Brasil, Ano Zero

Normalmente não escrevo aqui sobre futebol, a não ser em ficção, como no recente conto “Gol de Placa, Gol de Pato”, mas vou abrir uma exceção porque tudo hoje foi exceção. A derrota brasileira para a Alemanha foi um resultado sobrenatural, desses que acontecem uma vez a cada milênio. Tão sobrenatural que nunca acontecer nada parecido. E poderia ter sido pior.

Diante disso, e sendo cada brasileiro um entendido de futebol, resolvo dar meus pitacos, sem me meter, é claro, a falar de tática ou de técnica, que disso entendo menos do que de física quântica. Comecemos por situar o tamanho do vexame, porque a ficha ainda não caiu para a maioria dos brasileiros.

Comecemos dizendo que foi o placar mais elástico em uma semifinal de Copa do Mundo em todos os tempos. Antes disso só se vira goleada tamanha nas semis de 1930, quando Uruguai e Argentina derrotaram, respectivamente a Iugoslávia e os Estados Unidos por idênticos placares de 6×1. No caso do jogo da Argentina ainda teve um agravante: para conseguirem tal placar os argentinos quebraram a perna do armador americano aos dez minutos do primeiro tempo e contaram com a covardia do árbitro belga Langenus, que não expulsou o autor da falta. Foi também a maior quantidade de gols em uma partida de segunda fase, igualando Portugal x Coréia do Norte, em 1966, que terminou em insólitos 5×3. Foi a maior derrota da seleção brasileira em todos os tempos, superando os 6×0 para o Uruguai no longínquo ano de 1920, época em que ainda se amarrava cachorro com linguiça. Foi uma das maiores vitórias da seleção alemã e a segunda maior em copas do mundo (perde apenas para os 8×0 que aplicaram na Arábia Saudita em 2002).

Para você ter uma ideia do tamanho do bonde que nos atropelou, antes de tomar 7×1 da Alemanha o Brasil havia perdido sempre por placares magros: 2×1 para a Iugoslávia em 1930, 3×1 para a Espanha em 1934, 2×1 para a Hungria em 1938, 2×1 para o Uruguai em 1950, 4×2 para a Hungria em 1954, 3×1 para a Hungria e novamente 3×1 para Portugal em 1966, 2×0 para a Holanda e 1×0 para a Polônia em 1974, 3×2 para a Itália em 1982, 1×0 para a Argentina em 1990, 3×0 para a França (nossa maior derrota em copas até então) em 1998, 1×0 para a França em 2006 e 2×1 para a Holanda em 2010.

Os cinco gols tomados no primeiro tempo nos colocam no seleto clube das seleções que tomaram cinco gols no primeiro tempo em uma partida de Copa do Mundo. Ao nosso lado estão os estelares escretes do Zaire e do Haiti, ambos na Copa de 1974, respectivamente para a Iugoslávia e a Polônia. Entramos nesse clube pela segunda vez porque já havíamos tomado os mesmos cinco gols da Polônia em 1938, mas daquela vez saímos de campo com uma épica vitória por 6×5 (embora ajudada pela expulsão de um polonês).

Se a Alemanha não tivesse se compadecido da situação lamentável do bando verde-e-amarelo que estava em campo, poderia ter feito apenas mais três gols e transformado a nossa vergonha em algo incomensurável: dez gols fez a Hungria na fragílima equipe de El Salvador, que foi a Copa de 1982 com apenas dezessete jogadores porque não tinha condições de pagar transporte e hospedagem para os vinte e dois permitidos pela FIFA. Mas há uma diferença astronômica entre a Hungria golear o modesto selecionado salvadorenho e a Alemanha golear o maior vencedor de Copas do Mundo.

Em comum as grandes goleadas, por cinco ou mais gols de diferença em todos os mundiais têm uma característica muito estranha: geralmente quem goleia é uma equipe de segundo escalão, raramente a equipe que vence o torneio. A única exceção a esta regra está na copa de 1950, em que o Uruguai meteu 8×0 na Bolívia. Observe o resto da lista: Iugoslávia 9×0 Zaire e Polônia 7×0 Haiti em 1974, Hungria 10×1 El Salvador em 1982, Alemanha 8×0 Arábia Saudita em 2002, URSS 6×1 Camarões em 1990, Hungria 9×0 Coreia do Sul e Uruguai 7×0 Escócia em 1954, Suécia 8×0 Cuba em 1938, Turquia 7×0 Coreia do Sul em 1954, Portugal 7×0 Coreia do Norte em 2010.

