Vampiros e Lobisomens

Uma dúvida frequente entre os fãs de fantasia é quão relacionados são os mitos do vampiro e do lobisomem. O que têm em comum? Onde surgiram? Quais eram as principais diferenças entre os dois quando surgiram em suas versões originais?

Os dois mitos têm, na verdade, origens bem diferentes, mas eles se influenciaram mutuamente em certa época, a ponto de, por muito tempo, ambas as criaturas serem entendidas mais ou menos como a mesma coisa.

O Lobisomem

O mito do lobisomem tem origem indo-europeia e é uma das criações mais antigas da humanidade. Versões dele existem em diversas culturas muito antigas, como a grega, a romana e a hindu. Mitos relacionados existem em outras culturas, envolvendo outros tipos de animais: homens-hiena  na África, homens-lobo e homens-tigre na Índia, homens-jaguar e homens-puma entre os Ameríndios. Especificamente a versão homem-lobo é de origem indo-europeia porque se acredita que os antepassados dos indo-europeus viveram nas estepes da Europa Oriental, região onde os lobos existiam, e sofreram por muitos séculos com os ataques desses animais, sendo que o lobo negro europeu é o maior canídeo do mundo.

Os gregos chegavam a ter um deus-lobo, Zeus Liceu. Os romanos tinham a deusa-loba da realeza etrusca, que amamentou Rômulo e Remo, os fundadores da cidade. Ser transformado em um lobo, porém, ou em qualquer fera, era um tipo incomum de suplício. O lobo era “o outro”, não o homem. Duas lendas gregas, porém, divergem deste padrão: Damarco e Licaão, ambos pertencentes à mitologia da Arcádia, região da Grécia que era habitada a mais tempo e que preservava os costumes dos aqueus.

Damarco foi um pugilista grego que se vangloriava excessivamente de sua força combatia seus adversários com muita ferocidade. Certa vez, durante a cerimônia de abertura das Olimpíadas (ou durante um festival religioso de sua terra, a Arcádia), ao fazer o sacrifício a Zeus Liceu, o deus de seu clã, transformou-se em um lobo e vagou por nove anos pelas florestas da Arcádia, somente retornando à forma humana quando já estava muito velho para competir. A moral da história de Damarco é que o homem não deve se tornar excessivamente violento, nem mesmo em uma atividade na qual a violência é socialmente aceitável, ou estará voltando à animalidade.

Outra lenda antiga é a de Licaão, o rei de uma cidade da Arcádia que tentou se exibir diante de Zeus de uma maneira especialmente repulsiva. Quando Zeus chegou ao seu palácio, disfarçado como um profeta ambulante, Licaão o reconheceu e o fez prometer que cearia no palácio aquela noite. Para a ceia, Licaão e sua mulher mataram e cozinharam o próprio filho, Níctimo, e o serviram a Zeus, duvidando que ele fosse capaz de adivinhar que carne era aquela. Zeus obviamente adivinhou e condenou Licaão e toda a sua família. Níctimo foi ressuscitado (um “morto-vivo”), mas, ignorando a causa da maldição de sua família e enlouquecido pelo trauma, passou a imitar o comportamento dos lobos, até que lhe foi concedido transformar-se em deles em certas ocasiões, para poder reencontrar seus irmãos.

Outra evidência da antiguidade do mito é a lenda de Rômulo e Remo. Os gêmeos fundadores de Roma foram amamentados por uma loba, símbolo da realeza etrusca, o que lhes deu a ferocidade e os instintos dos lobos. Quando adultos, durante a fundação de Roma, os dois competiram pela primazia e Remo, zombeteiro, saltou sobre os muros que Rômulo construíra para a cidade. Rômulo o matou, ali mesmo, para preservar o respeito dos homens que se haviam juntado ao grupo.

O mito do lobisomem é uma alusão, portanto, ao homem (notemos isso) que se comporta de maneira violenta e instintiva.

O Vampiro

O vampiro é também um mito de origem grega. Sua primeira versão é a lenda de Lâmia, rainha da Líbia, que se tornou amante de Zeus. Diferente de outras, que eram tomadas à força ou mediante engano, Lâmia percebeu que se tratava do rei dos deuses, entregou-se voluntariamente a ele e o procurava, pois desejava ser a mãe de um semideus.

