A Inominável Prole

Original de Clark Ashton-Smith.
Traduzido a partir da versão online em Eldritch Dark.

Muitos e multiformes são os horrores ocultos da Terra, a infestar seus caminhos desde os primórdios. Eles dormem debaixo da rocha imperturbada; erguem-se com a árvore desde suas raízes; movem-se sob o mar e em lugares subterrâneos; habitam os mais secretos áditos; emergem às vezes dos sepulcros cerrados de bronze soberbo e da tumba humilde selada com argila. Alguns são conhecidos do homem desde há muito e outros incógnitos ainda esperam o terrível dia de sua revelação. Os mais temíveis e nojentos felizmente estão ainda por nomear, mas entre aqueles que se revelaram no passado e se manifestaram com sua presença real, há um que não deve ser mencionado abertamente por sua torpeza extrema. Trata-se da prole que o habitante oculto das criptas concebeu na carne mortal.
— Do “Necronomicon”, de Abdul Alhazred.

Creio ser algo de certo modo afortunado que a história que passo a relatar seja tão relegada a sombras indeterminadas, sugestões malformadas e inferências proibidas. De outra maneira, não poderia ser escrita pela mão ou lida pelo olho humano. Minha parte mínima no drama horrendo se limitou ao seu ato derradeiro e para mim as cenas anteriores foram meramente uma lenda distante e pavorosa. Mas, mesmo que assim seja, o reflexo partido de seus horrores anormais recuou em perspectiva, os eventos normais da vida os fizeram parecer pouco mais que frágeis teias de aranha tecidas no escuro e ventoso precipício de um abismo aberto, um carneiro profundo e violado, onde as mais profundas corrupções da Terra pululam e proliferam. A lenda de que falo me era familiar desde a infância, tema de murmurações da família e acenos de cabeça, pois Sir John Tremoth tinha sido um colega de escola de meu pai. Mas eu nunca encontrara a Sir John, nem nunca visitara Tremoth Hall, até o momento desses acontecimentos que formaram a tragédia final. Meu pai me levara da Inglaterra ao Canadá quando eu ainda era uma criança pequena, prosperara em Manitoba como um apicultor e depois de sua morte o seu rancho de abelhas me mantivera ocupado por anos sem que eu pudesse levar a efeito um sonho muito acalentado de visitar a minha terra natal e explorar suas trilhas rurais.

Quando eu finalmente saí em viagem, a história estava quase apagada de minha lembrança e Tremoth Hall não era uma parte deliberada de meu itinerário quando eu comecei um giro pelos condados ingleses em uma motocicleta. Em qualquer caso, eu nunca teria sido atraído pela vizinhança por uma curiosidade mórbida, do tipo que o relato apavorante poderia evocar em outros. Minha visita, tal como se deu, foi puramente acidental. Eu até esquecera da localização exata do lugar e nem sonhava que estava nas cercanias. Se eu soubesse, acho que eu deveria ter me afastado, apesar das circunstâncias que me impeliam a buscar abrigo, em vez de intrometer-me na desgraça quase demoníaca de seu proprietário.

Quando cheguei a Tremoth Hall, em um começo de outono, eu viajara o dia inteiro vagarosamente por campos ondulados, cortados por trilhas e passagens tortuosas. O dia fora bonito, com céus de azul pálido acima de bosques já tingidos com os primeiros tons de âmbar e carmesim do ano. Mas a partir do meio da tarde uma neblina subira do oceano oculto além das colinas e me cercara com seu círculo de fantasmas deslizantes. Naquele nevoeiro enganoso eu me vi perdido e de alguma maneira deixei de perceber o poste de sinalização que me daria a direção da cidade onde eu planejara passar a noite que caía.

Ainda prossegui um pouco, sem rumo, pensando que poderia logo encontrar outra encruzilhada. O caminho que eu segui era pouco mais que uma trilha áspera e estava singularmente deserto. O nevoeiro escurecera e se adensara, obliterando todos os horizontes, mas pelo que eu podia ver aquela era uma região de rochedos e urzes, sem qualquer sinal de cultivo. Cheguei à borda de uma depressão e comecei a descer uma encosta monótona, enquanto a neblina continuava a se adensar com o crepúsculo. Pensei seguir na direção oeste, mas diante de mim, no ocaso baço, não havia sequer o mínimo brilho ou luz ou cor que desse conta do sol afogado. Senti um odor úmido que sabia a sal, como cheiro dos pântanos litorâneos.

A estrada fez uma curva fechada e eu tive a impressão de passar entre baixios e brejos. A noite se acercava com uma quietude quase inatural, como se tivesse pressa de me alcançar, e comecei a sentir uma espécie de preocupação vaga e um receio, como se tivesse me extraviado em regiões mais duvidosas que os campos ingleses. O nevoeiro e o crepúsculo pareciam ocultar uma paisagem silenciosa de mistério frígido, mortífero e inquietante.

Então, à esquerda de minha estrada e logo adiante de mim, vi uma luz que me sugeriu um olho enlutado e lacrimoso. Ela brilhava entre massas fugidias e borradas que eram como as árvores da floresta dos fantasmas. Uma massa mais próxima, quando me aproximei, se revelou uma pequena guarita, tal como a que guardaria a entrada de uma propriedade. Estava escura e parecia desocupada. Fazendo uma pausa para examinar o lugar, vi as formas de um portão de ferro laminado em uma cerca de teixo mal cortado.

