{"id":111,"date":"2012-10-27T21:08:00","date_gmt":"2012-10-28T00:08:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=111"},"modified":"2017-11-02T14:08:24","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:24","slug":"e-la-vem-o-jabuti-de-novo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2012\/10\/e-la-vem-o-jabuti-de-novo\/","title":{"rendered":"E L\u00e1 Vem o Jabuti de Novo"},"content":{"rendered":"<p>E para quem achava que repeti\u00e7\u00e3o de erros de organiza\u00e7\u00e3o era algo que s\u00f3 acontecia com o ENEM, \u00abcoisa do governo\u00bb e, portanto, incompetente, eis que, pelo segundo ano consecutivo, l\u00e1 temos sob questionamento de novo o maior pr\u00eamio liter\u00e1rio do pa\u00eds, o Jabuti, conferido pela C\u00e2mara Brasileira do Livro.<\/p>\n<p>Para quem n\u00e3o se lembra, a pol\u00eamica do ano passado se deveu ao romance de autoria de Chico Buarque ter sido escolhido \u00ablivro do ano\u00bb mesmo sem ter sido vencedor em sua categoria. Trocando em mi\u00fados: uma obra que n\u00e3o conseguiu ser o melhor romance do ano foi vista como o melhor livro. Faz sentido na l\u00f3gica psicod\u00e9lica dos concursos liter\u00e1rios que, como se sabe, s\u00e3o um tipo delicado e culturalmente desej\u00e1vel de empulha\u00e7\u00e3o. Empulha\u00e7\u00e3o consentida pelas partes, embora algumas vezes certas pessoas fiquem amargas.<\/p>\n<p>A pol\u00eamica deste ano se deveu \u00e0s notas conferidas por um dos tr\u00eas jurados na categoria romance. O ainda an\u00f4nimo \u00abJurado C\u00bb deu respectivas notas zero e um e meio a duas obras que haviam tido notas m\u00e9dias anteriores maiores do que as do livro que veio a ser o vencedor. Trocando em mi\u00fados: prevendo que o seu favorito (a quem deu 10) perderia, o \u00abJurado C\u00bb deu notas rid\u00edculas aos principais concorrentes, para for\u00e7ar a vit\u00f3ria de seu candidato.<\/p>\n<p>N\u00e3o existem justificativas para a cr\u00edtica dar notas abaixo de cinco a um romance que chega \u00e0s finais de um pr\u00eamio nacional de literatura. \u00c9 preciso uma dose muito grande de paulocoelhice para um romance merecer zero. Tanto assim que nem mesmo os romances do mago chegam a merec\u00ea-la, no geral. \u00c9 de se imaginar que obras publicadas por editoras s\u00e9rias (aham), escolhidas por crit\u00e9rios liter\u00e1rios s\u00e9rios (aham), submetidas a processos competentes de revis\u00e3o, se chegarem a integrar a lista dos dez favoritos, merecem pelo menos um cinco. Cinco \u00e9 a mediocridade absoluta. E mediocridade \u00e9 o m\u00ednimo que se espera de um autor publicado \u00abno esquema\u00bb. Abaixo da mediocridade reina o desastre, a falta de continuidade, os solecismos, os desconhecimentos sem\u00e2nticos, a anfibologia, o pl\u00e1gio e toda uma gama de coisas que tornam a leitura do livro imposs\u00edvel a n\u00e3o ser pelos infelizes revisores que s\u00e3o obrigados a ler.<\/p>\n<p>Portanto, as notas dadas pelo cr\u00edtico s\u00e3o indefens\u00e1veis segundo qualquer par\u00e2metro cr\u00edtico que se queira adotar \u2014 e isso quer dizer que elas evidenciam a manipula\u00e7\u00e3o deliberada do resultado final. Que seria outro se outras tivessem sido as notas desse frustrado indiv\u00edduo que gargalha em sua cadeira, como um deus mitol\u00f3gico, depois de fulminar os pobres mortais.<\/p>\n<p>As notas deste cr\u00edtico, sozinhas, s\u00e3o um tapa na cara de todo escritor brasileiro. Elas revelam um estado de esp\u00edrito que n\u00e3o pode ser isolado. Se este cr\u00edtico fosse o \u00fanico a se sentir um \u00abdeus das notas\u00bb, capacitado a definir resultados de pr\u00eamios que influem nas vidas de pessoas, a sua atitude teria encontrado mais rep\u00fadio, o processo teria sido cancelado. Outra an\u00e1lise seria feita. Tudo para n\u00e3o entregar a um jovem autor, estreante no romance, um pr\u00eamio que lhe pesar\u00e1 mais na estante do que uma bola de ferro acorrentada ao calcanhar. Para todo o sempre o escritor Oscar Nakasato ser\u00e1 o autor que s\u00f3 ganhou o jabuti porque um cr\u00edtico deu zero a Ana Maria Machado.