, afinal, para se ignorar. Mas não havia motivo para preocupação em relação a ele. Eu o conhecei e nos tornamos enormes amigos, porque logo descobre que *ele* nunca voltaria suas habilidades para nenhuma invenção de guerra e então, vejam bem, eu pude ser amigo dele com uma consciência tranquila — algo que nossos rapazes nem sempre podem fazer com suas amizades. Oh, eu lhes digo, o nosso ramo é um negócio furtivo, mesquinho, traiçoeiro; embora seja necessário, tal como algum homem deve se tornar um carrasco. Há uma quantidade de serviços impuros que precisam ser feitos para manter as engrenagens da sociedade girando!

Eu acho que Baumoff era o mais entusiasmado dentre os crentes *inteligentes* em Cristo que jamais se poderá produzir. Soube que ele estava compilando e desenvolvendo um tratado das provas mais extraordinárias e convincentes provas para defender as coisas mais inexplicáveis sobre a vida e a morte de Cristo. Ele estava, quando o conheci, concentrando sua atenção particularmente na busca de demonstrar que a Escuridão da Cruz, entre a sexta e a nona horas, fora uma coisa muito real, possuidora de um significado tremendo. Ele pretendia esmagar de uma vez só todas as hipóteses de tempestades providenciais ou qualquer das várias outras teorias mais ou menos ineficientes que têm sido aventadas de tempo em tempo para explicar a ocorrência como sendo algo sem qualquer significado específico.

Baumoff tinha uma aversão especial por um Professor de Física ateu chamado Hautch que, empregando o elemento ‘maravilhoso’ da vida e da morte de Cristo como fulcro para atacar as teorias de Baumoff, o agredia constantemente, tanto em suas aulas quanto na imprensa. Ele particulamente exalava amarga descrença sobre a defesa de Baumoff de que a Escuridão da Cruz fora qualquer coisa que não uma hora ou duas de tempo mais escuro, exagerado como trevas pela inexatidão emocional da mentalidade e da língua orientais.

Uma noite, algum tempo depois que nossa amizade já se tornara bem real, fui até a casa de Baumoff e o encontrei em um estado de tremenda indignação sobre certo artigo do Professor que lhe atacava brutalmente, usando sua teoria do *Significado* da “Escuridão” como um alvo. Pobre Baumoff! Era certamente um ataque maravilhosamente hábil, o ataque de um lógico rigorosamente treinado e bem equilibrado. Mas Baumoff era algo mais, ele era um Gênio. É um título ao qual poucos tem direito, mas ele tinha!

Ele me contou sobre sua teoria, dizendo que pretendia, então, me mostrar um pequeno experimento para provar suas opiniões. Em sua fala ele mencionara várias coisas que me haviam interessado extremamente. Tendo primeiro me lembrado do fato fundamental de que a luz é trazida ao olho através do indefinível meio chamado Éter, ele foi em frente e me apontou que, sob um ponto de vista que mais se aproximava ao primordial, a Luz era uma vibração do Éter, de um certo número definido de ondas por segundo, que possuía o poder de produzir sobre nossa retina a sensação que nós chamamos de Luz.

Concordei com isso, por estar, como todos claramente estão, bem familiarizado com tal afirmação tão corriqueira. A partir disso ele deu um salto mental rápido e me disse que um escurecimento inefavelmente vago, mas mensurável, poderia ser sempre notado na atmosfera (maior ou menor conforme a força da personalidade do indivíduo) imediatamente em torno de um ser humano, durante qualquer período de grande tensão mental.

Passo a passo, Baumoff me mostrou como sua pesquisa o levara a concluir que esta estranha escuridão (milhões de vezes mais sutil do que o aparente ao olhar) poderia ser produzida somente por algo que pudesse atrapalhar ou interromper temporariamente ou quebrar a Vibração da Luz. Em outras palavras, havia, em qualquer momento de atividade emocional incomum, alguma instabilidade do Éter na vizinhança imediata da pessoa sofredora, o que tinha algum efeito sobre a Vibração da Luz, interrompendo-a e produzindo o vago escurecimento aludido.

— Sim? — eu lhe disse quando ele fez uma pausa e me olhou, como se esperasse que eu tivesse chegado a alguma dedução definitiva através de suas observações — Continue.

— Bem — ele disse — você não compreende? O sutil escurecimento em torno da pessoa que sofre é maior ou menor de acordo com a personalidade do sofredor.

