O Dia em Que Anna Maria Machado Virou Ozzy Osbourne

Somos ainda um país em luta contra uma limitação incapacitante de nossa cultura: nosso difícil relacionamento com o conhecimento de uma maneira geral e com a palavra escrita de forma particular. Este autor já se aventurou, em vários momentos, a comentar manifestações dessa relação conflituosa do brasileiro médio com os elementos característicos da cultura formal. Não espero que você leia todas as iterações anteriores do debate, mas as hiperligações para as postagens transversais ao assunto estão ao final.

Esta postagem é sobre mais uma polêmica envolvendo livros, refiro-me ao pânico moral criado por uma mãe a respeito de um livro escrito por Ana Maria Machado, uma respeitada escritora brasileira, que dedicou uma vida inteira à literatura infantojuvenil e é conhecida e celebrada em vários países inclusive. Também é sobre uma profunda mudança cultural que aconteceu no mundo inteiro, e no Brasil em particular, nos últimos trinta anos: a transição da juventude de uma postura questionadora e uma receptora.

Autora do Mal

Alguém já disse que “os filhos de hoje são mais caretas que os pais”. Esta não é uma situação nova, ela se revelou nos últimos trinta anos, quando os herdeiros da geração roqueira dos anos 60 e 70 começaram a chegar à idade adulta e a ter os seus filhos. Paulatinamente, a rebeldia passou a ser vista uma coisa “de velho”, hábito de seus avós. Os yuppies dos anos 80 foram a primeira geração surgida em contraponto à “cabeça aberta” dos hippies. Nos anos 1990 o rock começou a morrer como elemento da cultura pop — e isso aconteceu, basicamente, porque as novas gerações não desejavam ter o mesmo gosto musical de seus pais e avós. Ainda que este seja um desejo legítimo para a construção da personalidade dos jovens, e ele é, o espaço aberto pela deposição do rock de seu trono foi avidamente ocupado por uma música muito mais comercial e muito menos “aberta” a novos comportamentos, atitudes e, especialmente, questionamentos.

Isto aconteceu porque a geração dos anos 1990 não criou um movimento cultural para ocupar o lugar do rock, apenas adotou, em sequência, diferentes estilos de música comercial, oferecidos pelo mercado mainstream. Obviamente, o mercado de música comercial, controlado por empresas cada vez mais monopolizadoras e com margens cada vez mais estreitas, devido ao impacto das tecnologias digitais, levou a uma atitude conservadora.

Os anos 2000 e 2010 consagraram esse conservadorismo, no qual só há espaço para replicar as fórmulas que já deram certo e onde o novo é descoberto por acidente, nunca pela experimentação deliberada. Um mundo no qual um pequeno número de compositores e produtores musicais produz a maior parte da música pop. A música “quadrada” ritmicamente corresponde a mentes que também “quadradaram”.

Nesse estilo de música comercial, que, sob o impacto das mídias digitais, pretende ser “interativo”, é comum, na verdade, normal, que os artistas interajam com o público dizendo-lhe o que fazer. “Tira o pé do chão”, “Todo mundo comigo”.

Os jovens de hoje estão acostumados a fazer o que seus ídolos mandam. Isso é muito diferente dos anos 60 e 70. Os jovens seguiam as atitudes de seus ídolos, não as suas ordens. Se, eventualmente, algum jovem cortava o cabelo semelhante ao dos Beatles, ele o fazia por sua escolha, para seguir um estilo. Ainda que houvesse pressão para “entrar na moda”, em última análise, sempre era possível não o fazer ou, ainda, ser diferente, porque nunca o rock’n’roll se caracterizou por oferecer um padrão único, ou mesmo predominante, quer de comportamento quer de atitude. A essência da cultura “roqueira” sempre foram as “tribos”, cada uma com seu subgênero musical, um estilo de cabelo, uma atitude, gírias peculiares e certas preferências artísticas ou culturais. Tanto assim que, pelo modo como se vestia e arranjava o cabelo, era possível ter uma ideia aproximada da música que um jovem escutava. Um metalhead era diferente de um fã de rock progressivo, ou de um punk.

