O Conversador

Eu tenho a mania de conversar sozinho, mentalmente. Só que as vezes eu esqueço esse cuidado e começo a sussurrar. Quando percebo que isso aconteceu, olho em volta e começo a assobiar. Eu não sei assobiar. Quando eu converso sozinho, costumo fazer muitas perguntas a mim mesmo. Nem sempre sei as respostas de todas. Então insisto nas perguntas. Tento responder em vão, perco a paciência comigo mesmo por não ter respostas satisfatórias. Algumas vezes me ofendo e fico de mal por vários dias, até recomeçar […]

Técnicas Esquecidas de Escrita

> Em Homenagem a Sérgio Ferrari, do blog [Astromiau](http://astromiau.blogspot.com.br/2014/08/tecnicas-esquecidas-de-escrita.html). ## Dadaísmo Liquefeito Se o romeno Tristan Tzara recortava palavras do jornal para sorteá-las aleatoriamente e assim produzir poesia, o mineiro Walito Girão batia páginas de diários em um liquidificador, bem rapidamente, e depois despejava o emaranhado sobre uma cartolina. Tinha uma grande vantagem sobre o método dadaísta de Tzara, pois não apenas permitia descobrir inusitadas relações entre palavras, como também criava as mais estranhas relações entre letras e sílabas. A obra do extraordinário poeta ficou […]

O Preço da Passagem [3]

Não percebi quantos dias passei naquele lugar. Dizem-me que foram cinco. Nos primeiros dois ou três o homem do quepe tentou extrair de mim alguma informação sobre as pessoas com quem estivesse envolvido. Mas de alguma forma, segundo consta dos relatórios a que hoje tenho acesso, graças ao habeas data, eu apenas circulava em torno da ideia de ter entrado em algum barco em companhia da falecida Jurema, de ter saído sozinho e a deixado lá. Assinado um tal Tenente Cavalcanti.

O Preço da Passagem [2]

Tardou ainda por algum tempo incontável, mas não demasiado que nos desesperasse. Soou uma outra buzina de navio indo para o mesmo lado do primeiro. Ouvimos o já conhecido chapinhar de pás, sentimos o farfalhar das roupas da multidão, talvez ansiosa, acendeu-se a trêmula luz vermelha de uma lanterna e o batel encalhou na areia. Desceu o barqueiro vestido da mesma maneira monacal que os anteriores, o rosto recoberto pela sombra de uma dobra de tecido — e dentro dela um brilho desagradavelmente avermelhado e solitário.

O Preço da Passagem [1]

A última coisa que vi na noite escura de 26 de abril de 1967 foram luzes azuis e vermelhas no retrovisor. “Malditos milicos, nos acharam!” — pensei e acelerei na vã esperança de fugir, mas logo perdi o controle em uma curva fechada da estrada para Araruama. Jurema gritou e se encolheu, o carro atingiu a sebe com um baque e um farfalho, tudo muito rápido, e caímos pela ribanceira. Apenas tive tempo de pensar que muitos anos depois da ditadura talvez nos considerassem mártires estudantis e dessem indenizações a nossas famílias. A ironia disso me fez suportar tudo sorrindo, enquanto o rádio do Aero Willys tocava Beatles rumo ao abismo: *She’s got a ticket to ri-i-i-de, but she don’t care…*

A Serpente com Asas

Dedicado +Félix MaranganhaConfesso que tive durante muito tempo uma certa resistência preconceituosa contra a tatuagem. Coisa de marinheiros, de presidiários, de maconheiros, de nefelibatas, de mafiosos japoneses que amputam os próprios dedos. Nada que caiba no quadrado perfeito em que inscrevo minhas opiniões. O tempo, porém, foi me educando mais a respeito do tema e eu fui percebendo que há tatuagens e tatuagens… Algumas eu posso apensa desconsiderar, outras são realmente desprezíveis, algumas eu devo temer e a maioria é simplesmente sem sentido.

Entrevista de Emprego

Entrei em uma sala gélida, de móveis desenhados a régua e compasso, mas sem inspiração. Uma senhora tentava parecer vinte anos mais jovem a custa de muita maquiagem e de roupas roubadas do armário da filha do meio.Quando me viu ela ergueu os olhos cuidadosamente, tentando disfarçar que os seus óculos transados eram trifocais, e sinalizou-me uma cadeira desconfortável. Sempreé desconfortável a cadeira de quem se mede com a autoridade, eu tinha a sorte de não ser um instrumento de interrogatório medieval. Vendo-me devidamente em […]

[Tradução] O Explosivo de Baumoff (William Hope Hodgson)

*Dally, Whitlaw e eu discutíamos a estupenda explosão que recentemente ocorrera nas cercanias de Berlim. Nos maravilhávamos com o extraordinário período de escuridão que se seguira, e que dera curso a tanto comentário nos jornais, com teorias a rodo.*

*Os jornais tinham tomado conhecimento do fato de que as autoridades de guerra estariam experimentando um novo explosivo, inventado por certo químico chamado Baumoff, e se referiam a ele constantemente como “O Novo Explosivo de Baumoff”.*[…]

Esquizofrênico Criador

No laboratório privado que a sua profissão de psiquiatra lhe havia possi­bi­li­tado cons­truir, equipar e manter, o Dr. Carlos Moreno acabara de completar cer­tas preparações que estão pouco de acordo com os ensinamentos da ciên­cia moderna. Porque tais preparações ele as extra­íra de velhos grimórios, herdados por ances­trais que haviam incorrido na ira sagrada da Inquisição Espanhola. De acordo com uma lenda familiar bem ofensiva, outros ances­trais contavam entre os Inquisidores.[…]