{"id":107,"date":"2012-11-10T22:49:00","date_gmt":"2012-11-11T01:49:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=107"},"modified":"2017-08-13T01:32:09","modified_gmt":"2017-08-13T04:32:09","slug":"o-odio-a-poesia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2012\/11\/o-odio-a-poesia\/","title":{"rendered":"O \u00d3dio \u00e0 Poesia"},"content":{"rendered":"<p>Acabo de me deparar no Facebook com algu\u00e9m compartilhando a pequena hist\u00f3ria em quadrinhos acima. Logo que a li percebi que ali havia assunto para mais do que meramente um &#8220;Curtir&#8221; ou um &#8220;Compartilhar&#8221;, mesmo porque n\u00e3o me senti impelido a nenhuma das duas coisas. Como aquela rede social n\u00e3o \u00e9 muito receptiva a elucubra\u00e7\u00f5es mais compridas, preferi postar aqui, mesmo sabendo que menos gente ler\u00e1, curtir\u00e1 ou compartilhar\u00e1.<\/p>\n<p>> Texto escrito em 2012 como resposta \u00e0 divulga\u00e7\u00e3o de uma tirinha em que se manifestava desprezo pela obra de Augusto dos Anjos e pela poesia em geral, culminando com a afirmativa de que poesia n\u00e3o serve &#8220;nem para limpar a bunda&#8221;.<\/p>\n<p>A tirinha expressa, de fato, muito mais do que est\u00e1 dito nas palavras de seu protagonista: ela \u00e9 a vingan\u00e7a, possibilitada pela instantaneidade do fluxo de informa\u00e7\u00f5es na internet, daqueles que sempre detestaram a poesia, mas sempre tiveram esse ressentimento represado pela inexist\u00eancia de um canal que o amplificasse e difundisse. Estas pessoas a quem chamo de &#8220;ressentidas&#8221; sempre existiram, n\u00e3o passaram a surgir ontem, e possivelmente existiam antes em n\u00famero muito mais significativo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o em geral.<\/p>\n<p>Portanto, que ningu\u00e9m interprete esse texto como uma catilin\u00e1ria contra nossos tempos e costumes. Limitar-me a isso seria, de fato, dar eco \u00e0 cr\u00edtica, pois seria uma defesa est\u00fapida de algo que, por si, n\u00e3o carece de defesa. Aquilo que existe por si n\u00e3o carece de justificativas. As coisas n\u00e3o t\u00eam, em si, nenhuma raz\u00e3o moral de ser, como muito bem disse Nietzsche, em um aforisma que \u00e9 \u00fatil em m\u00faltiplos sentidos: n\u00e3o existem fen\u00f4menos morais, apenas deriva\u00e7\u00f5es (ou explica\u00e7\u00f5es, segundo algumas tradu\u00e7\u00f5es) morais dos fen\u00f4menos. Muita gente &#8220;odeia&#8221; a poesia, e no entanto a poesia existe, permanece e existir\u00e1. Como disse M\u00e1rio Quintana, &#8220;toda essa gente que fica atravancando o meu caminho, eles passar\u00e3o, eu passarinho&#8221;.<\/p>\n<p>O que cabe ser dito \u00e9, de fato, tentar entender a consist\u00eancia desse &#8220;\u00f3dio&#8221; (que vai entre aspas doravante, posto que n\u00e3o \u00e9 um \u00f3dio de fato, mas uma coisa outra, que obedece a leis diferentes do \u00f3dio em si, que \u00e9 uma rea\u00e7\u00e3o irracional moment\u00e2nea). \u00c9 preciso que investiguemos a natureza desse \u00f3dio, agora que ele extravasa dos bueiros por onde corria, pois j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ignorarmos que algo cheira mal nessa metaf\u00f3rica Dinamarca.<\/p>\n<p>A principal manifesta\u00e7\u00e3o do &#8220;\u00f3dio&#8221; \u00e0 poesia se dirige n\u00e3o contra o texto em si, mas contra o &#8220;poeta&#8221;, este ser esf\u00edngico, admirado de uma forma torta e inadequada, a ponto de a palavra ter sido tomada como ep\u00edteto por compositores populares (nem sempre po\u00e9ticos) e apropriada at\u00e9 mesmo em ditos populares: &#8220;fulano, calado, \u00e9 um poeta&#8221;. Este &#8220;\u00f3dio&#8221; \u00e9, de fato, apenas uma faceta da discrimina\u00e7\u00e3o agressiva (ou &#8220;bullying&#8221; como hoje se diz) contra os tipos sociais divergentes de uma