A Questão do Racismo no Legendarium de Tolkien e o Fanatismo dos Seguidores

Já faz algum tempo que publiquei aqui mesmo no blog algumas reflexões sobre aqueles a quem chamei de “pessoas execráveis”, isto é, autores e artistas do passado cuja obra contém elementos que, aos olhos de hoje, não são mais aceitáveis. Isso foi em 2017, muito, mas muito antes da onda atual de “cancelamentos” na internet. Desde então eu retornei ao tema várias vezes ao tema, em ensaios como “Os Crimes dos Autores”, “Não Matemos os Livros Por Causa de Nossos Pecados”, “Ainda Será Possível Falar do Brasil” e “Lobato: O Espinho Que Se Recusa a Inflamar”.

Em todos esses comentários, apesar de alguma evolução dos detalhes da minha opinião, eu me mantive coerente com uma tese central: exceto em casos realmente extremos, não devemos permitir que a história da literatura e da arte seja obliterada pela evolução dos paradigmas morais que evoluímos gradualmente. Esta tese é bastante simples e necessária: temos de preservar o legado histórico do passado, em vez de esterilizá-lo de suas contradições, porque qualquer alteração bem intencionada é semelhante em método (ainda que não em ideologia e objetivos) a qualquer adulteração mal intencionada. Não se deve atirar o passado no buraco da memória, reescrevendo a história com nossos olhos de hoje, por mais que sejamos tentados a, como nos lembrou Nietzsche, permitir que nosso orgulho triunfe sobre a nossa consciência. O passado é testemunha de quem fomos e do caminho que percorremos até nos tornarmos quem hoje somos. Preservar o passado, com suas imperfeições, seus erros e até os seus crimes é como podemos preservar a nossa identidade profunda.

Isso não quer dizer, porém, que se deve ignorar o debate dessas questões, que se deveria permitir que esses livros fossem lidos sem contexto ou preparo. Nenhuma obra de arte é neutra ou fala por si. Toda obra de arte — e literatura é arte, mesmo a literatura comercial, até mesmo a literatura ruim — existe em torno das possibilidades de interpretação que oferece. Uma obra que não permite diferentes interpretações é uma obra rasa e que dificilmente cativa a leitura. Em suma: as obras do passado devem dialogar conosco. Elas talvez não digam tudo que queremos ouvir, e se o disserem certamente não o dirão como gostaríamos que dissessem, mas cancelar uma obra ou autor por não espelhar nossos valores é uma prova de imaturidade que só não é maior do entronizá-la sem questionamentos.

Há certas “vacas sagradas” na literatura sobre as quais pesam suspeitas de terem cometido “pecados” modernos, como o racismo, o sexismo, o eurocentrismo, a misoginia etc. Algumas dessas são realmente clássicas, outras são produções secundárias de autores reputados por outras menos questionáveis. Esses questionamentos tendem a surgir devagar porque a tradição é muito resistente a desafios. O debate sobre Monteiro Lobato, por exemplo, já vem rolando desde o início aproximadamente 2010 e em 2011 já havia rendido a interferência do cartunista Ziraldo:

Este debate, surgido na esteira da republicação de O Presidente Negro,vem desde aquela época e ainda não triunfou completamente. Lobato ainda tem defensores e eu mesmo confesso que, devido à forte memória afetiva evocada pelo Sítio do Picapau Amarelo, demorei um pouco a entender o que estava acontecendo. Como Ziraldo, autor do cartum acima, eu reagi energicamente à ideia de que Lobato era um racista. Felizmente eu não me comprometi publicamente com a defesa dele, e reservei minhas possibilidades de reflexão para melhorar meu entendimento do caso.

Alguns debates são ainda mais antigos, como a ressignificação das obras de Rudyard Kipling e J. R. R. Tolkien, outros avançaram mais, como aquele sobre o legado de Orson Scott Card, e outros são muito mais ruidosos, como as frequentes tempestades causadas pelas opiniões polêmicas que J. K. Rowling não consegue guardar para si mesma. Kipling, que já foi visto como modelo ético e moral ideal (rapazes de minha geração foram muito admoestados a seguir os princípios de seu poema “Se És Capaz”), hoje foi reavaliado como basicamente um propagandista do Império Britânico e sua empreitada de subjugação do Subcontinente Indiano. O caso de Tolkien, porém, é muito mais complexo.

