A Lenda da Maniçoba

Uma tribo errante estava perdida há muitos dias por uma região desconhecida, onde os animais eram diferentes e as plantas não se pareciam com as que tinham o hábito de comer. Com a reserva de comida começando a acabar, precisavam urgentemente encontrar alguma outra fonte de alimento.

Foi então que encontraram uma planta que por ali crescia abundantemente e que tinha folhas verdejantes e graúdas. Nenhum inseto a parasitava e a seca não afetara sua beleza. Decidiram comê-la, mas receavam que fosse venenosa, então, sob o conselho sábio do pajé, cozinharam-na por várias horas.

“Então,” — disse o cacique — “tragam o prisioneiro. Ninguém da tribo come da planta estranha antes de prisioneiro provar.”

O prisioneiro faminto hesitou, hesitou, mas o pajé pegou uma colherona de pau, serviu-a cheia e a levou à boca do infeliz. Faminto e com medo de ser morto a bordunadas e transformado ele mesmo em guisado, o prisioneiro se aventurou a comer do estranho cozido. Poucos minutos depois começou a engasgar, tossir e perder o fôlego. Então teve convulsões e morreu. Toda a tribo viu a cena e todos tiveram receio de comer a carne do morto.

“Duas horas de fogo não bastaram. Vamos mais tempo.”

Mais seis horas de cozimento e trouxeram o segundo prisioneiro.

“Numa boa,” disse o tapuia, que vira a morte horrível do seu companheiro, “uma bela bordunada na cabeça e depois vocês me comem, que tal?”

O pajé tomou uma colherada do cozido e levou à boca do prisioneiro:

“Ou come ou enfiamos uma flecha no seu chuí… Se der errado a gente te dá a bordunada para aliviar depois…”

O prisioneiro deu um suspiro longo, fechou os olhos e comeu.

Minutos depois ele lá estava se contorcendo e engasgando. E morreu baboso e de olhos vidrados. Ninguém se aventurou a levá-lo para o cepo.

“Oito horas e meia de fogo não bastaram. Vamos cozinhar até a lua de amanhã nascer.”

Isto feito, lá veio o último prisioneiro que a tribo ainda tinha.

“Come.”

“Cacique, meu sábio cacique. Pais meus sempre tiveram orgulho, diziam que eu seria grande guerreiro e um dia morreria honradamente para ser comido pelos meus inimigos e…”

“Come!!!!!”

O prisioneiro olhou ao redor e notou que haviam fincado uma longa e grossa borduna no chão. Duas mulheres da tribo se dedicavam a afiar a ponta usando facas de pedra. Elas lhe sorriram com maldade e ele sentiu uma pontada psicológica no psico.

“Muito bem, mas eu exijo o direito de levar uma bordunada bem aqui na testa, ó, se começar a babar!”

O pajé e o cacique assentiram, então o prisioneiro sorveu a colherada.

Passou-se uma hora, passou-se outra. Ele já começando a ficar sorridente. Parecia que a comida, apesar de não muito saborosa, era segura. Foi até a panela e pegou mais duas colheradas para forrar a barriga que doía de uma fome muito presente. Minutos depois teve convulsões e morreu depressa, sem que lhe dessem bordunada alguma. E ninguém teve coragem de comê-lo também.

“Um dia e meio ainda não resolveu… Três colheradas matam ainda. Vamos cozinhar mais.”

Mais três dias e meio depois, o cacique chamou o bravo guerreiro Piriri…

“Você que se deita com filha do cacique e pouco faz de útil à tribo. Hora de provar seu valor. Come!”

“Mas, chefe, a sua filha é que é muito insistente comigo, eu na verdade gostava mesmo era da Yara e…”

“Come, seu inútil!”

O genro do chefe, muito relutantemente, engoliu a colherada de maniçoba. Então a filha do chefe veio com uma borduna à mão, batendo-a contra o chão e dizendo: “Traste, imundo! Gosta de meu corpo, mas gosta mesmo é da Yara! Come mais uma colherada!”

“Piedade, meu amor! Eu só falei aquilo para o seu pai não me funfnf…

Engoliu as palavras junto com a segunda colherada.

“Come mais uma colherada!”

“Mas eu já comi duas, meu amor! Por que prevss…?”

“Come mais uma!”

“Mas agora já são três, minha vida! Luz de meus olhos!”

“Obedece minha filha, guerreiro Piriri!” — esbravejou o cacique.

Assim o bravo guerreiro Piriri foi forçado a comer umas vinte colheradas da maniçoba, mais da metade da panela.

“Chefe, meu amor!” — Dizia ele já confundindo as pessoas — “Eu não como mais porque nem tem espaço na barriga.”

Assim permitiu o chefe que o guerreiro Piriri se afastasse e ele foi se sentar quieto em um canto.

Nas horas seguintes ele não sentiu quase nada, a não ser um incômodo estomacal crescente. Mas nada de cãibras, convulsões ou sufocamento. Sentiu, porém, uma compulsão estranha por se afastar do resto da tribo, como se a natureza o chamasse.

Vendo que Piriri não morria, o resto da tribo atacou o cozido, com menos exagero, e todos ficaram felizes.

O lugar onde Piriri foi descansar, longe da tribo, ficou marcado por frondosas árvores que cresciam muito mais que as outras que havia em volta e o nome dele se tornou uma lenda para toda a tribo. As mães sempre o lembravam quando os filhos queriam comer demais: “Vai dar Piriri”.

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