{"id":124,"date":"2012-08-21T22:22:00","date_gmt":"2012-08-22T01:22:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=124"},"modified":"2019-06-07T14:22:29","modified_gmt":"2019-06-07T17:22:29","slug":"o-ultimo-reduto","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2012\/08\/o-ultimo-reduto\/","title":{"rendered":"O \u00daltimo Reduto"},"content":{"rendered":"<p>J\u00falio era um &#8220;programa humano&#8221;. Esse era o nome pelo qual os l\u00edderes do Magist\u00e9rio Supremo os chamavam. Pessoas cujos c\u00e9rebros haviam recebido, ao longo de uma vida inteira, informa\u00e7\u00f5es subliminares destinadas a prepar\u00e1-las para o momento em que o Grande Mestre resolvesse us\u00e1-las. Todos sabiam que os programas humanos eram amplamente conduzidos na Terra inteira e muitos os odiavam, mas vivia-se um tempo em que at\u00e9 odiar o Magist\u00e9rio j\u00e1 se tornara algo cuidadosamente controlado, pelo Magist\u00e9rio.<\/p>\n<p>Sempre tivera a impress\u00e3o de que o programa que recebia sem perceber toda\u00a0 vez que ia \u00e0 Escola, especialmente nas vezes em que estava s\u00f3 na Biblioteca, era de um tipo diferente, mais importante. Diziam que ele era apenas um convencido, mas ele nunca se importara: durante anos esperara pelo momento do Chamado, que nunca parecia vir. At\u00e9 o dia em que o Mestre Local o chamou, instruiu-o a limpar os sapatos corretamente e vestir uma roupa mais casual, e ent\u00e3o lhe destinou \u00e0 mais dif\u00edcil de todas as miss\u00f5es: Encontrar e Destruir o \u00daltimo Reduto dos rebeldes.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m sabia onde ficava o \u00daltimo Reduto. Esta era uma informa\u00e7\u00e3o mantida em absoluto segredo pelo Magist\u00e9rio, supondo-se, \u00e9 claro, que o pr\u00f3prio Magist\u00e9rio saberia. Mas o Magist\u00e9rio, logicamente, sabia tudo. Ou talvez n\u00e3o. Por um momento a certeza de J\u00falio quanto \u00e0 Verdade dos Ensinamentos vacilou, mas ele se livrou de tais hesita\u00e7\u00f5es, argumentou contra sua falta de objetividade e come\u00e7ou a tentar lembrar os detalhes da miss\u00e3o, a fim de reencontrar sua identidade. Ao mesmo tempo, tentava detectar onde estava, saber se tinha chegado ou n\u00e3o ao seu destino.<\/p>\n<p>Sa\u00edra da Terra em uma nave Columba-III, subluminal, como todas que ainda se constru\u00eda. Alguns diziam que no passado houvera naves capazes de viajar acima da velocidade da luz, provavelmente uma lenda plantada pelos rebeldes. Ou talvez os humanos\u00a0 estivessem perdendo seus antigos conhecimentos. Novamente J\u00falio sentiu o calafrio da d\u00favida. &#8220;Isto n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel: sob a condu\u00e7\u00e3o do Magist\u00e9rio o Conhecimento se multiplica.&#8221; Era uma frase feita, programada em sua mente desde a mais tenra inf\u00e2ncia. Uma frase que lhe dava conforto.<\/p>\n<p>Ao despertar se sentira saindo de um sono de s\u00e9culos, mas n\u00e3o se lembrava quanto tempo dormira. Na sua mente n\u00e3o havia noite anterior, nem planos para depois de acordar, o que era muito estranho, mas se lembrava que seu nome era  J\u00falio e tinha uma miss\u00e3o: Encontrar e destruir.<\/p>\n<p>Superou a for\u00e7a das lembran\u00e7as e tentou acostumar-se com a luz abundante. Olhou em torno, mas da cama em que estava deitado n\u00e3o conseguia ver quase nada. Eram paredes verde-p\u00e1lidas, inodoras. A janela, estranhamente pesada e tosca, n\u00e3o parecia de pl\u00e1stico nem de alum\u00ednio. Algum material estranho, meio esponjoso e n\u00e3o totalmente r\u00edgido. Estava fechada, bloqueando toda a luz, exceto por furinhos na parte superior, pelos quais se filtrava uma r\u00e9stia azulada. O quarto era mobiliado apenas pela cama e por uma esp\u00e9cie de roupeiro feito do mesmo material da janela, diferentemente da cama, que parecia ser de a\u00e7o, embora n\u00e3o muito puro.