Leitores Não São Iguais, Leituras Também Não

O grande furdunço esta semana foram uns tweets antigos de meu amigo Pedro Nunes, nos quais ele, algo controversamente, defendeu a ideia de que certas pessoas dizem “amar a leitura” mas, de fato, permanecem a vida toda lendo o mesmo tipo de livro que liam quando adolescentes.

Esse tipo de comentário não se caracteriza por sua capacidade de fazer amigos e atrair a simpatia espontânea de desconhecidos. Ninguém gosta quando um estranho vem e chuta suas muletas, querendo dizer “levanta-te e anda”. Do hábito de se fazer isso já adveio crucifixão.

A verdade é que o Brasil é um país praticamente iletrado, onde as pessoas têm certo orgulho de sua ignorância — a que chamam “humildade” — e onde é mais fácil tornar-se um sucesso vendendo ilusões do que distribuindo verdades de graça. Por isso o Pedro pagou um preço alto por sua opinião. A treta entrou nos trending topics, atingiu massa crítica em todas as redes sociais, com centenas de comentários irados, alguns poucos solidários, atraiu a atenção até de manda-chuvas e na tempestade de agressões que se seguiu o Pedro teve que trancar seu perfil para que não o importunassem mais com abusos verbais e ameaças.

Tanto é verdade que o Brasil é uma nação cheia de gente iletrada, ou mal letrada,1 que centenas de milhares de pessoas se sentiram ofendidas por uma postagem que tinha tudo para ser tão irrelevante quanto a opinião pessoal de uma pessoa comum. Nunca se viu tanta gente enfiando carapuça na cabeça.

Mas ainda que o Brasil fosse uma nação inteiramente composta de gente com PhD em Harvard ou em Oxford, ainda assim haveria outras formas de heterogeneidade. Os leitores não são todos iguais, as suas leituras tampouco o são. Pessoas de excelente formação também se comprazem em leituras e atividades simples e uma das razões pelas quais não se limitam a isso é que os ambientes “sofisticados” demandam que se mantenham ativas na busca do conhecimento.

Em suma: se não há uma demanda por cultura e qualidade, os diplomas e origens sociais dos indivíduos não importam, inicia-se uma espiral descendente movida pelo comodismo e que termina no desconforto quando alguém aponta o dedo para isso.

Tudo parece ter começado com esse tweet:2

Cujo raciocínio era complementado pelos seguintes:

Muitas pessoas se sentiram ofendidas pelas colocações de Pedro, acusando-o de “elitismo” por criar uma distinção entre livros “superiores” e “inferiores”, que teria como consequência lógica estender a mesma classificação para os leitores, e daí para as pessoas. Entre as principais reações negativas, destacam-se acusações de que ele estaria tentando “proibir” as pessoas de lerem o que gostam:3

Muita gente comentavam no primeiro tweet, sem ler os outros, que lhe davam contexto, e a conversa começou rapidamente a resvalar para a violência verbal:

Imagino que muitas respostas desse nível para cima devem ter sido deletadas:4

Na verdade, após algum tempo, as pessoas parece que começavam a entender que o caso não era para agressividade e faziam comentários construtivos, ainda que continuassem discordando da tese:

Mas, mesmo assim, poucas pessoas não se tocavam que Pedro não se dirigira ao público em geral, mas a pessoas que tiveram boa formação e que “catam marra” de que “gostam de ler”:

Quem se tocava, em geral quem redigia tweets mais coerentes, fazia observações interessantes:

E pelo menos uma pessoa conseguiu desmontar o argumento de Pedro com elegância, inteligência e sem nenhuma necessidade de partir para agressões verbais:

Parte da treta foi causada, certamente, pela insegurança de muita gente em relação à própria cultura. Por mais que as pessoas, aparentemente, não consigam avaliar a extensão da própria ignorância, acredito, pela própria experiência (minha e das pessoas com quem convivo), que essas pessoas não reconhecem o valor da cultura, mas são capazes de detectar (e facilmente detestar) aqueles que detêm uma cultura mais ampla. A tensão decorre do fato de que, mesmo detectando que alguém possui mais conhecimentos, não temos como validar esses conhecimentos, então, para aquilo que não dominamos, cultura postiça e conhecimento real parecem igulamente intimidadores.

