Terceira Encruzilhada no Caminho da Esquerda

Hoje vocês me dizem que eu estou em segu­rança e tudo parece ter sido um sonho. Assim me dizem sem­pre que essas coi­sas acon­te­cem. Hoje está tran­quilo, madri­nha, mas não quero visi­tas, estou doente ainda, quero remé­dios e não quem me teste a paci­ên­cia e diga que estou corado e bonito. Para essas coi­sas tive a minha mãe, que Deus a tenha. Agora quero é a mise­ri­cór­dia de Deus e ten­tar parar com esses sumi­ços.

Disseram-​me que estive sumido muito tempo, que me acha­ram nos matos pou­cos dias depois da Páscoa, com barba e banho de mui­tas sema­nas, picado de inse­tos, quase morto de tanta ferida. Disso não lem­bro. Dizem os médi­cos que vou lem­brar, depois que melhore. Enquanto isso, por favor me alcance aquele copo de leite quente por­que pas­sou um frio den­tro de mim. Mas se o exer­cí­cio da cabeça faz bem para o corpo tam­bém, con­forme diz Dr. Juvenal, então vamos seguir espre­mendo as lem­bran­ças. Se eu vol­tar a sen­tir frio, pede outro copo de leite quente, que a minha boca ainda está muito inchada para mas­ti­gar.

Madrinha, só sei que que­ria muito encon­trar a diaba, mesmo numa quinta-​feira virando para sexta, pecando con­tra Deus. Não me tenha raiva, madri­nha, famí­lia é famí­lia e rabi­cho é rabi­cho. O homem vai atrás do que con­funde, não do que explica. As mara­vi­lhas da vida estão no que vem entre as linhas e depois do ponto final. Então eu que­ria a Filipa. Nunca fui de andar pela opi­nião alheia, essa coisa de assom­bra­ção eu nunca levei a sério, por­que só existe o que Deus per­mite. Mas eu dizia que não me bas­tava apa­re­cer em noi­tes com­bi­na­das para fazer o que Deus não quer — eu que­ria che­gar de sur­presa, tirar a limpo a malí­cia da gente. Era sexta-​feira de tarde e eu saí dizendo que ia à cidade por amor de missa. O mundo é grande demais para as per­nas das velhas segui­rem as dos moços.

Lembro que desci de sua casa aos pino­tes e sem olhar para trás, tal­vez de ver­go­nha, cor­rendo até risco de que­brar perna, não quis ver a senhora me olhar com aquela cara de quem sabe aonde o pecado está. Montei depressa, espo­reei o cavalo e pro­meti que vol­tava outro dia.

Ela tem uma outra casa na mati­nha da Serra, perto da cacho­ei­ri­nha. Ninguém se atreve muito por lá: as mace­gas estão altas, os bar­ran­cos são um perigo e a terra não tem nem fruta que preste. O único cami­nho é o tri­lho dos ani­mais. Lá que a gente se encon­trava nas noi­tes de pecado, madri­nha.

Acima da pri­meira subida, com o cavalo já can­sado, a estrada estava seca e os cas­cos do ani­mal batiam no fofo da poeira e levan­ta­vam nuvens ama­re­las, cor­rendo fácil e leve. Meia légua adi­ante, porém, ele pas­sou a pisar torto e bam­bo­leou dos quar­tos. Passei a pri­meira encru­zi­lhada, e logo a segunda. A estrada pas­sava pela beira do morro, o rio cor­rendo embaixo num chi­ado gos­toso e do outro lado os fogos das casas eram como estre­las na noite preta — mas não have­ria noite preta de ter estre­las, era lua cheia e a estrada logo seria um tapete entre pas­tos e mato.

Cheguei à ter­ceira encru­zi­lhada e tive o pri­meiro arre­pio de medo, quando lem­brei o que a madri­nha diz: o cami­nho do inferno é difí­cil, por isso que o catiço vem até nós. Mas bateu o pri­meiro ven­ti­nho frio e esqueci. Só depois lem­brei: que­bre a esquerda na ter­ceira encru­zi­lhada de um cami­nho que pouca gente vai.

O cavalo já conhe­cia o rumo e não tinha medo. Naquele momento a poeira come­çou a entrar nas boti­nas e irri­tar meu pé, mesmo eu mon­tado. A tarde já estava nas últi­mas luzes e no fundo da pai­sa­gem a Ponta de Flecha apa­re­ceu no hori­zonte com a encosta ainda bri­lhando ao sol das almas. Mais em frente a estrada pas­sou um estreito dedo de luz ama­re­lada que vinha entre as mon­ta­nhas. Olhei à direita e a luz des­cia deva­gar em dire­ção à estrada, arras­tada pelo sol que já se dei­tava nos bra­ços da serra.

A estrada ficou baru­lhenta, lem­brei do lajedo: então eu tinha de estar já perto, menos de uma légua. Meu pé come­çou a coçar por causa da poeira que tinha entrado na botina, e então o cavalo afrou­xou e não teve chute nem varada que o fizesse con­ti­nuar. Ele já estava tão arre­ga­çado que come­çou a cam­ba­lear, eu apeei de um susto, para ele não me cair em cima.

