Diversos Fins de Mundo

> Uma análise das possibilidades e características do apocalipse como elemento literário, confrontando-o superficialmente com fatos históricos. Para autores de ficção científica.

O mundo pós-apocalíptico é um tema recorrente na literatura de ficção científica e fantasia. Não discorrerei sobre os motivos disso, posto que não sou psicanalista e nem crítico literário, mas quando eu mesmo escrevi sobre o tema, foi pelo atrativo de praticar uma abordagem “tabula rasa” sobre o mundo e começar a fazer as coisas funcionarem como eu desejava.

Minhas leituras das obras do gênero, porém, me levaram a crer que muitos autores cometem erros impressionantes ao criarem suas histórias, simplificando excessivamente os processos e as realidades derivadas do “apocalipse” escolhido. Este artigo pretende ser uma análise destas limitações, ressaltando que não são todas as obras que cometem estes erros, mas a frequência deles torna útil sua discussão.

Entendo que as histórias pós-apocalípticas se dividem em duas categorias, conforme o tipo de apocalipse que ocorreu:

**Apocalipse clássico** (catastrófico e ocorrido no passado ou então ocorrendo em um intervalo curtíssimo de tempo)

**Apocalipse gradual** (decorrente de um processo, que evolui mais ou menos lentamente e se completa ou se completará em um período de muitos meses ou até muitos anos).

### O Apocalipse Clássico

Temos um apocalipse catastrófico, obviamente, quando o fim do mundo se produz como efeito de um evento rápido e destruidor, como uma guerra nuclear, a queda de um asteróide, uma guerra contra alienígenas ou algum outro tipo de acontecimento que não dá à humanidade nenhum tempo para se preparar ou para reagir adequadamente.

Nesse tipo de história os personagens transitam por um mundo arruinado, no qual os sinais da existência da civilização humana são recentes e, em alguns lugares, bastante conservados. Lidar com elementos restantes de tal civilização (um governo residual, radiações, instalações sem controle, máquinas perigosas, etc.) pode ser parte importante da trama. Em geral são histórias distópicas que tendem para a violência. Exemplos literários de tais histórias são “Não Verás País Nenhum” (Ignácio de Loyola Brandão — Catástrofes Ambientais), “A Noite das Trífides” (John Wyndham — Invasão Alienígena), “Um Cântico para Leibowitz” (Walter Miller Jr. — Guerra Nuclear), “O Martelo de Lúcifer” (Larry Niven e Jerry Pournelle — Queda de Asteróide).

Em geral as histórias deste tipo se passam algum tempo após o apocalipse propriamente dito, de forma que não acompanhamos o desenrolar dos eventos apocalípticos, mas apenas a maneira como os sobreviventes lidam com as suas consequências e as racionalizações que desenvolvem para explicá-lo. Estas podem ser de três tipos:

Explicação mágica (ou “não explicação”):
O fim do mundo foi rápido e “indolor”, ocorrido no passado recente e não foi testemunhado por nenhum dos personagens que iniciam a história. Possivelmente eles encontram algum personagem que compreendeu o que houve, mas isso não é uma necessidade. A destruição da humanidade é um evento incompreensível, pelo menos a princípio, e quando se revela a sua causa, ela quase sempre está em um fator mágico ou que pode ser igualado à mágica por seus efeitos instantâneos. O exemplo mais perfeito destas histórias encontramos no filme “A Terra Silenciosa” (The Quiet Earth), no qual um homem amanhece sozinho em sua cidade e se crê sozinho no mundo. Outro exemplo é o romance “O Planeta dos Macacos” (Pierre Boulle), narrado sob o ponto de vista dos protagonistas astronautas.

Explicação mítica:
Como o fim do muito foi há muitíssimo tempo, sua memória está mal preservada, embora seja referido em tradições orais ou mitologias escritas. Neste caso a história estará ambientada na nova civilização que já surgiu, séculos ou milênios depois da civilização original.

Explicação teológica:
Difere da mítica apenas no sentido de que o apocalipse se mantém como um elemento definidor da cultura do povo. Em “Cidade das Sombras” (Jeanne Du Prau), uma sociedade inteira vive segundo regras que foram definidas pelos criadores da cidade.