Biógrafos do autor são unânimes em apontar vários deslizes racistas em sua biografia pessoal — mas esses episódios tendem a se concentrar em sua juventude. Ninguém nega que Tolkien melhorou como pessoa ao longo da vida, que essa evolução foi contínua e irreversível e que em suas obras ele já adotava princípios eticamente muito superiores, por exemplo, aos de Kipling (e nem falemos de Monteiro Lobato aqui). O debate sobre o “racismo de Tolkien” não é, portanto, sobre seus valores e vida privada; mas sobre os símbolos presentes em sua obra que foram adotados e ressignificados depois pelo supremacismo branco. De certa maneira, Tolkien é vítima do mesmo mal que sobreveio a Nietzsche: ambos sofreram (e sofrem) por causa de seus fãs. Dois dos grandes fãs de Nietzsche foram Ayn Rand e Hitler. Entre os grandes fãs de Tolkien estão os supremacistas brancos:

Não se trata, porém, de tentar acusar o falecido autor de racista. Tolkien pessoalmente ficou enojado com o nazismo e não podia entender o romantismo nacionalista ou a ideia de que um país era definido por uma raça. Isto pode ser visto, por exemplo, em seu discurso sobre as línguas inglesa e galesa no livro Os Monstros e os Críticos. Algumas coisas, porém, que fazem parte do mundo apresentado em O Senhor dos Aneis tiveram origem no mundo real ou na vida do autor, e precisam ser discutidas .

(BLOMQVIST, 2001)

Obviamente existe uma discrepância entre os valores pessoais expressos de Tolkien, que foi tão claramente contrário ao nazismo que tentou impedir uma tradução de O Hobbit para o alemão, e os valores nos quais se baseou para construir seu mundo imaginário. Ao escolher esses valores e referências, que são os mesmos adotados pelos nazistas, Tolkien se expôs ao risco de ser apropriado pelos mesmos a quem se opunha enquanto cidadão. Se não for feito o debate sobre os elementos controversos presentes na obra de Tolkien, eles serão cada vez mais apropriados por supremacistas brancos e o estigma sobre a obra do autor se aprofundará, por mais que seus fãs esperneiem que ele não foi racista.

Todo “fã” é, por definição, fanático, ou seja, alguém que pensa irracionalmente a respeito daquilo de que gosta. O pensar irracional inclui não aceitar que seu ídolo tenha imperfeições, o que já é um nível inaceitável de irracionalidade, mas, no extremo, pode chegar até a fechar os olhos para interpretações imperfeitas de seu ídolo. De modo algum podemos culpar o autor pelo que cometem aqueles que gostam de sua obra, mas o resgate da filosofia de Nietzsche não ocorreu porque os nazistas, fanáticos por ele, conseguiram calar o debate, mas justamente porque, eliminando a horda de fanáticos, foi possível discutir maduramente os tópicos de seu pensamento.

Um debate sobre a um autor do passado e sua obra deve começar, portanto, negando o direito de palavra ao que pensa e responde como fã. Como diz Régis Tadeu, “todo fã é retardado”. Enquanto uma pessoa não for capaz de se distanciar de seu ídolo a ponto de ouvir calmamente uma crítica a respeito dele e responder com argumentos, esta pessoa não dirá nada que mereça ser ouvido porque reagirá defensivamente e não refletirá sobre o que foi dito.

Por todo o mundo há ensaios acadêmicos, artigos na imprensa e peças de opinião que questionam os aspectos racistas do legendário de Tolkien e apontam suas origens, como, por exemplo:

Embora muitos desses conceitos não fossem originalmente de Tolkien, suas obras os apresentaram de maneira que se tornariam a fundação da imagística fantástica como metonímia alusiva para a semiosfera do fantástico. Algumas dessas convenções se basearam em conceitos e traços que o público podia entender como alusões às preocupações de seu mundo real e seus — muitas vezes fortemente preconceituosos — arquétipos raciais.

Loponen (2019).

Esse debate precisa ser abordado de diversas frentes porque ele tende a ser afetado pela perspectiva do leitor em sua cultura local. Americanos, por exemplo, tendem a defender enfaticamente a convivência pacífica entre raças diferentes da Terra Média, como humanos e hobbits, que dividem o condado de Bree, como se isso provasse a inexistência de racismo. Estudiosos originários de outros contextos socioculturais enxergar sutilezas textuais que muitas vezes nós brasileiros (e os americanos também) não vemos porque já naturalizamos esses aspectos do racismo em nossa cultura. A convivência pacífica de dois povos que chegam a ser definidos como de espécies diferentes era o objetivo do regime de apartheid na África do Sul.

