Por que sonhamos com ditadores benevolentes?

Você provavelmente já encontrou em alguma obra literária, ou em um filme que assistiu recentemente, a ideia do ditador benevolente. Antes de dizer que não, pense outra vez, preste atenção que essa ideia costuma vir bem embrulhada. Tanto assim que, nem quando o ditador se comporta da maneira como normalmente os tiranos se comportam a gente consegue detestar completamente a ideia. Guerra nas Estrelas pode ter sido um épico sobre a Rebelião contra o Império Galático, mas o personagem de mais impacto na cultura pop é o vilão Darth Vader, e o livro que os fãs mais compraram é o “Manual do Império”.

As ditaduras, qualquer que sejam a cor do uniforme seu líder ou o método (científico ou místico) que ele use para manter o estado em suas garras, parecem muito mais prevalentes na ficção do que na própria realidade. Mais do que isso: essas ditaduras permanecem estáveis na ficção, enquanto os rebeldes sobrevivem precariamente. Curiosamente, nós humanos somos um tipo de macaco que procura segurança — mesmo que algo desconfortável. A estabilidade das ditaduras nos fascina, então a prevalência e longevidade delas na ficção serve de propaganda, mesmo que a obra em si se insurja contra ela. Cinquenta anos depois do primeiro Guerra nas Estrelas temos jovens fãs da série comprando o “Manual do Império” e os novos filmes ainda mostram a rebelião precária. Não é surpresa que tantos se identifiquem com uma carreira burocrática no Império em vez de arriscar a vida pela honra em uma luta que nunca terminará.

“Vinde a mim, ó vós que estais cansados da instabilidade e da mudança, eu vos ofereço a continuidade, a permanência e a previsibilidade. E também uns uniformes supimpas.”

Se uma ditadura já é fascinante pela promessa de estabilidade, ela se torna ainda mais sedutora quando nos lembramos que, estável ou não, as ditaduras correspondem mais fidedignamente aos arquétipos de nossa cultura. Há certo apoio na literatura e na antropologia para se concluir que as ditaduras fictícias que vemos nas obras de cultura pop são, de fato, manifestações do arquétipo do “rei sagrado” e do herói.

Tudo começou porque as religiões modernas (no nosso caso específico falamos do Cristianismo) causaram uma ruptura no processo tradicional de narrativa mítica.

Antes do Cristianismo (e das outras religiões “axiais”, como o Islã e o Budismo) não havia cânone, nem dogmas e nem doxa. As religiões eram baseadas em tradições, facilmente reinterpretadas e ressignificadas e os mitos eram refabulados constantemente por quem os contasse. As pessoas se sentiam confortáveis na criação de histórias sobre deuses, reis e heróis — não só porque essas histórias refletiam a “ordem natural” das coisas em uma sociedade civilizada primordial, mas, também, porque essas histórias continham lições morais simples, através das quais os valores culturais eram repassados.

Tudo que você precisa fazer para começar a entender a importância dos mitos primordiais, mesmo diante do Cristianismo, é imaginar o cabelo dessa estátua grega arcaica transformando-se em um véu azul. Se você tem uma boa imaginação e algum conhecimento da história da arte, entenderá aonde quero chegar.

Os símbolos criados pela mitologia correspondem aos “arquétipos” de que nos falava Platão e que Jung “pop-pularizou”.

Deuses, reis e heróis explicavam o mundo e criavam a indentidade e a cultura dos povos. A imortalidade dos deuses espelhava o anseio humano pela estabilidade, a presença dos reis evocava essa qualidade e a intervenção do herói possuía o condão de reparar, restaurar ou recriar uma estabilidade que fora debilitada, destruída ou corrompida.

Muito antes que os modernos autores de “ficção científica” concebessem as histórias de heróis intrépidos explorando as vastidões desconhecidas do espaço, já existiam as histórias de heróis intrépidos explorando as vastidões desconhecidas da terra: Jasão e os argonautas, o Rei Artur e os cavaleiros da Távola Redonda em sua busca pelo graal.

Muito antes de conhecermos uma “guerra fria” entre nações que se enfrentavam e se insultavam, mas nunca se engajavam em conflito, tivemos a Guerra de Troia, que começou com um assédio de dez anos à cidade, durante o qual bem pouca ação realmente aconteceu, a não ser algumas provocações e enfrentamentos pontuais.