Explicação histórica:
O apocalipse ocorreu há pouco tempo e possivelmente ainda restam testemunhas oculares. Ou, mesmo não restando, ainda há resquícios do que ocorreu e toda uma contínua tradição, embora possa haver divergências quanto aos motivos primordiais (por exemplo, alguns grupos podem teologizar os fatos, enquanto outros podem ter explicações seculares).

Em todos estes casos, porém, a tradição literária é extensa e não há muito o que acrescentar, além da breve referência, que talvez seja inútil à maioria dos leitores. O que realmente nos importa é tratar do apocalipse gradual, e de uma série de problemas que costumam acontecer no desenvolvimento destas histórias.

### O Apocalipse Gradual

Diferente do apocalipse clássico, o gradual é mais comumente vivido pelos personagens. Nas histórias que nos contam de um apocalipse gradual, o mais comum é acompanharmos o seu desenrolar desde o início, ou logo depois do início, mesmo que o apocalipse em si não seja totalmente explicado. Trata-se de um tipo diferente de literatura de fantasia ou ficção científica no qual o foco está totalmente no processo de ruptura e nas suas consequências imediatas.

Cabe aqui ressaltar que o que estou chamamdo de apocalipse “gradual” não é a mesma coisa que o subgênero chamado de “terra moribunda” (“dying earth”, em inglês). Este se ocupa de histórias ambientadas no planeta em uma fase decadente de sua evolução, sendo indiferente a causa da decadência. Nas histórias mais clássicas deste subgênero, tratava-se da decadência natural do planeta (“A Máquina do Tempo, de H. G. Wells), do sol (“A Terra Noturna”, de William Hope Hodgson e “Estufa”, de Bryan Aldiss) ou do próprio universo (ciclo do “Campeão Eterno”, de Michael Moorcock e ciclo de “Zotique”, de Clark Ashton Smith). A série de novelas de Edgar Rice Burroughs ambientadas em Marte (“Barsoom”) são um tipo de ficção de “terra” moribunda (embora o planeta em questão seja Marte). Somente em momento posterior surgem terras moribundas nas quais o processo foi desencadeado pelo próprio ser humano (o anime “Nausicaa do Vale do Vento” e o filme “Blade Runner”, por exemplo).

O que estou chamando de apocalipse gradual é um gênero de ficção científica ou fantasia que se dedica especificamente ao processo de destruição da civilização terrena.

Deixando de lado os precursores menos conhecidos — mas de forma alguma irrelevantes — as fundações mais conhecidas deste gênero são os filmes de zumbis (todos eles descendentes por linhas tortas ou direitas da obra original de George A. Romero), o filme “Mad Max” (Arthur Miller) e o romance “A Dança da Morte” (Stephen King).

Quando falamos de “apocalipse gradual”, falamos de um processo que levará à extinção da humanidade — ou uma muito forte redução de sua população, de forma que a civilização entra em colapso. Não é obrigatório que o mesmo processo extinga a vida como um todo, ou mesmo a afete.

Ocorre que, quando observamos a maneira como o tema é comumente abordado, tanto na literatura quanto no cinema, percebemos que os autores parecem subestimar a capacidade desagregadora dos eventos que concebem, ao mesmo tempo em que superestimam a resiliência da civilização humana. Disso é que vamos falar a seguir.

### Possíveis formas de colapso

O próprio conceito de “colapso” da civilização deveria assustar suficientemente. Não deveria ser tratado com leveza. Mas isso não é o que se vê. De fato, a maior parte dos autores parece acreditar que tal colapso poderia acontecer de uma forma até benigna. Esta crença ingênua se revela sem fundamento quando analisamos situações na história em que “quase” a civilização entrou em colapso. O quadro não é nada bonito. Como veremos.

