{"id":118,"date":"2012-09-19T21:38:00","date_gmt":"2012-09-20T00:38:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=118"},"modified":"2017-11-02T14:08:25","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:25","slug":"a-ultima-venda","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2012\/09\/a-ultima-venda\/","title":{"rendered":"A \u00daltima Venda"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o sou do tipo que aprecia auto-ajuda e detesto historinhas bonitinhas \u00fateis para fazer <i>team building<\/i>  (as coisas que eu detesto eu prefiro mesmo que tenham nomes em  gringu\u00eas). Mas hoje ocorreu-me um fato que me fez querer escrever um  texto que algum guru motivacional, especialmente desses que trabalham  com equipes de venda, vai um dia pin\u00e7ar e ler para seus disc\u00edpulos. Sem  me dar cr\u00e9dito, l\u00f3gico, pois nesse neg\u00f3cio de auto-ajuda existe uma  regra impl\u00edcita que pro\u00edbe atribuir qualquer texto a um autor conhecido e  vivo. Todas as hist\u00f3rias tem que ostentar a chancela de uma \u00abantiga  lenda\u00bb, palavras de um \u00abs\u00e1bio chin\u00eas\u00bb ou \u00abensinamento religioso\u00bb. Acho  que mencionei que eu detesto esse estilo baboso e cheio de pretens\u00e3o.  Mas a\u00ed vai a historinha.<\/p>\n<p>Ao sair do servi\u00e7o, j\u00e1 quase  seis horas, lembrei-me de que tinha marcada uma sess\u00e3o de massagem, para  aliviar minha retorcida coluna e minhas comprimidas veias. Por\u00e9m, por  uma dessas perversidades pequenas que a vida nos oferece, eu me  esquecera completamente de trazer de minha outra casa um cal\u00e7ado esportivo, um chinelo de  dedos que fosse. Como estou vivendo de segunda a sexta em outra cidade, a trabalho, eu n\u00e3o tinha a op\u00e7\u00e3o de ir buscar o que tinha esquecido. Vendo o com\u00e9rcio quase a fechar, entrei na primeira  loja onde vi cal\u00e7ados, apontei para uma sand\u00e1lia franciscana e perguntei  pelo pre\u00e7o e disponibilidade do meu n\u00famero (43 para quem se interesse  em saber). A vendedora foi remexer no estoque, procurando, e ent\u00e3o  decretou: infelizmente n\u00e3o tinha daquele tipo de cal\u00e7ado no meu n\u00famero.  Como nenhum sapato servia para o que eu queria fazer, agradeci e deixei a  loja apressado, procurando outro lugar onde pudesse comprar uma  sand\u00e1lia, ou cal\u00e7ado parecido.<\/p>\n<p>J\u00e1 havia percorrido uns  quarenta metros e me aproximava de outra loja quando a vendedora me  alcan\u00e7ou correndo, j\u00e1 quase sem f\u00f4lego, e me pegou pelo bra\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 Mo\u00e7o, como voc\u00ea anda depressa! Volta comigo, eu achei uma sand\u00e1lia do seu n\u00famero. Estava ca\u00edda no fundo da prateleira, mas ainda tinha.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o estou acostumado a ser tocado subitamente por pessoas desconhecidas, fiquei meio desconcertado com aquilo tudo.\u00a0 Principalmente pela cena da vendedora esbaforida correndo pela rua para me pegar pelo bra\u00e7o. Voltei com ela at\u00e9 a loja e comprei a sand\u00e1lia.<\/p>\n<p>Enquanto ela registrava a venda no cart\u00e3o de cr\u00e9dito, j\u00e1 tendo conseguido superar a surpresa e me inserir na situa\u00e7\u00e3o, senti-me na obriga\u00e7\u00e3o de lhe dizer o que eu estava pensando:<\/p>\n<p>\u2014Voc\u00ea est\u00e1 de parab\u00e9ns, isso \u00e9 que \u00e9 uma vendedora. Foi buscar pelo bra\u00e7o o \u00faltimo cliente do dia, para fazer a \u00faltima venda. Estou impressionado.<\/p>\n<p>Na verdade se eu fosse dono de alguma loja na cidade eu a contactaria secretamente para oferecer um sal\u00e1rio maior. Se eu fosse um comerciante, eu desejaria ter aquela menina vendendo para mim, e n\u00e3o para um concorrente.