Tudo tinha um ar de proibido e de desolação e senti em meus ossos aquele frio inquietante que viera dos pântanos ocultos por aquele nevoeiro lúgubre que me envolvia sempre. Mas a luz prometia proximidade humana naquelas terras solitárias e eu poderia obter abrigo por uma noite ou, pelo menos, alguém que poderia me orientar o caminho até uma cidade ou hospedaria.

Para minha relativa surpresa, o portão estava destrancado e girou para dentro com um rangido enferrujado, como se no tivesse sido aberto desde há muito tempo. Empurrando a minha motocicleta comigo, segui um caminho coberto de ervas em direção à luz. A massa incoerente de uma enorme residência rural se revelou entre as árvores e moitas cujas formas artificiais, tal como a da cerca de teixos rústicos, estavam assumindo um ar mais fortemente grotesco do que o recebido das mãos do jardineiro.

O nevoeiro se transformara em um chuvisco gélido. Quase a tatear pelas trevas eu encontrei uma porta escura, a uma certa distância da janela que deitava a luz solitária. Em resposta às minhas três batidas eu finalmente ouvi o som abafado de passos lentos e arrastados. A porta foi aberta com tamanho cálculo que parecia indicar cuidado ou relutância e vi diante de mim um velho com um candeia acesa em sua mão. Seus dedos tremiam de paralisia ou decrepitude e sombras monstruosas oscilavam no hall escuro às suas costas, tocando suas feições enrugadas como a carícia de asas agourentas de morcego.

— O que deseja, senhor? — ele perguntou.

Embora hesitante e trêmula, a voz não era nem de longe rude e não sugeria uma atitude de suspeita ou de evidente inospitalidade que eu percebera. Senti, porém, uma espécie de irresolução ou dúvida e percebi, enquanto o velho ouvia o meu relato das circunstâncias que me haviam levado a bater à sua porta solitária, que ele me examinava com uma atenção que negava minha impressão inicial de senilidade.

— Sabia que você era um estrangeiro nessas terras, — comentou quando terminei — mas posso lhe indagar o seu nome, senhor?

— Sou Henry Chaldane.

— Não é o filho do Sr. Arthur Chaldane?

Bastante espantado, admiti a paternidade que ele me atribuíra.

— Você se parece com seu pai, cavalheiro. O Sr. Chaldane e John Tremoth foram grandes amigos antes de seu pai emigrar para o Canadá. Não quer entrar, cavalheiro? Este é Tremoth Hall. Sir John não está habituado a receber visitas desde há muito tempo; mas eu vou lhe dizer que está aqui e pode ser que ele queira vê-lo.

Assustado e não de todo agradado pela descoberta de meu paradeiro eu segui o velho até um escritório atulhado de livros cujas encadernações traziam evidências de luxo e de descuido. Lá ele acendeu uma lâmpada de óleo que parecia muito antiga e cujo quebra-luz pintado estava muito encardido, ali ele me deixou só, com os volumes empoeirados e os móveis.

Senti um curioso embaraço, a sensação de ser mesmo um intruso enquanto eu esperava à luz baça e amarelada. Retornaram-me à lembrança os detalhes de uma história estranha, horrorosa e quase esquecida que eu escutara de meu pai nos dias de infância.

Lady Agatha Tremoth, a esposa de Sir John, no primeiro ano de seu casamento caíra vítima de ataques catalépticos. O terceiro ataque aparentemente resultara em sua morte, pois ela não reviveu depois do tempo costumeiro e exibia todos os sinais familiares do *rigor mortis*. O corpo de Lady Agatha fora posto nas criptas da família, que eram de uma antiguidade e extensão quase fabulosas e haviam sido escavadas na colina além da casa. No dia seguinte ao enterro, Sir John, perturbado por uma dúvida insistente e indevida quanto à precisão do veredito médico, reentrara nas criptas a tempo de ouvir um grito e encontrara Lady Agatha sentada em seu caixão. A tampa antes pregada jazia ao chão de pedra e parecia impossível que pudesse ter sido removida pela luta de uma frágil mulher. Porém não havia outra explicação plausível, apesar de que a própria Lady Agatha não tinha mais a esclarecer sobre as circunstâncias de sua estranha ressurreição.

Algo em choque e quase delirante, em um estado de terror extremo que era fácil de entender, ela contou uma história incoerente sobre a sua experiência. Ela não se lembrava de lutar para se libertar do caixão, mas se perturbava principalmente pela lembrança de uma face pálida, horrenda e inumana que vira nas trevas ao despertar-se de seu sono prolongado de quase morte. Fora a visão daquela face, inclinada sobre seu corpo deitado no caixão aberto que lhe fizera gritar com tamanha estridência. A coisa desaparecera antes de Sir John chegar, fugindo depressa para as criptas inferiores, e ela só pudera formar uma vaga ideia de sua aparência física. Pensava, porém, que era branca e enorme, e corria como um animal quadrúpede, apesar de seus membros terem aparência humana.