Muito antes de termos os super heróis apoiando os EUA em sua guerra contra inimigos estrangeiros, os gregos enxergavam os seus deuses intervindo nos próprios campos de batalha e determinando os rumos da guerra. Os heróis, semideuses, eram pouco mais que X-Men (estes, inclusive, partilham do sentido trágico dos heróis semidivinos).

Hércules e Teseu são dois personagens cujos atributos curiosamente evocam aos dois mais famosos super heróis modernos (Super-Homem e Batman, respectivamente).

Hércules era um semideus, dotado de força e vigor sobrenaturais. Encontrava seres sobrenaturais (O Leão de Nemeia, a Hidra de Lerna, o Javali de Erimanto, as Éguas de Diomedes, a Corça dos Pés de Bronze, os Pássaros de Estínfale, o Touro de Creta, Cérbero) em lugares que eram, às vezes, sobrenaturais também (as Hespérides, a terra de Gerião, a Cólquida, a terra das Amazonas, o reino de Hades). Assim como o Super-Homem luta contra inimigos poderosos e visita outras dimensões e planetas.

Teseu era um ser humano dotado de inteligência e astúcia excepcionais, que triunfava contra inimigos mais fortes (até alguns sobrenaturais) empregando sua lábia, sua argúcia e sua capacidade de fazer aliados.

Hércules estava predestinado a uma vida sofrida e um martírio precoce, porque este é o destino do herói: ou morre cedo e se torna deus, ou vive o bastante para se tornar um vilão.

Teseu se tornou um rei sábio, fundador de cidades, criador de leis e pai de uma nação.

Hércules representa o arquétipo do herói semidivino. Teseu representa o arquétipo do rei sábio, que triunfa pela sua capacidade.

O Cristianismo, ao mesmo tempo em que desterrou as histórias para o terreno do mito e procurou controlar a criação de novos mitos através da fixação do cânone bíblico, não deixou de criar seus próprios super-heróis, os santos. Não menos sobrenaturais que os heróis gregos, os santos, alguns dos quais dotados de origens misteriosas, executam atos de coragem e de astúcia, além de fé, e triunfam contra poderes maiores que os seus.

Jesus não foi o primeiro a padecer injustamente por causa de uma túnica (esse da imagem é Hércules). Elementos arquetípicos foram amplamente utilizados na criação dos heróis cristãos — principalmente de Jesus, o herói original, composto de dezenas de peças retiradas de diferentes mitos.

Quando nos afastamos do mundo antigo e o Cristianismo se fixa mais profundamente, com sua ideia de Bíblia e de cessação das profecias, a criação do mito enfrenta um obstáculo. Felizmente, com o Cristianismo começa a se desenvolver uma coisa nova, a literatura.

Assim como “mito” é o nome que damos à religião na qual não cremos (e “herói” é o santo para quem não rezamos), literatura é o destino de tudo aquilo que não cabe no cânone. Quando certos livros não podem ser adotados pela religião, eles permanecem no universo profano, fora do controle da religião. Inicialmente a sua sobrevivência foi difícil, porque não se pensava na preservação do que fosse “menos importante”, mas logo a humanidade encontrou um lugar para os mitos: as escritas que não se transformavam em escrituras.

As histórias mitológicas deixam de ser “religiosas” e passam a ser uma espécie de passatempo. Em alguns casos recebem umas tinturas de religião para serem melhor aceitas, e vida que segue.

O aprofundamento da separação do homem quotidiano em relação à sua capacidade de criar mitos origina o conceito do folclore, a fonte mais antiga da literatura.

Mas a literatura se afasta gradualmente do folclore, ela se torna erudita e se aproxima das filosofias, das ciências e da própria religião. O folclore se fossiliza, se perde, mas o desejo humano de inventar e difundir histórias nunca morre, apenas muda de meio e de forma.

A partir do século XVI, e mais notadamente a partir do século XVIII, o cristianismo experimenta os “reavivamentos”, que os cristãos adeptos de igrejas “reavivadas” descrevem como uma espécie de renovação de sua fé. Na prática, os “reavivamentos” são fenômenos de histeria coletiva causados pelo confronto entre a modernidade e a tradição, em regiões onde as instituições tendem a se modernizar enquanto os costumes permanecem iguais. Esta descrição corresponde de maneira surpreendente aos EUA, mas também pode ser encontrada na Alemanha, na Holanda e em alguns bolsões reformados pelo mundo afora.

