O Lugar da Música Popularesca (e do funk) na História da Música

Acredito que o funk nem é música, mas, calma, essa resposta não é exatamente o que você está pensando.

Hoje mais cedo, enquanto dirigia de volta para casa uns 76 km de estrada sinuosa, fiquei pensando assuntos aleatórios para manter a mente ocupada e combater o sono, então me deparei com uma conclusão interessante: a música como nós a concebemos já acabou e estamos em uma nova fase.

Cada época da história tem uma forma de arte predominante, que reflete os gostos, a tecnologia e o desenvolvimento econômico. Por exemplo: o romance só se tornou uma forma literária preponderante quando passou a existir uma população letrada numerosa e com tempo livre suficiente para se dedicar à leitura de obras com centenas de páginas. Como muitas dessas pessoas eram mulheres, havia o subgênero do romance “para moças”. Como em geral essas pessoas eram de classe média ou alta, esses romances se baseavam nos costumes e conflitos dessas classes. O romance entrou em decadência por causa da mecanização do mundo e por causa da introdução da informática, fatores que ocuparam o tempo livre das pessoas letradas. No século XIX, se você sabia ler e tinha dinheiro,comprar livros e lê-los era uma das poucas coisas que podia fazer, dependendo de onde estivesse. Hoje em dia, ler é uma coisa que compete com milhares de outras coisas possíveis para se fazer, não importa onde você esteja.

Transplantemos esse debate para a música. A história da música se divide em quatro momentos:

  • Quando a música era uma experiência de grupos pequenos e baseada em tradições aprendidas e experimentadas diretamente com os praticantes, porque não havia notação musical. Música primitiva. Apogeu da música “étnica”. As obras são criações coletivas.
  • Quando a música continuava sendo uma experiência de grupos pequenos, mas surgiu a notação musical, permitindo que as obras escritas por um determinado praticante fossem difundidas aonde ele nunca iria. Música medieval e barroca. Apogeu da música sacra. As obras são criações institucionais, no início, mas progressivamente se individualizam.
  • Quando se generalizou o gosto pela música, com a criação de eventos para grande público, baseados em instrumentos mais evoluídos e técnicas vocais aprimoradas. Música clássica, romântica e neoclássica. Apogeu da ópera. Apogeu do compositor.
  • Quando surgiram instrumentos elétricos e meios de gravação, permitindo que a música se difundisse sem a necessidade de uma difusão equivalente das performances musicais. Música modernista, concreta e pop. Apogeu do instrumentista e um segundo apogeu do autor.

Acredito que estamos vivendo, desde os anos 1990, o início de uma quinta fase da história da música, agora marcada pelo fim dos instrumentos (tudo hoje pode ser sintetizado), pela diluição da autoria (artistas sampleando-se mutuamente e copiando o passado), pelo fim da técnica (qualquer um canta se você passar pelo autotune e pelos programas de regularização de ritmo) e pelo fim da execução (o show agora é feito por um DJ, que toca uma música pré-gravada).

Vários desses fatores já estavam presentes em fases anteriores (mas vamos nos limitar aos que nunca foram abandonados).

Os sintetizadores foram inventados há mais de cem anos (o theremin foi o primeiro sintetizador, embora você provavelmente não o veja assim, e a guitarra elétrica é um tipo de sintetizador também). Já nos anos 60 e 70 (sim, 60!) houve grupos musicais que usaram somente sintetizadores para produzir seus sons. Estamos falando de Delia Derbyshire, Silver Apples, do White Noise, do Kraftwerk e do Panta Rhei (a banda húngara de rock progressivo).

O desrespeito à autoria era corrente desde sempre, mas ficou escancarado nos anos 20–70, quando grupos e artistas roubavam músicas dos outros na mão grande. O Led Zeppelin, por exemplo, roubou quase metade de seu repertório (sem dar crédito) de bluesmen americanos negros, ou até de cantores ingleses menos conhecidos. Mas a novidade dessa nova fase é a utilização in natura das músicas gravadas (os samples), o que começou nos anos oitenta, nos EUA, com o movimento hip-hop.

