Lobato: O Espinho Que se Recusa a Inflamar

Monteiro Lobato fez parte da infância de várias gerações de brasileiros, quer diretamente, pela leitura de seus livros, quer indiretamente pela adaptação de suas obras para meios audiovisuais. De tal maneira ele se inseriu na cultura nacional que a partir de certo ponto se tornou um lugar-comum pensar que ele seria indissociável de nossa identidade.

Os últimos dez ou doze anos, no entanto, têm sido ingratos para a memória e o legado do escritor paulista, desde que alguns autores resolveram corajosamente abordar a questão do racismo de sua obra. Que isto somente tenha ocorrido à época da eleição de Barack Obama presidente dos Estados Unidos é uma dessas sincronicidades a que muitos chamam de “coincidências” mas que eu creio ter sido, nesse caso, apenas o aproveitamento de uma oportunidade. Afinal, Lobato escrevera em 1927 um romance em que se predizia a eleição de um presidente negro nos Estados Unidos e esse seria o momento perfeito para capitalizar em cima da capacidade que o nosso herói literário nacional tivera para predizer o futuro. De oportunismos se faz o marketing, afinal.

O debate que nasceu dessa “oportunidade”, no entanto, foi bem mais amargo do que se poderia prever. O romance escrito por Lobato estivera esquecido por várias décadas exatamente porque execrável era seu conteúdo. Hoje se sabe, inclusive, que o prejuízo de Lobato ao tentar obter sucesso internacional financiando sua tradução e publicação na França, na Alemanha e nos Estados Unidos foi um fator importante na falência da sua editora e de uma séria de desventuras políticas e financeiras por que passou até o fim de sua vida. Sic semper detestabilis homines.

Há certas coisas, porém, que precisam ficar bem claras. Sinto grande desconforto em falar de Monteiro Lobato porque ele é um autor que me influenciou muito. Atingir a integridade da obra dele é como remover um pedaço do meu passado. Isso explica o cuidado que tive em abordar o assunto antes, mas eu não tenho compromisso com a defesa da honra alheia se ela não ficar de pé por si mesma. Hoje começo um empreendimento longo e complicado, ao fim do qual pretendo descobrir quanto de mim depende de Lobato e quanto de Lobato é preciso extirpar para que ele ainda seja aceitável. Para isso é preciso abordar as duas grandes acusações que lhe fazem.

A acusação inicial que se fez a Monteiro Lobato foi a de racista. Imagino, porém, que foi somente esta porque teria sido contraproducente atirar de uma vez à cara do Brasil toda a “glória” da personalidade do autor. Digo isto porque, afinal, racismo não é o único dos problemas encontrados em O Presidente Negro — eu até diria que é o menor deles — e tampouco se limitam a esta obra os problemas ideológicos de Lobato. Sobre a extensão do comprometimento ético e ideológico do autor e de sua obra eu prefiro escrever futuramente, depois que a tiver relido em seu essencial, mas agora me ocupo de duas acusações principais e dos argumentos usuais com que se tenta afastá-las. Nem as acusações e nem esses argumentos exigem a (re)leitura da obra para que os possamos analisar.

A primeira acusação é a de que o racismo lobatiano permeia toda a sua obra, que ele é inextirpável dela. A defesa usual é de que esta acusação estaria praticando a confusão entre autor e obra, ignorando que seria perfeitamente possível separar uma coisa e outra.

Como todos os de minha geração que cresceram lendo Lobato, nunca percebi nada de racismo em sua obra. Isto não quer dizer, porém, que o racismo não estava lá, quer dizer que eu, provavelmente, apenas li com naturalidade aquele nível de racismo explícito nos livros de Lobato que era naturalizado socialmente quando eu era jovem. Esta é a principal razão pela qual eu me proponho a reler a obra de Lobato, especialmente a obra infantil, antes de formar um juízo de valor sobre a possibilidade de se extirpar dela o racismo de maneira que atuais e futuras gerações possam usufruir de sua qualidade literária.

