A Salvação Não Está Nos Outros

Há, sim, momentos na vida de um autor em que ele pensa em desistir. Por uma questão de simples bom senso, esses arroubos negativos não devem ser compartilhados publicamente. Vinícius já dizia que “O homem que diz ‘vou’ não vai, porque quando foi já não quis.” Dizer que quer desistir não é o mesmo que desistir de fato, é apenas um gesto de carência afetiva. Aquele que diz ‘vou’ quer é que alguém lhe diga ‘não vá’. Quer ter a impressão de que a sua […]

Aprendendo a Descascar Alho Sem Ir Para o Inferno

Fiz compras na quinta feira e, por engano, coloquei o alho dentro da geladeira, no compartimento abaixo do congelador. Agora há pouco, procurando onde estava, para preparar o arroz integral que vou congelar para a semana inteira, encontrei o saquinho lá e achei que tinha feito besteira: o alho estava até duro de tão gelado e um dos dentes tinha brotado. Vem cá, alho gosta de clima ultra-frio? Pois bem, hoje tá frio e eu não tinha tempo para esperar o alho esquentar. Olha aqui […]

Literatura de Resistência

Às vezes bate um desânimo grande, a sensação de desperdício de um tempo precioso que poderia ser usado em tantas coisas. Afinal, quem lê e lerá nossos escritos? Para quê eles servem? A sensação de desânimo é parte da psique do escritor em qualquer lugar do mundo, mas é especialmente presente se você é um autor que pratica uma literatura de resistência. Desperdício de tempo é praticamente uma definição abrangente de “arte”, mas isso é mais evidente quando você pratica a sua arte à revelia […]

A Um Amigo que Foi Cedo

Hoje perdi um amigo. Era um sujeitinho peludo e de nariz frio, algo tristonho (talvez de saudades das ruas e das cachorras), mas era um desses que a gente se afeiçoa fácil. Até eu, que nunca tivera nenhuma vontade de ter um. Eu o apelidara de Bob Cachorrovich Viralatov porque o recebi em adoção em uma época em que estava, novamente, tentando aprender russo. Achei apropriado e ele não se importou. Ele não era do tipo que se importava muito. Enquanto houvesse água em sua […]

Antes Que Ele Falasse…

Ah, o velho “abóbora”, nascido em 1982 em São Bernardo do Campo e pintado de verde-claro por fora, forrado de vinil e napa por dentro. O cheiro dos bancos de vinil era inigualável, uma mistura de mofo, pêlo de morcego e perfume entranhado de antigos passageiros. Inesquecível lata-velha com aquele buraco no chão do lado do carona, onde certa vez enfiei o pé durante um exercício romântico. O carro em que era impossível fazer baliza porque só tinha retrovisor de um lado. Aquele carrinho de […]