Esse relato foi tido como uma espécie de sonho, é claro, ou uma criação do delírio induzido pelo choque apavorante de sua experiência, que apagara toda a lembrança de seu verdadeiro terror. Mas a memória da face horrível e da figura parecia obcecá-la o tempo todo e estava claramente carregada de associações de medos incontroláveis. Ela não se recuperou de sua doença, mas viveu em um estado de confusão mental e corporal, vindo a morrer nove meses depois, depois de dar à luz seu primeiro filho.

Sua morte foi uma coisa misericordiosa, pois a criança, ao que parece, era uma dessas monstruosidades espantosas que aparecem, às vezes, nas famílias humanas. A exata natureza de sua anormalidade não era conhecida, embora rumores apavorantes e diversos tenham emanado do médico, das enfermeiras e dos serviçais que a haviam visto. Alguns destes abandonaram Tremoth Hall e se recusaram a voltar, depois de uma breve visão do monstro.

Depois da morte de Lady Agatha Sir John se retirou da sociedade e pouco ou nada se divulgara de seus feitos ou do fado da horrível criança. Dizia-se, no entanto, que esta era mantida em uma sala trancada e com janelas guarnecidas de barras de ferro, aonde ninguém senão Sir John entrava. A tragédia fizera toda a sua vida murchar-se e ele se tornara um recluso, que vivia sozinho com um ou dois serviçais fiéis, permitindo que sua propriedade decaísse atrozmente pelo descuido. Julguei que aquele velho que me deixara entrar era sem dúvida um dos serviçais remanescentes. Ainda estava a me lembrar da terrível lenda, ainda tentando relembrar certos pormenores que me haviam quase fugido da memória, quando ouvi o som de passos que, por sua lentidão e fragilidade, pensei que eram do serviçal que retornava.

Porém eu me enganara, pois a pessoa que entrou foi mesmo Sir John Tremoth. A figura alta e um tanto curvada, a face vincada pelo que bem poderia ter sido o escorrer de um ácido, ele era marcado por uma dignidade que parecia triunfar sobre o duplo ataque da tristeza e da doença. De alguma maneira — embora eu pudesse ter calculado a sua idade real — eu esperara por um velho; mas ele estava pouco além da meia idade. Sua palidez cadavérica e o seu caminhar cambaleante e frágil eram de alguém abatido por uma enfermidade fatal. Suas maneiras, quando se dirigiu a mim, foram impecavelmente corteses e até graciosas. Mas a voz era de alguém para quem as relações e ações ordinárias da vida haviam há muito se tornado sem sentido e superficiais.

— Harper me disse que você é o filho de meu velho colega de escola, Arthur Chaldane. — ele disse — Dou-lhe boas vindas à pobre hospitalidade que eu sou capaz de oferecer. Não recebo visitas há muitos anos e temo que achará a Casa algo tediosa e desagradável e pensará que eu sou um anfitrião indiferente. Mesmo assim deve permanecer, pelo menos por esta noite. Harper foi preparar-nos um jantar.

— O Senhor é muito gentil, — respondi — porém receio que esteja a me intrometer. Se…

— De maneira alguma, — ele negou com firmeza — você será meu hóspede. São milhas e milhas até a hospedaria mais perto e o nevoeiro se tornou uma chuva pesada. Na verdade eu me sinto feliz por tê-lo aqui. Conte-me tudo sobre seu pai e sobre si durante o jantar. Enquanto isso tentarei lhe encontrar um quarto, se puder me acompanhar.

Ele me guiou até o segundo andar da casa e através de um salão alongado com vigas e painéis de carvalho antigo. Passamos por diversas portas que certamente eram de quartos de dormir. Todas estavam fechadas e uma delas estava reforçada com barras de ferro pesadas e sinistras como as de um calabouço. Concluí inevitavelmente que aquele era o quarto em que a criança monstruosa fora confinada e também me perguntei se a anomalia ainda vivia, depois do que deveriam ter sido trinta anos. Quão abismal, quão repelente tinha de ser a sua divergência do tipo humano para que precisasse ser removida imediatamente da vista de outros! E que outras características de seu posterior desenvolvimento poderiam ter tornado necessárias as barras massivas sobre uma porta de carvalho que, por si mesma, já era bastante forte para resistir ao ataque de qualquer homem ou fera comum?

Sem mesmo olhar para a porta o meu anfitrião prosseguiu, carregando uma candeia que quase não tremia em seus dedos finos. Minhas reflexões curiosas enquanto o seguia foram interrompidas de maneira súbita e enervante por um berro alto que parecia vir da porta reforçada. O som era uma ululação prolongada e crescente, que partiu de um tom baixo como a voz sufocada por um demônio em sua tumba, e subiu até abomináveis oitavas transformando-se em uma fúria aguda e rapace, como se o demônio emergisse através de uma série de escadas até sair ao ar. Não era nem humano e nem bestial, era todo preternatural, infernal, macabro; estremeci de um insuportável receio que persistiu mesmo depois que a voz do demônio, tendo chegado à sua culminação, retornara através de degraus inversos ao profundo e sepulcral silêncio.

Sir John não parecera atentar para o som horrendo, em vez disso seguira em frente, sofrendo apenas de sua fragilidade habitual. Chegando ao fim daquele salão ele pausou ante a segunda porta após aquela que ficava selada.

— Permitirei que fique com esse quarto. — Ele disse — Fica logo adiante daquele que eu ocupo.

Ele não voltou sua face em direção a mim enquanto falava e a sua voz era atonal e contida de um jeito anormal. Compreendi com outro tremor que aquele quarto que indicara como o seu ficava adjacente àquele de onde parecera sair a apavorante ululação.