<\/p>\n<p>Tentou erguer-se e descobriu que estava amarrado pelos tornozelos e suas m\u00e3os estavam presas \u00e0 cabeceira e modo que n\u00e3o pudessem alcan\u00e7ar os p\u00e9s. Esta descoberta o fez ficar sobressaltado.\u00a0 Positivamente n\u00e3o o reconheciam como um Aluno. Conseguira reencontrar sua identidade. Isto lhe fez sentir-se melhor. Era um Aluno, mas havia sido tornado em Mensageiro. Mensageiro da Morte. Tinham-no enviado em anima\u00e7\u00e3o suspensa dentro de uma nave autom\u00e1tica do tipo Columba-III, para encontrar e destruir o \u00daltimo Reduto dos Rebeldes.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o perguntou-se onde estava: Tinha chegado ao \u00daltimo Reduto? Tinha retornado \u00e0 Terra? Ou estava delirando em seu profundo sono criog\u00eanico, talvez por indu\u00e7\u00e3o de um processo de eutan\u00e1sia desencadeado pelos sistemas autom\u00e1ticos da nave? Ainda precisava de mais informa\u00e7\u00f5es para decidir no que crer. Ent\u00e3o lembrou-se que n\u00e3o podia estar morto, n\u00e3o de acordo com as Li\u00e7\u00f5es. Se estivesse, deveria estar no C\u00e9u dos Her\u00f3is, sendo recebido por Deus.<\/p>\n<p>Ouviu vozes aproximando-se. Como furtivo mensageiro, recolheu-se em uma posi\u00e7\u00e3o relaxada e fingiu dormir.<\/p>\n<p>Eram dois: um homem e uma mulher. Entraram no quarto. Com os olhos fechados, n\u00e3o conseguia v\u00ea-los, restava-lhe ouvi-los e sentir seus cheiros.<\/p>\n<p>O homem tinha um cheiro estranho, ardido, lembrava alguma das fragr\u00e2ncias padronizadas, mas n\u00e3o exatamente. A mulher era quase inodora, a n\u00e3o ser pelo distante e \u00e1cido perfume de alguma coisa que ele nem sabia o que era. Ambos falavam em voz baixa, pausada, mas ele n\u00e3o conseguia entender uma s\u00f3 palavra do que diziam. As palavras vinham ao seu ouvido como uma algaravia qualquer, mas as entona\u00e7\u00f5es n\u00e3o deixavam d\u00favida de que havia um di\u00e1logo racional e contido.<\/p>\n<p>Sentiu a algo frio em sua axila direita: estavam-lhe tomando a temperatura. Outra m\u00e3o o apalpou no abd\u00f4men. Entre risos, a voz masculina comentou alguma coisa talvez relacionada \u00e0s microsc\u00f3picas rea\u00e7\u00f5es de seu corpo ao toque daquelas m\u00e3os estranhas.<\/p>\n<p>Uma m\u00e3o feminina o tocou na barriga. Reuniu todas as suas for\u00e7as para tentar se segurar, fingir ainda que estava a dormir para tentar captar informa\u00e7\u00f5es. A m\u00e3o feminina, atrevidamente, deslizou para debaixo do len\u00e7ol, em dire\u00e7\u00e3o aos Lugares Interditos. Ent\u00e3o foi imposs\u00edvel manter-se quieto. Fingiu acordar.<\/p>\n<p>Estava diante de duas pessoas de apar\u00eancia saud\u00e1vel, mas n\u00e3o muito natural. A mulher era loura e corpulenta, com seios avantajados. O homem era um tanto atarracado, grisalho e de poucos cabelos. J\u00falio nunca vira ningu\u00e9m calvo. Devia estar em alguma regi\u00e3o bastante remota, onde o Magist\u00e9rio \u00e9 menos atuante e as pessoas chafurdam na ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Lembrou-se de estar em sua nave, em miss\u00e3o. Finalmente sua mente confusa completou o racioc\u00ednio suficiente para dar-se conta de que n\u00e3o se lembrava do dia anterior, nem dos anos anteriores, nem das d\u00e9cadas anteriores. N\u00e3o havia o que lembrar. Passara d\u00e9cadas, talvez s\u00e9culos, dentro de uma nave subluminal Columba-III, em busca de algum lugar perdido no cosmos onde estivesse o \u00daltimo Reduto dos Rebeldes. Que deveria encontrar e destruir, de alguma forma que somente o programa posto dentro de si saberia lhe indicar.