Por que que a gente é assim?

Mais uma vez? É claro que eu ‘tô a fim. Parodio Cazuza para dizer que o escritor brasileiro parece não se cansar de ser humilhado. Não basta praticar uma arte considerada “fácil” por quase todo mundo que não a pratica, não basta que considerem a literatura algo supérfluo “com tanta gente passando fome” e tampouco basta que vejamos as prateleiras de nossas livrarias ocupadas majoritariamente por uma espécie de subliteratura cagada sobre nós pelo sistema hegemônico em que estamos inseridos. Nada disso basta, temos de ser, também, humilhados em nossos sonhos.

Como dizia o Léo Jaime, “nem mesmo em meus sonhos eu posso ter você pra mim”. Assim, quando surgem propostas que podem nos lançar, realizar os nossos precários sonhos, estas propostas são quase sempre venenosas.

O veneno tem vários sabores. Há os editores que prometem publicação mediante a entrega de dinheiro, há os que exigem a entrega da alma e há os que acumulam ambos os males: não só querem a sua alma em uma bandeja, mas também querem que você pague pelo privilégio de entregá-la. Como na velha historinha da Disney, em que o Tio Patinhas cobrava de seus funcionários, todos os meses, uma “taxa pelo privilégio de trabalhar nas Empresas Patinhas”.

Uma das coisas boas de ser um autor amador é a liberdade. Para obedecer ordens alheias e seguir o que me mandam eu já tenho um emprego que me paga bem, bastante bem. Eu não exijo muito da literatura, mas faço absoluta questão de que ela não venha me fazendo imposições. Eu não pago a taxa ao Patinhas.

Entendo que seja perfeitamente aceitavel que o autor, por amor de ser lido, adapte-se aos gostos correntes. Seria idiotice se eu implicasse em escrever como no seculo XVIII ― orthographia, grammatica e syntaxe. Ninguém se interessaria por livros assi estranhos. As palavras mudaram, os usos mudaram, os assuntos mudaram. Apegar-se ao que passou é negar-se ao que está. A literatura nunca é, ela sempre está. Se nos parece permanente, é porque as mudanças ocorrem tão devagar que podem passar despercebidas, como neste paragrapho somente uma dezena de palavras segue o antigo systema de escripta.

Há, porém, uma grande diferença entre a necessária adaptação ao tempo e a rendição aos ditames de quem pretende dirigir o tempo.

A literatura, como tudo no Brasil, é um jogo de poder.

Quem pode, manda. Quem está disposto a obedecer, não ligará se a ordem for para pintar um bode de amarelo. “Pintarei o bode, se me pagam” — assim diz um bando ansioso que já vem de casa trazendo a broxa e só não traz a tinta também porque imagina que o amarelo tem de ser ao gosto de quem manda. Nem importa se o bode que se pintará é aquele que já está preso. O sistema quer especificamente esse, e não qualquer outro caprino que paste pelo mundo, desfilando cores suas.

Cobrar para publicar é, pelo menos, um serviço honesto. Grandes autores do passado pagaram para publicar, fazendo a festa das gráficas. Tanto assim que algumas delas até puseram selos nas capas dos livros, para dar-lhes respeitabilidade.

O problema começa quando o serviço deixa de ser claro. Obscurece-se para o autor que está publicando porque pagou. Obscurece-se do leitor que está diante de um livro que só foi publicado mediante pagamento. Ilude-se o autor com a ideia de que sua obra foi “selecionada”. Ilude-se o leitor com uma aparência de outra coisa que aquele livro não é.

O leitor é o menos iludido dos dois, porque são raras, de qualquer forma, as editoras cujo selo aposto à capa empresta peso ao livro. Na maioria dos casos, uma sigla ou um símbolo obscuro só é reconhecível como o selo da editora porque está no rodapé da capa e centralizado.

Há muitas maneiras de se disfarçar que o negócio é meramente um serviço de impressão de qualquer “Atlanta Nights”.

Algumas editoras impõem regras inflexíveis, um formato predeterminado, uma limitação de páginas, a exigência de uma determinada fonte, a imposição de um leiaute de capa e miolo. Negam ao autor o direito de opinar sobre a apresentação do livro, produto pelo qual ele está, afinal, pagando. Isso cria no idiota a ideia de que há um padrão no qual ele teve de se encaixar, a ilusão de que “ganhou” alguma coisa, de que foi realmente “selecionado”. Como a maioria dos autores nunca orçou preço em uma gráfica…

Outra maneira é o controle criativo do processo. A editora não aceita a obra que o autor submeteu, mas como viu “potencial” no autor, dispõe-se a aceitar outra obra que ele escreva, segundo um roteiro predeterminado. Assim o autor acreditará que foi “mesmo” um felizardo.

Ambas as atitudes são catastróficas, mas a segunda é pior.

É bastante ruim enganar o autor e fazê-lo crer que sua obra tem um valor intrínseco que ela não tem, claro. Principalmente pela cristalização precoce de uma obra que o autor poderia ainda trabalhar e fazer amadurecer. Mas mesmo esse mal é pequeno diante do segundo.

Porque esse sistema de controle criativo introduz três monstruosidades:

  1. Fecha até mesmo a porta da autopublicação para as obras e autores que não se enquadrem no esquema;
  2. Instila no jovem escritor a ideia de que escrever consiste em fazer o que o editor manda;
  3. Concentra o poder de decisão nas mãos de ignorantes.

Deve ser algo revoltante ir ao bordel e a prostituta recusar o programa porque acha o cara feio ou bobo. É mais ou menos o que acontece quando você procura uma editora do tipo que publica qualquer coisa e ela recusa sua obra e lhe pede que escreva outra conforme os desígnios do editor. Felizmente, ainda são raras tanto as prostitutas que escolhem clientes quanto as gráficas-editoras que se metem a dirigir a escrita dos seus.

A rebeldia é um componente necessário da arte. O jovem autor, esse Édipo a vagar pelas estradas em busca de uma Esfinge, tem a necessidade de matar seu “pai” para tornar-se rei. Não se pode, desde o início, capar a ousadia dos jovens.

O editor é, essencialmente, o dono do poder na editora. Quando se trata de uma pessoa culta e dotada de sensibilidade artística, esse poder pode ser utilizado para potencializar o talento dos jovens autores. De fato serão muitos os que se dobrarão espontaneamente, por reverência, diante de um editor que se imponha pela qualidade. Mas se o editor prima pelo exercício do poder, mas não exibe cultura e nem sensibilidade, isso significa que o leme da nau está nas mãos dos loucos, que os cegos estão a guiar outros cegos.

Esta situação traz perigo, especialmente em um país como o Brasil, onde o poder econômico raramente está acompanhado de equivalente cultura ou capacidade intelectual para além da esperteza finória para explorar as gretas do sistema e mamar nas tetas da realidade. O perigo de moldarmos o mundo segundo as regras dos ignorantes.

Já temos alguns exemplos disso, como o poder dado a pessoas como Paulo Coelho e Raphael Draccon, autores de obras desconexas e estúpidas. São eles que agora educam os jovens. Uma grande verdade foi dita pelo sábio chinês que declarou que podemos conhecer o mestre por seus discípulos. O estado atual da literatura brasileira depõe severamente contra os mestres que essa gente seguiu. Porém o sábio se esquece que também podemos julgar os discípulos pelos mestres que escolhem. Aquele que se matricula na escola do vício não pode ser julgado um amante da virtude ― pelo menos não antes de cair fora e ir pintar outros bodes e seres, quadrúpedes ou bípedes, de quaisquer cores, em pastos e tetos pelo mundo.

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