Milhões de Moscas e o Sentimento do Mundo

A Escritora Cláudia Lemes resolveu cutucar um vespeiro ao acusar a maior parte dos autores da literatura nacional de escreverem livros ruins. Para ela, a falta de sucesso de nossos escritores não se deve somente a um contexto de desvalorização da cultura nacional face a uma verdadeira colonização cultural em andamento, mas, também, à falta de qualidade literária da maior parte do nacional que se publica.

A crítica de Cláudia talvez foi feita de maneira apressada, por ser em uma postagem do Facebook (abaixo reproduzida) e não tenho certeza se ela está preparando uma versão mais elaborada (se estiver, interessa-me ler). Essa pressa e o improviso natural que daí resulta acabaram tornando sua invectiva menos clara do que deveria ser — ou talvez, diferente de mim, ela se importa em economizar no textão. Porém, mesmo assim, há muito pouco o que se pedir dela em termos de esclarecimentos, a não ser, talvez, cobrar-lhe um pouco mais de ousadia na definição do que seria a “qualidade” literária. Suspeito, porém, que ela seria esperta de evadir-se desta armadilha, tal como Jesus se evadiu de definir a “verdade” diante de Pôncio Pilatos.

Esta postagem não é e nem pretende ser qualquer tipo de “explicação” ou reparo ao que Cláudia disse — e com que concordo em essência, embora divirja em detalhes. Em vez disso, essa é a minha tentativa de articular o que eu penso de semelhante, com o intuito de aprofundar o debate.

Precisamos começar observando um fato: o que chamamos de “literatura ruim” tem um sentido diferente conforme a origem. Há formas de ruindade que se referem à essência da obra (aspectos intrínsecos) e outras formas exteriores (aspectos extrínsecos). Há formas de ruindade que são comprometedoras porque são insanáveis e há outras que podem ser consertadas com algum esforço. A ruindade mais desculpável é aquela que se manifesta de maneira mais grave e irreparável. Quando uma obra possui defeitos superficiais, estes merecem uma crítica muito mais acerba do que os profundos porque teria sido fácil eliminá-los e, portanto, sua permanência indica um grau maior de desleixo do que os defeitos insanáveis.

Quando Cláudia diz que os livros que muitos de nós escrevemos são ruins, o que ela decerto quer dizer é que eles não são ruins apenas por contarem histórias tolas ou porque nada acrescentam à cultura do mundo — porque esses defeitos são muito claros na maior parte dos best-sellers internacionais, que ela não só não critica como tolera, ao dizer: “É claro que tem muita gente que se deu bem escrevendo merda, mas é merda que encontrou um público, portanto uma merda relativa.” Portanto, se Cláudia não está criticando os livros essencialmente ruins, qual é o seu alvo?

Em minha opinião, os livros ruins de que ela fala são as obras mal nascidas, mal desenvolvidas e mal editadas que, sob qualquer aspecto de avaliação qualitativa, não mereceriam chegar à prateleira de uma livraria. Acredito que ela se refira a erros gramaticais grosseiros, falhas de construção narrativa, indefinição de público-alvo, linguajar tosco e ausência de característica literária.

Esses erros não decorrem de uma intenção de “escrita simples”. A falta de qualidade não torna um texto mais fácil de ler, assim como o esmero não o torna necessariamente mais difícil. É que em uma cultura problemática como a nossa, afetação linguística passa por qualidade literária, pedantismo é confundido com cultura e tosquice se apresenta como oralidade.

É de se esperar que essas problemas existam em nosso país e que o Brasil tenha menos autores formados que os Estados Unidos, pois os os nossos índices educacionais são piores (e vão piorar, pois esse é o plano) e porque nossa população é menor (apenas dois terços da americana).

Também é de se esperar que os nossos autores escrevam pior em consequência de terem crescido lendo livros piores. Muitos de nossos jovens se formam lendo traduções, nem sempre cuidadosas, de obras estrangeiras. Pior que isso: traduções de best-sellers.

Nossos jovens formados lendo esses livros têm uma espécie de atrofia mental, decorrente de não terem se exercitado na leitura de obras desafiadoras. Você não pode querer que o jovem que sempre andou de bicicleta elétrica e nunca fez ginástica na escola chegue aos dezoito anos tão atlético e saudável quanto o suburbaninho que andava seis quilômetros por dia para ir à escola e ainda ajudava o pai a virar cimento para bater a laje.