O “reavivamento” se baseia na recuperação da noção de profetismo, que o cristianismo mainstream considerava encerrada desde a construção do Segundo Templo, e na continuidade da revelação através de pastores que recebem títulos pomposos como “apóstolo” ou, de maneira até ridícula, no mormonismo, “profeta, vidente e revelador”. Esses movimentos dão origem a religiões que se dividem em dois grupos:

Os pentecostais e neopentecostais: recuperam o profetismo, mas não possuem a noção de revelação continuada. Suas igrejas ainda professam a continuidade da doutrina cristã desde os tempos apostólicos.

Para-protestantes ou para-cristãos: não só recuperam o profetismo como criam uma nova tradição de revelação. Aqui a coisa fica interessante, porque esses movimentos não se limitam a recriar uma “conexão direta” do fiel com Deus, eles criam novos conceitos e até novas escrituras. Exemplos disso podem ser vistos entre os Adventistas, os Mormóns (Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias) e as Testemunhas de Jeová.

Todos esses movimentos são “reacionários” em termos culturais porque surgem como reação ao progresso dos costumes, buscando retornar a um estado ideal segundo sua concepção da antiguidade.

Lado a lado com o “reavivamento” cristão surge o “espiritualismo”, que é um fruto precoce do contato dos europeus com as civilizações orientais, notadamente a da Índia. Também esses movimentos tendem a criar suas próprias mitologias e revelações, como podemos ver, por exemplo, nas obras de Chico Xavier.

Já no século XX, surge a literatura de ficção “científica”, cujos maiores expoentes são, de fato, pouco mais que fantasias com tema científico. A ficção “científica” recria antigos mitos em uma roupagem moderna, transformando “anjos” em alienígenas, por exemplo.

Simultanemante a isso surge o cinema, cuja linguagem visual é imediatamente posta a serviço dos antigos mitos. O primeiro filme encenado (isto é, não capturado espontaneamente) é a “Viagem à Lua”, de Georges Mélies, uma fantasia científica. Um dos primeiros filmes italianos é uma versão da Divina Comédia. Um dos primeiros filmes franceses foi uma biografia de Napoleão, um dos fundadores do estado francês moderno.

Nos Estados Unidos, país onde o cinema deitou raízes mais profundas e desde muito cedo, ele foi capaz de criar o mito do faroeste a partir de alguns poucos relatos exagerados de testemunhas oculares ainda vivas.

O super herói; criação do período entre-guerras que sobreviveu e dura até hoje; é uma expressão do mito moderno, incorporando todos os poderes exagerados dos antigos semideuses e inventando novos. Eles incorporam os medos e esperanças da humanidade durante a guerra fria, minimizando o perigo iminente (a radiação lhe dá poderes em vez de câncer), glamourizando a morte (cair em um tonel de produtos químicos lhe torna um monstro, não um cadáver), emprestando uma aura positiva ao sofrimento (a raiva e os traumas o tornam mais forte em vez de lhe destruir moralmente). Nessas histórias é frequente que, tal como nos mitos, o inimigo seja um estrangeiro (ou alienígena, que é o mesmo conceito transferido para a ficção “científica”) ou um traidor a serviço do estrangeiro.

Tudo o que você vê ou lê em uma história de super-heróis, qualquer que seja o meio (revistinha, televisão, cinema etc.), é intencional e é mito.

Esses elementos empregados na construção dessas histórias correspondem a “arquétipos” — os elementos essenciais de nossa cultura, que herdamos de um passado distante e que não podem ser facilmente ignorados.

Segundo Jung, um dos mais proeminentes estudiosos dos arquétipos (e proponente inicial do termo), eles não são meramente criações culturais deliberadas. Se assim fossem, haveria maior variedade entre as diversas culturas. Na verdade eles são respostas culturais a características profundas de nossa psicologia coletiva, que herdamos de um passado imemorial. Os arquétipos estão, culturalmente falando, em um nível anterior ao surgimento de todas as culturas humanas conhecidas.

Vejamos o medo do escuro, por exemplo — especialmente em lugares abertos. Esse medo evoca o tempo em que nossos ancestrais eram macacos indefesos nas savanas da África, sujeitos ao ataque iminente de predadores.

Um dos meios através dos quais esse macaco pelado primordial se tornou o senhor de todo o planeta foi através do desenvolvimento de laços sociais. O ser humano não seria “humano” se não fosse um animal social porque somente a vida em sociedade permitiu que a coletividade adquirisse força bastante para criar tecnologia e estabelecer limites que puseram os predadores definitivamente “fora” de nosso espaço comum.

