A grande mudança de paradigma

Como Marshall McLuhan explica a degeneração da vida política do ocidente iluminista.

O mundo inteiro está sofrendo, desde mais ou menos a época da Segunda Guerra Mundial, uma profunda mudança de paradigma cultural, ao fim da qual o ser humano como conhecemos deixará de existir. Caso a própria humanidade ainda exista dentro de cem anos, seu modo de pensar e de agir será muito diferente do atual.

A análise desta mudança requer um trabalho muito mais detalhado do que este autor tem condições de fazer, mas em linhas gerais, considerando o trabalho de autores como Marx, Engels, McLuhan e Chomsky, as coisas deverão ocorrer como descrito a seguir.


Creio que Marshall McLuhan explica o que está ocorrendo ao mundo bem melhor do que Marx, talvez até do que Chomsky—apesar de ambos concordarem nos pontos essenciais.

Antes de McLuhan, a teoria mais aceita entre os sociólogos concebia que a humanidade tivera três estágios de desenvolvimento antes dos tempos históricos: selvageria, tribalismo (ou “barbarismo”) e civilização. Você encontrará essa tripartição em autores clássicos, como Friedrich Engels (Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado).

Selvageria
Período no qual o ser humano se apropria dos produtos da natureza e somente cria, de forma geral, ferramentas para possibilitar ou facilitar a obtenção desses produtos.
Barbarismo
Em que o ser humano aprende a domesticar animais e a praticar a agricultura, assim adquirindo meios para obter produtos além dos que a natureza espontaneamente proporciona.
Civilização
Quando, por fim, o ser humano aprende métodos avançados de trabalho em grupo, possibilitando o surgimento de uma classe não trabalhadora, que se dedica a atividades que não estão diretamente ligadas à produção econômica: sacerdotes, artistas, administradores etc.

A selvageria, estritamente tal como definida por Engels e seus contemporâneos, está praticamente extinta nos dias de hoje. Quase toda cultura que existe hoje se caracteriza pela domesticação de pelo menos algum animal e pela adoção de pelo menos um cultivo. Entre os raros exemplos de verdadeiros selvagens, restam apenas os indígenas ainda não contactados da América do Sul, o povo da Ilha Sentinela do Norte (Índia) e algumas tribos montanhesas da Papua Nova Guiné. Mesmo entre os indígenas não contactados da América do Sul e entre os papuásios, é possível que exista alguma forma rudimentar de pastoreio ou agricultura, restando aos sentineleses o papel de último bastião da selvageria como classicamente definida.

Uma definição diferente de selvageria, mais gentil com os povos ditos “primitivos”, a recuaria para antes da organização humana em clãs e tribos, o que é quase a mesma coisa que dizer que ela existiria antes da invenção da linguagem. Sabemos, porém, que todos os povos humanos já encontrados vivem (ou já viviam) em sociedades de algum tipo, por mais rudimentar que fosse. Isto quer dizer que o estágio selvagem da espécie humana é mais uma teoria do que uma realidade amplamente observada.

A mudança de um hipotético estado selvagem para um estágio bárbaro (ou tribal) historicamente atestado deve ser encontrada na formação dos clãs (e mais tarde da tribo), cada um com sua liderança e uma tradição própria. Isto requer a existência de linguagem para que a liderança não se exerça pela mera força e para que a tradição não tenha de ocorrer pelo exemplo direto.

A mudança do estágio bárbaro (ou tribal) para o civilizado ocorre pela invenção de alguma forma de escrita. Pelo menos é o que McLuhan diz em sua obra A Galáxia de Gutenberg—mas a teoria dele é um pouco mais complicada do que isso.

Segundo McLuhan, a humanidade teve quatro estágios, não três, e estes não foram marcados por mudanças tecnológicas materiais, mas pela forma de transmissão do conhecimento. A terminologia a seguir é minha adaptação da dele, considerando o que mudou, desde 1962:

Oral (tribal)
Culturas anteriores ao surgimento da escrita;
Manuscrito (civilização antiga)
Culturas pouco impactadas pela invenção da escrita;
Impresso (civilização moderna)
Culturas radicalmente afetadas pela invenção da escrita;
Global ou eletrônico (civilização pós-moderna)
Culturas em que a tecnologia subverte o papel da escrita.

Para McLuhan, os aspectos materiais de uma civilização decorrem de seus aspectos culturais, não o contrário, como ensinavam Marx e Engels. A escrita não surgiu como consequência do desenvolvimento da civilização (tanto que há casos conhecidos de povos antigos que não desenvolveram a escrita). Em vez disso, foi o desenvolvimento da escrita que trouxe profundas transformações às civilizações que passaram a ter conhecimento desta. Mais do que isso, seria possível, segundo o autor, por meio do estudo das tecnologias envolvidas na escrita entender de que maneira esses impactos se deram.