Enquanto o cavalo pro­cu­rava onde se encos­tar, desci, bati as boti­nas numa árvore e cal­cei de volta. O cavalo escu­tou alguma coisa, assus­tou e dis­pa­rou pela estrada como se nem can­sado. Fiquei de pé, mas a coceira con­ti­nu­ava. Sentei no meio da estrada, tirei as boti­nas e esfre­guei entre os dedos, achei feri­dos. Levantei de novo e ten­tei cami­nhar, mas a caval­gada ace­le­rada tinha posto a minha cabeça bamba no pes­coço, minha vista balan­çando como uma página soprada pelo vento.

De repente escu­tei tam­bém. Sem vento nas ore­lhas e sem trote de cavalo para atra­pa­lhar. Bem no hori­zonte subia a lua, bem cheia e linda. Escutei os cas­cos, e já bem perto. Primeiro pen­sei que fosse meu cavalo enlou­que­cido que vol­tava, mas logo enxer­guei fais­car depois da curva, ainda longe, e isso me devol­veu juízo. Cheirei o ar, tinha uma rai­nha da noite perto, obra da pro­vi­dên­cia, seu cheiro doce me ado­e­cia, mas era bem o que Deus me ofe­re­cia, eu acei­tei.

Prendi o fôlego, o cora­ção batendo no peito como um surdo no car­na­val e ten­tei ouvir o silên­cio entre curi­an­gos e coru­jas. Vinha exato e rápido. Segurei meu grito de medo, sal­tei de banda e saí da estrada, ou melhor, de lá caí, entre as moi­tas e espi­nhos, fui escon­der entre a rai­nha da noite e um taqua­ral mais abaixo.

Deitado ali, com a alma agar­rada entre os den­tes e que­rendo pular da boca, espe­rei o des­tino acon­te­cer. O meu cora­ção batia depressa, os cas­cos vinham deva­gar.

Troc, troc — como goteira num balde quando a chuva já vai parando, cada vez mais deva­gar. Mas sem a ale­gria de tro­vões ficando mais longe.

Troc, troc — como se o cava­leiro qui­sesse pres­tar aten­ção à beira da estrada, tal­vez sou­besse de eu estar lá. Por que, com mil cape­tas ban­gue­las, eu me arris­cara?

Troc, troc — cas­cos infer­nais batendo no laje­ado. A curi­o­si­dade, trai­ço­eira amante dos desas­tra­dos, pare­cia agarrar-​me a cabeça e puxá-​la com a força de tre­zen­tos bois para eu a levan­tar e olhar entre os galhos. Mas eu sabia que não devia, que pre­ci­sava, se pos­sí­vel, bater o cora­ção mais baixo, até evi­tar a lín­gua nos den­tes para não fazer ruído. Qualquer ruído.

Troc, troc — bufado de nari­nas como um sopro úmido na nuca. Cada um de meus sete mil e duzen­tos pelos do corpo arre­piou e o cala­frio des­ceu as cos­tas, me fazendo con­tor­cer. Confesso que me mijei como uma cri­ança que ouve his­tó­ria de fan­tasma.

Troc, troc — cas­cos afas­tando. Pararam, ame­a­ça­ram vol­tar atrás, e eu com meia mão den­tro da boca para os den­tes mor­de­rem sem fazer baru­lho. Um relin­cho fez alguns pas­sa­ri­nhos voa­rem. Felizes eles, podem voar. Mas nem todos. Alguns fica­ram, mor­tos de medo, como folhas secas.

Troc, troc — pela escu­ri­dão que aumen­tava entendi que o ani­mal se afas­tava, mas demo­rou a cora­gem de me mexer, mesmo depois que aquele ver­me­lho esqui­sito aca­bou e eu já teria podido até gri­tar.

Devo ter ficado horas ali parado, sem dor­mir e sem mexer. Passei a noite entre cochi­los cur­tos, até que a lua virou no céu e eu a vi de frente, já bem des­cida e pronta para se por. Então aca­bou a para­li­sia e vol­tei à estrada. Não sen­tia mais coceira no pé e nem o incô­modo da botina. Estava melhor que em toda a vida, andando como anjo pelas nuvens. Com a lua no céu a pai­sa­gem se abria e vi que estava perto e que a estrada estava mar­cada pelos ras­tros do que pare­cia um cavalo imenso, cujas fer­ra­du­ras cor­ta­ram até a pedra. A estrada des­ceu até a por­teira no cami­nho da casa. Tão perto.

Nas mon­ta­nhas um dedo rosado pene­trou as cor­ti­nas pesa­das da madru­gada, lam­bu­zando de luzes deli­ca­das uma franja de céu ainda estrei­ti­nha, mas con­for­tá­vel, gra­ças a Deus. Um relin­cho ros­nado, o lamento medo­nho de uma cri­a­tura do inferno impac­tou o ar, como se mil cava­los mor­res­sem, e o tro­pel vol­tou, na potên­cia de cas­cos sobre­na­tu­rais, pela estrada do outro lado do vale, a estrada que se encon­trava na encru­zi­lhada logo em frente da última subida.

