A Fazenda da Serpente, 8

> Parte da série [A Fazenda da Serpente](/lit/2014/10/nova-serie-a-fazenda-da-serpente) As chances não pareciam boas. Demóstenes e seus homens conheciam os arredores e certamente a fuga de Rufino não era a primeira. Mas o tenente não queria se entregar tão fácil, nem deixar tantas boas armas e munições nas mãos daqueles mise­ráveis. A um aceno Maneco o seguiu, mesmo ainda não entendendo nada, porque adquirira a sabedoria que o medo ensina nessas horas. Correram pelos fundos da casa, mas Rufino sentia nos ossos que seriam cercados. Lembrou […]

Tradução: A Vinda do Verme Branco, 4 (C. A. Smith)

Ao ver tal entidade a pulsação de Evagh se deteve por um instante, tal o terror e logo a seguir do terror as suas entranhas se revoltaram dentro dele, tal o excesso de nojo. Em todo o mundo nada havia que pudesse ser comparado à asquerosidade de Rlim Shaikorth. De alguma forma ele tinha a semelhança de um gordo verme branco, mas seu volume era maior que o de um elefante-marinho. Sua cauda espiralada era tão grossa quanto as dobras medianas de seu corpo e […]

Tradução: A Vinda do Verme Branco, 3 (C. A. Smith)

Ele teria fugido da casa, sabendo que sua magia era totalmente ineficaz contra aquilo. Mas compreendeu que a morte estava na exposição direta aos raios do iceberg e que se deixasse a casa ele forçosamente entraria naquela luz fatal. E também compreendeu que ele só, entre os que viviam naquele trecho de lito­ral, tinha sido excluído da morte. Não podia supor a razão de sua exceção, mas concluiu por fim que era melhor permanecer paciente e sem medo, à espera do que lhe devesse acontecer. […]

Tradução: A Vinda do Verme Branco, 2 (C. A. Smith)

De volta à sua casa antes da noite, queimou junto a cada porta e janela as resinas que são mais ofensivas aos demônios do norte, e em cada ângulo por onde um espírito pudesse entrar ele situou um de seus familiares para guardar contra a intrusão. Depois, enquanto Ratha e Ahilidis dormiam, ele pesquisou com cuidado diligente nos escritos de Pnom, nos quais estão coletados muitos exorcismos poderosos. Mas o tempo todo, enquanto lia para seu conforto os velhos autógrafos, ele se lembrava melancolicamente dos […]

Tradução: A Vinda do Verme Branco, 1 (C. A. Smith)

Por residir junto ao mar boreal, o feiticeiro Evagh costumava ver muitos por­ten­tos inesperados no verão. O sol ardia gélido sobre Mhu Thulan, pendente de um firmamento límpido e desbotado como gelo. Ao entardecer a aurora se esten­dia do horizonte ao zênite, como uma cortina de um palácio dos deuses. Débeis e raras eram as papoulas e pequenas as anêmonas nos vales que entre­me­avam os rochedos além da casa de Evagh, e os frutos de seu jardim murado eram pálidos por fora e verdes por […]

Tradução: Vulthoom (C.A. Smith)

“Vulthoom” é uma noveleta de Clark Ashton-Smith escrita e publicada em 1935 e pertencente ao breve ciclo de histórias marcianas do autor, nas quais geralmente temos o [desastroso] encontro de terráqueos com os perigos e enigmas do planeta Marte, aqui chamado de Aihai. Além de “Vulthoom” este ciclo é composto pelos contos “O Habitante do Abismo” (The Dweller in the Gulf) e “As Criptas de Yoh-Vombis” (The Vaults of Yoh-Vombis), além de um conto chamado “A Muda Marciana” (The Seedling of Mars), no qual não […]

Descobri que eu Era um Péssimo Poeta

Cada vez que acho um poema perdido numa gaveta ou num arquivo virtual amarelado pelos bits do tempo, convenço-me mais de que nunca fui realmente poeta. Fazia versos: não é a mesma coisa. Poeta é alguém que consegue escrever de vez em quando três ou quatro linhas que embasbacam até quem não sabe o que é poesia. Eu nunca fui desses, então nunca fui poeta. Tenho mais de 1200 páginas de poesia devidamente escrita e catalogada, dolorosamente catalogada e editada ao longo de vinte anos. […]

Carta Aberta ao Senhor Motorista do Tanque – Parte Final

Voltar ao Índice Se as editoras conseguirem o que querem, implantarão suas “equipes cocriadoras” e tentarão amestrar todo jovem autor que as procurar querendo divulgação. Muitos talentos serão castrados. Para os corajosos, como a porta da rua é serventia da casa, restarão os desertos da independência. Meu Deus, a horrível liberdade. Uma “equipe cocriadora”, no contexto da literatura, é um conceito tão monstruoso que foi preciso mais de um século para ele tomar corpo, desde que as editoras começaram a contratar revisores que iam além […]

Carta Aberta ao Senhor Motorista do Tanque – Parte 5

Voltar ao Índice A era eletrônica, o paraíso do editor. Ou melhor, do censor. Antigamente se poderia bem dizer que “livro é como passarinho”, depois que saiu da prateleira da livraria ninguém mais controla. Hoje em dia é possível revogar a publicação do livro, apagar do dispositivo chique o arquivo ofensivo que não deveria ter saído. Mas, acima de tudo, hoje em dia é possível fazer as “correções” na redação do escritor-aluno até que seja aceitável no contexto da edição-escola. Onde foi que esqueceram pelo […]

Carta Aberta ao Senhor Motorista do Tanque – Parte 4

Voltar ao Índice Vocês devem estar imaginando, então, que eu sou mais um que celebra o futuro esfuziante que vem aí. Que sou contra as ferramentas de controle do conteúdo, mas que abraço entusiasticamente o mundo eletrônico. Nem tão depressa assim, motorista, pare o ônibus do futuro, pois quero descer. Quero voltar para minha casa, achar meu próprio armário debaixo da escada, ali me esconder, com minha velha máquina de escrever, e então, de dentro da escuridão desse meu canto, oferecer-lhes meu vislumbre desse futuro. […]

Carta Aberta ao Senhor Motorista do Tanque – Parte 3

Voltar ao Índice Na postagem passada eu argumentei que o “livro eletrônico” entre aspas (marketeado como “e-book”) não é um produto novo, mas uma tentativa de mercantilizar algo que já existe. E que o objetivo do “e-book” não é oferecer conteúdo, mas controlá-lo. O livro é uma ferramenta muito poderosa. Tão poderosa que ele, praticamente sozinho, acabou com a Idade Média e produziu esta sociedade em que você vive, este Admirável Mundo Novo, cheio de tantas pessoas adoráveis. Não acredite nos historiadores tradicionais: o mundo […]

Carta Aberta ao Senhor Motorista do Tanque – Parte 2

Voltar ao Índice Comecei a postagem passada dizendo que o “e-book” é uma “buzzword” poderosa, que adquiriu um caráter de dogma, e cuja crítica é retrucada com o anátema. Esta é uma característica predominante de nosso tempo: após décadas de modernismo, caracterizado pelo pensamento multifacetado, vivemos uma era de aspiração ao pensamento único, sob o signo do infame “fim da História” apregoado por Francis Fukuyama, nome que será eternamente lembrado pela ignomínia. Algumas “buzzwords” nomeiam coisas que efetivamente existem, são novas e se consolidam, como […]