McLuhan não se interessava diretamente pela escrita, mas nos diferentes modos como a escrita era adotada em cada povo, para entender de que maneira isso transformava a cultura e, por tabela, a civilização material. Assim, a invenção da escrita dá início ao processo de “destribalização” das culturas humanas—um processo cuja origem no tempo é muito incerta e que deve ser entendido como nunca acabado e muito menos como irreversível. A partir da invenção da escrita, existiram diferentes graus de destribalização das sociedades humanas, determinados por vários fatores, dentre os quais o principal é o tempo. Temos vivido sob os efeitos da escrita por apenas alguns milhares de anos (menos que isso, para a maioria dos povos), o que é um tempo insignificante se contarmos a história da humanidade desde que os primeiros humanos deixaram a África. Não se pode cancelar da noite para o dia dezenas de milhares de anos de história cultural.

Além da persistência da escrita, os fatores que influenciam o grau de destribalização incluem a taxa de alfabetização, os usos quotidianos da escrita, a natureza do sistema de escrita, os tipos de caracteres encontrados no sistema de escrita, os materiais usados para escrever e as superfícies nas quais se escreve.

Estes conceitos não são difíceis de aceitar, quando os tomamos de maneira mais próxima:

  1. Quanto mais prevalente for a alfabetização, não somente mais pessoas estarão usando o alfabeto, mas, também, as pessoas alfabetizadas terão mais oportunidades de usar a escrita para mais coisas diferentes.
  2. Quanto mais útil a escrita for no dia a dia, menos solenidade e mais importância terá na cultura que dela faz uso, o que significa que seus efeitos serão menos controlados.
  3. Quanto mais fácil de aprender, mais prevalente e mais útil o sistema de escrita tende a ser.
  4. Quanto mais fácil de usar, maior a tendência de que as pessoas o empreguem espontaneamente.
  5. Quanto mais baratos forem os meios utilizados na escrita, maior a tendência de que a alfabetização se torne prevalente e menos provável que as estruturas de poder restrinjam seu uso.

Isso nos conduz à conclusão de que os efeitos culturais da escrita são maiores quando ela se propaga pela população em geral, o que é óbvio, mas, também, que certos sistemas de escrita são mais fáceis de propagar e de usar. McLuhan ainda adiciona que certos sistemas de escrita ainda possuem uma qualidade inerente que os torna mais impactantes no processo de “destribalização”.

Os sistemas de escrita alfabéticos são mais destribalizadores do que os sistemas logográficos e silábicos. Dentre os alfabetos, aqueles que desenvolveram letras isoladas (tais como as gregas, latinas, cirílicas, armênias, hebraicas e georgianas) são mais destribalizadores do que aqueles que desenvolveram letras que se “misturam” umas às outras, como o árabe, o siríaco e o mongólico. Os sistemas silábicos (abugidas) seriam ainda menos destribalizadores e as escritas hieroglíficas e logográficas viriam em último lugar.

Para o autor, é possível até mesmo afirmar que o conceito de tempo linear só se desenvolveu nas culturas em que a escrita alfabética se inseriu. Isto se explicaria pela distribuição sequencial dos caracteres ao longo da linha, que criaria a impressão do transcurso do tempo. Podemos ver um exemplo curioso desse efeito nas culturas do Mediterrâneo, nas quais a escrita em zigue-zague (estilo boustrophēdón, como na imagem à esquerda) é gradualmente substituída pela escrita linear (da esquerda para a direita), concomitantemente ao desenvolvimento da cultura grega clássica e sua expansão para a Península Itálica.

Talvez esta tese tenha sua força, pois, quando analisamos a representação do tempo nas culturas ocidentais (destribalizadas e alfabetizadas) e  orientais (nas quais predomina a influência do sistema de escrita não-alfabético chinês), vemos que são diferentes. Os ocidentais concebemos o tempo como uma seta horizontal da esquerda para a direita. Nas sociedades orientais, a forma convencional de representar o tempo é vertical, de cima para baixo. É como se, para nós, o tempo passasse, enquanto que para os orientais ele cai.


Os efeitos da destribalização ficaram confinados por mais de dois mil anos, desde a invenção do alfabeto pelos fenícios, mas a invenção da imprensa na Europa trouxe um ânimo renovado ao processo. Por isso McLuhan deu ao seu livro mais famoso o título de A Galáxia de Gutenberg. O autor reconhece que os chineses já haviam inventado a imprensa antes, mas observa que, pelas características do sistema logográfico de escrita empregado por eles, a tecnologia não teve grande impacto em sua civilização. Na Europa, porém, onde os sistemas de escrita se baseavam em umas poucas dezenas de caracteres perfeitamente individualizados, foi possível tirar toda vantagem da imprensa para substituir completamente a produção manuscrita de livros. Outros sistemas de escrita que empregam muitos caracteres diferentes (como as escritas da Índia e do Sudeste Asiático), ou que têm várias formas diferentes para as mesmas letras (como o árabe e o siríaco) não fazem uso tão extensivo das vantagens da imprensa.