— Oh — eu disse, chocado, em um breve suspiro de compreensão. Entendo o que quer dizer. Você… você quer dizer que, se a agonia de um indivíduo de personalidade extraordinária pode produzir uma leve perturbação do Éter, com um consequente escurecimento, então a Agonia de Cristo, possuidor da uma Enorme Personalidade do Messias, produziria uma tremenda perturbação do Éter e assim, talvez, da Vibração da Luz, e que esta é a verdadeira explicação da Escuridão da Cruz, e que o fato de ter sido registrada tal extraordinária, improvável e aparentemente sobrenatural Escuridão não é algo que enfraqueça a Maravilha do Cristo, mas uma das mais inexprimivelmente maravilhosas e infalíveis provas de Seu poder Divino? É isso? Diga!

Baumoff apenas balançou-se na cadeira, deliciado, batendo um punho contra a palma da outra mão, o tempo todo acenando positivamente com a cabeça. Como ele *amava* ser compreendido, como o Pesquisador sempre deseja ser compreendido.

— E agora — ele disse — vou lhe mostrar algo.

Ele pegou de seu bolso um pequeno tubo de ensaio arrolhado e esvaziou no prato de sobremesa o conteúdo (que consistia de um único grão cinza esbranquiçado, mais ou menos do tamanho de duas cabeças de alfinete). Ele o esmagou cuidadosamente com o cabo de marfim de uma faca, reduzindo-o a um pó muito fino, e então o umedeceu com uma gota só do que supus ser água, manipulando até obter uma pequena mancha pastosa cinzenta-esbranquiçada. Ele então pegou o palitador de dentes dourado e perfurou com ele a chama de uma pequena lâmpada de laboratório que mantivera acesa durante o jantar, para acender o cachimbo. Manteve o palitador de dentes na chama até que a estreita lâmina de ouro brilhou de tão quente.

— Agora veja — ele disse, e encostou a ponta do palitador de dentes na mancha infinitesimal que estava no pratinho de sobremesa. Houve um rápido e pequeno espocar de luz violeta e eu logo percebi que via Baumoff através de uma espécie de escuridão transparente, que se desfez instantaneamente em um negrume opaco. A princípio, pensei que tivesse sido o efeito complementar da luz forte sobre a retina, mas um minuto depois ainda estávamos naquela escuridão extraordinária.

— Meu caro! O que é isso? — perguntei, por fim.

Sua voz então explicou que ele produzira, por meio da química, um efeito exagerado que simulava, até um certo ponto, a perturbação do Éter causada pelas ondas dispersas por uma pessoa durante uma agonia ou crise emocional. As ondas, ou vibrações, causadas pelo seu experimento produziam apenas uma simulação parcial do efeito que ele desejava me mostrar, meramente uma interrupção temporária da Vibração da Luz, resultando na escuridão na qual ambos nos encontrávamos.

— Essa substância — disse Baumoff — poderia ser um explosivo tremendo, sob certas condições.

Eu o ouvi batendo seu cachimbo enquanto falava, mas em vez do brilho da brasa, visível e vermelho, havia apenas uma cintilação leve que tremia e desaparecia do modo mais extraordinário.

— Meu Deus! — disse — Quando isso vai passar?

E olhei pelo cômodo, vendo a grande lâmpada de querosene aparecer somente como uma distante mancha cintilando no escuro, uma luz vaga que tremia e brilhava irregularmente, como se eu a visse através das imensas profundezas tenebrosas de um mar revolto e escuro.

— Está tudo bem, — a voz de Baumoff disse através da escuridão — já está acabando agora. Em cinco minutos a perturbação terá se aquietado e as ondas de luz vão se propagar regularmente a partir da lâmpada, do jeito que normalmente fazem. Mas enquanto esperamos, é imensa, não é?

— É, é maravilhosa, mas um tanto sobrenatural, você sabe.

— Oh, mas eu tenho algo muito mais bonito para lhe mostrar. A coisa verdadeira. Espere mais um minuto. A escuridão está passando. Olha! Você agora pode ver a luz da lâmpada quase claramente. Parece que fomos submersos em uma bacia de água, não é? Águas que estão ficando mais claras e quietas o temop todo.

Era como ele dizia, e ficamos olhando para a lâmpada em silêncio, até que todos os sinais da perturbação do meio propagador da luz haviam cessado. Então Baumoff se dirigiu a mim mais uma vez.

— Então. Você viu os efeitos quase inofensivos da simples combustão da minha substância. Vou lhe mostrar os efeitos de sua combustão na fornalha humana, ou seja, em meu corpo, e então você verá uma das grandes maravilhas da morte de Cristo reproduzida em escala miniatura.

Ele foi até a prateleira e retornou com uma pequena proveta de 120ml e outro dos tubos de ensaio arrolhados contendo um grão de sua substância química. Ele desarrolhou o tubo de ensaio e derramou o grão dentro da proveta e então, com uma vareta de vidro, esmagou-o contra o vidro, adicionando água, gota a gota, até a proveta estar exatamente pela metade.