Gostaria de lembrar que, conforme já argumentei anteriormente, nenhum autor do passado é santo. Se conseguirmos lançar um foco de luz sobre a personalidade do mais impoluto dos nomes da arte nós encontraremos ali, em algum recôndito, algum motivo para tornar detestável aquele criador. Isto é particularmente sensível no caso de Lobato que, ao longo da vida, fez questão de preservar milhares de páginas de correspondência, futuramente coletada na obra A Barca de Gleyre. A facilidade de acesso à escrita privada de Lobato nos permite ter uma janela para a sua alma — e o que tem sido visto ali não é nada bonito.

Alguns autores têm a fama excelente, o que basicamente significa que sabemos muito pouco sobre eles. Se soubéssemos mais, alcançaríamos os seus segredos profundos e encontraríamos algo a nos chocar.

O Que Fazer com a Arte das Pessoas Execráveis?

Certamente não será todo autor que se revelará um monstro: não duvido que certos armários guardam mais e piores esqueletos que outros. A pergunta válida a se fazer não é se devemos descartar a obra por causa do do autor, mas se o caráter da obra depende do autor. O grande desafio da crítica aqui é determinar se a separação é possível. O meu grande temor é que isso, no caso de Lobato, não seja possível. Tenho esse temor porque é amplamente sabido que Lobato foi um grande panfletário, que ativamente usou a sua obra como ferramenta de propaganda política. Eu nem preciso reler sua obra para me lembrar do quanto ele labutou na campanha O Petróleo É Nosso, chegando para isso a usar o livro infantil O Poço do Visconde.

A segunda acusação é a de que Lobato não seria somente um racista, mas um eugenista e um simpatizante do nazismo. Aqui a minha opinião se divide. Creio que já encontrei elementos suficientes para admitir que Lobato realmente era adepto da doutrina eugenista e do higienismo social, mas os argumentos em favor de suas simpatias nazistas são acidentais.

Claramente Lobato era americanófilo — apesar de ter se tornado amargo em relação aos EUA a partir de certo ponto, ao verificar que a política externa ianque prejudicava ao Brasil. Inclusive as suas simpatias eugenistas derivam justamente da leitura de autores americanos. Se acidentalmente o seu discurso coincidia com o dos nazistas, isto era somente porque os nazistas também se inspiravam nos americanos. Essa é uma verdade dura de engolir — e pouco popular de se defender — mas o regime de Hitler não somente se inspirou nos EUA como tentou executar na Alemanha, de maneira metódica como soem fazer os alemães, as ideias defendidas por americanos, mas raramente implementadas. Há elementos na obra de Hitler que sugerem fortemente que ele esperava a adesão americana e havia muitos políticos americanos que eram simpáticos ao III Reich. Empresas americanas — como a IBM, a General Motors e a Du Pont — deram grande apoio à Alemanha nazista — mesmo depois que o nazismo já era internacionalmente denunciado. Aliás, os EUA têm uma tendência a continuar apoiando regimes detestáveis mesmo depois que eles já têm ampla condenação internacional, repetiram isso com a África do Sul, por exemplo. Então a relação de Lobato com o nazismo não era como se sugere: Lobato e Hitler olhavam para o mesmo lado e seguiam ideais parecidos, não porque o primeiro imitava o segundo, mas porque ambos se inspiravam nos extremismos americanos.

Isso, claro, não vai dito aqui como desculpa. Uma ideia não é mais aceitável só por ser americana em vez de alemã. Dito isto, as origens do eugenismo são britânicas e francesas. Os americanos apenas as adotaram, adaptaram e expandiram — como, aliás, são especialistas em fazer.