Inicialmente, falar de “formas” deste colapso envolve discutir a origem da crise que destruirá a civilização. Os economistas sabem, desde Marx, que a autossuficiência das nações é uma ilusão e que todas as atividades econômicas, em todos os países, encontram-se interligadas de forma mais ou menos próxima. Mesmo os economistas liberais de direita ensinam este conceito, embora atribuam-lhe um valor diferente. Esta interdependência significa que nenhum colapso localizado será duradouro, a menos que a região colapsada seja economicamente irrelevante (caso da Somália, por exemplo). Colapsos locais são reparados pela expansão das estruturas econômicas vizinhas, tal como a pele ferida se reconstitui cobrindo o tecido removido.

Sendo assim, o colapso da civilização somente pode ocorrer em nível global. Sem uma causa que perturbe o funcionamento da civilização em todo o planeta de forma simultânea, ou quase, a humanidade tem o poder de se recuperar de danos regionais. Isto é significativamente diferente do que ocorria no passado, quando as civilizações eram regionais e isoladas, estando à mercê de suas contradições internas (exemplo clássico: a decadência e dissolução do Império Romano).

Além de generalizado, o impacto precisa ser profundo, para impedir que a humanidade, sempre criativa, encontre um meio alternativo para suprir a falta da engrenagem que se quebrou. Certamente haveria um grande transtorno se um belo dia o mundo amanhecesse sem trigo, mas em poucos anos já nos teríamos adaptado a substituí-lo por outras farinhas, como a de milho, a de mandioca, a de sorgo, a de soja ou a de casca de maracujá. Alternativas existem.

Mesmo a falta de algo tão essencial quanto a água não teria o poder de destruir a civilização se o esgotamento ocorresse de forma suficientemente gradual, para permitir que fossem inventados sistemas de dessalinização da água do mar ou de reciclagem de águas poluídas.

Temos, portanto, que definir de que forma o nosso “fator X” afetará a população e com que velocidade ocorrerá a redução populacional. Casos em que o colapso da civilização ocorra sem qualquer mudança demográfica são fantasiosos: o colapso só ocorre se a economia for totalmente desorganizada, pois o que sustenta o poder político-militar (Estado) é o fluxo de bens e serviços intermediados em moeda. A economia é capaz de sobreviver à escassez de uma infinidade de itens, e somente colapsa se houver um dos seguintes fatores:

* redução significativa da população
* redução significativa dos insumos necessários às atividades econômicas principais (petróleo, eletricidade, água, minérios, alimentos, conhecimentos etc.)
* dificuldade do transporte
* guerra, revolução ou catástrofes

Portanto, em termos reais, fora do âmbito de uma fantasia sem qualquer compromisso com a realidade, falar do colapso da civilização quer dizer falar do colapso da economia seguido ou precedido pelo colapso populacional.

De guerras, revoluções e catástrofes não há necessidade de falar, pois todos estes fatores estão abordados no capítulo sobre o apocalipse tradicional. Apenas lembrar que é possível conceber uma guerra não nuclear capaz de destruir o mundo, se estivermos pensando em um tipo de retrofuturismo, mas presentemente isso já não procede: as armas nucleares não serão abandonadas, a não ser que inventemos coisa pior. Entre as civilizações que acabaram por guerras e revoluções, o Império Romano é o caso “clássico”. Entre as catástrofes naturais, os maias e os anasazi são bons exemplos. E há quem defenda que a civilização do vale do Indo (Mohenjjo-Daro) acabou por causa da mudança de fluxo do Ganges, que um dia correu para o oeste, mas atualmente corre para o leste.

A dificuldade de transporte só ocorre se falta combustível (em um mundo pós-petróleo ainda sem tecnologia de propulsão confiável), se faltar meios para construir os veículos (escassez de plásticos e metais) ou se guerras destruírem a infraestrutura de transportes ou criarem zonas permanentes de contaminação, isolando certas regiões. De outra forma, dificuldades de transporte somente tendem a criar problemas pontuais, crises que não são permanentes, embora possam ser duradouras. Um exemplo de civilização que se destruiu por causa da dificuldade de transporte foi a da Ilha de Páscoa, que consumiu toda a madeira e ficou impossibilitada de construir barcos.