— Agora — ele disse, erguendo-a e bebendo a substância — vamos dar-lhe trinta e cinco minutos. Então, à medida que a carbonização ocorrer, você notará que meu pulso acelerará, bem como a respiração, e então sobrevirá a escuridão outra vez, da maneira mais sutil e estranha, só que acompanhada nesse momento por certos fenômenos físicos e psíquicos, todos devidos ao fato de que as vibrações que produzirá se mesclarão ao que eu deveria chamar de vibrações emocionais que produzirei em minha excitação. Estas serão enormemente intensificadas e você talvez experimente uma demonstração extraordinariamente interessante da validade de minhas especulações mais teóricas. Eu testei sozinho na semana passada (ele me mostrou um curativo no dedo) e li um relatório dos resultados n Clube. Eles estão muito entusiasmados e prometeram sua cooperação na grande demonstração que eu pretendo dar na próxima Sexta-feira Santa, em sete semanas.

Ele parara de fumar, mas continuou a falar calmamente pelos trinta e cinco minutos seguintes. O Clube ao qual se referira era uma peculiar associação de homens, reunida sob a presidência do próprio Baumoff, e tendo por designação o título de — tão bem quanto posso traduzir — *Os Crentes e Experimentadores de Cristo.* Se posso dizer assim, sem qualquer pensamento de irreverência, eram muitos deles homens loucamente fanatizados pela defesa do Cristo. Creio que vocês concordarão depois que não fiz uso de um termo incorreto para descrever o grosso dos membros de tal extraordinário clube, que era, a seu modo, bem digno das excrescências maníaco religiosas que foram temporariamente impostas por certos primos nossos de além mar que são mais religiosamente inclinados.[^2]

Baumoff olhou para o relógio de parede e então me estendeu seu braço.

— Tome o meu pulso. Está aumentando rápido. Dado interessante, você sabe.

Concordei e tomei meu relógio de bolso. Eu notara que as suas respirações estavam mais rápidas e descobri seu pulso batendo, regular e forte, 105 vezes por minuto. Três minutos depois ele aumentara para 175 e suas respirações para 41. Mais três minutos e eu tomei seu pulso, encontrando-o a 203, mas com o ritmo regular. Suas respirações estavam em 49 naquele momento. Ele tinha, como eu sabia, pulmões excelentes e um coração forte. Seus pulmões, devo dizer, eram de uma capacidade excepcional, e não havia, mesmo naquele estágio, nenhuma dispneia visível. Três minutos depois eu medi seu pulso em 227 e sua respiração em 54.

— Você tem muitos glóbulos vermelhos, Baumoff. Mas espero que não esteja exagerando com isso.

Ele acenou-me com a cabeça e sorriu, mas nada disse. Três minutos depois, quando tomei o pulso pela última vez, estava em 233 e os dois lados do coração estavam enviando quantidades diferentes de sangue, a um ritmo irregular. A respiração tinha aumentado para 67 e estava começando a ficar breve e ineficaz, a dispneia estava se tornando muito marcante. A pequena quantidade de sangue deixando o lado esquerdo do coração era traída pela curiosa coloração azulada e pálida de sua face.

— Baumoff! — eu gritei e comecei a me queixar, mas ele me fez calar com um gesto estranhamente invencível.

— Está tudo bem. — ele disse, ofegante, com um certo tom de impaciência — Sei o que estou fazendo o tempo todo. Você deve se lembrar de que obtive a mesma graduação que você em medicina.

Era mesmo verdade. Eu me lembrei então de que ele obtivera seu diploma em Londres, e este fora somente uma adição a meia dúzia de outros, em diferentes ramos das ciências, em seu próprio país. E então, enquanto a memória me assegurava que ele não estava agindo na ignorância de um possível perigo, ele gritou, em uma voz curiosa e sem fôlego:

— A Escuridão! Está começando. Anote cada pequeno detalhe. Não se importe comigo. Estou bem!

Olhei em torno. Era como ele dissera, eu percebi então. Parecia haver uma treva de qualidade extraordinária que se impunha na sala. Um tipo de treva azulada, vaga e que ainda mal afetava a transparência da atmosfera à luz.

Repentinamente Baumoff fez algo que me nauseou bastante. Ele estendeu seu punho para longe de mim e buscou uma pequena caia de metal, dessas usadas para esterilizar uma hipodérmica. Abriu a caixa e retirou dela quatro percevejos de aparência curiosa, como eu os poderia chamar, só que tinham pontas de aço de dois centímetros e meio de comprimento, e em torno das cabeças, que também eram de metal, projetavam-se um número de outras pontas mais curtas, paralelas à ponta central, estas com três milímetros de comprimento.

