A Dama Pé de Cabra

> Conforme promessa antiga, eis minha primeira tentativa de transformar a antiga lenda portuguesa da Dama Pé de Cabra em um conto de terror ao gosto moderno. Preservei o tratamento em segunda pessoa para dar um ar medieval ao texto (que é, de fato, ambientado na Idade Média), e procurei evitar, ao máximo, toda modernização que violasse o espírito do original. Sendo assim, as personagens do sexo feminino são deixadas em segundo plano a ponto de nem terem nome. Esta versão, porém, expande a história […]

Redrum — Contos de Crime e Morte

A primeira **coletânea** de que participei em muito tempo, e “abre os trabalhos” com minha nova editora. Para esta coletânea, produzi um texto original chamado “A Noiva Liberdade”, que se baseia em uma ideia retirada de um poema de Castro Alves. Pelo conceito da coletânea, todas as histórias deveriam ser sobre crimes de morte, mas eu, para não cair no lugar-comum, inventei um tipo insidioso de crime, que dificilmente seria punido pela justiça dos homens. “Redrum” é uma palavra inventada por Stephen King, no romance […]

Minha Primeira Publicação

Aqui está escaneada a página de uma antologia poética publicada pela “Shogun Arte” (a primeira editora do Paulo Coelho”), contendo meu poema “Outonal” (um dos raros escritos naquela época que eu não modifiquei profundamente. Estas antologias poéticas eram um tipo de caça-níquel ainda mais vicioso que as editoras paga-e-publica de hoje, não só porque elas realmente publicavam qualquer coisa, mas porque cobravam caro. Naquela época eu não sabia ainda que poderia haver picaretagens no mundo, e alegremente paguei para que o meu texto tivesse uma […]

Mapas, Cartas, Diários e Outras Antiguidades

Ocorreu-me ontem, ao ler mais uma sinopse de romance, o quanto nós ainda estamos presos ao passado de formas que não percebemos. Os índios do Xingu tem um conceito que expressa bem isso. Segundo narrou Orlando Villas-Boas, quando ele e outros sertanistas acompanhavam os índios em caminhadas pela floresta, se os brancos forçavam muito o ritmo, os índios pediam para fazer uma parada. Depois de ver isso ocorrer várias vezes, perguntaram-lhes por que e os índios disseram que os brancos queriam andar muito depressa, mas […]

Depois de Ler Draccon, Reli “O Alquimista” e Achei Bom

Muitas vezes eu lia textos de jovens autores nas comunidades do Orkut, e mais tarde aqui no Face, e ficava espantado com o baixo nível de domínio da norma culta. Com o tempo me acostumei com a ideia de que a escola inclusiva e universal que existe hoje não consegue formar um usuário pleno do idioma no mesmo tempo de antes, em troca, ela leva mais gente ao fim do caminho. Respirei fundo e me conformei com isso, mesmo suspeitando que algo não somava 100% […]

O Rei [da Literatura Fantástica Nacional] Está Nu

A vaidade é um pecado, segundo o Eclesiastes, que reinou em Jerusalém. Pessoas contaminadas por ela cometem os maiores enganos sem perceberem que estão em equívoco, porque a vaidade produz a dissociação da realidade: o vaidoso perde a capacidade de realizar uma avaliação isenta do mundo. Talvez por isso queira se cercar de um séquito de admiradores. Não só porque a adulação reconforta, mas porque a vaidade se completa no elogio. O vaidoso faz é apenas um meio para ordenhar a simpatia desse séquito. Não […]

Diversos Fins de Mundo

O mundo pós-apocalíptico é um tema recorrente na literatura de ficção científica e fantasia. Não discorrerei sobre os motivos disso, posto que não sou psicanalista e nem crítico literário, mas quando eu mesmo escrevi sobre o tema, foi pelo atrativo de praticar uma abordagem “tabula rasa” sobre o mundo e começar a fazer as coisas funcionarem como eu desejava. Minhas leituras das obras do gênero, porém, me levaram a crer que muitos autores cometem erros impressionantes ao criarem suas histórias, simplificando excessivamente os processos e as realidades derivadas do “apocalipse” escolhido. Este artigo pretende ser uma análise destas limitações, ressaltando que não são todas as obras que cometem estes erros, mas a frequência deles torna útil sua discussão. […]

A Virgem do Sabá

Jovita emba­lava a menina nos bra­ços e Jerônimo as con­tem­plava, entre embe­ve­cido e des­con­fi­ado. Lembrou da noite em que a conhe­cera, não teve receios nem remorsos — sen­tiu-se, na verdade, cheio de orgu­lho de ter sido tão homem e recos­tou na cama, arfando o peito como se os pulmões inflassem dentro de uma estreita gaiola enferrujada e dezenas de nava­lhas subis­sem com a res­pi­ra­ção. Fechou os olhos, igno­rou o cheiro dos remé­dios e dos chás, e sentiu-​se de novo na noite da Serra dos Caramonos.[…]

Não Motivarei Você

É porque as pessoas que adquiriram alguma experiência na escrita conservam o direito de gostar e deixar de gostar, com a única diferença que obtiveram a capacidade de explicar porque. Algumas pessoas ouvem estas opiniões e se ofendem, o que é uma tolice. Haver pensamentos diferentes é normal. Você será criticado, você enfrentará a indiferença e até a hostilidade ao longo da vida. Estes alguns que se sentem ofendidos com as críticas de quem pensa diferente não param a pensar que eles próprios, provavelmente, também […]

À Janela

De minha janela vejo, numa rua do morro em frente, uma moça que desce pela calçada. A distância não me permite conhecê-la, apenas vejo que não é nem muito magra e nem muito alta, que seus cabelos caem pelas costas e que é dessa cor mestiça indefinida e bela. Trajando uma blusa branca do tipo mais usado pelas moças comuns e uma blusa preta de mangas curtas decotada nas costas e – suponho – presa à frente por um lacinho de cordão.[…]

Notas para uma Polêmica Pesada sobre Filologia

Enquanto fazia uma pesquisa sobre os “erros gramaticais de Machado de Assis”, deparei-me com uma afirmação importante de um filólogo conhecido, mas cujo link acabei perdendo: não é só a orthographia que mudou nos últimos séculos (no caso Brasileiro, aliás, quatro vezes), mas também a gramática e a análise sintática. As obras da literatura luso-brasileira dos séculos XVI a meados do século XIX (anteriores a Herculano, Garrett e Castelo Branco) estão cheias de “desvios” em relação à gramática padrão. O que houve? Talvez em uma […]

Brasil, Ano Zero

Normalmente não escrevo aqui sobre futebol, a não ser em ficção, como no recente conto “Gol de Placa, Gol de Pato”, mas vou abrir uma exceção porque tudo hoje foi exceção. A derrota brasileira para a Alemanha foi um resultado sobrenatural, desses que acontecem uma vez a cada milênio. Tão sobrenatural que nunca acontecer nada parecido. E poderia ter sido pior. Diante disso, e sendo cada brasileiro um entendido de futebol, resolvo dar meus pitacos, sem me meter, é claro, a falar de tática ou […]