Restam, portanto, somente duas causas complexas que vale a pena abordar: o esgotamento dos minérios de que precisamos para construir nossa civilização e a redução populacional. Sobre o esgotamento dos minérios, não vou falar porque não tenho conhecimento sobre isso. Apenas lembrarei ao leitor que há preocupantes notícias sobre o início da escassez de substâncias que são muito usadas na indústria e não têm sido recicladas: cobre, ouro, nióbio, tungstênio, hélio, neônio, cromo e urânio.

### A doença perfeita para o Apocalipse

Acredito que na maioria das obras de ficção científica do gênero pós-apocalíptico os autores mencionam a redução populacional como um efeito e não como uma causa do processo. Esta é uma abordagem que precisa ser revertida. Em vários momentos da história a humanidade enfrentou doenças terríveis, que mataram muita gente, mas *em nenhum momento houve uma epidemia que tenha ameaçado a existência da humanidade*.

Então, por mais terrível que seja a “doença perfeita” que o autor imagine, ela dificilmente causará o fim da humanidade ou da civilização. Somente podemos conceber uma doença como fator capaz de destruir a nossa civilização global de hoje se esta doença, aliada a *outros fatores*, que ainda cabe analisar, tiver a capacidade de desencadear um processo duradouro de redução populacional em todo o mundo. Nenhuma doença jamais conseguiu isso, mas o autor está livre para imaginar uma “doença perfeita” que possa conseguir isso. Atrevo-me a dizer que tal doença deveria reunir cinco características básicas.

1. Transmissível por mais de um meio (preferencialmente pelo ar e pela via sexual, concomitantemente, para criar paranoia, hostilidade entre as pessoas e produzir grandes conflitos sociais, além de ser, também, os meios mais eficazes de propagação).
2. Longo período de incubação (para o portador seguir transmitindo-a sem saber que já se contaminou).
3. Período de doença longo (para o portador continuar transmitindo-a por muito tempo), mas não muito (para que as mortes se avolumem rapidamente, criando pânico).
4. Alta mortalidade (acima de 70%, de preferência) e capaz de produzir sequelas reprodutivas (esterilidade total ou relativa) nos doentes e nos sobreviventes.
5. Transmitida por patógeno novo, resistente ao tratamento conhecido (em média a ciência leva meio século para desenvolver o antídoto ou a vacina para uma doença).

Uma doença que reúna as cinco características (a AIDS reúne quatro e meia) seria forte candidata a dar uma paulada forte na humanidade. Somem-se a isso as mortes decorrentes do pânico e violência que se desencadeia, as decorrentes das crises econômicas que se instalarão quando a doença impactar a economia e outras formas de morte, podemos supor que uma doença “perfeita” poderia produzir uma redução da população mundial a 1/3 da atual (proporção semelhante à da Peste Negra em regiões como Inglaterra e Itália) ou até 1/6 da atual (como certas regiões da Polônia, da Lituânia, da Ucrânia e da Alemanha na Guerra dos Trinta Anos). Esta última mortandade, cabe lembrar, foi em muito ajudada pela propagação de doenças como a própria Peste, a sífilis, a gonorreia e a tuberculose.

Portanto, não é inverossímil supor que uma combinação de guerras e doenças, desencadeada pela difusão inicial de uma doença em especial, cause grande redução populacional em todo o mundo. Não é preciso recorrer a explicações mágicas para isso. O problema não está aqui, mas em como as pessoas reagirão a tal mortandade. E a resposta é: nada bem, como veremos.

Mas antes disso precisamos quantificar esta redução, definindo em quanto tempo queremos que as pessoas morram. Uma redução de 1% ao mês (que já é brutal por si mesma) levaria seis anos inteiros (setenta e dois meses) para reduzir a população global em 51%. Uma redução de 2% ao mês (mais do que brutal) levaria três anos e meio para obter efeito semelhante. Sabendo que a Guerra dos Trinta anos produziu sua mortandade em um período específico, de cerca de onze anos, vemos que esses números não chutam para muito longe. Com um pouco de boa vontade, podemos imaginar uma letalidade de 3% (equivalente a seis milhões de brasileiros morrendo por mês), que ainda assim levaria vinte e cinco meses para causar uma redução de 51% da população. Mas existe algo interessante que só podemos ver quando criamos um gráfico desta involução demográfica:

calc1

A primeira linha representa uma mortalidade uniforme de 1% ao mês por seis anos (janeiro de 2015 a dezembro de 2020). A segunda linha, mortalidade de 2% ao mês e a terceira, por sua vez, uma de 3% ao mês. Podemos observar neste gráfico que a curva representada pela diminuição demográfica se torna cada vez menos acentuada com o passar do tempo, mesmo que a taxa de mortalidade se mantenha. Trata-se de uma variação do paradoxo de Aquiles e a tartaruga, proposto por Zenão de Cítion:

> Em uma perseguição na qual Aquiles conseguisse diminuir à metade a cada minuto a sua distância para a tartaruga, veríamos que o corredor jamais a ultrapassaria.

A ultrapassagem seria impossível pois a “metade da distância” seria um valor *cada vez menor*. Aqui temos mais ou menos a mesma coisa, pois qualquer que seja a taxa de mortalidade da “doença perfeita”, ela reduziria *cada vez menos* a população afetada, até chegar ao ponto em que a redução se confundiria com a redução natural ocorrida pelas causas comuns de morte.

Ocorre que este cenário desconsidera dois fatos da natureza:

1. O efeito cumulativo da evolução.
2. A dificuldade cada vez maior da infecção.

Mesmo que a doença tenha uma letalidade de 90%, isto significa que 1 em cada dez infectados sobreviverão. Mesmo que os sobreviventes não adquiram a imunidade, eles demonstraram possuir características (provavelmente genéticas) que favorecem sua sobrevivência. Então, à medida que a doença dizima a população em geral, a população restante será, cada vez mais, composta por descendentes dos que sobreviveram.

Disto resultam conclusões óbvias:

1. A letalidade da doença será cada vez menor.
2. A taxa geral de mortalidade será cada vez menor.
3. Logo, toda doença tende a se tornar inócua ou controlável.
4. Portanto, nenhuma doença exterminará a humanidade.

Pode parecer um excesso de otimismo, mas não é. Não estamos aqui dizendo que a humanidade sobreviverá incólume a qualquer tipo de doença, mas que eventualmente uma doença extremamente letal se tornará uma doença comum, como a gripe, que é letal em alguns casos, especialmente crianças e velhos, caso não tratada, mas que não tem o potencial de extinguir a humanidade. É disso que estamos falando.

O outro aspecto é a dificuldade de infecção. Em um mundo superpopuloso e promíscuo, é bastante fácil que uma infecção se espalhe rapidamente. A “doença perfeita” poderia percorrer o planeta em poucas semanas antes de ser sequer detectada. Mas à medida que a população começa a diminuir rapidamente os contatos se tornam mais raros, a promiscuidade diminui e a doença começa a se propagar com menos velocidade.

Consequentemente, a longo prazo a taxa de mortalidade geral vai diminuir. O que nos leva a um novo gráfico.

calc2

Neste gráfico, cada novo período de decréscimo populacional tem uma taxa de decréscimo 10% menor. Este gráfico contém um pequeno erro: de fato, quanto menor a mortalidade, maior a redução da letalidade a cada período. Porém ele é útil para nos demonstrar que eventualmente a redução populacional vai estancar. Temos a evolução de nosso lado.

Concluímos, então, que nenhuma doença, por mais “perfeita” que seja, conseguirá exterminar a humanidade, a menos que tenha uma letalidade de 100% (ou muito perto disso), seja propagada com grande rapidez e mate em um intervalo de tempo muito pequeno. Somente nestas condições (que até hoje não foram observadas) uma doença poderia nos dizimar além do gargalo genético sem nos dar tempo para evoluir defesas biológicas contra ela.

Mas talvez não seja necessário que a doença em si nos mate, se ela conseguir destruir a civilização e incapacitar nossas estruturas artificiais de sobrevivência, devolvendo-nos ao estado de natureza para o qual já não estamos preparados. Este é o próximo ponto a analisar.