Agora que situamos o tamanho do caminhão que atropelou a canarinho, temos de lembrar que esta vitória não é, ao contrário do que dizem os “entendidos”, o chamado “fato isolado”. As placas tectônicas do mundo futebolístico estão se movendo há muito tempo e vários tremores menores já haviam anunciado que alguma coisa acontecera ao futebol brasileiro. Em 2001 o Brasil perdera uma quarta-de-final de Copa América para a seleção de Honduras, por 2×0, e em 2008, pelo mesmo placar, perdeu para a Venezuela, em amistoso realizado nos EUA. Mas a seleção demorou mais a exibir os sinais da decadência do futebol nacional.

O primeiro sinal preocupante foi a derrota do Internacional para o Mazembe, um time amador do Congo, no Interclubes de 2010. Ali ficou evidente que o nível técnico e tático de nosso futebol de clubes não era significativamente mais alto que o de equipes africanas amadoras, o que permitia que uma equipe modesta, mas aguerrida e com alguns jogadores de qualidade, pudesse obter uma vitória fácil. Mas o Internacional não era uma equipe badalada e por isso muita gente preferiu culpar o clube, e não o futebol nacional como um todo.

O segundo sinal foi a humilhação do Santos nas mãos do Barcelona, em 2010. Ali não houve dúvidas: o Santos era a sensação da América do Sul, fora campeão com facilidade e naquele ano impusera goleadas históricas tanto na Copa do Brasil quanto no Brasileiro, como um famoso 10×0 contra um time de Mato Grosso do Sul. Mas o Barcelona deu um passeio em campo, de tal forma que o Santos, de Neymar e Ganso, ficou parecendo um time de Mato Grosso do Sul. A humilhação foi pior quando o Santos, em 2013, excursionou pela Europa e voltou a enfrentar o Barcelona, então já decadente: perdeu de 8×0. Mas ainda assim era o Barcelona, uma equipe badalada do futebol europeu, e toda grande equipe pode ter um dia ruim. Depois, os oito a zero aconteceram quando o grande Santos já se desmontara.

O terceiro sinal foi eliminação do Atlético Mineiro pelo Raja Casablanca, no Interclubes de 2013. Desta vez o campeão da América caiu diante de uma modesta equipe marroquina, que só disputava o torneio como convidada, por ser o campeão nacional do país sede.

O que estes fatos deixaram evidente foi a indigência técnica e tática de nosso futebol, já há mais de vinte anos. Os jogadores nos deixam cada vez mais cedo, nossos técnicos adotaram as táticas retranqueiras das pequenas equipes da Europa, e do futebol italiano de um modo geral. Na falta da técnica começou a glorificação da “raça” — que nada mais é do que a intimidação física do adversário com o apoio de uma torcida grande e a conivência de uma arbitragem que tem horror a punir os grandes clubes contra os pequenos.

Todos esses vícios são antigos, mas eles eram menos evidentes quando o nosso futebol conservava os seus astros. As equipes que tinham os bons jogadores conseguiam triunfar, isso lembrava a todos da importância do talento. Mas quando os bons jogadores começaram a voar cada vez mais cedo para a Europa, ficou confuso o cenário e o talento se perdeu de vista. Cada vez mais os times vencedores foram os times “operários”, que se baseavam na marcação (às vezes desleal), na sorte e na arbitragem.

Os técnicos mais bem-sucedidos do futebol brasileiro a partir de 1990 são os que seguem esta cartilha: Felipão, Vanderlei Luxemburgo, Muricy Ramalho, Tite, Celso Roth, Paulo Autuori e Émerson Leão. Eles não ensinam habilidade e nem ensaiam jogadas, preferem aconselhar seus jogadores a cuspirem na cara dos adversários e quebrarem suas pernas. Não é surpresa que vários deles tenham sofrido humilhantes fracassos em suas carreiras internacionais. Felipão fez algum sucesso com a seleção portuguesa, mas não se mostrou à altura do desafio de dirigir uma equipe de primeira linha do futebol europeu, o Chelsea, exilou-se no Uzbequistão, sabe-se lá porque, acabou demitido (!) mesmo dirigindo o maior clube do país em um campeonato de terceira linha. De volta ao Brasil, afundou o Palmeiras pela segunda vez na série B e quando, covardemente, demitiu-se, ganhou de presente a seleção brasileira, que fora recusada por Abel Braga e Muricy Ramalho. Vanderlei Luxemburgo teve uma oportunidade no Real Madrid e não a aproveitou. Celso Roth comandou a humilhação colorada diante do Mazembe.

