O dia em que a música caipira fez o Brasil progredir nos costumes

A música caipira não é normalmente associada a uma mentalidade progressista nem à liberação dos costumes. Muito pelo contrário: idealiza um passado de pureza perdida em que os homens eram os homens, as mulheres eram bonitas (mas submissas), ser fazendeiro era ser uma espécie de rei e o boiadeiro era nosso herói, uma mistura de cavaleiro andante e caubói. Mas no início dos anos oitenta, época em que o Brasil devagarinho saía de uma ditadura, a música caipira contribuiu para um sopro de novidade nos costumes brasileiros — e eu diria até que o seu impacto, embora mais gentil, foi mais duradouro do que o de qualquer música pop apelativa.

Composta em 1978 por uma dupla de “trovadores” gaúchos, a canção Panela Velha foi gravada por Sérgio Reis, em 1983. Esta é um exemplo de metáfora. Toda a canção é estruturada em torno de uma crítica galhofeira ao conceito tradicional de pureza da mulher. Tendo esta informação em mente, percebemos aonde Sérgio Reis quer chegar…

No imaginário masculino tradicionalista, a mulher ideal é a mulher “pura” — necessariamente uma virgem. A virgindade foi por muito tempo considerada uma condição essencial da mulher “para casar”. Perder a virgindade antes de se casar era o mesmo que “perder-se”, pois nenhum rapaz aceitaria casar-se com uma noiva que já tivesse “conhecido homem”. Nos casos em que o noivo descobria, consumado o casamento, que a sua mulher não era virgem antes das núpcias, ele podia devolvê-la aos pais e pedir a nulidade da própria união.

Claro que o sucesso desta reclamação dependia do status social das partes: nunca um rapaz de classe baixa teria condições de devolver a noiva se ela fosse nascida de uma família rica. Ele não o faria por medo da influência de seus pais ou por desejar o dote. Por esse motivo, o casamento com um rapaz de classe mais baixa era mal visto, pois dava motivo para fofocas de que a moça não era mais virgem e a família conseguira alguém para “reparar o erro” da moça, em vez de escandalosamente mandá-la para um convento.

Em geral os casamentos nos quais esse arranjo acontecia eram infelizes, pois o marido vivia frustrado por não ter tirado a virgindade da esposa (algo que se esperava que todo homem fizesse e para o que ele “treinava” com as “perdidas”, obviamente). Isso quando, nos casos em que realmente ocorrera um relacionamento anterior da mulher, o seu ex não rondava o casal, ameaçando o matrimônio.

Você deve conhecer inúmeros ditos populares que aludem a isso, você deve ter lido romances em que a moça casada contra a vontade sonha em reatar com o seu verdadeiro amor, etc.

O que Sérgio Reis faz em “Panela Velha” é jogar esses conceitos para o alto de uma maneira divertida:

Tô de namoro com uma moça solteirona
a Bonitona quer ser minha Patroa,
Os meus parentes já estão me criticando
Estão falando que ela é muito coroa,
ela é madura já tem mais de trinta anos
mais para mim o que importa é a pessoa
Não interessa se ela é coroa
Panela velha é que faz comida boa

Na tradição popular, uma mulher adulta solteira não é considerada aceitável. Esta é, inclusive, uma das situações em que a mulher é suspeita de ser uma “mula-sem-cabeça”. Os parentes o criticam porque suspeitam que uma mulher adulta e solteira tenha tido vários homens em sua vida, certamente perdeu a virgindade para um deles e possivelmente até seja uma prostituta (na visão tradicionalista, qualquer mulher estava a um passo de recair na prostituição). O narrador da canção, porém, não está interessado nisso porque “panela velha é que faz comida boa”, o que é uma metáfora para justamente a sua experiência sexual. Ou seja, em vez de procurar uma moça virgem, o cantor diz querer uma sexualmente experimente e capaz de lhe dar prazer. Claro que, como essa música é do tempo em que se amarrava cachorro com linguiça, não se podia dizer isso abertamente,* daí a metáfora.

Mais adiante ele diz que “dona de casa tem que ser mulher madura, porque ao contrário o problema se amontoa”. Entendo que aqui ele queira dizer que prefere uma mulher que já tem experiência sexual e resolveu sossegar com um homem do que uma ainda jovem e que ficará sonhando com aventuras que ainda não viveu.

Observe, porém, que o narrador não vê a moça solteirona como uma prostituta, que ele pode tratar levianamente. Ele diz “vou me casar para ganhar o seu carinho”, o que dá a entender que ele a aceita como é e a tratará com o devido respeito.

Considerando tudo isso e mais a época em que esta letra foi escrita, em 1978, por Moraezinho e Auri Silvestre (dois compositores gaúchos), podemos dizer que “Panela Velha” é a encarnação definitiva de uma grande mudança de costumes sociais e sexuais que se operou no Brasil entre 1950 e 1980, período em que os conceitos tradicionais de casamento foram abandonados, a virgindade, embora ainda valorizada, deixou de ser o “verdadeiro véu” da noiva e os homens, de maneira geral, deixaram de viver a fixação doentia por deflorarem a amada.

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