norma impositiva. Em uma sociedade como a nossa, na qual a cultura originalmente foi apenas um verniz de civiliza\u00e7\u00e3o, tangibilizado por um diploma devidamente europeu ou pela pr\u00e1tica de costumes importados daquelas latitudes, sempre foi natural que certos comportamentos fossem circunscritos a certos grupos sociais. Assim como se espera que o negro seja malemolente, que o suburbano seja esperto, que o interiorano seja ing\u00eanuo e que o baiano seja indolente; nunca se esperou que algu\u00e9m do povo possu\u00edsse, de fato, os tiques e taques privativos da elite, entre os quais diplomas, erudi\u00e7\u00e3o e talentos art\u00edsticos. Pobre n\u00e3o faz arte, faz artesanato, n\u00e3o faz poesia, mas faz letra de m\u00fasica. Mais ou menos assim.<\/p>\n<p>Exce\u00e7\u00f5es acontecem, quando devidamente legitimadas pela elite, que est\u00e1 frequentemente em busca de \u00eddolos, como um Machado de Assis. Mas quando o talento, mesmo equivalente, n\u00e3o encontra essa legitima\u00e7\u00e3o, por alguma raz\u00e3o nem sempre intelig\u00edvel, o pobre artista, al\u00e9m de fustigado pela pobreza que persiste, ainda sofre o esc\u00e1rnio de uma sociedade que v\u00ea nele como posti\u00e7a e ileg\u00edtima a mesma atitude que louva como visceral e pr\u00f3pria em um dos luminares escolhidos. Um breve estudo comparativo das obras e biografias de artistas malditos, como Lima Barreto ou Cruz e Sousa, por exemplo, nos deixa com a pergunta inc\u00f4moda sobre o motivo de n\u00e3o terem sido aceitos por um sistema que aceitava gente de talento evidentemente menor.<\/p>\n<p>As explica\u00e7\u00f5es est\u00e3o dadas acima: residem na divis\u00e3o de classes de cunho p\u00f3s-escravagista, divis\u00e3o que s\u00f3 permite a ascens\u00e3o social daqueles que s\u00e3o, por alguma raz\u00e3o, &#8220;aceitos&#8221; pelo sistema. Daqueles que s\u00e3o &#8220;branqueados&#8221; no processo, tal e qual os pecadores s\u00e3o &#8220;lavados no sangue do Cordeiro&#8221; para poderem entrar no Reino dos C\u00e9us.<\/p>\n<p>Este quadrinho, por\u00e9m, vai mais fundo do que esta manifesta\u00e7\u00e3o de esc\u00e1rnio contra os &#8220;patinhos feios&#8221;, que sempre existiu e p\u00f4de ser sentida por todos n\u00f3s que escrevemos, pelo menos uma vez ou duas na vida, a menos que tenhamos sido aben\u00e7oados com uma idiotice beat\u00edfica que nos impede de enxergar o desprezo alheio, ou tenhamos adquirido um calo sensorial que nos insensibiliza para isso. Vai mais fundo porque ele n\u00e3o se limita a zombar dos que &#8220;ousam&#8221; ser poetas sem terem sido, previamente, autorizados a isso, por um concurso, uma editora, uma academia ou a b\u00ean\u00e7\u00e3o de um figur\u00e3o das nossas letras belas. Zomba da poesia em si,\u00a0 e isso nos exige uma reflex\u00e3o al\u00e9m.<\/p>\n<p>Por que algu\u00e9m odiaria poesia, a ponto de execr\u00e1-la publicamente, dizendo que &#8220;limparia a bunda&#8221; com a obra de Augusto dos Anjos? A escatologia \u00e9 um argumento f\u00e1cil para quem n\u00e3o tem argumentos. O macaco atira excrementos nos visitantes do zool\u00f3gico. N\u00e3o obstante ele continua sendo o macaco,\u00a0 e os visitantes continuam sendo os visitantes. Atirar excrementos n\u00e3o modifica a situa\u00e7\u00e3o de submiss\u00e3o e desumanidade do s\u00edmio enjaulado e nem desumaniza os visitantes, que poder\u00e3o lavar-se depois e ter uma divertida hist\u00f3ria para contar. E limpar a bunda com a poesia de Augusto dos Anjos em nada a modifica, e nem \u00e0 bunda de quem a usou para tal fim. Evidentemente essa manifesta\u00e7\u00e3o b\u00e1rbara de desprezo pela obra de algu\u00e9m que morreu h\u00e1 tanto tempo expressa algum tipo de sentimento mais profundo e duradouro do que o desprazer de n\u00e3o ter gostado de um ou dois sonetos. Qual a jaula mental onde se encontra este ser que recorre a excrementos para agredir aquilo que n\u00e3o entende?