Então corri, corri o quanto pude, a cor­tar ata­lhos pelo pasto. Cheguei depressa, mais tro­pe­çando incerto do que seguindo um rumo. Atirei-​me no rio para tirar do corpo o cheiro de poeira e da urina, lavei do jeito que deu, e subi pelo meio do pasto. Pelo tri­lho fal­tou cora­gem, só se já tivesse ama­nhe­cido.

Passei no varal e reco­lhi uma manta para me enro­lar e espan­tar o frio e con­tor­nei a casa, pro­cu­rando a tulha para escon­der. Então o tro­pel che­gou ao ter­reiro pelos fun­dos, a menos de dez metros! Senti o san­gue pas­sar nas minhas veias como barro que uma cri­ança aperta na mão. Aguardei com espe­rança alguém des­mon­tar, mas não.

Então o ani­mal espo­jou e estre­bu­chou no chão, levan­tou uma poeira que dobrou a esquina e que apa­re­ceu acima do telhado. Quando o ruído dimi­nuiu, a curi­o­si­dade me cha­mou. Era por que­rer ver se era ver­dade que eu tinha enfren­tado a noite de perigo, andando pelas que­bra­das aonde o homem de bem não deve ir. Mas eu seria um frouxo se vol­tasse dali.

No ter­reiro dos fun­dos, dei­tada no chão como cri­ança que mal nas­ceu, e coberta de poeira eu a vi. Aproximei-​me sem que me visse. Ela ten­tou se levan­tar e esten­deu os bra­ços até a porta da casa. Gotas gros­sas de suor caíam de seus coto­ve­los e escor­riam pelas suas cos­tas nuas. Com muita difi­cul­dade ela se pôs de qua­tro e ten­tou arrastar-​se. Então me viu pelo canto de um olho e virou deva­gar na minha dire­ção, como se cada mús­culo esti­vesse no limite.

Ela me olhou, cheia de ver­go­nha e dor, mas não disse nada. Tentou de novo se levan­tar, mas os joe­lhos escor­re­ga­ram na poeira e tinha de usar os bra­ços para se apoiar. Só então me dei conta de que tal­vez devesse aju­dar. Ela se assus­tou com o meu pri­meiro movi­mento. Estremeceu, esten­deu um braço em minha dire­ção como se qui­sesse me impe­dir, mas não teria for­ças.

— Posso aju­dar? — Só res­mun­gos. Repeti a per­gunta.

— Some daqui — foi o que, por fim, deu para enten­der de sua voz rouca.

Mas eu não saí. Eu não tinha ido até ali para vol­tar antes de saber. Filipa, a mula. Eu via com meus pró­prios olhos, mas que­ria ver mais, por­que, de um jeito que só se explica por artes do demo, eu não estava com nojo e nem que­ria ir embora. Filipa, a mula.

Exausta, enver­go­nhada e imunda; ela só que­ria lavar-​se na bica, entrar em casa e esque­cer de outra noite a assom­brar o mundo. Mas ela cam­ba­le­ava, apoiou-​se no batente da porta, os joe­lhos rala­dos se dobra­ram. Caiu de novo. Cheguei mais perto, abaixei-​me e pro­cu­rei onde segu­rar. Ela xin­gou, ten­tou se deba­ter.

— Sai daqui! Não me rele a mão!

Saí de perto, mas não fui embora. Ela final­mente con­se­guiu se arras­tar até a bica. Perdeu a ver­go­nha, tra­tou de se lavar, e eu lá olhando. A água fria rela­xou, curou um pouco o can­saço e o sabão lavou um pouco da dor. Na careta dela era impos­sí­vel enxer­gar o limite entre a água, a lágrima e o suor.

Ela saiu da bica, deu-​me as cos­tas, fin­giu que eu nem estava. Tateou a porta e des­tra­vou a tra­mela.

— Filipa, posso lhe falar?

Ela me disse alguma coisa em uma voz tão rouca e rai­vosa que tive medo que ela me mor­desse ou me escoi­ce­asse se eu entrasse naquela casa. Então o calor do sol final­mente me tocou e per­cebi onde estava, que estava nu, que a noite aca­bara e eu sobre­vi­vera, que um belo novo dia entrava. Mas tam­bém per­cebi o fundo de ver­dade do que o povo dizia, e tive medo daquela sexta feira que come­çava, da Paixão de Nosso Senhor.

Busquei as minhas rou­pas, vesti-​me nelas e saí em pro­cura de meu cavalo. Comi dos matos, dormi nas moi­tas, escondi-​me dos bichos. Queria vol­tar para a casa da madri­nha, mas tive a sorte de não con­se­guir antes da noite. Daí para a frente eu não me lem­bro mais de nada.

Deus me livre.

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