O problema da técnica, especialmente a técnica vocal, é também antigo. Vários inventos do passado foram acusados de prejudicar a técnica. O tenor italiano Enrico Caruso, ao ver o funcionamento dos primitivos microfones, observou que a técnica permitiria que no futuro pessoas sem voz potente pudessem cantar — o que se tornou rapidamente verdade. Os artistas pré-fabricados (que no passado eram apelidados de “salsichas”) são também muito antigos. Em 1965 foram criados os The Monkees, nos EUA, com quatro sujeitos que não sabiam tocar nada. Os grupos Mama Lion e Blondie empregaram ex-modelos como vocalistas (a bem da verdade esses grupos tinham bons instrumentistas e pelo menos a Debie Harry, do Blondie, sabia cantar de verdade).

O fim da execução também foi prenunciado há muito tempo. Desde o século XVIII já existiam as pianolas, instrumentos que tocavam uma música gravada num rolo de tecido perfurado. A música eletrônica concreta, criada em meados do século XX, era baseada em ruídos produzidos por ciclos eletrônicos e era programável. Já nos anos 1970 o grupo alemão Kraftwerk assombrava os fãs assistindo da platéia os próprios shows, em que a apresentação era de manequins animados e a música era executada por primitivos teclados pré-programados. Nos anos 80 ficaram famosos os “duos”, grupos de música pop baseados somente em um vocalista e um tecladista: Yazoo, Erasure, Eurythmics, Desireless… Em 1990 teve o escândalo do Milli Vanilli, um grupo de hip hop cujos membros não tocavam nem cantavam nada, e o C&C Music Factory, um grupo cujos integrantes eram os produtores, não os músicos. Os mais antenados já estavam denunciando isso há tempos. Várias canções pop engajadas denunciaram esse “enlatamento” da música, como “Designer Music”, do Lipps Inc. e “Peace and Love Inc.”, do Information Society. Já nessa época os rappers americanos cantavam suas letras sobre bases eletrônicas que não incluíam nenhuma harmonia ou melodia, apenas ritmo e “poesia”.

O funk carioca é, portanto, a culminação de um longo processo de evolução tecnológica que possibilitou a destruição das limitações que criavam a oportunidade para a manifestação do talento.

Quando para ser ouvido era preciso soar alto, só os grandes peitos podiam cantar, surgiu a ópera.

Quando para cantar era preciso manter um ritmo e uma afinação, somente os talentosos podiam se apresentar sem sofrer abusos, então surgiu a canção.

Quando os sons musicais tinham de ser extraídos de objetos difíceis de fabricar e operar, somente quem tinha paciência, tempo e talento podia se tornar um instrumentista.

Isso tornava a música o produto de pessoas talentosas e esforçadas, que exigiam respeito pelo seu esforço e que tentavam mostrar qualidade e virtuosismo porque havia valor nisso (já que pouca gente sabia mexer em instrumentos ou conseguia cantar).

Hoje, em dia, literalmente, quase qualquer boçal desbocado que tenha dinheiro pode pagar a alguém para transformar os seus urros animalescos em uma coisa que parece música, usando programas sofisticados de computador. Claro que ainda pode acontecer de nenhum programa conseguir consertar, mas existem exemplos abundantes de produtores “heróicos” que conseguem fazer isso virar música.

Então, realmente, não é possível comparar o funk (e outros gêneros contemporâneos) a qualquer coisa que existiu no passado, assim como não é possível comparar um automóvel a uma biga romana ou comparar um um computador com um ábaco.

A diferença é que normalmente a tecnologia evolui para criar mais conforto e produzir mais beleza. Um automóvel é um meio de transporte muito superior a uma biga, assim como um computador faz mais contas que um ábaco.

No caso da música, porém, parece ter havido um problema de transferência: o que está alcançando maior popularidade não é o trabalho meticuloso de quem vê nas facilidades da tecnologia uma oportunidade para ir além dos limites físicos. O que está na crista da onda é o equivalente musical das pinturas da Galeria Tosquista.

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