Isso atraiu a fúria de Hera, rainha dos deuses. Impotente contra o próprio Zeus, Hera amaldiçoou Lâmia fazendo com que todos os seus filhos nascessem mortos. Por fim, Lâmia fugiu para uma caverna, onde pretendia ter uma criança em paz. Os sátiros ocultaram sua filha, Líbia, que sobreviveu à ira de Hera, mas a deusa a encontrou e lhe impôs um castigo ainda maior, transformando-a em um monstro horrível e impedindo-a de dormir, para que sempre se lembrasse dos filhos mortos, e com insaciável apetite por carne humana.

Aqui temos o embrião de várias características dos vampiros: ativos durante a noite, monstruosos e incapazes de gerar filhos.

Versões posteriores da história falavam de viajantes comidos por Lâmia, que, após sua transformação em monstro, fora abandonada por Zeus. Lâmia falava aos transeuntes com voz doce e lhes mostrava os seios. Eles a seguiam e eram mortos. Quando Lâmia matava uma mulher, na falta de homem para saciar sua fome, ela não devorava a carne, mas apenas sugava o sangue. Isso as mantinha vivas, mas as transformava em monstros sugadores de sangue também.

Na Idade Média as lâmias (agora uma categoria de monstros, não mais um indivíduo) passaram a ser vistas como um tipo de demônio predador sexual (além dos súcubos e dos íncubos).

O surgimento dos mitos modernos

O mito do lobisomem evoluiu, na Europa Ocidental, a partir do mito original de Licaão e de alguns mitos escandinavos que falavam de seres humanos que se transformavam em animais pela sua vontade. A palavra “lobisomem” é uma tradução decalcada do germânico antigo *wer-wolf (homem lobo), de que deriva o inglês werewolf. Esse termo era usado entre os anglo-saxões e os germânicos meridionais em um sentido análogo ao do termo berserkr (“vestidos de urso”) dos escandinavos: guerreiros extremamente ferozes que, devido ao desespero de sua causa, se comportam como animais no campo de batalha, dispostos a matar e morrer. Nesse sentido é que as tropas de guerrilha alemãs que lutavam contra os soviéticos na fase final da II Guerra eram chamadas de Werwolf .

Mas o vampiro moderno é diferente. Ele é resultante da superposição das características da lâmia e do licantropo (ambos mitos helênicos) a um outro ser folclórico, esse de origem eslava, o upyr — também chamado de vrykolakas (em grego).

No folclore balto-eslavo, os upyr eram um tipo de fantasma que atravessava a fronteira da vida para devorar as almas dos pecadores. Esse ser passou por muitas versões até chegar aos Bálcãs, levado pelos invasores eslavos no século X. Ali recebeu alguns elementos do mito original de Licaão: os upyr seriam os fantasmas de pessoas especialmente más e teriam um prazer em devorar também a carne e o sangue, não somente as almas, de todos os vulneráveis, não somente dos pecadores (lembremos que Níctimo era uma criancinha e ainda assim foi corrompido pelos acontecimentos e transformado em um monstro).

Esse é o ponto em que os mitos se encontram ou, melhor, se aproximaram.

No século XVIII, época em que a Áustria conquistou parte da região dos Bálcãs, houve uma grande histeria ligada aos upyr nas cidades civilizadas, como Viena e Paris, por causa de uma obra chamada De Masticationes Mortuorum in Tumulis (Sobre a Alimentação dos Mortos nos Túmulos), de Michaël Ranft, um viajante que documentou os costumes dos eslavos dos Bálcãs na região onde hoje fica a Croácia e descobriu que certas pessoas eram enterradas com estacas cravadas no coração, porque o povo queria evitar que voltassem do túmulo como upyri para devorar os vivos. Quando houve o enterro de um homem chamado Peter Poglojowitz, sem esse cuidado, houve grande histeria entre o povo, e posteriormente o cadáver foi exumado para ser mutilado, e descobriram nele certos “sinais” de que ele teria “se alimentado” da carne e do sangue de vivos (havia sangue saindo da boca do cadáver e a sua barriga estava “cheia”).

Masticationes Mortuorum e o episódio de Peter Poglojowitz fundaram o mito do vampiro moderno. A partir daí a palavra upyri (originalmente um plural) entrou nos idiomas principais da Europa, modificando-se até se tornar vampyre (o “y” só foi alterado muito depois). No início do século XIX o termo já era corrente em inglês, mas ainda descrevia um monstro cadavérico e fedido, mais próximo de um zumbi que de Edward Cullen.