Ele chutou para longe suas sapatilhas, depois se inclinou e tirou as meias. Então eu vi que estava também calçando por baixo um par de meias de linho.

— Antissépticas! — ele diss, olhando para mim — Preparei meus pés antes de você chegar. Não há motivo para correr riscos desnecessários. — Ele ofegou ao falar. Então ele pegou um dos curiosos percevejos. — Eu os esterilizei — disse, e então, deliberadamente, ele o pressionou até entrar completamente no seu pé entre o segundo e terceiro ramos da artéria dorsal.

— Em nome de Deus, que está fazendo!? — Gritei, levantando-me da cadeira.

— Sente-se! — ele disse, em um tipo de voz sombria — Não posso sofrer nenhuma interferência. Quero que você simplesmente observe e tome nota de *tudo.* Você deve me agradecer pela oportunidade, em vez de me preocupar, sabendo que devo fazer do meu jeito o tempo todo.

Enquanto falava, ele pressionara o segundo dos percevejos de aço até a cabeça através de seu pé esquerdo, tomando as mesmas precauções para evitar as artérias. Nenhum gemido eu ouvira dele, apenas sua face traía o efeito desse sofrimento adicional.

— Meu caro amigo! — ele disse, observando meu desconforto — Seja sensato. Eu sei exatamente o que estou fazendo. Simplesmente *deve haver sofrimento,* e o meio mais fácil para chegar a tal condição é através da dor física.

Sua fala se tornara uma série de palavras espasmódicas, entre suspiros, e o suor se condensara em grandes e claras gotas sobre seus lábios e em sua testa. Ele tirou o cinto e o abotoou em torno do peito, passando pelo encosto da cadeira, como se esperasse precisar de apoio para não cair.

— Isso é cruel! — Eu disse. Baumoff tentou sacudir os ombros vergados, o que foi, de certo modo, uma das coisas mais penosas que eu já vi, por deixar a nu a agonia que o homem estava tentando fazer parecer pequena.

Ele estava então limpando as palmas de suas mãos com uma pequena esponja, que embebia de tempo em tempo em uma tijela de solução. Percebi o que estava tentando fazer, e repentinamente ele se agitou, com uma tentativa dolorida de sorrir, uma explicação para o curativo em seu dedo. Ele deixar o dedo na chama da lâmpada durante o experimento anterior, mas naquele momento queria simular tanto quanto possível as condições reais da grande cena por que tinha tanta obsessão. Ele tinha sido tão claro comigo que eu deveria esperar experimentar lago muito extraordinário que eu estava consciente de uma sensação de nervosismo quase supersticioso.

— Gostaria que você não o fizesse, Baumoff — disse.

— Não… seja… bobo! — ele conseguiu dizer. Mas as últimas duas palavras foram mais gemidos do que palavras, pois entre cada uma delas ele atravessara os restantes percevejos até a cabeça pelas palmas de suas mãos, entre os tendões extensores do segundo e terceiro dedos. Uma gota de sangue se formou na ponta de aço. Olhei a face de Baumoff, e ele me encarou de volta com firmeza.

— Sem interferência — ele conseguiu exprimir — Não fiz tudo isso por nada. Eu sei… o que… estou fazendo. Olha!… está vindo. Tome nota de… tudo!

Ele recaiu em silêncio, exceto pelas suas inspirações doloridas. Compreendi que devia ceder e comecei a olhar em torno da sala, com uma mescla peculiar de desconforto quase nervoso e a excitação de uma curiosidade muito real e sóbria.

— Oh — disse Baumoff, depois de um momento de silêncio — algo está por acontecer. Posso sentir. Oh, espere… até eu… obter minha… grande demonstração. Vou mostrar ao bruto do Hautch.

Eu acenei que sim, mas duvido que ele tenha visto, porque seus olhos pareciam olhar para dentro, com a íris muito relaxada. Olhei em torno da sala outra vez, e era muito visível uma interrupção ocasional dos raios de luz da lâmpada, dando um efeito de ir e vir.

A atmosfera da sala estava também bastante mais escura e pesada, dando a impressão de uma treva iminente. A coloração azulada estava mais claramente em evidência, mas não havia, até então, nada da opacidade que experimentáramos antes, com a simples combustão, exceto pelo ocasional e vago oscilar da luz da lâmpada.

Baumoff começou a falar de novo, soltando suas palavras entre suspiros.

— Es… este meu artifício leva a… dor até o… o… lugar certo. A correta associação de… de ideias… emoções… para… melhores… resultados. Você me entende? Imitando as coisas… tanto… quanto… possível. Fixando toda a atenção… na… na cena da morte…

Ele suspirou dolorosamente por uns momentos.