O quarto ao qual ele me admitira claramente não fora usado por muitos anos. O ar estava gélido, estagnado e insalubre, com um cheiro embolorado prevalente. A velha mobília acumulara o incremento inevitável de pó e teias de aranha. Sir John entrou a desculpar-se.

— Eu não me dei conta das condições do quarto, — ele disse — mas vou pedir a Harper, depois do jantar, que dê uma espanada e uma varrida, e que ponha lençóis limpos na cama.

Insisti sem muita convicção que não havia motivo para se desculpar. A solidão inumana e a decadência da velha casa, seus lustros e décadas de abandono e a correspondente desolação de seu proprietário então me impressionaram mais dolorosamente que antes. Não ousei especular muito a respeito do segredo terrível da câmara trancada e do uivar infernal que ainda ecoava em meus nervos abalados. Lamentava o singular acaso que me levara àquele lugar de malignidade e sombras que proliferavam. Tive uma vontade urgente de ir embora e continuar a minha jornada a enfrentar a fria chuva outonal e a escuridão batida de ventos. Mas eu não consegui imaginar nenhuma desculpa bastante aceitável e válida. Evidentemente não havia nada a fazer senão ficar.

Nosso jantar foi servido em uma sala sombria, mas elegante, pelo velho a que Sir John se referia por Harper. A refeição foi simples, mas satisfatória e bem preparada, e o serviço foi impecável. Comecei a pensar que Harper era o único serviçal — uma combinação de valete, mordomo, caseiro e cozinheiro.

Apesar de minha fome e dos esforços de meu anfitrião para me tranquilizar, a refeição foi uma cerimônia solene e algo funeral. Não podia esquecer da história de meu pai e ainda menos conseguia esquecer a porta selada e aquela ululação funesta. O que quer que fosse, a monstruosidade ainda vivia e senti uma mescla complexa de admiração pena e horror ao contemplar a esguia e elegante face de Sir John Tremoth, refletindo sobre o inferno de vida a que fora condenado e a fortaleza aparente com que enfrentara seu inimaginável ordálio. Uma garrafa de xerez excelente nos foi trazida depois. Em torno dela nós nos sentamos por uma hora ou mais. Sir John finalmente falou um pouco sobre meu pai, de cuja morte ele ainda não soubera, e me fez falar-lhe sobre minhas ocupações com a destreza de um homem mundano e bem-educado. Falou pouco de si e nem por indiretas ou entrelinhas se referiu à trágica história que anteriormente esbocei.

Como sou quase um abstêmio e não esvaziei o meu copo com muita frequência, a maior parte daquele vinho pesado foi consumida por meu anfitrião. Por fim ele lhe tocou uma veia de curiosa confidência e ele falou pela primeira vez sobre a doença que era patente em sua aparência. Soube que sofria da mais dolorosa forma de doença cardíaca, angina pectoris, e recentemente se restabelecera de um ataque de incomum severidade.

— O próximo dará cabo de mim, — ele disse — e pode ser a qualquer momento, talvez até esta noite.

Ele fez o comentário com muita simplicidade, como se mencionasse uma previsão do tempo. Então, depois de uma breve pausa, continuou, com mais ênfase e pesando mais o tom:

— Talvez você me ache um esquisitão, mas eu tenho um firme preconceito contra o enterramento ou o sepultamento em um mausoléu. Quero que os meus restos mortais sejam completamente cremados e deixei instruções cuidadosas para que assim seja. Harper providenciará para que sejam cumpridas. O fogo é o mais limpo e o mais puro dos elementos, ele interrompe todo processo maldito entre a morte e o término da decomposição. Não posso suportar a ideia de uma tumba mofada e infestada de vermes.

Ele continuou a discursar sobre o mesmo assunto ainda um pouco, com uma singular elaboração e tensão na maneira como demonstrava familiaridade com tema de sua preocupação, praticamente uma obsessão. Ele parecia possuído de uma fascinação mórbida por isso; havia uma luz dolorida em seus olhos vazios e assombrados e um toque de histeria rigidamente contida em sua voz enquanto falava. Relembrei o enterro de Lady Agatha e sua trágica ressurreição, então os vagos e delirantes horrores das criptas que formavam uma parte inexplicável e algo perturbadora de sua história. Não era difícil compreender a aversão de Sir John ao sepultamento, mas eu mal podia supor todo o terror e o espanto em que se fundava a sua repugnância.

Harper nos deixara depois de trazer o xerez e eu supusera que lhe haviam sido dadas ordens para renovar meu quarto. Esvaziáramos então nossos últimos copos e o meu anfitrião concluíra a sua peroração. O vento, que lhe animara brevemente, começava a silenciar e ele pareceu mais adoentado e macilento que antes. Alegando a minha própria fadiga, expressei-lhe meu desejo de me retirar e ele, com sua cordialidade invariável, insistiu em levar-me ao quarto, para ter a certeza de meu conforto, antes de se dirigir à sua própria cama.