<\/p>\n<p>Os visitantes o deixaram s\u00f3. Por algumas horas permaneceu desastrosamente s\u00f3 naquele quarto isento de est\u00edmulos. A cabe\u00e7a lhe do\u00eda, as pernas se revoltavam querendo levantar, as costas pareciam passadas em uma lixa. E do lado de fora, aqueles doces mas irritantes pequenos ru\u00eddos semi-musicais que iam e vinham, martelando seus ouvidos.<\/p>\n<p>O que mais lhe deixava confuso era a profundidade da amn\u00e9sia que lhe sobreviera durante a viagem. O destino para o qual sua nave fora programada\u00a0 era distante para uma vida humana, mas os sistemas de suporte eram suficientes para mant\u00ea-lo vivo e saud\u00e1vel por mais que o dobro do tempo da viagem. E deveria acordar suavemente algumas semanas antes do pouso, estar pronto para descer desperto e cumprir sua miss\u00e3o. Mas n\u00e3o conseguia mais lembrar qual exatamente a sua miss\u00e3o. Sim, chegar at\u00e9 o \u00daltimo Reduto. Mas e depois? O que um homem s\u00f3 poderia fazer para destruir um planeta?<\/p>\n<p>Algumas horas depois recebeu outras visitas. V\u00e1rias visitas. O homenzinho calvo trouxe cinco outros consigo, inclusive duas mulheres mac\u00e9rrimas e autorit\u00e1rias, que, no entanto, o olhavam de longe, quase com medo. Por quase vinte minutos conversaram entre si naquela l\u00edngua diab\u00f3lica, ao mesmo tempo t\u00e3o foneticamente pr\u00f3xima, t\u00e3o musical, mas t\u00e3o diferente de tudo que ouvira. Algumas vezes as frases pareciam encadear-se, quase fazendo sentido, mas depois degringolavam em longos p\u00e2ntanos inflados de consoantes.<\/p>\n<p>Tinha a certeza de que seu destino poderia ser decidido por aquelas pessoas. A percep\u00e7\u00e3o de que o assunto era s\u00e9rio lhe dava um desconforto profundo. Uma vontade de pegar sua arma port\u00e1til e acion\u00e1-la. Mesmo tendo sido desenvolvida apenas como um\u00a0 m\u00e9todo de suic\u00eddio ritual\u00edstico, ela poderia causar um bom estrago naquela gente, se disparada a uma curta dist\u00e2ncia. Mas n\u00e3o seria com um tiro de pistola que destruiria o \u00daltimo Reduto, por isso se conteve.<\/p>\n<p>Por fim, um dos visitantes determinou alguma coisa que os demais concordaram como apropriada. A consequ\u00eancia disso, minutos depois, foi removerem as amarras que o mantinham preso \u00e0 cama. Ao se mexer, ent\u00e3o, descobriu que estava vestido apenas com uma esp\u00e9cie de roup\u00e3o de tecido fino, mas engomado a ponto de ficar duro. Seu primeiro impulso foi o de atacar aqueles homens e desfigur\u00e1-los a unha se fosse preciso. Mas sua racionalidade, mesmo sob o efeito de anos de condicionamento, lhe dizia que demonstrar imediata hostilidade seria inapropriado, pelo menos enquanto n\u00e3o soubesse onde estava ou, mais importante, onde estava a bomba. Se \u00e9 que havia uma bomba capaz de matar um planeta.<\/p>\n<p>Levantou-se e come\u00e7ou a tentar caminhar pelo quarto. Haviam sido tantos os anos, ou s\u00e9culos, que seus m\u00fasculos estavam presos, tentavam desobedecer \u00e0 sua ordem de levar o corpo a algum lugar. Algo dizia que demoraria ainda muito tempo a conseguir sair daquele quarto. Algo lhe disse que tentar atacar aquelas pessoas teria sido in\u00fatil e teriam interpretado sua hostilidade como um simples esfor\u00e7o de convalescente para erguer-se da cama.