— Demonstramos a verdade da… da Escuridão, mas… mas há efeito físico a ser… buscado, através… dos resultados da obtenção de… condições paralelas. Pode haver uma simulação extraordinária da… da *coisa real.* Tome nota. Tome nota.

Então, subitamente, em uma explosão clara e espasmódica:

— Meu Deus, Stafford, tome nota de tudo. Algo vai acontecer. Algo… maravilhoso… Prometa que não vai me atrapalhar. Eu sei… o que estou fazendo.

Baumoff parou de falar em um engasgo, e ficou apenas o esforço de sua respiração na quietude da sala. Enquanto eu o olhava, refreando uma dúzia de coisas que deveria dizer, percebi subitamente que não podia mais vê-lo muito claramente, uma espécie de ondulação da atmosfera entre nós o fazia parecer momentaneamente irreal. Todo o cômodo tinha escurecido perceptivelmente nos trinta segundos anteriores e, enquanto olhava em torno, notei que havia um rodopiar constante e quase invisível nas trevas azuladas e extraordinárias que cresciam rapidamente e pareciam permear a tudo. Quando olhei para a lâmpada, raios alternados de luz e escuridão se seguiam com fantástica rapidez.

— Meu Deus! — ouvi Baumoff sussurrar na semi escuridão, como se perguntasse a si mesmo — Como Cristo suportou os pregos?

Olhei para ele com um desconforto infinito e uma piedade irritante me perturbando, mas sabia que era inútil repreendê-lo. Eu o vi vagamente distorcido através das tremulações onduladas da atmosfera. Era algo como se eu o contemplasse através das evoluções de um ar aquecido, só que haviam ondas maravilhosas de escuridão azulada formando falhas em minha visão. Uma vez eu vi a sua face claramente, cheia de uma dor infinita, que estava, de certo modo, parecendo mais espiritual do que física, e dominando a tudo havia uma expressão de enorme resolução e concentração, tornando a face agonizante, lívida e encharcada de suor, parecer heroica e esplêndida.

E então, enchendo a sala com ondas e borrões de opacidade, a vibração de sua agonia anormalmente estimada finalmente quebrou a vibração da Luz. Meu último e breve olhar em torno me mostrou, tal como me pareceu, que o éter invisível fervia e recuava de uma forma tremenda e abruptamente a chama da lâmpada se perdeu em uma mancha de luz que rodopiava extraordinariamente e que ficou marcando sua posição por alguns momentos, luzindo e decaindo, luzindo e decaindo, até que não vi mais aquela mancha brilhante de luz, ou coisa alguma. Fiquei subitamente perdido em um negrume opaco como a noite, através do qual ouvia apenas a respiração feroz e dolorida de Baumoff.

Um minuto inteiro se passou, mas tão lentamente que seu eu tivesse ficando contando as respirações de Baumoff diria que foram cinco. Então Baumoff falou de repente, em uma voz que estava, de certo modo, curiosamente mudada… com uma certa expressão neutra.

— Meu Deus! — ele disse, dentro da escuridão — Como Cristo deve ter sofrido!

Foi no silêncio seguinte que eu tive a primeira noção de que estava vagamente receoso, mas o sentimento era tão indefinido e infundado, e devo dizer subconsciente, que eu não podia exprimi-lo. Três minutos se passaram enquanto eu contava as respirações quase desesperadas que me chegavam pela escuridão. Então Baumoff começou a falar de novo, ainda naquela voz peculiarmente alterada.

— Pela Tua Agonia e Sangrento Suor — ele disse. Repetiu isso duas vezes. Era claro que ele de fato havia fixado toda a sua atenção com tremenda intensidade, em seu estado anormal, na cena da morte.

O efeito de sua intensidade sobre mim era interessante e algumas vezes extraordinário. Analisei as minhas sensações e emoções e estado mental geral como pude, e compreendi que Baumoff estava produzindo em mim um efeito quase hipnótico.

Uma vez, em parte porque queria avaliar minha presença com uma frase normal, e também porque fui subitamente alertado por uma mudança no som de sua respiração, perguntei a Baumoff como ele estava. Minha voz saiu com uma indiferença peculiar e bastante desconfortável através da impenetrável opacidade da escuridão.

Ele disse:

— Silêncio! Estou carregando a Cruz.