### O Apocalipse como um processo histórico

Os rituais funerários são parte essencial da civilização. Quando a morte é banalizada, em um contexto de redução populacional rápida, impossibilita o transcurso de tais ritos. Sabemos, com base nos documentos históricos sobre as grandes mortandades do passado, que a civilização costuma ir ao limite quando os rituais funerários (que possuem um custo que não pode ser inteiramente descartado mesmo que os ritos sejam quase integralmente abolidos) se tornam excessivamente frequentes. Então é razoável supor que um aumento da taxa de mortalidade, em um curto espaço de tempo, teria o potencial de colapsar a civilização conforme a conhecemos. Vejamos como:

* Esgarçamento das relações sociais.
* Ameaça ao direito de propriedade.
* Pânico.
* Colapso do sistema de transportes.
* Perda da referência do valor do dinheiro.

Todos estes fatores podem acontecer, independentemente da existência de uma pandemia mortífera, mas é razoável supor que a humanidade, posta diante de uma mortandade sem fim, entraria em colapso, produzindo os citados efeitos. Assim, a mortandade não precisa, em si mesma, ser a causa da extinção humana, basta que afete a humanidade de maneira suficiente para desorganizar o funcionamento das instituições podemos, subitamente, ser atirados de volta ao estado de natureza.

Quando falo de “esgarçamento das relações sociais” eu me refiro à repulsa que a morte causa. Em quase todas as sociedades de hoje a morte é temida e vista como um fato inaceitável. Quando a “doença perfeita” estiver matando aos milhões, isto gerará uma dificuldade no trato com os moribundos e os doentes. Algo semelhante à maneira como os homossexuais foram tratados nos primeiros tempos da pandemia de AIDS. O preconceito a quem foram então submetidos ecoa até hoje, na radicalização religiosa e no aumenta da intolerância contra eles, justamente quando eles se tornam mais visíveis. É razoável supor que os doentes serão abandonados à própria sorte, que filhos não cuidarão de pais e pais não cuidarão de filhos, que os mortos serão enterrados sem cerimônias, em valas comuns, empurrados por tratores. Isso já aconteceu, não só durante a Peste Negra, mas até recentemente, na epidemia de Gripe Espanhola de 1919, por exemplo. As pessoas se tornarão fanáticas, mas ao mesmo tempo as lideranças religiosas formais perderão sua ascendência sobre o povo. A sociedade entrará num estado de selvageria causado pelo temor à doença.

O alto volume de falecimentos em curto espaço de tempo esgotará os espaços nos cemitérios, forçando a adoção de valas comuns para os cadáveres. Estas valas, se não forem bem seladas, podem ser uma fonte permanente de doenças. Isto quer dizer que após uma grande mortandade, os rituais fúnebres terão perdido sua sacralidade. Geralmente inicia-se uma nova cultura funerária após um processo desses.

Em geral esta fase é bem retratada na ficção científica. Vemos isso de forma clara, por exemplo, em “A Dança da Morte”, de Stephen King. Porém, seria tedioso um autor retratar em detalhes este momento, a menos que sua história foque neste momento, e não no mundo pós-apocalíptico.

A ameaça ao direito de propriedade é um fator muito pouco mencionado na ficção. Talvez porque nos Estados Unidos, de onde vem a maior parte da ficção científica, as formalidades da posse de bens móveis e imóveis sejam menores. Porém mesmo lá deveria haver maior atenção a este detalhe.

A morte de um indivíduo inicia um longo processo de apuração de seus bens e dívidas (inventário), com o fim de distribuí-los entre os seus sucessores legais (herdeiros). No Brasil um processo de inventário pode demorar anos, ou mesmo décadas se os herdeiros resolverem litigar. Durante o inventário os bens do morto ficam indisponíveis para venda (em alguns casos podem ficar indisponíveis até mesmo para o uso). Existe a necessidade de se pagar taxas e impostos e não é raro certos bens se tornarem inutilizáveis após o inventário (especialmente bens móveis, como carros, utensílios, fábricas, etc.).

Esta situação ameaça a transição do direito de propriedade quando o sistema encarregado de fazer estes procedimentos se depara com um grande volume de mortes em curto espaço de tempo. Cartórios, varas cíveis, advogados etc. não estão preparados para conduzir os processos que se amontoam. Isto cria situações de ocupação de bens (posse) ou de roubo puro e simples de bens móveis, por herdeiros (que, afinal, precisam seguir com a vida) ou por terceiros aproveitadores. Estas ocupações à margem da lei geram conflitos, que facilmente descambam para a violência, e ajudam a criar um clima de desconfiança em relação à lei. A propriedade, aos poucos, deixa de ser garantida pelo estado de direito e passa a ser garantida pela força.