<\/p>\n<p>Mas conseguiu caminhar depois de alguns momentos penosos, momentos durante os quais se sentiu como Bambi aprendendo a andar. A lembran\u00e7a do filme que vira tantas vezes lhe deu mais determina\u00e7\u00e3o. Por fim, certificando-se de que n\u00e3o estava demasiadamente nu, resolveu sair pela porta, ver o que havia l\u00e1 fora.<\/p>\n<p>Durante todo este tempo os seis visitantes apenas observaram. Com curiosidade, como se ele fosse apenas um animal inofensivo. Ser\u00e1 que n\u00e3o imaginavam que ele era o Mensageiro da Morte enviado pelo Supremo Magist\u00e9rio?<\/p>\n<p>Abriu a porta e tentou caminhar pelo corredor. Era longo, pavimentado de ladrilhos cinzentos e gastos. Estava vazio e conduzia a um p\u00e1tio iluminado pela mesma luz azul que filtrava pelos furos na janela do quarto. Seguiu apoiando-se na parede onde fosse necess\u00e1rio. Os seis o seguiam. Ao chegar ao p\u00e1tio percebeu que era um estranho hospital o lugar onde estava:  al\u00e9m de praticamente vazio, terminava em um jardim quase irreal.<\/p>\n<p>O jardim era coberto por uma vegeta\u00e7\u00e3o uniforme, verde-azulada. A intervalos regulares havia bancos pintados de branco-azulado nos quais os pacientes tomavam sol. O sol!<\/p>\n<p>Ao v\u00ea-lo, p\u00f4de ter a certeza de que n\u00e3o estava na Terra. N\u00e3o poderia estar, de forma alguma. No c\u00e9u havia um grande sol vermelho, de brilho fraco e tamanho angular maior que o da Lua. A pino estava outro, este fort\u00edssimo, azulado. Um sistema duplo? Ou apenas uma estrela vermelha localizada nas proximidades de uma gigante azul? R\u00edgel! Era essa a lend\u00e1ria destina\u00e7\u00e3o dos \u00daltimos Rebeldes. Aquele planeta era o \u00daltimo Reduto! Havia chegado ao destino!<\/p>\n<p>N\u00e3o conseguiu segurar a felicidade. Ajoelhou-se naquele estranho gramado macio e gritou a plenos pulm\u00f5es: \u00abO Mensageiro Chegou para os \u00daltimos Hereges!\u00bb Mas ao se levantar sentiu a boca amarga e a alma vazia, como um papel de bala que algu\u00e9m descartou. N\u00e3o conseguia entender o que devia fazer.<\/p>\n<p>Uma mulher, de aspecto envelhecido, mas ainda bonita, voltou-se em sua dire\u00e7\u00e3o. Estava, como v\u00e1rias outras pessoas, sentada num dos banquinhos azulados. Ela o olhou fixamente, por um momento, depois soltou uma gargalhada. Que irrever\u00eancia! Uma rebelde insolente zombando de um Mensageiro da Morte! J\u00falio anotou mentalmente que a estrangularia com suas pr\u00f3prias m\u00e3os, t\u00e3o logo tivesse novamente for\u00e7a nas m\u00e3os, antes de detonar o explosivo e acabar com aquele pat\u00e9tico planeta.<\/p>\n<p>Mas a mulher n\u00e3o se impressionou. Levantou-se de onde estava e veio em sua dire\u00e7\u00e3o. A dois passos dele ela se deteve e fez o sinal secreto! Ela era uma irm\u00e3! Uma Mensageira tamb\u00e9m!<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 quanto tempo est\u00e1 aqui, irm\u00e3?<\/p>\n<p>Entre os iniciados n\u00e3o h\u00e1 necessidade alguma de formalidades. Mas ela n\u00e3o reagiu da mesma forma que esperara:<\/p>\n<p>\u2014 Creio que uns dois anos, irm\u00e3o, mas n\u00e3o dever\u00edamos nos saudar antes?<\/p>\n<p>J\u00falio se sentiu confuso. \u00abSaudar\u00bb n\u00e3o era algo lhe fora ensinado como importante. A menos que ela fosse uma Mestra, mas ela s\u00f3 poderia ser, naquele tempo e lugar, uma Mensageira, como ele.<\/p>\n<p>Deu-se conta, ent\u00e3o, do estranho sotaque daquela mulher. Parecia pertencer a uma outra \u00e9poca, d\u00e9cadas ou s\u00e9culos antes.