E vocês imaginem, o efeito destas simples palavras, pronunciadas naquela nova voz tão impessoal, naquela atmosfera de tensão quase insustentável, foi tão poderoso que eu de repente vi, com meus olhos bem abertos, a presença clara e vívida de Baumoff em meio à escuridão sobrenatural, carregando uma Cruz. Não como a imagem normalmente mostrada do Cristo, com ela tombada sobre os ombros, mas com a Cruz agarrada sob os braços cruzados, com o pé se arrastando atrás pelo chão rochoso. Eu vi até mesmo o padrão granulado da madeira bruta, onde um pouco da casca tinha sido arrancado, e debaixo da extremidade inferior dela havia um tufo de grama que fora arrancado pela ponta e era arrastado e esfarinhado por entre as rochas e o pé da cruz. Posso ver a coisa agora, enquanto falo. Sua clareza foi extraordinária, mas apareceu e sumiu em um relâmpago, e eu fiquei lá sentado na escuridão, contando mecanicamente as respirações, mas sem saber que contava.

Enquanto estava lá, me veio subitamente… a inteira maravilha do que Baumoff tinha conseguido. Eu estava sentado em uma escuridão que era uma reprodução fiel do milagre da Escuridão da Cruz. Em resumo, Baumoff tinha, através da produção em si de uma condição anormal, desenvolvido uma Energia Emotiva que havia, em seus efeitos, imitado a Agonia da Cruz. E ao fazê-lo, ele demonstrara por um ângulo inteiramente novo e maravilhoso, a verdade indisputável da estupenda personalidade e da enorme força espiritual do Cristo. Ele tinha desenvolvido e tornado de fácil entendimento uma prova que reviveria a *realidade* daquela maravilha do mundo… CRISTO. E por causa disso tudo, não poderia ter por ele nada além de admiração do tipo mais profundo.

Mas, nesse ponto, senti que o experimento deveria parar. Eu tinha um desejo estranhamente nervoso que Baumoff o terminasse naquele minuto e não tentasse imitar as condições psíquicas. Eu tinha, mesmo então, uma vaga compreensão, trazida por algum tipo raro de sugestão subconsciente, do perigo de que uma “monstruosidade” fosse provocada, em vez de adquirir um verdadeiro conhecimento.

— Baumoff! — Eu disse — Pare!

Mas ele não deu resposta e, por alguns minutos, se seguiu um silêncio ininterrupto, a não ser pela sua respiração engasgada. Abruptamente Baumoff disse entre seus engasgos:

— Mulher… Eis… teu… filho.

Ele disse isso várias vezes, na mesma voz desconfortavelmente inexpressiva com que havia falado desde que a escuridão se tornara completa.

— Baumoff! — eu disse outra vez — Baumoff! *Pare com isso!

E enquanto esperava sua resposta, fiquei aliviado de pensar que sua respiração estava menos rasa. A demanda anormal por oxigênio estava sendo evidentemente suprida, e a extravagante exigência da eficiência do coração estava sendo aliviada.

— Baumoff! — eu disse mais uma vez — Baumoff! Pare!

E quando o disse, abruptamente, pensei que a sala tinha sido sacudida um pouco.

Então eu já tinha, tal como vocês devem ter percebido, a consciência indefinida de um nervosismo crescente e peculiar. Eu acho que esta é a palavra que melhor descreve, até agora, o que senti. Quando aquela sacudidela curiosa pareceu agitar a sala em trevas, eu fiquei mais do que nervoso. Senti um tremor de medo muito literal e real, mas ainda sem casua suficiente que o justificasse, então, depois de ficar quieto e tenso por longos minutos e não sentir mais nada, decidi que precisava me dominar e controlar melhor os meus nervos. Então, bem eu acabara de chegar a esse estado de espírito mais cômodo, a sala foi sacudida outra vez, com mais curioso e nauseante movimento oscilatório, além do conforto da negação.

— Meu Deus! — Eu sussurrei. E então, em um esforço súbito de coragem, eu gritei — Baumoff! *Pelo amor de Deus, pare com isso!

Vocês não têm ideia do esforço que me custou falar alto naquelas trevas e quando o fiz, o som de minha voz me levou novamente ao limite. Ele saiu tão vazio e *cru* através do espaço, e de certa forma a sala parecia tão incrivelmente grande… Oh, eu acho que vocês entendem o quanto me sentia assustado, sem que eu precise me esforçar mais para lhes contar.

E Baumoff nunca respondia uma palavra, mas eu podia ouvi-lo respirar, um pouco mais profundamente, embora ainda esforçasse o tórax doloridamente em busca de ar. A agitação incrível da sala lentamente passou, e sucedeu-a um espasmo de silêncio, durante o qual eu senti que era meu dever me levantar e ir até a cadeira de Baumoff. Mas eu não pude fazê-lo. Por alguma razão eu não teria tocado Baumoff naquele momento, por nada nesse mundo. De fato, naquele exato momento, agora eu sei que *receava* tocar Baumoff.