Isto ainda existe no mundo de hoje, mas a relação dos jovens com os seus ídolos não é mais meramente a imitação da atitude ou o compartilhamento de valores: estão acostumados a segui-los mais diretamente porque estes “falam” mais. Eles estão sempre na televisão, falando sobre aquilo de que gostam, quais causas apoiam e onde preferem ir. Quando os “artistas” se tornam celebridades, a música fica até em segundo plano. Quando se unem em torno de coisas, como, por exemplo, o “Criança Esperança” ou algum “Teleton”, usam sua imagem para levar os jovens a doar dinheiro, tal como, em seus shows, induzem os fãs a cantar, gritar, pular ou acenar em certos momentos. Qualquer efeito positivo que tais doações possam ter para a causa apoiada é eclipsado, a longo prazo, pelo lado negativo de acostumar a juventude a seguir instruções de gente mais velha e, especialmente, aquelas contidas em elementos de cultura pop, como letras de música.

Há uma piada recorrente nas redes sociais segundo a qual as gerações anteriores aos anos 1990 não precisavam que alguém lhes dissesse que não se deve martelar a cabeça de alguém, tal como fazem personagens como Pica Pau, Papa Léguas, Tom & Jerry e outros. Havia o conhecimento tácito de que os desenhos animados não representavam a realidade, mas um mundo de fantasia, no qual bichos falavam, havia uma abundância de bigornas, o correio entregava tudo instantaneamente e os personagens só caíam no abismo depois de perceberem que estavam andando pelo ar. As crianças não se identificavam com aqueles personagens porque não eram humanizados.

Há que se notar que, quando os desenhos animados eram feitos com personagens humanos (Johnny Quest, por exemplo) tomava-se um grande cuidado com a verossimilhança e com as consequências dos atos destes. Se algum personagem tomasse um tiro, sentiria dor, sangraria, talvez morresse, talvez tivesse de deixar a história. Isso ajudava a educar as crianças para as diferenças entre um mundo puramente imaginário, como o do Papa Léguas, e um que, mesmo ainda fictício, obedecia a pelo menos uma parte das regras que regem o real. A menos que um personagem fosse claramente definido além dos limites da humanidade, como os super-heróis, que, a bem da verdade, existem em um universo quase tão fantástico quanto o de Tom & Jerry.

Por causa da noção tácita de que certos desenhos eram meramente imaginários, as crianças não supunham que seria uma boa ideia martelar a cabeça de alguém ou tentar serrar ao meio seu animal de estimação. Raros casos tais que aconteceram não se deveram à influência dos desenhos, mas a problemas psiquiátricos da criança em questão.

Por causa da percepção de que os elementos ficcionais de certos desenhos ainda não os afastavam totalmente da realidade, mesmo em histórias de super-heróis, as crianças sabiam que atirar em alguém era ruim, que cair de prédios era perigoso e que somente o Super-Homem voava, porque o que lhe dava poder não era ter uma capa vermelha, mas a sua origem.

Uma das razões pelas quais as crianças conviviam bem com esse tipo de diversão infantil, em que personagens batem em outros com bigornas, era que elas sabiam que os adultos eram capazes de mentir. Educadas a partir de histórias fantasiosas e desde cedo acostumadas a rir de contos envolvendo animais falantes, anões, bruxas e outros elementos; as crianças eram capazes de entender o conceito de ficção e de reconhecer o valor de divertimento que existe em se contar óbvias mentiras. As crianças não passavam a desconfiar de seus pais por causa dessas mentiras, mas entendiam que existem verdades e mentiras no mundo e que, tal como há algumas que são óbvias, como Tom & Jerry, podem haver outras sutis. A evolução desta capacidade de conviver com uma realidade em que alguns elementos são inventados e outros são reais correspondia à formação intelectual da criança em seus primeiros anos de vida. Nenhuma criança chegava aos sete anos imaginando que era Johnny Quest, no máximo que desejava ser como Johnny Quest. Obviamente, as crianças não achavam que eram o Pica Pau e nem queriam ser o Jerry.