Podemos observar que um texto escrito em um sistema alfabético tende a parecer mais bonito e harmônico quando impresso. Caracteres padronizados tornaram esses sistemas de escrita mais úteis e também mais esteticamente flexíveis. Escritas como o árabe, por exemplo, não se traduzem tão bem quando impressas porque toda a riqueza da interação entre as letras fica prejudicada quando o texto é reduzido a caracteres repetidos e padronizados.

Há claramente uma perda de beleza, mesmo aos olhos de um estrangeiro que não seria capaz de ler coisa alguma em árabe, nem para salvar a própria vida. A beleza é autoevidente e as formas impressas parecem esquemáticas, em comparação com a riqueza das formas manuscritas.

Os diferentes efeitos da escrita sobre diferentes sociedades são parte da explicação para diferentes paradigmas culturais. McLuhan afirmou que a inteligência soviética tendia a crer com mais facilidade em relatos orais, enquanto a inteligência americana exigia documentos tangíveis. De acordo com o autor, os russos acreditavam em informações orais mais facilmente porque os povos do leste europeu, em geral, haviam começado seu processo de destribalização séculos após a introdução da escrita na Grã Bretanha (que data dos tempos romanos).

Basicamente isto quer dizer que sociedades tribais baseadas em tradições orais creem mais facilmente em conhecimentos obtidos oralmente. Ao mesmo tempo, a destribalização nos faz duvidar da oralidade e valorizar documentos escritos.


Um dos efeitos da destribalização foi o surgimento da religião revelada, que recorreu aos livros para difundir seu conhecimento, e das artes plásticas formais, baseadas em técnicas aperfeiçoadas pela tradição. Cada povo reagiu à sua maneira, porém. Os hebreus produziram registros de seus profetas, os gregos criaram a filosofia e a política, os romanos desenvolveram a oratória e o sistema postal, os árabes criaram uma religião imperialista e os indianos fizeram uma mistura disso tudo e ainda inventaram a gramática, primeira forma de metalinguagem (a escrita sobre a escrita).

Quando a escrita foi introduzida entre os árabes, esta se difundiu devagar, mas no devido tempo ela se tornou tão prevalente que também eles quiseram ter o seu livro sagrado, o Alcorão, cujo nome, aliás, significa “A Leitura”. A Bíblia cristã evoca um simbolismo semelhante, pois biblia era apenas o plural em grego de “livros”. Para um povo ainda em processo incipiente de destribalização, os árabes viam na escrita um feito maravilhoso, algo como a encarnação de um deus. Os muçulmanos chegam a crer que o Alcorão não foi escrito, mas “revelado” por Gabriel a Maomé, por determinação de Alá. Simbolismo semelhante se vê em outras lendas sobre a escrita, como o mito grego de Cadmo, que semeou dentes de dragão (de que brotaram homens armados) e na lenda de Prometeu (“o primeiro a pensar”), que deu aos homens o fogo e a escrita. Os dentes de dragão que Cadmo semeou eram as letras de formato anguloso do alfabeto fenício e os homens armados representam a civilização grega organizada. No legendário árabe, o Alcorão é o verdadeiro verbo, não encarnado (como Jesus), mas transcrito.

Até o fim dos anos 1960, o desenvolvimento de conexões culturais era bastante previsível e parecia haver certas barreiras inevitáveis ao desenvolvimento uniforme da cultura: alguns povos (e seus sistemas de escrita) eram resistentes à modernidade e ninguém entendia muito bem porque. Em 1945, houve planos da parte das forças americanas de ocupação do Japão para substituir todo o sistema de escrita daquele país pelo alfabeto latino. Descobriu-se, após um estudo formal da proficiência dos japoneses, que a substituição não traria nenhuma vantagem e ainda seria contraproducente. Entre as nações do Extremo Oriente, Vietnã e Filipinas seguem sendo as únicas que adotaram o alfabeto Latino. Em ambos os casos, ainda é prematuro dizer se houve mudanças significativas, porque a difusão da escrita entre o povo é recente ali.

Mas algo aconteceu naquela década que começou a causar a mudança de tudo: a invenção das telecomunicações via satélite. McLuhan acreditava que a comunicação via satélite tornaria o mundo inteiro em uma “aldeia global”, na qual a informação fluiria rapidamente e atingiria todos os confins da terra tão rápido quanto a fofoca atravessava de um lado a outro de uma aldeia.