Então as oscilações começaram novamente. Eu senti o traseiro de minhas calças deslizar contra o assento da cadeira e estiquei as minhas pernas, distendendo os pés contra o tapete para evitar escorregar de um jeito ou de outro para o chão. Dizer que estava assustado não descrevia de forma nenhuma o meu estado. Eu estava aterrorizado. E de repente eu me senti confortável pelo motivo mais extraordinário, pois uma simples ideia literalmente brilhou no meu cérebro e me deu uma razão para me agarrar. Era um argumento breve.

O Éter, alma do ferro e das coisas sólidas, que Baumoff tinha uma vez feito assunto de uma extraordinária palestra sobre vibrações, nos primeiros dias de nossa amizade. Ele formulara a sugestão de que, em seu embrião, a Matéria era primordialmente uma vibração localizada, seguindo uma órbita fechada. Estas vibrações primárias localizadas eram inconcebivelmente miúdas. Mas eram capazes, sob certas condições, de combinar-se, sob a ação de vibrações afinadas, em vibrações secundárias de tamanho e forma a ser determinado por fatores que só se podia imaginar. Estas manteriam sua nova forma enquanto nada ocorresse para desorganizar sua combinação ou depreciar ou desviar sua energia — sua unidade sendo parcialmente determinada pela inércia do Éter imóvel fora do caminho fechado coberto por sua área ativa. E tal combinação das vibrações primárias localizadas não era nada mais nem menos que matéria. Homens e mundos, veja! E universos.[^3]

E então ele disse aquilo que me atingiu mais. Ele dissera que se fosse possível produzir uma vibração do Éter com energia suficiente, seria possível desorganizar ou confundir a vibração da matéria. Então, possuindo uma máquina capaz de criar uma vibração do Éter suficientemente energizada, ele poderia começar a destruir não apenas o mundo, ma só universo inteiro, incluindo até o céu e o inferno, se tais lugares existissem e tivessem existência material.

Eu me lembro como eu o olhara, atônito com a fecundidade e alcance de sua imaginação. E então essa fala sua me veio à mente para me encorajar com a sanidade da razão. Não seria possível que a perturbação do Éter que ele produzira tivera energia suficiente para causar a desorganização da vibração da matéria na vizinhança imediata, e assim criara um terremoto em miniatura em torno da casa, e assim a fizera tremer suavemente?

E então, quando esse pensamento me veio, outro maior surgiu em minha mente.

— Meu Deus! — eu disse alto na escuridão da sala.

Isso explica outro mistério da Cruz, a perturbação do Éter causada pela Agonia do Cristo desorganizou a vibração da matéria na vizinhança da Cruz, e então houve um pequeno terremoto no local, que abriu as sepulturas e rasgou o véu, possivelmente balançando os seus suportes. E, claro, o terremoto fora um efeito, *não* a causa, como os minimizadores do Cristo sempre insistiram.

— Baumoff! — eu chamei — Baumoff, você provou mais uma coisa. Baumoff! Baumoff! Responda-me. Você está bem?

Baumoff respondeu, ríspido e rápido, de dentro da escuridão, mas não a mim:

— Meu Deus! — ele disse — Meu Deus!

Sua voz me chegou como um grito de verdadeira agonia mental. Ele estava sofrendo, de uma forma hipnótica e autoinduzida, um pouco da própria agonia do Cristo em pessoa.

— Baumoff! — eu gritei e me forcei a ficar de pé. Ouvi sua cadeira batendo no chão, enquanto ele tremia — Baumoff!

Um terremoto extraordinário se sentiu pelo chão da sala, e eu ouvi o ranger do madeirame, e algo cair e quebrar na escuridão. Os suspiros de Baumoff me faziam mal, mas eu fiquei de pé. Não ousava ir até ele. Eu *já* sabia que tinha medo dele… de sua condição, ou de algo que nem sabia o que fosse. Mas, oh, eu horrivelmente temia a ele.

— Bau… — eu comecei, mas logo tive medo de até mesmo lhe falar. E não podia me mover. Abruptamente ele gritou com uma entonação de incrível ânsia:

— Eloi, Eloi, lama sabach*thani*!

Mas a última palavra mudou em sua boca, desde uma seriedade assustadoramente hipnótica para um simples berro de terror infernal.

E de repente uma voz horrível e zombeteira troou pela sala, vinda da cadeira de Baumoff:

— Eloi, Eloi, lama sabachthani!

Entendam, por favor, que a voz não era de Baumoff. Não era uma voz de desespero, mas uma voz escarnecedora, bestial, incrível, monstruosa. No silêncio que se seguiu, comigo congelado de medo, eu percebi que Baumoff não mais suspirava. A sala estava absolutamente silenciosa, o mais terrível e silencioso lugar de todo esse mundo. Então tropecei, prendendo o pé, provavelmente, na borda invisível do tapete da lareira, e cai de cabeça em uma explosão de estrelas internas. Depois disso, por um longo tempo, certamente algumas horas, eu não soube mais de nada.