Tendo abordado essas duas importantes acusações, chego à questão primordial que encampa as duas e que dita a verdadeira natureza da polêmica, ao menos para mim. Que Lobato tenha sido racista ou adepto do eugenismo isto é pouco relevante porque estas ideias eram normais e circulavam sem restrições na época. Não eram ideias alternativas que se difundiam através de sociedades secretas, nem pecados inconfessáveis. Havia partidos políticos que as incluíam em seus programas — e não estamos aqui falando somente dos nazistas — e havia organizações não governamentais consideradas de “utilidade pública” que as difundiam abertamente. O racismo era comum e a eugenia era quase como se fosse um ramo da medicina.

A questão é Lobato viveu a parte central de sua vida literária no período do entre-guerras, que foi justamente quando essas ideias começaram a ser questionadas. Antes de 1920 não se falava em igualdade racial e os linchamentos de negros nos EUA eram um evento social de que as pessoas tiravam fotos para enviar aos amigos. Antes de 1920 havia pessoas que planejavam o casamento de seus filhos pensando em indícios de boa ancestralidade genética, empregando princípios da frenologia. Termos como “degenerado” haviam entrado no uso comum.

Os anos 1920, porém, foram o período em que os linchamentos deixaram de ser um motivo de orgulho, mas algo que se fazia à noite, à luz de cruzes queimadas e vestindo um capuz. O supremacismo branco fora questionado pelas derrotas diante de orientais (guerra Russo-Japonesa) e africanos negros (primeira guerra da Abissínia), a luta de Gandhi contra o imperialismo britânico criou a primeira ideologia política não-eurocêntrica e a redescoberta do trabalho de Gregor Mendel fez com que gradualmente o “darwinismo” (a seleção natural do mais forte) fosse questionado. A ascensão do nazismo, com seus aspectos eugenistas e racistas, foi um espasmo diante da decomposição da visão de mundo simplista e eurocêntrica, baseada no darwinismo, no racismo e na ideia de uma abordagem científica da humanidade. Não à toa o nazismo evoca uma estética neoclássica em sua arte, pois foi uma reação à modernidade.

Peço que me permitam deixar em suspenso o julgamento sobre a extensão do comprometimento de Lobato com essas ideologias, pelo menos até eu ter relido uma parte significativa de sua obra, mas atentem para um fato importante: Lobato não era um racista porque todo mundo era e nem era um adepto da eugenia porque isto era o padrão. O problema de Lobato aqui é mais profundo.

Lobato era um racista em um momento crucial da história em que a narrativa racista perdia força. Ele estava claramente no caminho da virada da história das ideias.

Lobato era um eugenista porque o Brasil, sempre notoriamente atrasado na reciclagem de suas ideias políticas, ainda estava muito impregnado de entulhos que já estavam perdendo lugar no resto do mundo.

O racismo e o eugenismo de Lobato são, portanto, uma expressão de seu pertencimento à elite intelectual e política de um país periférico. Lobato é racista e eugenista porque a elite intelectual da periferia se coloca em subordinação ao centro e absorve as ideias sempre tardiamente. O fato de somente termos reformado nossa orthographia em 1946, 36 anos depois que Portugal o fizera, dá uma pista de nossa dificuldade para acertar o passo com a modernidade.

Qualquer que seja a profundidade do comprometimento do trabalho de Lobato com as suas ideias, a sua simples relação com elas já lhe coloca claramente no campo ideológico do reacionarismo. Que Lobato tenha ativamente trabalhado por reformas econômicas e políticas apenas lhe empresta o papel de defensor da “modernização conservadora”, que é característica de nossa evolução história e é, a seu modo, também uma reação à modernidade. A modernização conservadora aspira a reconstruir no futuro aquele passado-modelo, extirpado das fraquezas que o fizeram se tornar passado.

Essa é uma segunda camada da análise de Lobato que ainda não está sendo feita, porque o racismo parece estar incomodando como uma unha encravada do dedão do pé. Quando extirparem essa unha, no entanto, será preciso avançar com o debate. Eu estou apenas pondo o carro na frente dos bois.

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