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 aqui h\u00e1 tanto tempo e ainda n\u00e3o destru\u00edste o \u00daltimo Reduto?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o. Por que eu o destruiria?<\/p>\n<p>\u2014 Esta \u00e9 nossa miss\u00e3o. Para isso fomos enviados.<\/p>\n<p>Ela gargalhou de novo, mas desta vez J\u00falio percebeu que era uma risada t\u00e3o amarga quanto a b\u00edlis que lhe chegava \u00e0 boca e o fazia querer vomitar.\u00a0 Um brilho rutilante apareceu em seus olhos. Ent\u00e3o ela se aproximou dele, de uma forma que os Mensageiros s\u00e3o ensinados a n\u00e3o fazer, p\u00f4s-lhe a m\u00e3o no ombro e aproximou seu rosto. De alguma forma esse gesto n\u00e3o lhe causou a repulsa que deveria. Ent\u00e3o ela sussurrou:<\/p>\n<p>\u2014 Estou aqui h\u00e1 tanto tempo que nem me lembro mais.<\/p>\n<p>Um Mensageiro n\u00e3o deve ter sentimentos de compaix\u00e3o ou pena. Mas J\u00falio teve, mais por pressentimento, mais por senso de pura profecia, do que por realmente ter alguma empatia com a pobre.<\/p>\n<p>Depois de tentar infrutiferamente comunicar-se com alguns dos outros que vagavam pelo jardim, retornou ao banco onde encontrara a mensageira. Ela ainda estava l\u00e1, os olhos protegidos do brilho selvagem da estrela miravam uma planta que parecia crescer a olhos vistos, ou apenas se agitava ao vento. Vento, a primeira vez em anos. Quando ventara pela \u00faltima vez em sua vida? Todas as coisas boas da vida acontecem quando est\u00e1 ventando, lhe dissera uma tia, quando ainda era menino, quando nem fora selecionado. Duvidara dela: n\u00e3o ventara no dia em que seguira para a Escola.<\/p>\n<p>\u2014 Irm\u00e3, que lugar \u00e9 esse onde estamos? O que vamos fazer?<\/p>\n<p>\u2014 Irm\u00e3o \u2014 ela disse \u2014 tente se acostumar com a ideia de que est\u00e1 morto.<\/p>\n<p>\u2014 Eu n\u00e3o estou morto!<\/p>\n<p>\u2014 De uma certa forma sim. Eu e voc\u00ea estamos, somos Mensageiros da Morte.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, o Mensageiro morre para o mundo e nasce para Deus no exato instante em que se dedica.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, irm\u00e3o. Somos Mensageiros da Morte n\u00e3o mais porque a trazemos, mas porque viemos do Reino da Morte.<\/p>\n<p>N\u00e3o compreendo, irm\u00e3. Isto \u00e9 uma heresia.<\/p>\n<p>Ela lhe apontou para cima:<\/p>\n<p>\u2014 Este n\u00e3o \u00e9 o sol, e esta noite n\u00e3o ter\u00e1 as estrelas que voc\u00ea conhece.<\/p>\n<p>\u2014 Sei disso, irm\u00e3, esta \u00e9 R\u00edgel, a gigante azul.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, irm\u00e3o, n\u00e3o \u00e9. \u00c9 uma estrela azul, jovem e forte, mas n\u00e3o aquela que nos disseram. Esta \u00e9 a estrela que iluminar\u00e1 o futuro da humanidade.<\/p>\n<p>Seria poss\u00edvel? Algo dentro de si ainda se recusava a crer.<\/p>\n<p>\u2014 Continuo n\u00e3o entendendo, irm\u00e3.<\/p>\n<p>\u2014 A Terra, querido irm\u00e3o, a Terra j\u00e1 n\u00e3o existe mais. A \u00fanica humanidade que resta \u00e9 a que a Terra rejeitou, a que colonizou as estrelas. E c\u00e1 estamos, rel\u00edquias de um planeta morto, mortos andando entre os vivos, portando lembran\u00e7as de um mundo que eles n\u00e3o conheceram. Irm\u00e3o, eles nem sequer sabem que n\u00f3s os odiamos.<\/p>\n<p>\u2014 Isto \u00e9 \u00f3timo. Significa que n\u00e3o suspeitam de nada. Vamos agir.