<\/p>\n<p>Vivemos atualmente uma fase perigosa no mundo, ap\u00f3s tantas d\u00e9cadas de triunfo da ci\u00eancia, com suas conquistas e perigos, com os dois gumes de seus conhecimentos, com a exig\u00eancia de responsabilidade diante das m\u00faltiplas possibilidades de cada conquista nova. Parece que muita gente se assusta com a obriga\u00e7\u00e3o de escolher se vai usar a radia\u00e7\u00e3o para curar o c\u00e2ncer ou para caus\u00e1-lo, se vai usar o foguete para nos levar \u00e0 Lua ou de volta \u00e0 Idade da Pedra. Diante desses dilemas, h\u00e1 hoje quem reaja ao modo do avestruz mitol\u00f3gico (n\u00e3o o real), que enfia a cabe\u00e7a na areia diante do susto. Refiro-me \u00e0 rea\u00e7\u00e3o anti intelectual que grassa pelo mundo e que, apesar de nossa ignor\u00e2ncia de periferia deslumbrada, <i>n\u00e3o come\u00e7ou aqui.<\/i><\/p>\n<p>O modo de pensar anti intelectual, n\u00e3o irracional, n\u00e3o confundam por favor, surgiu, de fato, nos Estados Unidos, nos anos sessenta, e hoje podemos ver com clareza como. Alan Bloom j\u00e1 o havia percebido em 1986, ano em que escreveu uma obra hoje esquecida, mas que devia ser mais lida: <i>The Closing of the American Mind <\/i>(&#8220;O Fechamento das Mentes Americanas&#8221;, traduzido porcamente para o portugu\u00eas como &#8220;O Decl\u00ednio da Cultura Ocidental&#8221;, refletindo a subservi\u00eancia do tradutor e editores, prontos a aceitar o imp\u00e9rio ianque n\u00e3o apenas como centro do mundo, mas resumo dele). O anti intelectualismo \u00e9 a cren\u00e7a de que as imperfei\u00e7\u00f5es da ci\u00eancia significam que as solu\u00e7\u00f5es cient\u00edficas n\u00e3o devem ser buscadas. Houve v\u00e1rios momentos de triunfo desta mentalidade, e talvez o mais significativo tenha sido a &#8220;luta antimanicomial&#8221;, que ajudou a desmantelar toda tentativa de abordagem e tratamento cient\u00edfico das patologias da mente em nome de uma filosofia segundo a qual os limites entre a loucura e a normalidade seriam uma conven\u00e7\u00e3o social. Ora, vivemos em uma sociedade, e quase tudo nela \u00e9 conven\u00e7\u00e3o social. O triunfo do anti intelectualismo consiste em convencer-nos de que o fato de vivermos sob conven\u00e7\u00f5es significa que as conven\u00e7\u00f5es s\u00e3o arbitr\u00e1rias e pol\u00edticas baseadas nelas s\u00e3o injustas. Em vez de buscar aperfei\u00e7oar as conven\u00e7\u00f5es, devemos aboli-las. Com toda sua virtude humanista, a luta antimanicomial abriu caminho para o questionamento da ci\u00eancia enquanto alternativa vi\u00e1vel de abordagem dos problemas sociais. Isto acaba sendo \u00fatil aos sistemas de poder, especialmente quando surgem ind\u00edcios de a\u00e7\u00e3o humana na modifica\u00e7\u00e3o dos padr\u00f5es clim\u00e1ticos da Terra. Se a ci\u00eancia est\u00e1 em xeque, ent\u00e3o as decis\u00f5es pol\u00edticas n\u00e3o precisam consider\u00e1-la. Eis o monstro criado pela luta antimanicomial a longo prazo. Tal como n\u00e3o precisamos tratar dos loucos, pois a loucura \u00e9 uma categoria arbitr\u00e1ria imposta pela cultura, tamb\u00e9m n\u00e3o precisamos evitar as modifica\u00e7\u00f5es ambientais que inadvertidamente causamos por nosso estilo de vida, pois os modelos e par\u00e2metros usados pela ci\u00eancia para determinar a realidade destas modifica\u00e7\u00f5es s\u00e3o tamb\u00e9m arbitr\u00e1rios e sujeitos a influ\u00eancias culturais.