O racismo não precisa ser agressivo. Por exemplo, Rufo (2020) explica de que maneira a origem dos orcs evoca o processo de desumanização dos povos negros:

Na Primeira Era de O Silmarillion, os orcs, criações do inimigo Melkor, eram tidos como elfos que foram deformados por ele, tornando-se seres de corpo atarracado, pele cinza e personalidade cruel. Logo, em todas as Eras da Terra-Média, os orcs sãos valorados como negativos e limitados a essa constituição enquanto indivíduos. Na literatura, principalmente na fantástica, os corpos negativos são limitados a certos povos que, em uma relação dicotômica de poder, estão na posição de subserviência. Por isso, eles perdem (muitas vezes, em algumas obras) seu teor polifônico e heterogêneo. É interessante notar que, ao se voltar para a realidade, é possível ver os mesmos movimentos de dominação e preconceito sobre corpos que foram historicamente dominados e escravizados, como os corpos do povo negro.

Rufo (2020)

Não é necessário que Tolkien tenha sido racista enquanto indivíduo para que o conceito de que os orcs seriam elfos pervertidos pelas artes malignas de Melkor (o Satanás da Terra Média) evoque o conceito historicamente conhecido de que os negros seriam humanos pervertidos pela influência maligna de Satanás, através da Maldição de Cam. Menos de cem anos antes de Tolkien o pregador americano Joseph Smith explicava de maneira muito parecida o surgimento das pessoas de pele negra:

And he had caused the cursing to come upon them, yea, even a sore cursing, because of their iniquity … wherefore, as they were white, and exceedingly fair and delightsome, that they might not be enticing unto my people the Lord God did cause a skin of blackness to come upon them. And thus saith the Lord God: I will cause that they shall be loathsome unto thy people.

Livro de Mórmon (2 Nefi, 5:21-22)

Essa desumanização que parte da diferenciação física é um elemento existente em diversas mitologias antigas simplesmente porque muitos povos antigos eram racistas no sentido de que toda a sua cultura preconizava o extermínio dos demais povos.

O racismo é um mecanismo de opressão e exclusão social estabelecido quando os corpos de determinados sujeitos são negativamente valorados pura e simplesmente por sua etnia. Os corpos, atos sociais e capacidades intelectuais desses indivíduos são inferiorizados por eles pertencerem a uma etnia diferente daquela que detém poder (material e/ou simbólico). A partir do momento que eu inferiorizo um grupo por ser diferente do outro, o afasto de características que possam estabelecer um processo de empatia ou reconhecimento como pertencentes ocasionando em atitudes preconceituosas que levam a exclusão ou exterminação. Processo comum sobre negros em relação aos brancos e na II Guerra Mundial com os judeus e o estabelecimento do antissemitismo.

Rufo (2020)

Entre os povos antigos, isso se traduzia em guerras violentas cujo objetivo era o genocídio dos derrotados, como vemos em McRAE (2019), que descreve uma sepultura comum da Idade do Bronze, encontrada na Polônia, testemunha do massacre das mulheres, velhos e crianças de uma aldeia enquanto os homens adultos jovens estavam a caçar ou em missão militar.

Muitos dos mitos antigos evocam episódios semelhantes. A Guerra de Troia, por exemplo, tema da Ilíada, produziu, em sua fase final, o completo genocídio dos troianos nas mãos dos gregos. O que o achado arqueológico da Polônia demonstra é que essa prática, descrita no épico helênico, pode ter sido a norma, não a exceção. Pode ser que as mudanças de cultura na Europa Neolítica e na Idade do Bronze (antes da escrita) tenham sido determinadas por genocídios frequentes praticados por povos invasores numerosos. O exemplo mais recente disso pode ter sido as invasões mongóis, que despovoaram as estepes da Ásia Central e mudaram a composição étnica daquela região, até então habitada majoritariamente por povos de pele branca e língua indo-europeia.

Rufo (2020) volta a observar que, como aquele que mata o inimigo é visto como um herói, em vez de um assassino (esta é a ética da guerra), construir a imagem de um povo como monstruoso é uma forma de lhe relegar permanentemente ao papel de inimigo e assim legitimar e até estimular a violência contra os seus indivíduos. Os orcs são alvos porque padecem de um “pecado original” manifestado em sua própria aparência:

Nas descrições contidas na obra, os orcs seriam primeiro os elfos que caíram nas armadilhas de Melkor e foram corrompidos e, depois, membros de uma raça gerada em imitação aos elfos. Eles seriam algo como um mestiço, uma mistura entre esses primeiros elfos que foram corrompidos e outra coisa ou ser que não se sabe qual seria. Assim, eles já são considerados como horrendos pelo fato de serem mestiços, característica que, por si só, já gera um preconceito contra eles.