O mais importante disso tudo era que a criança praticamente se formava plenamente dotada da capacidade de conceber a ficção como algo lúdico. A mentira, quando não utilizada para enganar e tirar vantagem dos outros, pode ser uma maneira de arrancar boas risadas ou de nos fazer sonhar com mundos diferentes deste cinzento em que vivemos.

Talvez os livros escritos para essas crianças já não funcionem com as de hoje. O defeito não está nos livros terem envelhecido mal, está em termos educado mal a duas gerações de crianças, que agora cresceram sem essa visão lúdica, que se tornaram adultos “defeituosos”, incapazes de ver a mentira como uma diversão inconsequente. Esses jovens, que se tornaram pais sem terem experimentado o prazer de ver um rato desenhado martelar a cabeça de um gato idem, agora não conseguem compreender a literatura que eles não leram quando poderiam ter lido. Esses pais estão repassando aos seus filhos a limitação intelectual de não conseguirem “curtir” a fantasia como algo neutro.

Os desenhos antigos, episódios curtos e histórias fechadas, saíram da televisão nos anos 1990. Foram substituídos por outros; que não apenas são mais bem feitos (portanto, dão realismo maior a coisas que são apenas fantasias); mas costumam contar as tramas em longos arcos com dezenas de episódios, sendo frequente que os acontecimentos de um episódio repercutam por toda a série. Este formato “novelesco”, a que se convencionou chamar de “saga”, dá ao desenho um grau de “seriedade”. As crianças não estão acostumadas com a ideia de que se pode jogar uma bigorna no coiote no episódio de hoje e ele ainda estará, lépido e fagueiro, perseguindo o mesmo papa-léguas no de amanhã.

As crianças acostumadas a esses desenhos foram condicionadas a buscar, sempre, uma relação de causa e consequência nas histórias. Elas não querem que haja “furos” de roteiro, elas buscam “teorias” que expliquem relações entre personagens, até de filmes diferentes (como as que ligam dois da Disney, “Rapunzel” e “Frozen”). A fantasia a que se acostumaram é limitada, portanto, castradora. Por isso enxergam relações de causa e efeito nas atitudes dos personagens dos livros do passado, assim como veem como “furos de roteiro” os retornos do coiote depois de aplastado pelo fracasso de seu último grande plano.

Nem é preciso dizer que esse condicionamento intelectual das crianças aconteceu porque foram criadas mais pela televisão e pelo cinema do que pela literatura. A literatura é uma criadora de mentes livres, enquanto a televisão e o cinema são ferramentas eficazes de lavagem cerebral. Para muitas pessoas, a televisão é uma diversão ideal para seus filhos, porque não tem custo perceptível. Diferente dos livros, que sempre precisam ser adquiridos, que são danificados pelo uso e cujo armazenamento requer espaço, a televisão é um investimento fixo, que ocupa um lugar determinado e que sempre apresenta conteúdo “novo”, sem que seja preciso comprar novos exemplares. Especialmente as famílias mais pobres, para quem o custo de aquisição de livros sempre foi proibitivo, a televisão se instalou na sala como uma verdadeira “babá eletrônica”.

Isto afastou as crianças da literatura ainda mais. Os livros passaram a ser vistos como uma chateação necessária para se vencer a educação escolar. Meramente isso. Como a maioria das crianças nunca tinha a possibilidade de possuir livros em casa, e seu contato com eles se dava só na escola, dentro de sala ou na biblioteca, o passo natural era que os associassem à educação. Isso tornou ainda mais difícil que concebessem a leitura como algo lúdico. Aqui nos aproximamos do momento em que Ana Maria Machado, doce autora de livros infantis, recebe a mesma acusação que um dia foi impingida a Ozzy Osbourne e Alice Cooper, cantores de rock de aparência grosseira e atitudes vulgares.