Por isso é tão generalizado o uso de termos como “pseudointelectual” para qualificar pessoas que, obviamente, possuem uma cultura bastante extensa. Esse uso é geralmente da parte de quem tem uma cultura geral menos ampla. É uma forma de defesa contra a evidência da própria falibilidade.

Uma outra parte da treta foi causada pela tendência, generalizada atualmente, segundo a qual nos vemos obrigados a expressar nossa discordância contra tudo que seja dito no mundo. Para muita gente, a opinião alheia é intolerável:

E deve ser desqualificada de toda maneira, seja através de ataques pessoais ou de acusações generalizantes:

Na prática isso nos leva a debates desnecessários, que criam fama ilusória e irrelevante.

tirinha1561-malvados

Nem todos pensam assim, alguns boddhisattvas estão entre nós e sabem que não é necessário partir para a agressividade só porque alguém está errado:

O que realmente se criou com essa tempestade? Nada. Alguém expressou na internet uma opinião controversa (eu mesmo não sei se concordo plenamente com a linha de raciocínio do Pedro, mas tendo a achar que sim) e passou a ser hostilizado por gente que não conhecia, que nem o seguia e que foi “estumada” a vir atacar a momentânea Geni da internet. Mas ninguém aprendeu coisa alguma e o próprio Pedro nada ganhou com isso além de um renome duvidoso.

Nada se ganhou porque o Twitter é muito limitante em termos de desenvolvimento de ideias. Cada tweet é uma mensagem individual e nem sempre relacionada. Pode ser compartilhado em separado, de forma que pessoas que não estão seguindo a linha de raciocínio verão uma parte solta da sequência e terão uma interpretação errada. Isso explica porque é tão frequente no Twitter, inclusive nesse caso, pessoas que entram com o “pé na porta” no meio de uma discussão civilizada. O Facebook também tem esse defeito, embora menos.

O que eu aprendi desse episódio é que o Twitter pode ser uma “força da natureza” ou uma “praga de gafanhotos” na sua vida. A depender de quantas pessoas se enfureçam com suas opiniões.

Mas o que realmente o Pedro quis dizer?

Isso só ele pode dizer, mas como ele não tem blog, acho que você não terá a oportunidade de ler a ideia plenamente desenvolvida. A menos que compre o livro que ele pode lançar um dia. Enquanto isso, o máximo a que podemos chegar é a minha interpretação do que ele quis dizer:

Há pessoas adultas que afirmam gostar muito de ler.5 Porém, na verdade, leem apenas obras que estão aquém do que deveria ler uma pessoa de sua idade. Adultos não deveriam ler chick lit, nem young adult e nem livros de youtubers. Essas obras não oferecem desafio, não lidam com problemas adultos, não geram reflexões adultas. Pessoas que se prendem exclusivamente a essas leituras (ou mesmo aquelas que se prendem muito a elas) apresentam uma idade mental inferior à cronológica: são indivíduos imaturos, que não desenvolveram plenamente seus valores e não possuem reflexões maduras sobre o mundo que as cerca.6

As pessoas que realmente amam ler não procuram livros fáceis, do tipo que os seus filhos estão lendo, mas livros desafiadores. Amar ler é não desistir de um livro; tanto quanto não abandonamos uma pessoa a quem amamos quando ela está em dificuldades; tanto quanto não desistimos de nossos sonhos, mesmo que pareçam difíceis; tanto quanto não interrompemos o nosso trabalho antes de completar uma etapa, mesmo que estejamos cansados.

Aquele que ama a leitura insistirá mesmo que ela lhe pareça ininteligível, porque sente prazer em “descriptografar” uma obra difícil. Não abadonará um livro de história triste, mas torcerá até o fim pelos personagens e remoerá depois soluções que daria àqueles problemas.

Aquele que ama a leitura é modificado por ela. Perde-se a pensar no que leu. Sofre com os personagens, identifica na realidade quotidiana exemplos dos conflitos encontrados nos bons livros.