No salão superior encontramos Harper, que mal descera de um lance de escadas que decerto levava a um sótão ou terceiro andar. Ele trazia uma pesada panela de ferro, dentro da qual alguns pedaços de carne restavam, e senti proveniente desta um odor pronunciado e desagradável, quase de putrescência, quando ele passou. Perguntei-me se ele não estivera alimentando a monstruosidade desconhecida e se talvez a sua comida não era entregue através de um alçapão no teto do quarto. O raciocínio era bastante razoável, mas o cheiro dos restos de carne, por via de uma associação literária remota, passara a sugerir-me outros raciocínios que, pelo que parecia, estavam além do reino das possibilidades e da razão. Certas evidências evasivas e incoerentes pareceram apontar de maneira repentina para um todo atroz e repulsivo. Com sucesso incompleto eu me certifiquei de que a coisa que imaginara era inacreditável diante da ciência, uma mera criação da demonologia supersticiosa. Não, não poderia ser… lá na Inglaterra, dentro todos os lugares… aquele demônio devorador de cadáveres saído dos mitos e lendas orientais… o *ghoul*.

Contrariando meus receios, não houve repetição do uivar feroz quando passamos diante do quarto secreto. Mas eu pensei ter ouvido um estalar definido, como o que produziria um grande animal ao devorar sua caça.

Meu quarto, embora ainda estivesse bem sombrio e desagradável, fora aliviado em parte da poeira acumulada e teias de aranha. Após uma inspeção pessoal, Sir John me deixou e se retirou para o seu próprio quarto. Comoveu-me a sua palidez de morte e a sua fraqueza quando ele me deu boa-noite, e senti-me apreensivo e culpado pois talvez o esforço de receber e entreter um hóspede tivesse agravado a terrível doença de que sofria. Pareceu-me detectar verdadeira dor e tormento abaixo de sua cuidadosa armadura de urbanidade, e me preocupou que a urbanidade tivesse se mantido a um custo excessivo.

A fadiga de minha jornada de um dia inteiro, adicionada do vinho pesado que eu tomara, deveria ter feito com que eu dormisse cedo. Porém, embora eu me deitasse com as pálpebras bem fechadas e no escuro, não podia me livrar das malignas sombras, aquelas larvas carnívoras e negras que se reuniam ao meu redor naquela casa antiga. Coisas insuportáveis e proibidas me assediavam com garras imundas, roçavam-me com madeixas ruidosas enquanto eu me agitava através de horas eternas e permanecia deitado a encarar o quadro cinzento da janela encardida pela tempestade. O gotejar da chuva, o sussurro e o lamento do vento, tudo se resolvia em uma algaravia de vozes semiarticuladas que planejavam contra a minha paz e murmuravam nojentamente segredos inomináveis em uma linguagem de demônios.

Por fim, depois do que pareceu o transcurso de séculos noturnos, a tempestade amainou e eu não ouvi mais as vozes equívocas. A janela acendeu-se um pouco na parede negra e os terrores de minha insônia de toda a noite pareceram recuar um pouco, mas sem me trazer o alívio de uma soneca. Percebi um silêncio total e então, dentro do silêncio, um som inquietante, esquisito e débil, cuja causa e localização me confundiram por muitos minutos.

O som vinha, às vezes, amortecido e distante, então parecia aproximar-se até o quarto ao lado. Comecei a identificar algo como um arranhar, tal como o das garras de um animal sobre madeira sólida. Sentado na cama a ouvir atentamente eu compreendi com um novo sobressalto de horror que provinha da direção do quarto selado com barras de ferro. Ele adquiriu uma estranha ressonância, então se tornou quase inaudível, e repentinamente cessou por um instante. Nesse momento eu ouvi um gemido como o de um homem em grande agonia ou terror. Não pude me enganar sobre a origem do gemido, pois viera do quarto de Sir John Tremoth; tampouco tive dúvidas sobre a causa do arranhar.

O gemido não se repetiu, mas o maldito som de garras a arranhar recomeçou e continuou até o amanhecer. Então, como se a criatura que o causava tivesse hábitos totalmente noturnos, o raspar vibrante cessou e não retornou. Em um estado de torpeza e apreensão, grogue pelo cansaço e pela privação de sono, eu o ouvira com ouvidos intoleravelmente aguçados. Com a sua cessação, na madrugada descolorida e pálida, eu me rendi a um sono profundo, do qual os espectros amorfos e abafados da velha Casa não puderam me afastar mais.

Fui despertado por um bater forte em minha porta — um bater que eu até mesmo em meus sentidos confusos de sono pude reconhecer como imperativo e urgente. Deve ter sido já quase ao meio-dia e eu, sentindo-me culpado por dormir tão exageradamente além da conta, corri até a porta e a abri. O velho serviçal, Harper, estava do lado de fora, e as suas maneiras trêmulas e abatidas me contaram antes de sua voz que algo de grande importância ocorrera.

— Lamento informar-lhe, Sr. Chaldane, — ele estremeceu — que Sir John está morto. Não respondeu ao meu chamado usual, então ousei entrar em seu quarto. Ele deve ter morrido hoje pela manhã.

Inexprimivelmente chocado pelo anúncio, lembrei do gemido único que ouvira ao romper cinzento da manhã. Meu anfitrião talvez estivesse morrendo naquele exato momento. Lembrei, também, o pesadelo detestável do arranhar. Inevitavelmente eu me perguntei se o gemido não fora causado pelo medo tanto quanto pela dor física. Teria sido o esforço e a tensão de ouvir aquele som horrendo que causara o paroxismo final da doença de Sir John? Não pude mais ter certeza, mas a minha mente fervia de pavorosas e nojentas conjecturas.