Isto gera o pânico de que o estado não seja mais capaz de garantir a paz social. As pessoas então buscam armar-se e organizar-se em grupos para defender suas posses. Esses grupos crescem quando se amalgamam, e o amálgama desses grupos inclui a fusão de suas propriedades, legais ou reivindicadas. Então temos uma nova conformação da propriedade, que pode ser coletiva no início, mas que tende a uma feudalização, quando um indivíduo dentro do grupo consegue adquirir o seu controle. A nova conformação da propriedade, gerada pelo pânico, não terá muita coincidência com os limites anteriormente vigentes: as pessoas não vão manter o controle do que achavam ser seu, mas vão procurar controlar aquilo que tenham meios de controlar efetivamente. As cercas e muros respeitarão limites táticos defensáveis militarmente.

Esta fase é bem retratada na ficção científica. Entre as obras populares que demonstram este estado de coisas temos os filmes da série “Mad Max”, por exemplo.

O colapso do sistema de transportes pode ocorrer antes, durante ou depois das fases acima. Ele ocorrerá quando a humanidade não tiver mais meios econômicos, tecnológicos ou recursos humanos para reparar e operar estruturas de transporte caras, como aeroportos, rodovias e ferrovias. Em uma civilização colapsada haverá uma tendência ao transporte fluvial e marítimo, onde isso for possível, e à substituição dos veículos automotores por tração humana ou animal. Uma boa analogia para esta fase podemos encontrar na Alta Idade Média, em que os novos pseudo-estados criados pelos “bárbaros” aproveitaram as estruturas romanas sobreviventes, sem nunca repará-las, pois não tinham recursos para tal. À medida que as estradas romanas se tornaram intransitáveis, grandes reinos, como o de Carlos Magno, se tornaram inviáveis. O feudalismo se consolida quando as viagens só podem acontecer a cavalo ou de navio.

A perda de referência do valor do dinheiro é o último estágio de colapso. O dinheiro possui valor fiduciário, e não objetivo. Isto era verdade mesmo no caso do império romano, cujas moedas tinham baixo teor de metal precioso. Sem o poder estatal para garantir seu valor, o dinheiro se torna apenas papel e a sociedade tende ao escambo de bens ou serviços, ocasionalmente surgindo novas formas de troca, regionalmente. No citado caso do império romano, o ouro e a prata em barra substituíram a moeda cunhada, mas a maior parte da substituição foi, durante a Alta Idade Média, por bens e serviços. A maior parte das “moedas” cunhadas nos primeiros séculos após o fim do Império eram pouco mais que medalhas, refletindo mais o orgulho de tiranetes e régulos do que uma utilidade objetiva.

### Conclusões

Podemos, então, concluir que uma civilização que sofra a curto prazo uma redução sensível de sua população se feudalizará, pois a civilização capitalista em que vivemos depende de uma grande população e de que esta seja estável. A instabilidade se contaminará nas instituições, destruindo o frágil equilíbrio que nos mantém seguindo.

Isso quer dizer que não há necessidade de conceber a extinção da humanidade por um fator biológico, se conseguirmos que este impacto seja suficiente para colapsar o capitalismo. Sem o capitalismo, que produz, mais do que riqueza e poder, bens e serviços para atender, mesmo que mal e porcamente, à demanda de uma população de sete bilhões de pessoas, podemos imaginar que a crise econômica permanente, resultante do fim do comércio internacional (ou da sua drástica redução) vai gerar uma carestia sem precedentes, conflitos sociais violentíssimos e uma brutal queda da população por causa de fomes, guerras e doenças ocasionadas por ambas. A “doença perfeita” poderá, no fim das contas, matar menos gente do que o próprio colapso da humanidade.

Isso claro, se você não estiver concebendo um fim “mágico” e “limpo” para a humanidade.

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