Se a leitura é algo que somente ocorre como parte do processo educacional, disso se conclui que sempre tem caráter didático. Portanto, todo o conteúdo do livro que a criança lê deve ser visto como ensinamento. Obviamente, sob este prisma, se o livro narra que uma criança, ao desmaiar em um acidente, tem visões daqueles personagens que havia anteriormente criado em sua imaginação, isto só pode significar que ali se ensina a buscar o suicídio como um meio de alcançar o mundo da imaginação! Não é um raciocínio perfeito? Como ninguém pensou nisso antes? Ninguém pensou nisso antes porque, quando Ana Maria Machado publicou o livro originalmente, a nossa sociedade ainda não era doente o bastante para imaginar que a leitura serve apenas para ensinar. Porque, naquela época, as crianças tinham certa sofisticação intelectual que lhes permitia discernir o real do abstrato, o fantástico do concreto.

Desta forma, duas gerações de pais que não leram, em uma cultura já atavicamente avessa à leitura, tiveram o condão de criar pessoas para quem a literatura que nos resta é algo que não pode dar prazer e para quem os livros são dotados de autoridade intrínseca. Essa gente, acostumada a pular quando o cantor manda que pulem, pensa que seus filhos se matarão caso encontrem em um livro um personagem que se mata, ou que meramente alucina durante um desmaio. Estão de tal forma condicionadas a obedecer comandos, explícitos ou não, originários de fontes impessoais e distantes, que acreditam que seus filhos os obedecerão também. Isto coincidiu, também, com a introdução em nossa cultura da religião protestante evangélica e sua obsessão pela Bíblia, o livro cujo conteúdo é todo ensinamento e que, teoricamente, deve ser seguido por todo cidadão (embora, de fato, os que mais o apregoem sejam os que menos o seguem).

A Bíblia é o livro mais “lido” pelos brasileiros.Não haveria nisso problema se o brasileiro lesse mais. Como lemos pouquíssimo, a maioria dos leitores da Bíblia pouco ou nada leram além dela. Devido à relação natural de respeito entre o fiel e o seu livro sagrado, cria-se instintivamente outra, idêntica, entre o leitor e qualquer livro. Não que este pense agir conforme obras não sagradas, mas que imaginará que estas também estão repletas de “ensinamentos”. Então, quando se deparar com um personagem fazendo qualquer coisa que não aprove, concluirá que o livro tem por objetivo ensinar aquilo. Não lhe ocorrerá que aquele elemento pode ser apenas um entre muitos de uma história e que a sua recorrência apenas reflete a busca de realismo, ou uma tentativa de caracterizar o personagem. Não custa lembrar que Satanás não aparece diretamente na Bíblia, portanto, os leitores de Bíblia não estão acostumados, tampouco, à ideia de que os livros possam ter antagonistas, narrados e detalhados em oposição ao protagonista.

Se nós não desejamos que o nosso país se perpetue como uma nação de estúpidos, é preciso, urgentemente, que recuperemos a alegria de ler — e ler irresponsavelmente. Temos uma tradição literária extraordinariamente rica e uma língua muito apta a cultivá-la. Não é possível que reduzamos todos os séculos de evolução da arte das letras aos “paradidáticos” e aos best-sellers. Se não permitirmos que os nossos filhos compreendam que a leitura é um jogo, que pode ser uma fonte de prazer, então os nossos netos estarão ainda mais lobotomizados e será ainda mais difícil aproximá-los de nossa literatura, que é parte da alma de nossa cultura.


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One thought on “O Dia em Que Anna Maria Machado Virou Ozzy Osbourne

  1. Ótima análise! E dói pensar que as crianças de hoje (e algumas, ou muitas da minha geração – tendo crescido nos anos 90) não sabem o prazer de pegar num livro infantil e passar horas deitada no chão com ele, de vez em quando parando para perguntar à mãe ou qualquer outra pessoa presente “o que é isso?” ao ver uma palavra nova. Eu não tenho e não terei filhos, mas espero que o que os tiverem ou terão pensem em introduzir novamente o livro no ambiente doméstico como mais um ‘brinquedo’ para as crianças se divertirem.

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