O arquétipo do líder forte e sábio é muito antigo e muito importante porque era assim que funcionavam as sociedades primitivas. Diante da iminência da morte, seguir a liderança de alguém capacitado a tomar as decisões corretas era o meio mais provável de sobrevivência. Temos medo de errar e morrer, por isso sonhamos com um Grande Papai que saiba todas as respostas e tome as rédeas da situação nos momentos de crise. Esse arquétipo é tão significativo que ele se manifesta de diversas maneiras e em diversas fases da história humana. Aqui à esquerda, por exemplo, vemos um exemplo popular do líder sábio e divinamente escolhido, Artur, o rei dos bretões, o homem que se fez rei por direito divino e reinou com sabedoria e com mão de ferro.

Também dotado de uma armadura e também coroado por esforço próprio (mas com uma certa dose de direito divino), o Doutor Destino reina sobre a Latvéria com mais do que uma metafórica mão de ferro. Gostamos de pensar que Artur era um rei sábio, mas isso é basicamente porque ele é representado com um rosto louro angélico em vez de uma máscara de metal com uma expressão de caveira. Na prática, tanto Artur quanto o Doutor Destino são tiranos e correspondem ao mesmo arquétipo. Mais do que isso, os efeitos de seu governo sobre a Bretanha e sobre a Latvéria são semelhantes.

E, a propósito, a Bretanha de Artur é uma ficção tanto quanto a Latvéria, mas, também, porque acreditamos que o arquétipo representado em Artur não é moderno, que é algo que pertence a uma época mais antiga e inocente. Mas, é mesmo?

Ele também é um desclassificado (um meio-sangue) e também é chamado a liderar seu povo contra poderosos inimigos. Também ele encontra uma arma mítica que é, ao mesmo tempo, o símbolo de seu poder e o instrumento de sua ação. Ele também se chama Artur.

O que torna o rei Artur igual ao Doutor Destino e ao Aquaman é que o seu poder tem origem fora da vontade do povo. Aos súditos dos três não restou alternativa senão aceitar o jugo imposto pela tradição religiosa (Artur da Bretanha), pela tecnologia quase mágica (Doutor Destino) ou pelo poder realmente mágico de um artefato divino (Artur, o Aquaman).

A partir do momento em que Artur da Bretanha retirou Excalibur da pedra e foi reconhecido como o “verdadeiro rei de toda a Bretanha”, quem quer que o recusasse seria um traidor e encontraria a morte.

A partir do momento em que o Doutor Destino exibiu seu poder aos cidadãos da Latvéria, eles só podiam aceitá-lo ou ser por ele torturados e mortos.

A partir do momento em que Artur Curry recupera o Tridente de Netuno, as escolhas dos cidadãos de Atlântida ficam também restritas a aceitá-lo ou se tornarem inimigos. A submissão é a escolha mais lógica.

A unidade da Bretanha sob Artur foi mostrada como a oportunidade perdida de trazer uma era dourada, posta a perder, infelizmente, pela maldade humana. A unidade da Latvéria sob o Doutor Destino é o que mantém um pequeno país em um papel tão relevante na política mundial. A unidade da Atlântida sob Artur Curry resolve uma crise dinástica e ajuda o país a sobreviver a uma guerra.

Mesmo na vida real abundam exemplos de tiranos benevolentes que ajudaram países em crise ou países pequenos a lutarem acima de seu peso. Khaddafi, na Líbia, é o grande exemplo. Depois dele a Líbia se tornou o que era antes: outro país miserável da África.

Há um claro padrão aqui: somos um tipo de macaco que gosta de viver com ordem e em segurança, nem tanto de viver em liberdade. Tendemos a associar líderes poderosos a lideranças seguras e benéficas porque estamos acostumados a ver esse padrão na História (caso da Líbia) e porque nossa mitologia nos transmite isso. E nossa mitologia é assim porque ela responde aos arquétipos que trazemos no fundo de nossa alma coletiva.

Eis porque nas histórias de super-heróis e no cinema, nossos mitos modernos, gostamos de imaginar que líderes poderosos são bons para nós, e, muitas vezes, nos sentimos ansiosos para destruir a democracia, que tanto nos incomoda com a insegurança que traz.

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