Eu voltei ao Presente, com uma terrível dor de cabeça me oprimindo mais que tudo. Mas a Escuridão tinha se dissipado. Eu rolei sobre o meu lado e vi Baumoff e esqueci até mesmo a dor de minha cabçea. Ele estava inclinado para frente na minha direção, seus olhos estavam abertos, mas apagados. Sua face estava enormemente inchada e havia algo, alguma coisa *bestial* nele. Ele estava morto, e o cinto em torno dele e do encosto da cadeira era a única coisa que impedia que ele caísse sobre mim. Sua língua estava pendurada para fora do canto de sua boca. Sempre me lembrarei de sua expressão. Ele tinha um olhar oblíquo, como de uma besta-fera, não o de um homem.

Eu me afastei dele, arrastando-me pelo chão, mas nunca deixei de olhar para ele, até que cheguei ao outro lado da porta e a fechei entre nós. É claro que eu logo recuperei o meu equilíbrio e voltei até ele, mas não havia nada que eu pudesse fazer.

Baumoff morrera de ataque cardíaco, óbvia e claramente! Eu nunca seria tolo de dizer a nenhum júri que, em sua condição extraordinária, auto hipnótica e indefesa, ele fora “invadido” por algum Monstro do Espaço macaqueador de Cristo. Tenho demasiado respeito pela minha reputação de ser um homem de bom senso para dizer algo assim com seriedade! Oh, eu sei que pareço ironizar, mas o que posso fazer senão zombar de mim mesmo e do mundo, quando não ouso admitir, mesmo em segredo para mim mesmo, o que realmente eu penso. Baumoff de fato e indubitavelmente morreu de ataque cardíaco, e o resto eu simplesmente fui hipnotizado para acreditar. Só que havia no chão junto à parede oposta, onde caíra de uma cristaleira solidamente trancada, uma pequena pilha de vidro do que antes fora uma bonita peça de vidraçaria veneziana. Você se lembra que eu ouvira algo cair quando a sala tremera. Certamente a sala tremera *mesmo? *Ó, eu devo parar de pensar. Minha cabeça está girando.

O explosivo de que os jornais estão falando. Sim, é o de Baumoff, isso faz tudo parecer verdade, não? Houve aquela escuridão em Berlim, depois da explosão. Não há como negar *disso.* O governo só sabe que a fórmula de Baumoff é capaz de produzir as maiores quantidades de gás no menor tempo possível. Isso, em resumo, é idealmente *explosivo.

Assim é, mas eu imagino que se provará ser um explosivo, tal como disse e a experiência demonstrou, um tanto imparcial demais para que sua ação crie qualquer entusiasmo em qualquer dos lados do campo de batalha. Isto talvez seja uma bênção discreta, certamente uma bênção, se as teorias do Baumoff sobre a possibilidade de desorganizar a matéria estiverem sequer perto da verdade.

Eu tenho às vezes pensado que pode haver uma explicação mais normal para a coisa hedionda que aconteceu no fim. Baumoff *pode* ter rompido um vaso sanguíneo no cérebro, devido à enorme pressão arterial que seu experimento induzira, e a voz que eu ouvira e a zombaria e a horrível expressão e o olhar oblíquo podem ter sido não mais que os imediatos espasmo e expressão da “obliquidade” natural de uma mente transtornada, o que, tantas vezes, muda a natureza do homem e produz uma inversão do caráter, que é o verdadeiro oposto de seu estado normal. E certamente, a atitude religiosa normal do pobre Baumoff era uma de maravilhosa reverência e lealdade a Cristo.

Também, em apoio a esta linha de explicação, eu tenho frequentemente observado quea voz de uma pessoa que sofre de transtorno mental é frequentemente mudada de forma notável, e tem às vezes uma qualidade repelente e desumana. Eu tento pensar que esta expliação serve para o caso. Mas nunca consigo esquecer aquela sala. Nunca.

[^1]: No original, “on the itch to shove in his oar”, que significa, literalmente, “coçando-se para remar”. Considerei que a tradução literal desta metáfora náutica seria ininteligível ao público brasileiro, que pouco acompanha o esporte do remo e pouco sabe de barcos em geral, e a substituí por um dito popular caracteristicamente nosso.

[^2]: Não é claro neste trecho se Hodgson se refere aos Estados Unidos, à Irlanda ou à própria Alemanha.

[^3]: Neste ponto é significativo ressaltar que a teoria que Hodgson coloca na boca de Baumoff equivale, grosso modo, à teoria da flutuação quântica do vácuo.

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1 resposta a “[Tradução] O Explosivo de Baumoff (William Hope Hodgson)”

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