O que isso nos mostra é que os técnicos de futebol brasileiros pararam no tempo. Presos ao autoritarismo do regime militar, com suas decisões monocráticas. Presos ao conservadorismo de suas táticas. O Brasil já provara o sabor das limitações de nossos técnicos ao sucumbir diante da Holanda em 1974. Mas não aprendeu nada do passeio dado pelo carrossel holandês naquela Copa do Mundo. Preferiu enxergar que a inovação laranja fora derrotada pelo pragmatismo alemão. A vitória italiana contra o Brasil de 1982 ajudou a sepultar os lampejos de arte de nosso futebol: resolvemos imitar os nossos carrascos, que só jogavam daquele jeito porque não tinham a qualidade que nós tínhamos. Naquela tarde, no Estádio Sarriá, morreu o futebol arte e o Brasil começou uma longa descida até os 7×1.

Que diferença entre Felipão, que não ouve ninguém, e o Louis van Gaal, que não só tem dois auxiliares, com quem conversa o tempo todo sobre as melhores alternativas, como ainda faz reuniões com o grupo de jogadores para trocar ideias sobre possíveis jogadas ensaiadas. Que diferença entre nossos técnicos e os belgas, como Marc Wilmots, que em vez de imporem aos jogadores posições diferentes, implantam na seleção nacional o mesmo esquema dos principais clubes e convocam os jogadores conforme as suas posições. Que diferença entre um Parreira, que joga o mesmo jogo da primeira à última partida, e os técnicos da Alemanha, da Holanda, da Costa Rica e da França, que mudam o esquema tático conforme o adversário, ou até conforme o momento do jogo. Algum técnico brasileiro teria a coragem de substituir o goleiro no minuto final da prorrogação como fez Van Gaal? Algum brasileiro teria coragem de recuar o centro avante para o meio de campo e colocar outro atacante, como fez Jorge Luis Pinto contra o Uruguai? Felipão faria duas substituições ofensivas em um jogo duro como Alemanha e Argélia?

Acho que não. Nossos treinadores não gostam de variações. E principalmente não gostam do diálogo. Gostam de impor sua visão, forçando um atacante a jogar de lateral, o lateral a jogar de meia, o meia a jogar de volante, etc. Ouvir a equipe? Nunca! Nossos jogadores se acostumaram a tratar o técnico por “professor”. Cabe-lhes ouvir e aprender. Nunca falar.

Esse tipo de craque adora a disciplina e odeia a individualidade. Há não muito tempo a Argentina enfrentou esta praga e teve um treinador que deixou de convocar jogadores de cabelos compridos, entre eles os maiores craques argentinos da época, Redondo e Caniggia. Os resultados da Argentina posteriores a 1990 explicam se isso deu certo. Entre nós a obsessão foi matar a figura do craque dotado de personalidade e opinião própria. Romário foi cortado de dois mundiais em que poderia ter sido decisivo (1998 e 2002), Ronaldinho Gaúcho foi vetado em 2010. Matá-lo desde cedo, como fez Dunga ao se negar a levar Neymar para a Copa da África do Sul, mesmo que fosse para ser reserva. Não existe lugar, na ordem autoritária, para que um moleque cresça e apareça. Se os nossos treinadores de hoje treinassem o Brasil da Era de Ouro, jamais Pelé jogaria o mundial de 1958 e não teríamos o Rei do Futebol. Ronaldo foi à Copa dos EUA e não botou o pé no Gramado, graças à tranqueira do Parreira. Neymar já poderia ter aprendido muita coisa de futebol jogando em 2010, como, por exemplo, talvez, pedir ao técnico para sair no fim do jogo, para se proteger da cabeça quente de um zagueiro adversário.

Com o tempo, um sistema que pune a personalidade engendra o conformismo. O conformismo não combina com a criatividade. O xerifão da zaga se torna capitão e bota ordem nos meninos insolentes. O militarismo velado se instala, e o time vira um quartel, que precisa ficar concentrado, mesmo que o tempo não seja usado para muita coisa útil. Que diferença para as seleções européias, que não se concentram mais! E estão goleando a gente!

A derrota não é casual. Ela expõe uma fratura profunda do nosso esporte, do futebol em particular. O futebol brasileiro está moribundo, vítima dos fatores elencados acima, e de outros como a punição dos clubes por um sistema que privilegia a televisão em detrimento da torcida. Clubes fracos não revelam nem retem bons jogadores. Clubes fracos perdem para o Mazembe e o Raja Casablanca. Clubes fracos não fortalecem a seleção.

Agora é hora de voltar à prancheta. Diante da derrota inapelável não há ninguém salvo. A CBF, porém, já tratou de fazer sua eleição antes da catástrofe. O que é garantia de que, pelo menos de imediato, não se fará nada para curar o verdadeiro problema. O Brasil ainda vai perder mais, e talvez perca de mais. Talvez só quando já não for possível extrair nada de nosso futebol ele será abandonado pelos vampiros, e os bem-intencionados poderão começar tudo de novo. Uma boa ideia é organizar uma pelada.

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