Com as fúteis formalidades que se emprega em tais ocasiões eu tentei prestar condolências ao idoso serviçal e lhe oferecia a assistência que eu poderia dar nos necessários preparativos para a disposição dos restos mortais de seu senhor. Como não havia telefone na casa, voluntariei-me para encontrar um médico que examinaria o corpo e assinaria a certidão de óbito. O velho pareceu sentir alívio e gratidão singulares.

— Agradecido, senhor, — ele disse com sinceridade. Então, como se quisesse se explicar — Eu não queria abandonar Sir John. Prometi-lhe que vigiaria o seu corpo.

Então ele passou a falar sobre o desejo de Sir John ser cremado. Parecia que o baronete deixara instruções explícitas para a preparação de uma pira de gravetos sobre a colina além da Casa, a incineração de seus restos em tal pira e o espargimento de suas cinzas sobre os campos da propriedade. Estas instruções ele compartilhara com o serviçal e lhe dera poder para que fossem executadas o mais brevemente possível após a morte. Ninguém deveria estar presente à cerimônia, exceto Harper e os agentes funerários contratados. Os parentes de Sir John — nenhum dos quais vivia nas redondezas — não deveriam ser informados de seu passamento até que tudo estivesse terminado.

Recusei a oferta de Harper para preparar o meu desjejum dizendo-lhe que conseguiria uma refeição na cidadezinha próxima. Havia uma estranha inquietação em suas maneiras e eu percebi, através de pensamentos e emoções que não devem ser especificados nessa narração, que estava ansioso para começar o seu prometido velório ao lado do corpo de Sir John.

Seria tedioso e desnecessário detalhar a tarde funérea que se seguiu. O pesado nevoeiro marítimo retornara e eu parecia tatear o caminho através de um mundo encharcado, mas irreal, enquanto procurava a cidade mais próxima. Tive sucesso em localizar um médico e também em contratar vários homens para a construção da pira e para servirem de carregadores do féretro. Fui recebido em todo lugar de modo curiosamente taciturno e ninguém pareceu inclinado a comentar sobre a morte de Sir John ou falar sobre as lendas obscuras que eram associadas a Tremoth Hall.

Harper, para meu espanto, propusera que a cremação ocorresse logo. Mas isto se provou impraticável. Quando todas as formalidades e preparações foram completadas o nevoeiro se tornou um aguaceiro firme e duradouro, que impossibilitou acender a pira, e fui obrigado a adiar a cerimônia. Prometera a Harper que eu permaneceria na Casa até que tudo estivesse terminado, então tive de passar uma segunda noite sob aquele teto amaldiçoado e os seus segredos abomináveis.

A escuridão sobreveio prematuramente. Depois de uma visita à cidadezinha, onde obtive alguns sanduíches para Harper e eu comermos em vez de um jantar, voltei à solitária Casa. Fui recebido por Harper junto às escadas e subi até a câmara funerária. Havia uma crescente agitação em seu comportamento, como se algo tivesse acontecido que o assustara.

— Pergunto-lhe se não me faria companhia esta noite, Sr. Chaldane, — ele disse — é uma vigília medonha que lhe peço que compartilhe, também pode ser uma bem perigosa. Mas Sir John lhe agradeceria, tenho certeza. Se tiver uma arma de algum tipo consigo, seria bom trazê-la.

Era impossível recusar seu pedido e eu concordei de imediato. Estando desarmado, Harper insistiu em me equipar com um antigo revólver, cujo par ele mesmo passou a portar.

— Veja cá, Harper, — eu disse com aspereza, enquanto nos dirigíamos até o quarto de Sir John — de que é que tem medo?

Ele estremeceu visivelmente diante da pergunta e pareceu não querer responder. Então, depois de um momento, pareceu compreender que era necessário franqueza.

— É da coisa no quarto fortificado, — ele explicou — da qual já deve ter ouvido falar, senhor. Temos cuidado dela, Sir John e eu, desde há vinte e oito anos, e sempre tememos que escaparia. Nunca nos deu muito trabalho conquanto a mantivéssemos bem alimentada. Mas nas últimas três noites esteve arranhando a espessa parede de carvalho do quarto de Sir John, algo que nunca fizera antes. Sir John acreditava que ela sabia que ele estava por morrer e que desejava chegar ao seu corpo, faminta por uma comida diferente da que lhe vínhamos dando. Eis porque devemos guardar seu corpo durante a noite, Sr. Chaldane. Rogo a Deus que a parede resista, mas aquela coisa continua raspando e raspando, como um demônio, e eu não gosto do som oco que tenho ouvido, como se a parede estivesse agora bastante fina.

Espantado por esta confirmação de minhas conclusões mais repugnantes, não pude responder, pois todo comentário teria sido fútil. Com a concordância explícita de Harper a anomalia adquiria um ar mais sombrio e mais opressivo, de ameaça mais potente e tirânica. Desejei que me tivesse recusado a participar da prometida vigília, mas isto, claro, era algo impossível.