<\/p>\n<p>No lugar de Oscar, eu compareceria a cerim\u00f4nia, sabendo que ela seria filmada, subiria ao palco, receberia o trof\u00e9u, mas em seguida o recusaria, destinando-o publicamente ao Jurado C que, ao demonstrar tamanha vontade de influenciar no resultado, revelou-se \u00fanico \u00abdono\u00bb do trof\u00e9u, a ponto de decidir conscientemente a quem d\u00e1-lo. Desta forma, recusar o trof\u00e9u seria restitu\u00ed-lo ao dono. Seria uma sa\u00edda digna. Pessoas dignas costumam recusar honrarias imerecidas ou pol\u00eamicas. Escroques n\u00e3o, porque eles vivem para obter honrarias, merecidas ou n\u00e3o. Kissinger aceitou um Pr\u00eamio Nobel da Paz por ter assinado a paz da Guerra do Vietn\u00e3, uma paz que poderia ter sa\u00eddo quatro anos antes se ele n\u00e3o tivesse ajudado a sabotar as negocia\u00e7\u00f5es para favorecer a vit\u00f3ria dos Republicanos em 1968. Para ganhar uma elei\u00e7\u00e3o, o futuro Nobel da Paz fez mais 250 mil pessoas morrerem. Humor negro no Vietn\u00e3 \u00e9 dizer que Kissinger ganhou o Nobel da Paz.<\/p>\n<p>Se o romancista paranaense fizer isso, certamente ser\u00e1 declarado <i>persona non grata<\/i> nos meios editoriais brasileiros para todo o sempre, e am\u00e9m. Mas se aceitar o trof\u00e9u, a vida inteira vai ter algu\u00e9m para implicar consigo dizendo: \u00abaquele trof\u00e9u voc\u00ea s\u00f3 ganhou porque um jurado maluco deu zero para a Ana Maria Machado, cara\u00bb. Olhem o tamanho da injusti\u00e7a que o j\u00fari do Jabuti imp\u00f4s a esse cara. Ningu\u00e9m merece ter que fazer uma escolha dessas: entre uma atitude digna que atrai cat\u00e1strofes e uma atitude cautelosa que preserva uma pol\u00eamica (alguns dir\u00e3o covarde, mas eu que sei o que pena um escritor n\u00e3o tenho coragem de usar esta palavra contra o Nakasato). Por isso eu vou entender se o cara aparecer com seu melhor terno, sentar onde \u00abo mo\u00e7o\u00bb manda, esperar quieto a sua vez, aplaudindo a vez dos outros, subir no palco com desajeitamento natural ou simulado (pois novato tem que ser desajeitado), agradecer \u00e0 fam\u00edlia, \u00e0 Deus, \u00e0 p\u00e1tria, ao p\u00fablico e levar o trof\u00e9u para casa, caladinho. Nem todo mundo \u00e9 maluco. Nem sei se eu seria. Mas que ador\u00e1vel seria o mundo se os malucos governassem.<\/p>\n<p>Alguns dir\u00e3o que o tempo passa, as pol\u00eamicas s\u00e3o esquecidas e o que importa s\u00e3o os t\u00edtulos conquistados, e s\u00f3 os perdedores choram. \u00c9 a l\u00f3gica deprimente do sucesso a qualquer pre\u00e7o. A l\u00f3gica de uma esp\u00e9cie de selva moral que nos empurra para o abismo e para o salve-se-quem-puder. Uma l\u00f3gica que est\u00e1 na moda, mas a moda pode mudar as pessoas come\u00e7arem a dar exemplos. Eu quero viver em um pa\u00eds onde as pessoas rejeitem vit\u00f3rias obtidas de forma il\u00edcita ou em decorr\u00eancia de falhas do processo. Por isso eu preferia que o Chico Buarque tivesse recusado seu Jabuti no ano passado, considerando que ele, sendo quem \u00e9, precisa muito menos dele do que o Nakasato, que est\u00e1 come\u00e7ando agora. Mas Chico ficou com o pr\u00eamio, sem sequer um protesto, e se apequenou. Sorte dele \u00e9 que os \u00eddolos n\u00e3o precisam ser perfeitos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>E para quem achava que repeti\u00e7\u00e3o de erros de organiza\u00e7\u00e3o era algo que s\u00f3 acontecia com o ENEM, \u00abcoisa do governo\u00bb e, portanto, incompetente, eis que, pelo segundo ano consecutivo, l\u00e1 temos sob questionamento de novo o maior pr\u00eamio liter\u00e1rio do pa\u00eds, o Jabuti, conferido pela C\u00e2mara Brasileira do Livro. Para quem n\u00e3o se lembra, a pol\u00eamica do ano passado se deveu ao romance de autoria de Chico Buarque ter sido escolhido \u00ablivro do ano\u00bb mesmo sem ter sido vencedor em sua categoria. 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