<\/p>\n<p>J\u00falio havia sido programado muito bem, mas suas tentativas de dar prosseguimento ao programa eram apenas um disfarce para a confus\u00e3o e o pavor que come\u00e7avam a ser formar em sua mente. Talvez a dist\u00e2ncia do Magist\u00e9rio, o tempo passado no bojo de uma nave-baleia, como um Jonas tecnol\u00f3gico, n\u00e3o por dias, mas por s\u00e9culos ou mil\u00eanios, ou talvez as drogas desconhecidas que os m\u00e9dicos daquele lugar que lha haviam dado. Alguma destas coisas estava minando a frieza que lhe fora ensinada: come\u00e7ou a tomar consci\u00eancia de coisas que sempre soubera, mas que nunca realmente assimilara. Sua viagem era sem volta, seu destino era a morte. Matar e morrer, ou apenas morrer. Aqueles que o enviavam sequer teriam o prazer de ver destru\u00edda a civiliza\u00e7\u00e3o herege. Seu projeto n\u00e3o tinha nenhuma dedica\u00e7\u00e3o real, era apenas um ritual vazio. Viera destruir um planeta, munido de uma pistola. Nunca lhe disseram nada sobre viver depois, sobre encontrar algu\u00e9m ou tentar aprender uma l\u00edngua nova. N\u00e3o tinha consigo sua arma nem os seus implantes de lavagem cerebral. Sentia-se desprotegido e alienado, obrigado a pensar por si. E com que dureza pensava, ajudado por implantes bi\u00f4nicos que o faziam ter mais mem\u00f3ria, pensar mais r\u00e1pido, entrar em loops confusos de processamento os quais somente chutes irracionais solucionavam.<\/p>\n<p>\u2014 O que voc\u00ea est\u00e1 fazendo aqui?<\/p>\n<p>\u2014 Tentando aprender a l\u00edngua deles, para convencer-lhes de que n\u00e3o sou louca.<\/p>\n<p>\u2014 O que fizeram com a bomba?<\/p>\n<p>\u2014 Venha comigo, vou lhe mostrar.<\/p>\n<p>O hospital tinha apenas uma cerquinha baixa, do mesmo material das janelas. Nada impedia que se entrasse ou sa\u00edsse, como se naquele mundo entrar e sair fossem coisas somente feitas quando e onde permitido. Mas a Mensageira n\u00e3o o levou para fora, mas para um canto do p\u00e1tio onde havia um dep\u00f3sito de peda\u00e7os retorcidos de metal. Entre eles alguns cascos de bombas.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0Desde que aprendi a falar um pouco a l\u00edngua deles, irm\u00e3o, eu consegui entender alguma coisa.<\/p>\n<p>\u2014 Se j\u00e1 sabe falar a l\u00edngua deles&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Falta-me convencer-lhes de que n\u00e3o sou louca.<\/p>\n<p>\u2014 Quer ouvir o que descobri?<\/p>\n<p>J\u00falio n\u00e3o queria. Queria matar algu\u00e9m, queria destruir um planeta. Queria cumprir a miss\u00e3o de sua vida. Queria chorar porque de repente se dava conta de que n\u00e3o tinha sua vida, n\u00e3o tivera. Mas uma avassaladora impot\u00eancia o dominava, talvez efeito daquele maligno sol azul. De repente n\u00e3o ouvia mais nem a irm\u00e3, nem a grama crescendo, nem as pessoas passando, nem o pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o batendo. Um escuro o cercou e o deitou no ch\u00e3o. No conforto calmo do ch\u00e3o. Mas n\u00e3o era o ch\u00e3o seguro da velha Terra, mas pedra dura de um ch\u00e3o alien\u00edgena, onde nem podia morrer em paz.<\/p>\n<hr \/>\n<p>De tr\u00e1s das grossas janelas de vidro da sala de ger\u00eancia o Doutor Pankoff observa o novo paciente interagindo com os demais. Seus colegas o observam, com um ar de seriedade cient\u00edfica mesclado a uma forma adulterada de compaix\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Quantos esse m\u00eas, doutor?<\/p>\n<p>\u2014 Este foi s\u00f3 o segundo. Mas no m\u00eas passado tivemos nove.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 curioso que tantos tenham aparecido em t\u00e3o pouco tempo?