Exotismo e Escapismo

A predominância de elementos exóticos entre os gêneros de ficção mais populares no Brasil me dá a impressão de que a maior parte do público leitor brasileiro tem pouca noção de si mesmo e busca na literatura um escapismo. Não é só porque os best-sellers são vendidos de forma massificada. Poderíamos estar comprando best-sellers realistas. Se focamos em certos temas em vez de outros, isso deve ter um significado. A busca do exótico atinge tanto a literatura estrangeira traduzida quanto a literatura nacional escrita sob […]

Como o Lugar de Fala Pode Matar a Literatura como a Conhecemos — e Porque Isso Pode Ser Bom

Há algum tempo uma pesquisadora da UnB fez um levantamento estatístico da literatura nacional e concluiu que ela é o produto do trabalho, principalmente, de homens brancos, de classe média originários do eixo Rio-São Paulo. À parte algumas vociferações nas redes sociais, esse resultado não foi praticamente discutido por ninguém porque é uma descoberta que incomoda. Ninguém gosta de ser tachado de racista e ninguém é racista simplesmente por pertencer a uma classe privilegiada da população. Porém o que se detectou nessa pesquisa é um […]

Como Seria a Vida sob o Comunismo?

O artigo a seguir é um exercício de imaginação, baseado nas obras de Karl Mark e Lênin. Não se trata de uma descrição da vida na União Soviética porque esta jamais atingiu o estágio do “comunismo ideal”, embora tenha sido o estado que dele mais se aproximou. Algumas das coisas citadas aqui existiram na União Soviética, outras nunca saíram da teoria revolucionária. A diferença entre uma e outra eu deixo como um exercício para o leitor interessado. Esta foi originalmente uma resposta que dei a […]

A Alienação no Processo Criativo

Os autores, especialmente os mais jovens, mas não somente eles, costumam reagir com certa amargura quando o tema “alienação” é colocado em discussão. A ideia de que o conceito sequer exista ou possa ser aplicado à literatura lhes parece ofensiva, como se alguns autores quisessem colocar-se em um pedestal moral — o que nunca é simpático. Essa reação instintiva ao conceito de alienação reflete uma dificuldade para refletir sobre o próprio fazer literário, que é, em grande parte, causada pela generalizada ignorância daqueles que querem […]

Impressões da Leitura de “Coração das Trevas”, de Joseph Conrad

> Atenção: Este texto contém “spoilers” e deverá ser lido somente por quem já tenha lido “Coração das Trevas”. Deixei passarem algumas semanas desde minha leitura deste ótimo livro antes de começar a comentar, a fim de evitar que os comentários do tradutor e do editor me influenciassem numa direção ou noutra. Para permitir que somente o impacto potente desta obra fenomenal determinasse o que eu escrevia sobre ela. “Coração das Trevas” é um clássico absoluto, e é um livro também desafiador e simples. Parte […]

Colonização Cultural – Um Debate

Anteontem começou uma longa discussão no Facebook sobre uma tal “colonização cultural”. O ponto de partida foi um “meme” do Dr. House (um ícone cultural do colonizador, vejam só) com a frase seguinte: É de se imaginar o furor que a frase provocou, pois ela ataca a jugular dos jovens escritores brasileiros, sem lhes deixar chance de defesa. Nada afaga mais o ego juvenil do que a doce ilusão de ser especial, e nada o ataca com mais força do que a lembrança de que […]

O Culto da Carga na Literatura Nacional

Correndo o risco de perder mais uns dois ou três dos doze ou treze leitores que me restam aqui nesse blog sonambúlico, inicio mais uma treta, com o objetivo óbvio de ofender as pessoas que gostam de mim e espantar quem ainda se interessa pelo que eu escrevo. Ou para fazer as pessoas de mente aberta terem no que pensar nesse domingão, enquanto eu vou visitar família e amigos em Cataguases. Quem for copiar para seu blog sem me dar crédito, comece no parágrafo seguinte. […]

O Ano do Gato

> Minha última participação no desafio EntreContos (aqui repostado com algumas correções de erros percebidos após a inscrição). O tema do mês era “histórias baseadas em música” e eu o ataquei utilizando como base para um conto a letra de “Year of the Cat”, sucesso de Al Stewart em 1975. Fiz isso porque a letra, em si, já continha o embrião de uma história. > Não é um texto de que eu particularmente me orgulhe (e eu nunca o antologizarei porque tenho sérias dúvidas sobre […]

Os Jovens Johnnies, Reexplicando

Vou tentar de novo explicar minha posição sobre autores brasileiros que escrevem obras ambientadas no “estrangeiro”, porque as pessoas acham que eu, muitas vezes, a expresso de forma preconceituosa contra os novos autores. O exotismo é uma possibilidade, mas não é uma necessidade. Se você acha que vai ficar legal escrever uma obra ambientada em outro país, vá fundo. Só vai ser problema se ficar ruim. Mas se você acha que “deve” ambientar sua história em outro país por algum motivo, então aí tem alguma […]

Desafio Entre Contos: Bruxas

Este mês o desafio de ficção promovido pelo site EntreContos me atraiu muito, por se tratar de um tema que sempre me fascinou: bruxas. Tão excitado eu fiquei que logo parti a escrever e, quando dei por mim, construíra “[A Virgem do Sabá](/lit/2014/07/a-virgem-do-saba)”, baseado em [uma sinopse](http://eldritchdark.com/writings/short-stories/176/queen-of-the-sabbat-%28synopsis%29) deixada por Clark Ashton-Smith. Infelizmente esta história ficou longa demais para o desafio e *tive de escrever outra!* Da segunda vez, mantive a inspiração no mesmo universo ficcional (de Lovecraft, Ashton-Smith e outros) e recorri temas extraídos de […]

A Perdição do Homem (Beatrix e Jeannelynne)

“Ó amiga e companheira da noite, ó tu que te regozijas no ladrar dos cães e no sangue derramado, que perambulas por entre as sombras entre as tumbas e trazes terror aos mortais! Gorgo! Mormo! Lua de mil faces, contempla favoravelmente os nossos sacrifícios”― H. P. Lovecraft (em “O Horror em Red Hook”) A porta se fechou e Beatrix suspirou o temporário alívio da primeira noite. Mas não se recostou para dormir, sabia-o impossível. Como recostar a cabeça em um travesseiro antecipando que o segundo […]

A Dama Pé de Cabra

> Conforme promessa antiga, eis minha primeira tentativa de transformar a antiga lenda portuguesa da Dama Pé de Cabra em um conto de terror ao gosto moderno. Preservei o tratamento em segunda pessoa para dar um ar medieval ao texto (que é, de fato, ambientado na Idade Média), e procurei evitar, ao máximo, toda modernização que violasse o espírito do original. Sendo assim, as personagens do sexo feminino são deixadas em segundo plano a ponto de nem terem nome. Esta versão, porém, expande a história […]