Os best-sellers são, em geral, livros para preguiçosos, obras que não obrigam a nenhum exercício e que, por isso, induzem a uma flacidez mental.

Os autores americanos tiveram que passar, no primeiro e no segundo graus, exatamente pelo mesmo tipo de “torturas” por que passamos. Também eles forma “forçados” a ler autores “cabeça”. A diferença é que não se sentiram legitimados a reclamar disso, ao contrário de nós, porque lá, apesar de todos os defeitos do sistema educacional americano, pagar de burro não é chique e dizer-se incapaz de entender um autor é motivo de vergonha, em vez de uma maneira de ganhar curtidas nas redes sociais.

Basta uma rápida pesquisa por “reading syllabus” e começamos a encontrar documentos que atestam o que os estudantes norte-americanos leem durante o período intermediário (equivalente ao nosso “Fundamental”) e superior (equivalente ao nosso “Médio”) de sua educação básica. Há uma variedade de temas, de estilos e de qualidade. Leem autores contemporâneos, autores do século passado, autores do século XIX. Leem americanos, britânicos e estrangeiros traduzidos.

Não é verdade que a culpa de nossos jovens gostarem pouco de ler se deva à escolha dos livros que leem na escola. Não há grande diferença conceitual na escolha das obras que nossos jovens leem. Acompanho a vida escolar de minhas filhas e o que as vejo ler é basicamente a mesma coisa — com a diferença básica de que a nossa escola não pode (ou não deve) trazer obras estrangeiros para dentro da sala de aula. Uma das funções de nosso sistema educacional deveria ser, justamente, formar leitores para os nossos autores. Os leitores de best-sellers já são formados espontaneamente extraclasse.

O que a Cláudia aponta, quando diz que falta “aquele texto gostoso de ler, com estilo próprio, atrevimento e originalidade” é um problema decorrente do fracasso de nosso sistema educacional. Para poder ousar e ter um estilo próprio, é preciso que o autor tenha uma alfabetização completa e uma grande familiaridade com a narrativa que pretende praticar.

Quando ela diz sentir falta das “escolhas espertas de palavras, de novos pontos de vista, de abordagens frescas” ela está justamente aludindo à falta de leitura de que padecem os nossos escritores. Escolhas espertas de palavras só são possíveis quando os autores não só dominam todos os sentidos das palavras, mas também têm o costume de vê-las empregadas em contexto e, isso é essencial, conhecem realmente muitas palavras. Novos pontos de vistas não serão encontrados em autores que leram poucos livros e ainda estão tão presos à sua fascinação por estes que começam uma “fan fic” baseada em seus personagens ou cenários. Novos pontos de vista surgem do confronto de inúmeras experiências.

Claro que existe um problema maior aí: se os nossos autores, mesmo sendo uma minoria da população que se interessa por literatura, padecem desses defeitos porque não tiveram uma educação de qualidade suficiente, qual a capacidade que o restante da população terá para apreciar, ou mesmo entender enquanto informação, uma “escolha esperta” de palavras? A opinião das moscas sobre chocolate ou fezes não tem grande valor para não seja uma mosca. Somos um povo que transformou “textão” em uma espécie de insulto.

Livros ruins sempre existiram, sempre existirão. Mas quando o nível geral de leitura em uma sociedade é bastante alto, os livros que esta considera “ruins” parecerão melhores aos olhos de uma cultura onde o hábito de ler é menos cultivado. Isto explica, em minha opinião, que autores que não são levados a sério nos Estados Unidos, por exemplo o Stephen King, por cá sejam tidos na conta de “mestres” de alguma coisa. Os livros de King são “ruins” enquanto grande literatura, mas bons enquanto entretenimento e matéria para roteiros de filmes. Mas a ruindade de que Cláudia fala desce a um nível mais fundo que esse.

Muitos dos livros “ruins” que fazem “sucesso” no Brasil são piores que os livros “ruins” que formam o gênero best-seller originário dos Estados Unidos e o “sucesso” que fazem é uma ilusão. Existe um limite até onde se pode ir sendo ruim.

Nas Olimpíadas de 2016 houve um nadador etíope que estava significativamente acima do peso, mas ainda assim veio aos Jogos representar seu país por ser parente do presidente da federação etíope de natação. Talvez a Etiópia tivesse alguém melhor preparado que ele, ou pelo menos alguém que não exibisse uma pança tão evidente. Zebras podem ocorrer no esporte, e a própria Etiópia foi protagonista de uma, na maratona das Olimpíadas de Roma, com Abebe Bikila.

