Quando Você Tinha Morrido

Uma das grandes injustiças desse mundo é a maneira como os nossos amigos e conhecidos nos matam quando nos afastamos. Pela maneira como somos mortos, podemos ter uma ideia vaga de como realmente eles nos enxergam.

Quando chegamos a uma certa idade temos de escolher entre acompanhar de perto os nossos amigos ou evitar fazer perguntas sobre eles quando encontramos um amigo comum. Ou sabemos deles, ou nos arriscamos a ouvir o que não queremos:

— Carlos, há quanto tempo!? Como está? E a Maria, sua mulher?

— Morreu.

Não há solução possível para estas situações. Não há como rapidamente cavar um buraco no chão e se jogar, não tem jeito de bater asas e sair voando. É preciso dizer alguma coisa, sempre equivocada, e tentar segurar o tempo denso que se forma, prestes a chover dos olhos dos dois.

Quando o caso envolve amigos mais distantes, sem risco de lágrimas, a conversa fica mais franca e pode continuar até os detalhes, aí descobrimos como foi o falecimento:

— Fala aí, Jorge! Quanto tempo! Tem visto o pessoal da turma do científico?

— Alguns. O Carlos virou professor, a Letícia casou com um político e foi para Belo Horizonte, o Leonardo trabalha no hospital, o Zezão morreu.

— Peraí, o Zezão morreu? Morreu de que? Quando foi isso?

— Ih, rapaz! Foi há muito tempo. Ele tinha vinte e nove anos, acho. Ataque do coração, parece que foi por cocaína, segundo me disseram.

— Mas isso é absurdo! Logo o Zezão! Cocaína! Não posso crer.

O amigo sempre dirá que é “a pura verdade”, mas você ficará com aquilo na cabeça, sem poder crer, claro, porque Zezão não parecia alguém que se envolveria pesado com drogas. Então, tempos depois, você encontra outro antigo colega de turma:

— Augusto, meu amigo! Tudo bem? Tem visto a turma?

— Ah, alguns. O Jorge está na fábrica de calçados, a Aninha tem um restaurante, o Pacheco virou pastor, o Zezão morreu…

— Não! Então é verdade! Zezão morreu! Foi de que mesmo?

— Superdosagem de cocaína, cara! O coração do cara parou.

Agora a certeza de que Zezão não era alguém que se envolveria com drogas começa a ruir. Você tenta fazer as suas pesquisas, mas ninguém sabe do Zezão, você não guardou o telefone dele, você não o vê pelas ruas (a cidade não é tão pequena a esse ponto) e a terceira pessoa que lhe dá notícias tem a mesma versão:

— Certeza absoluta. Foi mandado para Juiz de Fora, todo espumandinho pela boca. Coitado, morreu.

A partir dessa segunda confirmação, você mesmo se convenceu. Sim, Zezão está morto há quinze anos. Foi levado às pressas para Juiz de Fora, mas não resistiu, o coração parou por causa de anos de uso de cocaína. Deus o tenha em paz, se isso for possível. Vida que segue.

Então você encontra outro colega de turma. Desta vez ele é que estava longe, não sabe nada do que aconteceu nos últimos vinte anos, porque estava trabalhando no Paraná e acabou de chegar.

— Bem, Jajá, eu não costumo encontrar todo mundo, mas sei que alguns estão por aí. O Betão é guarda de segurança no Itaú, o Venâncio virou músico, a Leleta casou com um carinha rico e foi para o Rio de Janeiro, o Emerson trabalha na prefeitura e o Zezão morreu.

— Como?? Zezão morreu!? Que merda é essa?

Daí você repete a história toda: Juiz de Fora, a cocaína. Alguns elementos dramáticos a mais: ele era ainda tão novo, os pais ficaram arrasados, quem poderia imaginar.

No dia seguinte, você está trabalhando e seu telefone toca:

— Fala, mano, aqui é o Jajá. Tenho uma notícia muito estranha para você. Zezão está vivo! Vivíssimo, ou melhor, não muito vivo que isso ele nunca foi.

— Você só pode estar brincando comigo, Jajá. Três pessoas diferentes me confirmaram que ele está morto, e faz mais de vinte anos que eu não vejo o sujeito. De onde você tirou que ele está vivo?

— Estou agora diante dele.

Não pode ser. Não pode ser verdade. Não pode nunca ser verdade;

— Quer falar com ele?

Antes que você possa dizer se quer ou não quer, uma voz anasalada o cumprimenta, entre risadas que parecem surgidas das trevas do tempo.

— Zezão, homem! Então você está vivo mesmo! Mas que…

— Pior você não sabe, ZéGê. Tem mais de vinte anos que os caras da turma que eu encontro dizem que você morreu.

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