<\/p>\n<p>\u2014 Se os c\u00e1lculos de nossos Antepassados estiverem certos\u2026 \u2014  os demais o encararam com reprova\u00e7\u00e3o pela ousadia, mas ele continuou \u2014 \u00e9 de se esperar que esta onda Mensageiros da Morte recrudes\u00e7a dentro de alguns anos.<\/p>\n<p>\u2014 Eu nunca entendi este c\u00e1lculo.<\/p>\n<p>\u2014\u00a0 Nem eu. Por isso o benef\u00edcio da d\u00favida. Afinal, n\u00e3o sou astrof\u00edsico. O que sei \u00e9 que esses centenas de Mensageiros da Morte est\u00e3o come\u00e7ando a se tornar um problema social. No come\u00e7o eles chegavam t\u00e3o raramente que quando aparecia outro o primeiro j\u00e1 estava morto ou muito velho; eles envelhecem cedo, como voc\u00eas sabem. Agora n\u00f3s temos duzentos e quarenta pobres diabos mentalmente imaturos e confusos que se acham Destruidores de Planetas andando pelo jardim usando pantufas de l\u00e3 e jalecos de algod\u00e3o. Nenhum deles utiliz\u00e1vel em qualquer atividade econ\u00f4mica, mas ningu\u00e9m sonharia em simplesmente mat\u00e1-los.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 isso que n\u00f3s fazemos. De forma nenhuma o fazemos. S\u00e3o seres humanos, primitivos, mas humanos.<\/p>\n<p>\u2014 Mais do que isso: eles s\u00e3o um reservat\u00f3rio gen\u00e9tico importante, de uma \u00e9poca em que nosso genoma ainda n\u00e3o havia sofrido influ\u00eancia da qu\u00edmica deste planeta e dos raios de R\u00edgel. Logo estaremos migrando para um lugar mais seguro, porque esta menina a\u00ed \u2014 ele indicou a estrela com o queixo \u2014 dever\u00e1 esterilizar uma ampla regi\u00e3o do espa\u00e7o dentro de uns poucos milh\u00f5es de anos.<\/p>\n<p>\u2014 Mas para esta finalidade que o senhor est\u00e1 pensando, Doutor Pankoff, as amostras de sangue e cabelos coletadas j\u00e1 resolvem o problema\u2026 \u2014 atalhou uma Doutora Lamar de nariz adunco e express\u00e3o de quem seguramente jamais tivera um orgasmo na vida.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o exatamente da melhor maneira \u2013 insinuou Pankoff.<\/p>\n<p>O Doutor Jones observou que, de fato, o genoma sintetizado perdia parte de suas caracter\u00edsticas. Suas melhores caracter\u00edsticas \u2014 observou Pankoff. Os outros fizem um constrangido sil\u00eancio, entre a reprova\u00e7\u00e3o e a incredulidade.<\/p>\n<p>Quando todos sa\u00edram, ap\u00f3s o esfriamento do assunto, o calvo m\u00e9dico se sentou em sua poltrona girat\u00f3ria \u00e0 beira da janela e contemplou os pacientes, segurando entre os dedos, escondidos dentro do profundo bolso do jaleco, uma estranha medalha de resina que atravessara anos luz de espa\u00e7o.<\/p>\n<p>No jardim a conversa da Irm\u00e3 com o rec\u00e9m chegado terminava. Ela vinha para a ala central sozinha, enquanto o apatetado novato caminhava sem rumo pelo gramado. Pankoff retirou do bolso a medalhe e contemplou nela a empalidecida imagem tridimensional de Alice. Pobre Alice.  \u00c9 lament\u00e1vel que os padr\u00f5es gen\u00e9ticos dos terr\u00e1queos lhes permitam viver t\u00e3o pouco\u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00falio era um &#8220;programa humano&#8221;. Esse era o nome pelo qual os l\u00edderes do Magist\u00e9rio Supremo os chamavam. Pessoas cujos c\u00e9rebros haviam recebido, ao longo de uma vida inteira, informa\u00e7\u00f5es subliminares destinadas a prepar\u00e1-las para o momento em que o Grande Mestre resolvesse us\u00e1-las. Todos sabiam que os programas humanos eram amplamente conduzidos na Terra inteira e muitos os odiavam, mas vivia-se um tempo em que at\u00e9 odiar o Magist\u00e9rio j\u00e1 se tornara algo cuidadosamente controlado, pelo Magist\u00e9rio. 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