Aquele arranhar bestial e diabólico, mais alto e frenético do que antes, assaltou os meus ouvidos quando passamos pelo quarto reforçado. Facilmente eu compreendi o medo inominável que impelira o velho a solicitar minha companhia. O som estava inexprimivelmente alarmante e irritava os nervos com a sua macabra e sombria persistência, intimado por uma fome monstruosa. Ele se tornou ainda mais claro, com uma vibração horrível e lancinante quando adentramos o quarto do morto.

Por todo o transcorrer daquele dia funeral eu evitara visitar aquele quarto, pois me falta a mórbida curiosidade que impele muitos a contemplar os mortos. Foi só então que eu vi o meu anfitrião pela segunda e última vez. Todo vestido e preparado para a pira, ele estava deitado na fria cama de lençóis brancos, cujas cortinas pesadamente decoradas, haviam sido puxadas para trás. O quarto estava iluminado por diversas velas, arranjadas sobre uma mesinha em curiosos candelabros de bronze, azinhavrados pela antiguidade, mas a luz parecia dar apenas um brilho incerto e doloroso às sombras espaçadas e tristes.

Algo a contragosto eu contemplei as feições do falecido e desviei os meus olhos bem depressa. Eu estava preparado para a palidez petrificada e o rigor, mas não para a transparência completa daquela aversão horrível, aquele terror inumano que corroera o coração daquele homem por tantos anos infernais e que, graças a um autocontrole quase sobre-humano, ele conseguira esconder de quem o visse casualmente em vida. A revelação foi dolorosa demais e não pude olhar de novo para ele. De certa forma ele parecia não estar morto, que ainda ouvia com atenção agonizante os sons horrendos que certamente haviam servido para precipitar o ataque derradeiro de sua enfermidade.

Havia ali várias cadeiras que, tal como a própria cama, datavam do século dezessete, segundo creio. Harper e eu nos sentamos junto à mesinha, entre a cama e a parede de painéis de madeira negra de onde o incessante som de arranhões parecia vir. Em silêncio obsequioso, com revólveres à mão e engatilhados, começamos o velório terrível.

Enquanto ali sentados a esperar, fui levado a imaginar a monstruosidade sem nome e então imagens amorfas ou deformadas de pesadelos carnívoros se sucederam em caótica perseguição em minha mente. Uma curiosidade atroz, à qual eu normalmente seria um estranho, me impelia a indagar Harper; mas eu me continha por uma inibição ainda mais poderosa. De sua parte, o velho não se voluntariou a dar qualquer informação ou fazer qualquer comentário, apenas vigiou a parede com olhos brilhantes de medo que nunca pareciam vacilar apesar de sua cabeça trêmula de senilidade.

Teria sido impossível conjurar toda a tensão inatural, o suspense macabro e a lúgubre expectativa das horas seguintes. A marcenaria certamente era de grande espessura e dureza, tal que desafiava os ataques de qualquer criatura equipada somente de garras ou presas, mas apesar de argumentos óbvios como esse, eu pensei por um momento que ela desmoronaria. O som de arranhar continuava eternamente e parecia crescer a cada instante em minha fantasia febril. A intervalos recorrentes eu parecia ouvir um lamento baixo, aflito e canino, tal como o que produziria um animal faminto que se aproximava do objetivo de suas escavações.

Nenhum de nós falara sobre o que fazer caso o monstro conseguisse o seu objetivo, mas parecia haver um acordo tácito entre nós. Porém, de uma forma supersticiosa de que antes não me cria capaz, comecei a duvidar se o monstro era dotado de humanidade suficiente em sua composição para ser vulnerável a meras balas de revólver. Até que ponto ele exibiria os sinais de sua desconhecida e fabulosa paternidade? Tentei me convencer de que tais questionamentos e dúvidas eram patentemente absurdos, mas fui atraído de volta a eles vezes sem conta, como que seduzido por um abismo proibido.

A noite transcorreu como o fluir de uma torrente escura e preguiçosa e as velas funerais arderam até menos que uma polegada de seus soquetes comidos de azinhavre. Esta foi uma circunstância que, sozinha, deu-me a ideia da passagem do tempo, pois eu mesmo me sentia afogado em uma eternidade preta, imóvel sob horrores rastejantes e fervilhantes. Acostumara-me tanto ao som de raspagem na madeira e este continuara por tanto tempo que comecei a considerar a sua crescente agudeza e cavidade uma mera alucinação, desta maneira foi que o final de nossa vigília chegou ao fim sem aparente aviso.

Repentinamente, enquanto olhava para a parede e escutava com a atenção congelada, ouvi um som áspero e rascante e vi que uma estreita faixa se partira e pendia do painel. Então, antes de poder me recompor ou recobrar a capacidade plena de meus sentidos, um grande pedaço semicircular da parede colapsou em muitas lascas sob o impacto de um corpo pesadíssimo.

Talvez eu seja afortunado por nunca ter podido perceber distintamente a coisa infernal que saiu do painel. O choque visual, pelo seu próprio excesso de horror, apagou quase todos os detalhes de minha lembrança. Mantenho, ainda, no entanto, a impressão borrada de um corpo enorme, branquicento, pelado e algo quadrúpede, com dentes caninos em uma face meio humana e longas unhas de hiena em membros anteriores que eram tanto braços como pernas. Um fedor putrefacto saída da aparição, como o ar da toca de um animal carniceiro, e então, com um só pulo de pesadelo, a coisa estava sobre nós.