<\/p>\n<p>Disse o que disse sem mais inten\u00e7\u00e3o que a de agradar a garota, que ainda estava descabelada e um pouco suada por causa da corrida, mas naquele momento eu n\u00e3o tive ideia do bem que lhe fazia, pois o vendedor que estava ao seu lado no balc\u00e3o era o pr\u00f3prio dono da loja. Que deve ter passado a valorizar bem mais a sua funcion\u00e1ria depois de hoje.<\/p>\n<p>Enquanto voltava para casa fui fazendo reflex\u00f5es semelhantes \u00e0s que os gurus de auto-ajuda para vendedores costumam dizer que fazem. Tentar extrair do caso alguma \u00abli\u00e7\u00e3o de moral\u00bb que valha a pena mencionar em uma mensagem corporativa de correio eletr\u00f4nico. Ocorreram-me tr\u00eas ideias perfeitamente adequadas ao contexto, e eu me descobri palestrando mentalmente para vendedores desavisados.<\/p>\n<p>A maioria das pessoas que eu conhe\u00e7o jamais se exporia ao rid\u00edculo de sair correndo pela rua atr\u00e1s de um cliente. \u00c9 como se trabalhar fosse algo n\u00e3o merecedor de nossas energias. Pessoas que \u00absoltam a franga\u00bb com duas ou tr\u00eas doses de bebida morrem de vergonha de abordar um cliente, gente que joga lixo na rua se constrange de correr atr\u00e1s de uma venda. Aquela vendedora, por\u00e9m, sentiu que naquele momento, em que estava trabalhando, a coisa mais importante de sua vida era trabalhar bem. Para isso ela n\u00e3o precisava matar ningu\u00e9m, apenas recuperar o preju\u00edzo de uma venda n\u00e3o feita por causa de uma distra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A maioria das pessoas que eu conhe\u00e7o jamais cometeria um ato que revelasse para todos os colegas, e o chefe, um erro cometido. Mesmo descobrindo a caixa de sand\u00e1lia 43 no fundo da prateleira, prefeririam fingir n\u00e3o a terem achado para que ningu\u00e9m soubesse que um cliente sa\u00edra da loja sem comprar o que queria por distra\u00e7\u00e3o de quem lhe deveria vender. Aquela vendedora, por\u00e9m, achou que muito mais importante do que impedir os outros de saberem de seu erro era fazer o certo. Se o seu chefe pensa como eu, ele deve preferir trabalhar com quem corre atr\u00e1s de consertar o que errou do que com quem aparentemente n\u00e3o erra, mas nunca \u00e9 visto correndo atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Por fim, a maioria das pessoas n\u00e3o teria dado tanta import\u00e2ncia ao \u00faltimo cliente do dia, a menos que ele viesse comprar d\u00fazias do item mais caro das prateleiras. Muitos vendedores pensariam que \u00abse ele n\u00e3o comprou aqui, tamb\u00e9m n\u00e3o vai comprar na concorr\u00eancia, porque todo mundo est\u00e1 fechando\u00bb. Talvez alguns pensem que o cliente pode voltar no dia seguinte, quando a loja abrir. N\u00e3o sabem que h\u00e1 momentos em que no dia seguinte a compra pode ter deixado de ser necess\u00e1ria, ou o cliente pode ter achado outro lugar onde comprar.<\/p>\n<p>Tenho a certeza absoluta\u00a0 de que a maioria das pessoas n\u00e3o \u00e9 como aquela vendedora, mas gostaria de t\u00ea-la trabalhando para si.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o sou do tipo que aprecia auto-ajuda e detesto historinhas bonitinhas \u00fateis para fazer team building (as coisas que eu detesto eu prefiro mesmo que tenham nomes em gringu\u00eas). Mas hoje ocorreu-me um fato que me fez querer escrever um texto que algum guru motivacional, especialmente desses que trabalham com equipes de venda, vai um dia pin\u00e7ar e ler para seus disc\u00edpulos. 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