<\/p>\n<p>O anti intelectualismo \u00e9 um populismo filos\u00f3fico. Nada afaga mais o ego inst\u00e1vel do ignorante do que ser chamado de s\u00e1bio. Chame um homem por aquilo que n\u00e3o \u00e9 e ele se sentir\u00e1 feliz, desde que acredite sinceramente que n\u00e3o h\u00e1 mal\u00edcia de sua parte. Desde que ele esteja seguro de que a cal\u00fania \u00e9 imerecida e o elogio \u00e9 verdadeiro. Do contr\u00e1rio, se supuser a cal\u00fania uma realidade e o elogio, uma falsidade, reagir\u00e1 com agressividade. Eu j\u00e1 havia notado isso <a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/2010\/06\/o-sabio-louco-e-o-ignorante-vigoroso\">em 2010<\/a>, quando escrevi &#8220;O S\u00e1bio Louco e o Ignorante Vigoroso&#8221;, pequeno texto no qual observei que, como disse Caetano Veloso, &#8220;Narciso odeia tudo que n\u00e3o \u00e9 espelho&#8221;. O ignorante odeia o s\u00e1bio por ele ser s\u00e1bio, mas quer ter, ele mesmo, o nome de s\u00e1bio. Diga ao ignorante que o s\u00e1bio n\u00e3o o \u00e9, mas ele sim, e, caso a afirmativa inspire confian\u00e7a, o afago ao ego do idiota produzir\u00e1 um deslumbre genu\u00edno.<\/p>\n<p>O ignorante precisa acreditar que n\u00e3o h\u00e1 preju\u00edzo em sua ignor\u00e2ncia. De outra forma, sente-se incompleto, prec\u00e1rio. Para combater esta sensa\u00e7\u00e3o de vazio, que o inquieta mas ele n\u00e3o sabe expressar, ele busca o elogio, busca a sensa\u00e7\u00e3o segura de que &#8220;sabe&#8221;. Venda a este cara a ilus\u00e3o de que &#8220;sabe&#8221;, de que &#8220;pode saber em apenas cinco li\u00e7\u00f5es&#8221; ou, melhor ainda, que &#8220;j\u00e1 sabe&#8221;. Olavo de Carvalho acredita que conseguiu desmentir Newton e Einstein. Muitos s\u00e3o os que o elogiam, fazendo com que ele se sinta, de fato, um injusti\u00e7ado pelo Nobel. D\u00e3o-lhe at\u00e9 medalha para melhorar a ilus\u00e3o. Que se multiplica atrav\u00e9s dos excrementos verbais que ele difunde, e que s\u00e3o assimilados e replicados por outros que, t\u00e3o vazios quanto ele, aceitamo como suced\u00e2nea do conhecimento a mistifica\u00e7\u00e3o que ele divulga.<\/p>\n<p>Este fen\u00f4meno \u00e9 refor\u00e7ado quando o ignorante possui algum conhecimento, mas s\u00f3 um pouco. Temei ao homem de um livro s\u00f3, disse o santo fil\u00f3sofo. Ele n\u00e3o conhece, de fato, quase nada do mundo, mas domina t\u00e3o bem seu quase nada que adquire uma certeza, uma autoconfian\u00e7a que intimida. E agarra-se a esta migalha, que lhe confere autoridade.<\/p>\n<p>E onde entra nisso a poesia? Pobre poesia, pobre e in\u00fatil poesia. Que sempre sofreu com esta pecha de inutil, e gra\u00e7as a Deus que ela o \u00e9. A pior coisa que pode acontecer \u00e0 literatura \u00e9 que lhe encontrem alguma utilidade. N\u00e3o h\u00e1 maior t\u00e9dio do que nos livros julgados os mais adequados pelo sistema educacional. Se tachados de &#8220;educativos&#8221; ent\u00e3o, a\u00ed se encontra um indutor de letargia mais poderoso que a mosca ts\u00e9-ts\u00e9. <\/p>\n<p>A poesia entra nisso como mais uma manifesta\u00e7\u00e3o de intelectualidade. Se vivemos uma rea\u00e7\u00e3o contra a intelectualidade que \u00e9 \u00fatil (ningu\u00e9m duvida das previs\u00f5es do tempo, ora bolas, nem da capacidade voadora dos avi\u00f5es e foguetes), quanto mais contra as pobres formas in\u00fateis de intelectualidade! \u00c9 muito f\u00e1cil falar contra a poesia: \u00e9 algo que poucos entendem, que raros gostam, que poucos praticam. \u00c9 um saco de pancadas tradicional daqueles que sempre satirizaram os pendores de questionamento que brotassem da boca do pobre. A poesia \u00e9 o senhor gordo e lento no qual o macaco consegue acertar mais excrementos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acabo de me deparar no Facebook com algu\u00e9m compartilhando a pequena hist\u00f3ria em quadrinhos acima. Logo que a li percebi que ali havia assunto para mais do que meramente um &#8220;Curtir&#8221; ou um &#8220;Compartilhar&#8221;, mesmo porque n\u00e3o me senti impelido a nenhuma das duas coisas. 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