Os efeitos da instantaneidade da comunicação seriam massivos e trariam uma transformação total dos valores e costumes. Em seu livro seguinte, Understanding Media, de 1967, ele predisse quais mudanças a comunicação imediata traria à cultura: haveria a desestruturação das culturas locais e o surgimento de valores globalizados. Foi também nesse livro que McLuhan cunhou sua mais famosa frase: “O Meio é a Mensagem”.

Com as culturas locais debilitadas e forçadas a conviver em uma “aldeia global”, relações tribais reapareceriam porque as distâncias efetivas em relação às fontes de informações erodiriam a confiança e criariam autoridades vazias, tal como os livros criaram no passado. Como, segundo Arthur C. Clarke, uma tecnologia bastante avançada é indistinguível de magia, no passado as pessoas simples consideraram a escrita algo tão milagroso que os objetos que continham grande quantidade de coisas escritas, os livros, foram vistos com reverência. Em seu exemplo extremo, essa reverência possibilitou a fetichização do livro (“livros sagrados”), diminuindo a autonomia do pregador ou profeta local diante do repositório “revelado” do divino. Da mesma forma, a magia da comunicação daria à informação obtida por meio imaterial um caráter de sagrado. Diante desta mudança, reagiríamos de maneira análoga à de nossos antepassados tribais quando da introdução da escrita e do livro.

Dizer que o meio é a mensagem é uma forma breve de se dizer que as transformações tecnológicas independem das intenções de seus controladores. A televisão causou uma queda da taxa de natalidade mesmo nos países onde nunca se propagou através dela qualquer incentivo à anticoncepção. A redução não é causada pela mensagem explícita trazida pela televisão, mas por mensagens implícitas e pelas novas relações familiares surgidas em torno desta. Uma família que vê televisão tende a dormir mais tarde e a ter menos oportunidades para ter relações sexuais. As famílias apresentadas nos programas de televisão tendem a ter menos filhos porque são famílias ricas, principalmente, o que leva as pessoas a introjetarem a ideia de que ter poucos filhos é uma coisa “de rico”, e portanto boa.

Influenciadores da internet; YouTubers, blogueiros e tuiteiros em geral;  criam e divulgam conteúdos diversos por esses e outros canais. O fluxo descontrolado de informação que produzem é um tipo de fofoca tecnológica. Esta informação corre subterraneamente em relação à cultura dita de massas e chega a públicos muito mais segmentados, dando a cada consumidor desse tipo de conteúdo uma impressão de pessoalidade, não de massificação. Assim, na aldeia global os efeitos da destribalização começam a ser revertidos pela quebra do monopólio da informação.

Mais do que isso: a informação obtida através de meios eletrônicos nos está afastando de conteúdos sequenciais e nos levando a conteúdos interativos. Podemos escolher assuntos que nos interessam, superar a limitação do tempo, saltar para outro conteúdo ou para o capítulo seguinte do que ainda estamos assistindo, podemos rever partes que já vimos antes, podemos alternar entre conteúdos diversos, podemos acompanhar conteúdos simultaneamente. Não estamos mais forçados a acompanhar o fluxo do texto para topar com a informação nem mesmo quando lemos conteúdos sequenciais: podemos acionar um Control + F no texto ou clicar em uma hiperligação que nos leva a outro tema. Os efeitos do formato sequencial do texto escrito em letras ocidentais ficam atenuados. Não é nada surpreendente que uma época que se acostumou tanto com o conceito de interatividade e com o comportamento não-linear agora desenvolva tantas histórias e mitos em torno da viagem no tempo. Ficou mais fácil crer na possibilidade de retornar ao passado, não porque acreditamos ser possível voltar a ele de fato, mas porque nossas mentes cada vez mais concebem o tempo não como uma linha mas como um ciclo. O passado pode ser visitado porque ele é contínuo com o presente e o futuro.


Nesse ponto da evolução cultural, o abismo entre as mentes chinesa e  alemã, magistralmente explorado por Hermann Hesse em seu romance O Jogo das Contas de Vidro, começou a ser abreviado, ou antes, contornado. Entre eles existe uma língua de contato (que ainda é o inglês, mas um dia poderá ser um “inglês internacional”) que lhes permite trocar experiências diretamente.

Ao aproximar os diferentes povos, porém, a “aldeia global” parece ter um efeito inesperado por McLuhan, mas previsível conforme seu marco teórico: em vez de nos tornar a todos membros de uma só tribo, passamos a agir como membros de tribos vizinhas que competem entre si, e cada vez mais nos comportamos de maneira análoga aos povos tribais do passado, regredindo certos avanços civilizados.

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