Ouvi o estalido rápido do revólver de Harper, agudo e vingativo naquele quarto fechado, mas somente um clique enferrujado de minha arma. Talvez o cartucho estivesse muito velho. De qualquer maneira, mascou. Antes que pudesse puxar o gatilho outra vez, fui atirado ao chão com terrível violência, batendo a cabeça contra a base pesada da mesinha. Uma cortina preta, salpicada de incontáveis fogos, pareceu cair sobre mim e apagar a visão do quarto. Então todos os fogos se apagaram e permaneceu somente a escuridão.

Devagar eu retomei de novo a consciência de chama e sombras, porém a chama era brilhante e rápida, parecendo crescer em brilho cada vez mais. Então os meus sentidos amortecidos e inconfiáveis reviveram com agudeza e claridade pelo cheiro acre de tecido queimado. As formas do quarto voltaram-me à visão e vi que estava deitado encolhido contra a mesa derrubada, voltado para a cama do morto. As velas gotejantes tinham sido arremessadas ao chão e uma delas queimava um lento círculo de fogo no tapete ao meu lado, outra, atirada mais longe, incendiara as cortinas da cama, que cintilavam depressa em direção ao grande dossel. Enquanto eu ainda estava deitado a observar, imensos e rubros farrapos do tecido caíram sobre a cama em dúzias de lugares e o corpo de Sir John Tremoth foi cercado de chamas.

Pus-me de pé cambaleante, ainda tonto e confuso pela queda que me atirara no esquecimento. O quarto estava vazio, exceto pelo velho serviçal, que estava junto à porta, gemendo indistintamente. A porta mesmo estava aberta, como se alguém — ou alguma coisa — tivesse saído através dela durante meu período de inconsciência. Voltei-me para a cama com a intenção instintiva de tentar apagar o incêndio. As chamas se espalhavam rápido, saltavam cada vez mais alto, mas não eram bastante rápidas para ocultar de meus olhos enfermiços as mãos e as feições — se ainda podiam ser assim chamadas — daquele que fora Sir John Tremoth. Sobre o derradeiro horror que lhe sobreviera eu devo evitar mencionar explicitamente e desejaria que também pudesse evitar a sua lembrança. Tarde demais fora o monstro afugentado pelo fogo…

Não há muito mais a contar. Olhando para trás mais uma vez, enquanto me arrastava para fora do quarto tomado pela fumaça, com Harper em meus braços, vi que a cama e seu dossel haviam se tornado uma massa de chamas crescentes. O infeliz baronete encontra em seu próprio quarto a pira funerária por que tanto ansiara.

Era quase aurora quando emergimos da casa condenada. A chuva cessara, deixando o firmamento carregado de nuvens altas e cinzentas. O ar frio pareceu reviver o idoso serviçal e ele se pôs de pé fragilmente diante de mim, sem dizer palavra, enquanto contemplávamos a crescente espiral de chamas que saíam do teto sombrio de Tremoth Hall e começava a deitar um brilho melancólico sobre as cercas malcuidadas.

À luz combinada da aurora apagada e da conflagração avermelhada ambos vimos aos nossos pés as pegadas monstruosas e semi-humanas, com a marca de longas unhas caninas, que haviam pisado há pouco no solo encharcado pela chuva. Elas vinham da direção da casa e seguiam em direção à colina coberta de urzes que se erguia além dela.

Ainda sem nada dizer, seguimos os passos. Quase sem interrupção eles nos levaram à entrada das antigas criptas familiares, à pesada porta de ferro na face da colina, que estivera trancada por toda uma geração por ordens de Sir John Tremoth. A porta propriamente dita estava arreganhada e vimos que as correntes e cadeados enferrujados haviam sido arrebentados por uma força maior que a de qualquer homem ou fera. Então, olhando para dentro, vimos as marcas enlameadas das pegadas que seguiam sem retorno pela escuridão dos mausoléus abaixo, através das escadarias.

Estávamos ambos desarmados, deixáramos os nossos revólveres para trás na câmara ardente, mas não hesitamos por muito tempo. Harper trazia consigo um estoque generoso de fósforos e eu, olhando ao redor, achei um galho pesado de madeira úmida que poderia servir de clava. Em silêncio sério e mudos de determinação, alheios ao perigo, demos uma busca pelas criptas quase intermináveis, riscando fósforo após fósforo a percorrer as sombras mofadas.

As pegadas monstruosas apagaram-se conforme as seguimos até escuros recônditos e nada encontramos em lugar algum senão uma asquerosa umidade e teias de aranha imperturbadas entre os incontáveis caixões dos mortos. A coisa que procurávamos desaparecera completamente, como se tivesse sido engolida pelas paredes subterrâneas.

Por fim retornamos à entrada. Ali ficamos a piscar contra a luz do dia pleno, empalidecidos e descompostos, Harper então falou pela primeira vez, em sua voz lenta e trêmula:

— Há muitos anos; logo depois da morte de Lady Agatha; Sir John e eu exploramos as criptas de ponta a ponta, mas não encontramos nenhum sinal do que suspeitávamos. Agora, tal como então, é inútil procurar. Há mistérios que, se Deus ajudar, não serão jamais compreendidos. Sabemos apenas que a prole das criptas retornou às criptas. Que ali permaneça.

Silenciosamente, em meu coração abalado, ecoei suas últimas palavras e o seu desejo.

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