Ai de ti, Literatura Brasileira

Que a maioria dos jovens que pretendem ser escritores carece de significativo talento para escrever, isso eu sempre soube (e frequentemente me incluo nesse grupo de medíocres que se diverte escrevendo, mas nunca vai a lugar algum). O que eu não sabia é que esse problema, ao se fixar e agravar com o tempo, começasse a comprometer até mesmo a capacidade de tais jovens em serem leitores. Fatos ocorridos hoje no grupo “Escritores ajudando outros escritores”, no Facebook me mostraram que se certo tipo de pessoa for predominante, não há mais futuro para a nossa arte literária.

Moranga
O que foi visto, não será esquecido

Tudo começou em um tópico onde uma moça educadíssima reclamou que alguns jovens metidos a escritores são tão incultos que escrevem errado até o nome do país, grafando BraZil com Z. Houve alguns desentendimentos de praxe, pois a turma da carapuça não consegue deixar de gritar presente quando alguém fala em falta de conhecimento básico da língua, mas tudo ia sendo debatido cordialmente até alguém alegar que erros ortográficos **não** significam falta de cultura (não, claro que não, o que é isso, gente culta escreve até “kabelo” e “xiqlete”). Quando a mesma moça que criara o tópico lembrou que o processo de aquisição da língua escrita (alfabetização) passa pelas tais [três fases da leitura](http://www.enscer.com.br/material/artigos/eina/linguagem/geral/fases.php) (be-a-bá para quem estudou didática).

É auto-evidente que um escritor precisa estar na fase ortográfica da alfabetização, não pode ser um soletrador e nem um intérprete de símbolos. Mas a simples menção a este conhecimento ouriçou ainda mais a turma da carapuça, que se sentiu humilhada e inferiorizada pela sensação de que todos haviam sido chamados de semianalfas (de certa forma, foram). Poderiam não ter dito nada, mas a turma da carapuça adora passar recibo.

Porém algumas pessoas estão dispostas a seguir aprendendo, a lapidar-se no rumo da perfeição, mesmo sabendo-a inatingível, enquanto outras estão orgulhosas de serem pedra e resistir ao nascimento da estátua. Na confusão de afirmativas que se seguiu, um jovem, com certa humildade, reconheceu que ainda tem muito o que aprender e afirmou o seguinte:

... você pode notar que todo mundo erra, né? Com certeza o E... tem muita experiência e, por consequência, muita inteligência. Se eu fosse profissional, com certeza não estaria aqui, e quanto a receber críticas, não tenho nenhum problema...

Este garoto enxergou em certo indivíduo, a quem chamarei de “E”, talentos que faziam parecer que ele tinha muita experiência e inteligência.

Outro membro do grupo achou que o tal “E” não era nem experiente e nem inteligente, apenas parecia ter completado bem o seu processo de alfabetização (ao contrário de outros que andavam comentando):

Eu não acho que o E... tenha mais experiência. Com certeza o que ele tem chama-se ensino fundamental completo.

Para qualquer um alfabetizado até a fase ortográfica e que não estivesse com o senso de humor desligado ficaria evidente que não se tratava de uma ofensa ao E…, mas apenas uma alusão ao fato de ele, ao contrário de outros, parecer ter completado os estudos básicos necessários.

Por algum motivo, porém, o tal “E” não entendeu a ironia, ou talvez não tenha chegado a completar os estudos básicos. Interpretou a curta ironia como uma ofensa pessoal. Vestiu orgulhosamente a carapuça, achando que o chamavam de inculto (coisa que ele definitivamente não aparentava ser) e respondeu “à altura”:

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O comentarista que aludira ao tal “E” possuir, pelo menos, o ensino primário já andava impaciente de outras situações e não quis explicar. Pediu que alguém explicasse. Novamente o “E” interpretou isso como uma tentativa de negar que o ofendera, e fez questão de citar, bem claramente, que havia realmente interpretado errado a frase que eu não conseguia acreditar que ele tivesse interpretado errado:

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Tudo poderia ter sido só um arranca-rabo se eu, por vias tortas, não tivesse sido também envolvido nesse torvelinho de fel, o que fez com que, em outro tópico, o mesmo “E” resolvesse tentar trombar comigo. Como não estamos na rua e ele não pode me bater fisicamente, resolveu tentar desqualificar um argumento meu em defesa do escritor José Castello, que vê uma perda de diversidade cultural da nossa literatura, causada pela padronização segundo não apenas o gosto internacional, mas segundo os clichês que o público do exterior associa ao Brasil (o tipo de atitude que antigamente se chamava de “macumba para turista”).

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A resposta que eu lhe dei eu nem vou publicar aqui porque eu confesso que me excedi. Afinal, não é todo dia que você vê um sujeito com tamanho talento para lacaio, que tem tanta vontade de puxar saco de gringo assim. O simples fato de alguém pensar assim já me ofende, e acredito que deveria ofender a muito mais gente.

Porque o que está em jogo é mais do que meramente a literatura, é o futuro do país. Nesse momento delicado da história mundial, somos continuamente bombardeados de propaganda por todos os lados e existem poderes que investem milhões para converter corações e mentes a lutarem contra seu futuro e o de seus filhos. E daí você enxerga um cara desses, que não só sofreu lavagem cerebral como parece que comprou a máquina e o sabão e até esfregou ele mesmo.

Essa é a nossa resposta ao Dr Strangelove. Se o original parou de se preocupar e começou a amar a bomba atômica, o nosso Dr Estranhamor parou de pensar e resolveu orgulhosamente ser formatado pela hegemonia cultural anglo-americana…

Ele não é o único. Teve curtidas. E teve gente que não teve coragem de curtir depois que eu o descasquei, reduzindo-o ao capacho que ele sonha ser.

Mas não me deixam mentir esses milhares de jovens autores que cresceram lendo somente best-sellers americanos e sonham em escrever para o mercado de lá em vez do de cá.

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