Estes são os leitores que realmente amam ler. Os outros são pessoas imaturas que buscam no livro meramente refúgio de suas inseguranças, consolo de suas desesperanças, reflexo de suas semelhanças, prazer na aridez da vida. Não amam ao ato de ler, amam ao que leitura lhes proporciona de escapismo, de regressão a uma saudosa adolescência.

Diante do que Pedro disse, mesmo que ele não tenha alcançado todas as implicações do fenômeno que abordou, fica evidente uma contradição insolúvel: afinal, o que é “elitismo”?

Para alguns, recomendar ao jovem (principalmente ao jovem da periferia) que leia obras “de qualidade” é “elitismo” porque a “qualidade” é um construto social que deliberadamente exclui o produto da periferia. Estes críticos entendem que as formas de arte e de discurso oriundas da “periferia” teriam o mesmo valor que aquelas nascidas do “centro”.

Para outros, não recomendar a esse mesmo jovem que leia tais obras é “elitismo” — e, pior, uma abordagem alienante — pois perpetua a situação de exclusão na qual vive a periferia. Para além da exclusão econômica, geográfica e social; o isolamento da periferia em um espaço seu, do qual não dialoga com a cultura “elitista”, significa derrubar as pontes de diálogo centro-periferia, impedindo que as futuras gerações nascidas nas classes “periféricas” se capacitem para atuar política e economicamente no “centro”. É o erro do programa “Esquenta!”, tão criticado na esquerda e na direita, por criar um “zoológico” da cultura periférica e suas manifestações improvisadas.

O que esta politização do debate não enxerga, nem se esfregarmos a realidade no nariz desta gente, é que Pedro não aludiu a uma situação centro-periferia!

A gente que ele criticou não são jovens favelados versus “filhinhos de papai”. Ele criticou exatamente essa juventude bem-nascida, que sempre estudou nas melhores escolas, supostamente tendo a melhor educação que o dinheiro pode comprar, mas que, em vez de manifestar um nível intelectual compatível com a mensalidade escolar que seus pais pagaram, chafurda no mais raso e pantanoso nível da cultura pop, eternizando-se num estágio infantil de compreensão da realidade — o que acaba se refletindo na oligofrenia de nosso discurso político e na maneira atabalhoada como as pessoas reagem, nas redes sociais, a discursos que rompem seu casulo de “normalidade” e as desafiam a pensar “fora da caixa”.

A verdade é que hoje nada é mais amado que a “caixa”, quentinho e confortável espaço onde todos queremos viver (às vezes até eu, que aqui a critico tão violentamente).


  1. No sábado o filósofo Leandro Karnal publicou um status de Facebook no qual classificou essa gente de “analfabetos passivos”, isto é, pessoas que não buscam na leitura informações novas, portanto, gente para quem ler é inútil, apenas uma diversão narcisista. 
  2. A conta de @utops no Twitter se encontra bloqueada, para lhe dar o merecido descanso de toda esta tempestade, então eu tive que recorrer a capturas de tela para apresentar o contexto original. Os tweets originais encontram-se linkados em cada imagem, porém, em razão do bloqueio, se você não for seguidor dele, possivelmente não verá o tweet nem se clicar no link. 
  3. Os tweets dos que responderam ao Pedro não foram bloqueados, por isso estão aqui em toda a sua glória. Se eventualmente forem deletados, isso certamente prejudicará a minha postagem, mas eu prefiro assim, a ter que capturar telas de todos eles, invasivamente. 
  4. Normalmente os debates “acalorados” nas redes sociais degringolam rapidamente para a troca de ofensas, com pouca ou nenhuma troca de informações ou alteração de pontos de vista. É uma batalha de opiniões que se trava para suprimir o outro lado, não para determinar quem tem razão. 
  5. Esse debate gerou uma quantidade absurda de sofismas sobre o sentido de “amar” ler e meramente “gostar” de ler. Aparentemente nenhum brasileiro usa o verbo “amar” para sugerir que “gosta muito” de alguma coisa. 
  6. Quando essas pessoas se dedicam a agredir verbalmente na internet um desconhecido de quem discordam, especialmente quando esse desconhecido as faz sentir imaturas, elas assinam um recibo de imaturidade com tanta força que rasgam o papel e enfiam a caneta na coxa. 

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