Aquele rapaz visivelmente fora de forma ocupou o lugar de alguém que, talvez, não desse um vexame. Sob certo ponto de vista, ele vir às Olimpíadas foi um “sucesso”, pois participou de um evento de que poucos de seu país podem participar. Mas o seu “sucesso” consistiu, basicamente, em ocupar o lugar de alguém que não era parente do presidente da Federação.

Assim como os contatos do nadador etíope não lhe fariam, em hipótese alguma, ganhar uma medalha; os contatos e o dinheiro de um autor de maus livros não o levarão, de forma nenhuma, ao que normalmente se considera o “sucesso literário”.

Enfim, a má qualidade dos livros que fazem “sucesso” não é um argumento em favor da superfluidade da qualidade literária, nem legitima o “gosto” em detrimento de uma apreciação valorativa. Os maus autores têm o poder serem publicados, mas não vão muito longe. Sentem-se superiores porque “publicam e vendem”, como se publicar e vender fosse o objetivo do autor, não da editora.

Quantos desses autores “de sucesso” foram traduzidos lá fora, viram suas obras transformadas em filme ou programa de televisão, caíram no gosto popular, inspiraram música, influenciaram outros autores, foram objeto de estudo acadêmico etc.?

Sinceramente, você conhece alguém que esteja fazendo “fan fic” de Raphael Draccon ou que se inspire claramente em seu “estilo” literário? É muito fácil um bando de sicofantas interessados em cultivar boas relações elogiar um autor que detém poder no mercado literário a fim de gravitar em torno dele e buscar algum benefício. Difícil é algum desses autores realmente se identificar com suas obras e tratar delas com a reverência que um autor realmente grandioso tem. Gente, eu conheço quem imite a escrita de Chico Buarque (e ele nem é um escritor de primeira linha).

Alguns desses que se apresentam como autores profissionais são moedeiros falsos: o que realmente vendem não é literatura, mas um acessório.

Até que ponto se tornar coach de “novos talentos” e explorar a credulidade alheia em inumeráveis oficinas de “escrita criativa” é uma medida de profissionalização do autor? Será isso mesmo uma forma de sucesso, ou será, de fato, um atestado do fracasso de uma literatura decadente, dominada por nichos de poder, autofágica e obscurantista, na qual os jovens (cegos pela inexperiência e má formação) são guiados por cegos iguais (apenas envelhecidos)?

Não seria mais óbvio que o sucesso do autor fosse medido pela qualidade e o alcance de sua obra, em vez de uma atividade acessória?

Até que ponto é válido aceitar que esses autores reivindiquem indevidamente um sucesso enquanto autores apenas porque fazem algo tangencial à escrita? Há quem diga que “acreditar-se bem sucedido” é uma atitude “positiva” que é prenúncio do sucesso real. Eu acredito que todo autor de autoajuda deveria ser queimado na estaca.

Acreditar-se não equivale a ser. Um mundo cheio de pessoas que se acreditam bem-sucedidas não é um mundo cheio de gente de sucesso, mas um mundo cheio de idiotas desconectados da realidade. Achar-se é uma forma triste de autoengano, que mantém o indivíduo preso a expectativas irrealizadas ou até irrealizáveis, enquanto o impede de melhorar de fato, por crer que já alcançou o seu galardão.

É por causa desse discurso bonitinho de autoajuda que se tornou tão fácil cobrar dos bobos por palestras nas quais basicamente se diz que pagar para ouvir palestras não é uma coisa boba.

Muitos escritores e pretensos escritores que conheço estão presos a esse modelo mental fofucho. Eles não se preocupam em escrever melhor, porque acreditam que o sucesso também pode chegar para os autores ruins. Isso equivale a dizer que eles pensam que o sucesso é algo aleatório e que não tem nada a ver com o trabalho, mas com “pensamento positivo” e “merecimento”.

Que melhor discurso poderia haver para confortar gente que não foi preparada para escrever direito nem uma redação do ENEM, mas quer, por algum motivo, ser um autor “de sucesso”?

Fica ainda melhor quando aqueles que se esforçam por melhorar são tachados de “orgulhosos” que se creem superiores aos outros; ou quando o foco na produção literária é visto como algo ruim, pois impede um esforço de “divulgação” e de “relacionamento” — coisas que, diga-se de passagem, são obrigação do autor, esse arrombado, e não da editora e nem do agente, né?

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