Um Milhão de Motivos para Matar um Gatinho (ou um Mandarim)

Perguntaram-​me se eu mata­ria um gati­nho por um milhão de dóla­res. Bem, eu mata­ria (intran­si­ti­va­mente) por um milhão de dóla­res, desde, é claro, que o pudesse fazer de maneira limpa. Não me cri­ti­que, você tam­bém faria o mesmo. Todos pen­sa­mos uti­li­ta­ri­a­mente, e con­si­de­ra­mos mais as con­sequên­cias do que os meios. O que nos impede, em geral, são con­si­de­ra­ções de ordem esté­tica: matar é um ato bru­tal, ani­ma­lesco, e que geral­mente resulta em con­sequên­cias com­pro­me­te­do­ras para o resto da vida. Os seres huma­nos nor­mais não matam por­que reco­nhe­cem a impu­reza (física e espi­ri­tual) resul­tante do ato. Afinal, é inú­til ganhar um milhão de dóla­res se for­mos joga­dos numa cadeia imunda pelo resto da vida, se cor­re­mos o risco de esse mal ganho ser levado pelo diabo, ou pelo judi­ciá­rio.

Mas a grande mai­o­ria dos seres huma­nos mata­ria se as con­sequên­cias fos­sem míni­mas, ou ine­xis­ten­tes.

Porém, con­si­de­rando que a per­gunta pres­su­põe um meio limpo para a morte, acre­dito que eu mata­ria o gati­nho mui­tas vezes, afi­nal, há tan­tos gati­nhos no mundo que um a menos não fará grande falta. Para que a ques­tão seja inte­res­sante é pre­ciso que ela tenha um pouco mais de gume… Refiro-​me a “O Mandarim”, uma novela por­tu­guesa do século XIX, escrita por Eça de Queirós, que aborda exa­ta­mente o tema da ética do assas­si­nato limpo.

No começo da his­tó­ria somos apre­sen­ta­dos a um ser­vi­dor público pobre (de bolso e de espí­rito), que sofre de amo­res sem poder se casar com a mulher de seus sonhos molha­dos por falta de dinheiro para orga­ni­zar a cerimô­nia e botar uma casa decente. Pouco depois ele recebe a visita de um cava­lheiro bem ves­tido (que o con­texto sugere ser o Diabo), que lhe faz uma oferta apa­ren­te­mente ino­cente: se con­cor­dasse em aper­tar o botão de uma cam­pai­nha, her­da­ria a for­tuna de um man­da­rim chi­nês, que ins­tan­ta­ne­a­mente mor­re­ria. O Diabo deixa bem claro que o man­da­rim em ques­tão é uma pes­soa com nome, sobre­nome e uma his­tó­ria de vida, uma pes­soa real, que a sua morte seria efe­tiva, e não uma ilu­são, e que a herança seria a prova da vera­ci­dade do fato.

Diante dessa pro­posta, o pro­ta­go­nista, após uma breve hesi­ta­ção ética, resolve aper­tar a cam­pai­nha, o que faz de maneira até ansi­osa, ape­nas se assus­tando com o ruído sobre­na­tu­ral que ela pro­duz. Passado o susto, porém, o Diabo o deixa e ele passa a crer que fora vítima de uma alu­ci­na­ção, ou de uma troça pre­gada por algum de seus ami­gos.

O que acon­tece depois eu me reservo de con­tar, por­que o livri­nho é exce­lente e eu não quero pri­var o caro lei­tor do pra­zer de sua lei­tura. Prefiro pas­sar adi­ante e ana­li­sar o sim­bo­lismo maroto que Eça estava empre­gando, e pra­ti­ca­mente esfre­gando na cara da Europa.

O con­ceito da morte do man­da­rim para que o jovem se torne um mili­o­ná­rio é uma sátira velada ao colo­ni­a­lismo. A gente da Europa o acei­tava por­que se bene­fi­ci­ava dos efei­tos ime­di­a­tos, sem ver os efei­tos a longo prazo ou as con­sequên­cias que tra­zia para outras par­tes do mundo, de onde era arran­cada a riqueza que finan­ci­ava as metró­po­les. Para o típico cida­dão euro­peu da Belle Époque, a vida era como o meta­fó­rico aper­tar do botão de uma cam­pai­nha: em cada ato de sua vida ele her­dava um pouco da riqueza de algum man­da­rim chi­nês, de algum afri­cano escra­vi­zado ou de alguém assim. Mesmo aque­les que sabiam, ou mera­mente intuíam, a ori­gem san­grenta da riqueza que ornava as cida­des do Velho Mundo, nada podiam fazer, nada que­riam de fato fazer.

Justificava-​se isso de mui­tas manei­ras, sendo o racismo ape­nas a mais bru­tal delas. Para mui­tos a jus­ti­fi­ca­tiva era des­ne­ces­sá­ria: não se pen­sava no assunto e pronto! Outros até toma­vam conhe­ci­mento do caso, mas acre­di­ta­vam que não era algo sig­ni­fi­ca­tivo, espe­ci­al­mente no caso de chi­ne­ses e indi­a­nos, pois havia tan­tos! e eram todos tão pare­ci­dos! A nega­ção da indi­vi­du­a­li­dade das víti­mas do colo­ni­a­lismo era uma forma menos bru­tal de desumanizá-​las, tornando-​as, assim, dis­po­ní­veis e des­car­tá­veis. Poucos se com­pra­zem em matar o último rino­ce­ronte negro afri­cano, mas esma­gar uma for­miga entre milhões é um ato con­si­de­rado de maneira leve. A essên­cia do colo­ni­a­lismo incluía apre­sen­tar os povos colo­ni­za­dos como for­mi­gas, não der­ra­dei­ros rino­ce­ron­tes.

O que o Diabo não conta é que os atos come­ti­dos incon­se­quen­te­mente geram con­sequên­cias de longo prazo, pois cada coisa que faze­mos gera uma outra coisa, outra cate­go­ria. A vida é foda.

Vivemos pela espada, meta­fo­ri­ca­mente, por­que todos vive­mos do bene­fí­cio da morte. Não mata­mos man­da­rins aper­tando cam­pai­nhas, mas tudo que vemos ao redor é feito de meta­fó­ri­cos ossos, de gati­nhos e de pes­soas. Não pre­ci­sa­mos matar pes­so­al­mente por­que mata­mos por pro­cu­ra­ção: come­mos ani­mais que outros mata­ram por nós, des­fru­ta­mos do tra­ba­lho de outros que não foram pagos decen­te­mente para que pudés­se­mos com­prar mais barato coi­sas de que, mui­tas vezes, nem pre­ci­sa­mos.

Tudo isso pode ser sim­bo­li­zado por um antigo man­da­rim chi­nês ves­tido de ama­relo. Bons sonhos hoje à noite. Quantas vezes você aper­tou a cam­pai­nha hoje?

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