Foi então que surgiram três obras que “enobreceram” o vampiro:

  • The Vampyre, de John Polidori, deu-lhe uma origem nobre e uma aparência humana próxima do normal.
  • Carmilla, de John Sheridan Le Faunu, incorporou-lhe alguns elementos do mito da lâmia, como o caráter sensual e sedutor através da nudez.
  • Drácula, de Bram Stoker, deu-lhe os poderes vampíricos tradicionais (entre os quais a transformação em lobo, mas ainda não em morcego).

Foi mais ou menos nessa fase que se convencionou que o lobisomem é um ser humano vivo, mas amaldiçoado, e o que o vampiro é um cadáver redivivo.

O lobisomem é animalesco, o vampiro é sobrenatural.

O lobisomem come carne, o vampiro bebe sangue.

O lobisomem apavora, o vampiro seduz — exceto quando quer afugentar alguém.

O lobisomem enquanto humano, é um humano com qualidades superiores às do humano normal (resistência física, faro, audição), enquanto o vampiro, quando inativo, é um cadáver inerte.

Os dois tipos de lobisomens

Há que lembrar, também, que existem duas diferentes tradições contemporâneas do lobisomem, a que vou chamar de werewolf e lobizón.

O lobisomem dos filmes, o humano que se transforma em uma fera e come carne é o werewolf de origem germânica e que incorpora elementos do mito de Licaão.

O lobisomem da tradição ibero-americana não tem esses elementos germânicos. Ele é mais próximo do mito original de Licaão: ele é o “sétimo filho” (às vezes exacerbado como o “sétimo filho de um sétimo filho”), assim como Níctimo.

A maldição do lobizón é mais cruel e não tem nenhuma vantagem: toda noite de lua cheia (e toda noite, durante a quaresma) ele vaga pelo mundo, percorrendo sete encruzilhadas, sete cemitérios e sete cruzeiros (uma alusão à perambulação de Níctimo procurando sua família amaldiçoada). Sua transformação consiste em espojar-se na poeira em uma encruzilhada, à meia noite, quando começa a “correria”, e achar-se desmaiado e nu, em qualquer lugar, quando o galo canta pela última vez antes do sol despontar. Ele sempre desperta nu (portanto vulnerável), exausto e sujo.

Durante a “correria” o lobizón não busca comer ninguém, mas pode atacar e matar quem esteja em seu caminho, especialmente quem tente impedir sua correria.

A mula sem-cabeça

Outro mito muito relacionado ao do lobizón é a mula sem cabeça. Embora sua origem seja distinta (originalmente a mula era uma mulher insubmissa, lésbica ou sexualmente promíscua, que concordava em manter relações com um padre), a mula “corre” de maneira a espelhar o lobizón: ela corre nos domingos à noite, após a missa, e percorre sete encruzilhadas, sete cemitérios e sete cruzeiros.

Diferente do lobizón, que faz uma correria cega, em busca de algo, a correria da mula tem um simbolismo:

  • Ela percorre sete encruzilhadas em alusão às escolhas erradas que fez na vida.
  • Percorre sete cemitérios para lembrar-lhe que um dia morrerá e terá de prestar contas de seus pecados.
  • E percorre sete cruzeiros para lembrar-lhe que ainda pode se arrepender e salvar a sua alma.

Percebe-se que a mula é um mito cristão (católico) criado a partir de elementos originários de um mito pagão (o lobizón).

Uma curiosidade: a crendice no lobizón era tão forte na Argentina que até recentemente era costume o presidente da República se tornar padrinho dos sétimos filhos das famílias pobres e pagar os seus estudos, como uma forma de impedir o infanticídio (e para que as famílias continuassem a gerar filhos e popular o país).

Conclusões

Lobisomens e vampiros tem origens diferentes, mas ambas relacionadas à Grécia. O primeiro teve forte influência germânica durante a idade média e o segundo, uma influência eslava significativa. Em essência, são duas criaturas diferentes e opostas.

Há, porém, dois tipos de lobisomem, conforme predomine a influência germânica ou a mediterrânea sobre os elementos do mito.

A mula sem cabeça é um ser mitológico criado mais recentemente para ser uma versão feminina do lobisomem, com o objetivo de servir de conto moral sobre o celibato clerical e a vida sexual das mulheres.

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