Saque em Espécie

O cliente se aproxima do guichê. Um senhor entre cinquenta e sessenta anos de idade presumíveis. Pede o saldo da caderneta de poupança. A jovem caixa pede o cartão, digita alguma coisa no teclado e solicita digitação da senha. O saldo é impresso e o cliente pergunta: — Moça, como faz para eu tirar tudo que eu tenho na minha poupança que eu tenho com a minha mulher? A funcionária, vamos dar-lhe um nome qualquer, um nome simpático, porém, como “Manu”. Ela olhou o saldo […]

Prova de Vida

Veloso trabalha em um banco e recebe um pedido de uma jovem misteriosa que deseja fazer a “prova de vida” de seu avô, que se encontra acamado. Contra as instruções normativas da empresa (e o que recomendaria o próprio bom-senso), ele decide visitar a família do idoso, para assegurar-se de que ele está vivo, para que possa autorizar a continuidade dos pagamentos de seus benefícios de aposentadoria. A partir de então ele se vê enrolado em uma situação cada vez mais estranha, perdendo a noção […]

Festa Estranha, Gente Esquisita

Meu trabalho é encarar fila de banco. Tem quem ache que é um serviço fácil, mas tudo é fácil para quem não tem que fazer. Eu detesto, porque nesse serviço eu não sou dono de meu tempo. Não faço as regras e nem as horas, mas sempre levo bronca do patrão quando volto tarde, mesmo ele sabendo que o atraso é culpa do caixa, do banco, do engarrafamento do trânsito, do alinhamento dos planetas ou da queda de um asteróide. Infelizmente preciso da grana: a […]

Paraísos Fiscais Artificiais

Entre todos os empregos do mundo, talvez os bancos sejam os que proporcionam o maior número de histórias curiosas, não só dos complexos relacionamentos entre os funcionários e a hierarquia, visível e invisível, mas também da interação com toda uma fauna de clientes e seus comportamentos surpreendentes. De vez em quando eu me lembro de algum episódio, ocorrido comigo ou com algum amigo e, se houver transcorrido suficiente tempo para dificultar a identificação do personagem, me disponho a compartilhar com os leitores. O episódio de […]

A Poder de Remédios

Os gânglios linfáticos de Teresa doíam do esforço de simplesmente deixar o carro e andar até a soleira da porta. O sol estava forte, o vento estava seco e ninguém parecia se importar. Vivia sozinha fazia tempo, nunca se importara. Só a companhia do câncer mudara isso: tinha medo de morrer só, de ser encontrada putrefata na sala, com ratos dentro da barriga e vermes lhe saindo dos olhos. Mesmo morta não se imaginava feia: queria que sua última imagem fosse a da beleza que […]

Goiabas, Cédulas e Pães

Quando terminei de contar as notas eu já estava com vontade de chorar. Faltavam dois mil e quinhentos no caixa e já estava atolado até o peito em dívidas. Contei, recontei, suspirei e, por fim, registrei penosamente a diferença no boletim de caixa, sacramentado pela rubrica rabiscada do supervisor. Com aquilo a minha vida de caixa acabava: até por uma questão de humanidade me “poupariam” de trabalhar mais no setor, o que significaria uma lamentável queda de quase quarenta por cento no contracheque. Algo lamentável, […]

O Meu Melhor Amigo

Um conto pessimista escrito em 2003, em homenagem a um melhor amigo real, que não quebrou um braço, mas disse algumas das coisas que o personagem expressa. O meu melhor amigo voltou das férias ontem com um braço quebrado.‭ ‬Ninguém ainda parece haver notado nada de estranho nisso, ‬como se férias normalmente quebrassem ossos.‭ ‬Mas eu não me contenho de perguntar por que motivo alguém voltaria do litoral com um membro na tipóia.‭ ‬Nada porém que me leve a romper o silêncio que ele,‭ ‬por […]

Inspiração, Transpiração, Piração

Entre as muitas verdades aprendidas melancolicamente ao longo da vida, eis uma que me encanta e ao mesmo tempo magoa: eu não sou o escritor que poderia ter sido se eu tivesse podido ser um escritor. Difícil entender? Vamos por partes. Sou escritor amador, o que significa, basicamente, que dedico a maior parte de meu tempo a outra coisa, que faço, esta sim, como profissional. Na prática: o escritor que eu sou vive das sobras do profissional que eu sou. Não se trata de uma […]

Quanto Você Quer Pagar?

Quanto você pagou pelo seu dia de hoje? Nada? Tem certeza? Provavelmente você está enganado, tanto quanto eu estive durante décadas perdidas de minha vida. Cada dia que você vive está pago, e muito bem pago, com uma moeda cujo valor subjetivo é maior que o do dólar e o do iene: a liberdade. É com liberdade que você paga por lhe terem deixado vivo mais um dia. Com ela você comprou, indiretamente, o pão e o café que o prepararam para outra jornada. Esta, […]

A Arte de Ser Ridículo

Aonde quer que vá, tudo sempre igual: pessoas agindo comicamente e ele, aliviado por não ser bobo como elas, sentindo por dentro a nódoa de inveja pela felicidade irresponsável que podem ostentar enquanto ele arrasta a solidão, apenas ocasional e temporariamente minorada por relacionamentos passageiros. Impossível, por exemplo, brincar o carnaval. Basta um bloco de sujos para sentir até vontade de rir daquelas fantasias e caretas estúpidas que fazem. O “Bloco das Piranhas” não lhe faz apenas vontade de rir: dá-lhe horror ver aqueles marmanjos […]

As Visitas

Meus olhos percorriam preguiçosamente a sala, retendo-se em detalhes que eu já conhecia muito bem, apenas para terem o que olhar, porque a minha ansiedade me embaraçava e as minhas visitas insistiam em não ir embora, ainda que eu não lhes oferecesse nada. Acredito que sou bom, mas não há crente que resista à presença de visitas que querem comover-nos com lembranças num momento em que preocupações materiais se interpõem entre os sentimentos e os fatos. Difícil suportar perguntas que querem mostrar uma súbita consideração, […]