Rufo (2020)

Afinal, depois que um corpo se afasta da humanidade, sua morte se torna aceitável ou até necessária — sendo frequentemente por meio cruel. É justificável empregar meios excessivamente dolorosos contra eles porque eles não possuem sentimentos. Historicamente existiu um debate sobre se os negros teriam uma alma e até hoje há tentativas de desqualificar ou, pelo menos, limitar a humanidade dos negros, como em “A Curva do Sino”, de Charles Murray e Richard Herrnstein, obra que argumentou que os negros seriam sempre menos inteligentes que os brancos e que, portanto, investir em sua educação e formação intelectual seria desperdício de dinheiro público.

Mas estaria essa visão condicionada por nosso desejo de enxergar o mal em uma obra literária inocente? Loponen (2019) é bem enfático ao dizer que sua motivação para abordar a questão racial em Tolkien foi a pergunta que lhe foi feita por sua filha de seis ano enquanto ele lhe lia O Hobbit: “Por que todos os orcs são sempre maus?” Para o autor, o questionamento vindo da boca de uma criança lhe despertou para a naturalidade com que ele mesmo antes aceitava que ser orc era o mesmo que ser mau. O próprio Loponen, porém, admite que o problema mais grave não está em Tolkien, mas no gênero de fantasia como um todo, daí derivado, que criou uma “codificação de cores” para as criaturas. Essa codificação, que vem sendo recentemente desafiada de maneira deliberada, evoluiu de maneira “natural” em um gênero escrito majoritariamente por autores brancos.

Embora o racismo desse período possa ser parcialmente entendido no contexto do começo do século vinte em que muitos dos lugares-comuns da fantasia se originaram, a questão real é como esses conceitos se consolidaram nos trabalhos subsequentes e na própria gramática — no sentido semiótico da palavra — de tais gêneros. As características relativas à negritude e aos estereótipos raciais se entrelaçaram no tecido dos gêneros, carregando uma imagística carregada de valores raciais obsoletos para o tecido da ficção de hoje.

Loponen (2019)

É fácil imaginar porque tanta gente se recusa a aceitar o racismo inerente à obra de Tolkien, afinal, as traduções tendem a atenuar certos aspectos. As descrições dos elfos, por exemplo, nos mostram como a mão do tradutor suaviza o potencial racismo do original. Um adjetivo muito frequentemente usado em inglês para descrever os elfos é “fair”, traduzido como “belo”, mas este adjetivo é semanticamente carregado e pode ser entendido, conforme o contexto, como “justo ou honesto” (fair trade não é “comércio belo” é “comércio honesto ou justo”) ou como “bom ou bonito”, o que normalmente significa “louro”. Quando procuramos no Google Images por “fair hair” (“cabelo bom ou bonito”), vemos isto:

Esta garota, se tiver orelhinhas pontudas, bem poderia ser uma elfa.

Ao descrever os elfos como “fair folk” (“belo povo”) Tolkien os estava, também, descrevendo como “povo louro”. Mas a marcação de cor não é a única que vigora aqui. Conforme o mesmo Loponen cita:

As raças malignas recebem propriedades que podem ser facilmente ligadas a caricaturas preconceituosas de arquétipos raciais do mundo real, como canibalismo e estrutura tribal.

O legendário de Tolkien poderia ser descrito como uma Europa sitiada pelos mongóis e pelos sarracenos. Isto está consistente com a ambientação medieval em que ele se inspirou — e não podemos culpar o autor por criar esses elementos e associações, mas podemos, e devemos até, questionar a escolha por esses elementos e os riscos que eles oferecem a interpretações supremacistas.

Alguns desses riscos, porém, derivam diretamente de escolhas de palavras e temas que não têm a ver com a mitologia antiga, mas com o processo contemporâneo do colonialismo. Loponen (2019, p. 65) bota o dedo na ferida ao acusar Tolkien de descrever os orcs empregando conceitos e vocabulário coincidentes com a visão colonialista dos povos africanos subsaarianos:

Os orcs de Tolkien foram o produto da imagística colonial do Outro. Em O Senhor dos Anéis todas as descrições a respeito de orcs são consistentes com as representações coloniais dos negros africanos. Orcs são descritos nos livros principalmente com adjetivos ou expressões que eram comumente reservadas para os negros na literatura colonial. Exemplos típicos dessa imagística incluem a pele escura: dark skin, dark-skinned, black-skinned e black são adjetivos típicos e swart ou swarthy são usados frequentemente (nove vezes no romance e três nos apêndices, nem sempre descrevendo orcs, mas sempre de maneira pejorativa). Características e práticas canibais, tribalismo, habilidade linguística limitada, temperamento explosivo, grunhidos animalescos, inocência infantil combinada com astúcia maligna e “rasteira”, além de traços simiescos ou animalizados — como braços longos com dedos que se arrastam no chão — foram usados no discurso colonial sobre os negros africanos (Fanon, 1986 e Scott, 2010). Essas características são também usadas para descrever orcs, bem como sua “natureza” sendo capaz de apenas servirem a um mestre como escravos. A primeira vez que os protagonistas encontram orcs em Moria, eles são apresentados como “grandes e malignos: Uruks negros de Mordor” e o chefe dos orcs tinha uma “cara escura, larga e achatada”. Quando Merry e Pippin são levados cativos pelos orcs, seus captores declaram que são “servos da Mão Branca: a Mão que nos dá carne humana para comer”. Grishnákh, um de seus captores, é descrito com “braços muito longos, que quase chegam ao chão” e quando os orcs se referem aos humanos que os perseguem eles são chamados de “peles brancas”.

Loponen (2019, p. 65)

Aqui já não se trata da reprodução de uma mitologia do passado, mas da infiltração do texto literário por jargão contemporâneo do colonialismo, resultando na representação do inimigo como a versão ficcionalizada do “cafre”, o africano feroz que se insurgia contra os exércitos civilizados em grande número (de que os zulus são o exemplo mais vivo na memória coletiva).

A questão aqui é a tendência, muito natural, de que os autores sejam influenciados pelo seu tempo. O mesmo Loponen nos diz que:

Quando não há jargão predefinido ou gramática contextual na semiosfera do gênero, os autores tendem a criar conceitos fantásticos em referência a fenômenos existentes — como, no exemplo, conceitos e literatura coloniais — em sua semiosfera genérica. Assim, tendem a saturar sua nova irrealidade com alusões e metáforas relativas a conceitos e estereótipos existentes.

(LOPONEN, 2019, p. 65)

Não pretendo me estender excessivamente no exame dessa questão, mas acredito que os argumentos apresentados são bastante convincentes no sentido de que Tolkien reproduziu o discurso corrente de sua época, inclusive a visão colonialista dos povos africanos negros, resultando em uma obra que simultaneamente dialoga com os arquétipos civilizacionais da antiguidade (onde a violência e o preconceito já estão naturalmente presentes) e com a legitimação da opressão neocolonial contemporânea.

Esses problemas não se limitam a utilização da caracterização colonialista do negro, embora esta seja a mais claramente evidente, mas não há espaço aqui para abordar todos os aspectos existentes. O racismo presente na obra de Tolkien se infiltrou nela a partir do “caldo de cultura” em que o autor viveu — apesar de, em alguns aspectos, ele ter sido um homem de caráter e tolerante.

O segundo grande problema é justamente a utilização dos grandes arquétipos literários do passado. Os antigos épicos estão cheios de histórias em que, como vimos, o genocídio e o racismo estão presentes como elementos definidores do heroísmo. A escolha por contar essas histórias mantendo esses elementos não é inocente quando se tem por objetivo exatamente celebrar a grandeza dos mitos. Ao fazer tal escolha, um homem como Tolkien; tão conhecedor da literatura, da história e de seus símbolos; estava, de fato, revelando suas aspirações mais profundas em relação ao passado. Isto quer dizer que ele, por mais que se irritasse com a apropriação de sua obra pelos nazistas, não estava ideologicamente muito longe de certos setores que simpatizaram e apoiaram o nazismo.

Afinal, os nazistas não teriam se deixado fascinar por O Hobbit se não vissem na obra os elementos de idealização do passado que estão presentes de maneira tão clara nos ideais do fascismo.

Referências

BLOMQVIST J. Race and racism in Middle-Earth – a study of Tolkiens The Lord of the Rings. 2001.

LIEBHERR, L. Reimagining Tolkien: A Post-colonial Perspective onThe Lord of the Rings. Universidade de Limerick (Irlanda): 2012.

LOPONEN, M. The Semiospheres of Prejudice in the Fantastic Arts: The Inherited Racism of Irrealia and Their Translation. Universidade de Helsínquia (Finlândia): 2019.

McRAE, M. Archaeologists Uncover a Truly Disturbing Story in a 5000-Year Old Mass Grave Site. Science Alert, 2019.

RUFO A. D. O Corpo e o Outro: Constituição da Alteridade em uma Perspectiva Bakhtiniana de ‘O Silmarillion’ de J. R. R. Tolkien em Cotejo com o Racismo. Universidade Federal de São Carlos. São Carlos, SP: UFSCAR 2020.

VINK, R. ‘Jewish Dwarves’: Tolkien and Anti-Semitic Stereotyping. Tolkien Studies 10. West Virginia University: 2013.

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