{"id":1241,"date":"2014-01-20T10:33:02","date_gmt":"2014-01-20T13:33:02","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=1241"},"modified":"2017-11-02T14:08:15","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:15","slug":"das-agruras-de-se-traduzir-com-paixao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/01\/das-agruras-de-se-traduzir-com-paixao\/","title":{"rendered":"Das Agruras de se Traduzir com Paix\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 uma grande controv\u00e9rsia sobre as qualidades necess\u00e1rias ao bom profissional. Osten\u00adsivamente os manuais de autoajuda n\u00e3o cessam de mencionar a &#8220;paix\u00e3o&#8221; como um tal requisito. Todos dizem gostar e querer profissionais que mergulhem com &#8220;pai\u00adx\u00e3o&#8221; naquilo que fazem. Na pr\u00e1tica o que eu tenho visto ao longo de minha vida pro\u00adfissional \u00e9 o contr\u00e1rio: os mais bem-sucedidos n\u00e3o s\u00e3o os apaixonados, mas os prag\u00adm\u00e1ticos. Apaixonados tendem a comprometer-se com os resultados, pragm\u00e1ticos n\u00e3o deixam que os problemas &#8220;grudem&#8221; em si. A vida profissional \u00e9 uma grande linha de montagem, onde ningu\u00e9m \u00e9 respons\u00e1vel por nada al\u00e9m do parafuso que aperta. Pragm\u00e1ticos podem ser p\u00e9ssimos para a empresa, mas s\u00e3o \u00f3timos para si mesmos, enquanto os apaixonados v\u00e3o levando a culpa dos erros dos outros por tentarem resolver aquilo que vai al\u00e9m da sua mesa.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m no of\u00edcio de traduzir, no qual ainda sou um mero diletante, eu j\u00e1 percebi que a paix\u00e3o nos prega pe\u00e7as, e que a melhor escolha seria uma saud\u00e1vel neutrali\u00addade &#8220;pragm\u00e1tica&#8221;. Esta semana cometi um dos meus maiores erros de tradu\u00e7\u00e3o, e tudo por causa do excesso de entusiasmo.<\/p>\n<div id=\"attachment_1242\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/Dont_tread_on_me.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1242\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/Dont_tread_on_me-300x199.jpg\" alt=\"Don&#039;t tread on me\" width=\"300\" height=\"199\" class=\"size-medium wp-image-1242\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1242\" class=\"wp-caption-text\">Don&#8217;t tread on me<\/p><\/div>\n<p>Antes de falar sobre este erro em particular, gostaria de lembrar o desastroso t\u00edtulo &#8220;A Casa no Fim do Mundo&#8221;, que eu havia dado ao romance &#8220;The House on Border\u00adland&#8221;, de William Hope Hodgson. Neste caso, em meu favor, ainda posso dizer que este t\u00edtulo \u00e9 melhor do que o que fora utilizado pela primeira tradu\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas (&#8220;A Casa \u00e0 Beira do Abismo&#8221;). Por fim, acatei a sugest\u00e3o de um leitor e mudei para &#8220;A Casa no Limiar&#8221;, que \u00e9 mais po\u00e9tico e tamb\u00e9m mais literal.<\/p>\n<p>N\u00e3o, o erro a que me refiro \u00e9 sutil, por\u00e9m mais grave, porque afeta todo o enten\u00addi\u00admento da hist\u00f3ria. No caso do romance de Hodgson, &#8220;A Casa no Fim do Mundo&#8221; era um t\u00edtulo que se harmonizava com a percep\u00e7\u00e3o geral da ambienta\u00e7\u00e3o. Especialmente considerando as conota\u00e7\u00f5es que a express\u00e3o &#8220;fim de mundo&#8221; adquire entre n\u00f3s, bra\u00adsileiros: Kraighten era realmente um &#8220;fim de mundo&#8221;.<\/p>\n<p>O conto &#8220;The Treader of the Dust&#8221;, de Clark Ashton-Smith, foi por mim traduzido como &#8220;O Andarilho do P\u00f3&#8221; (ainda bem que n\u00e3o h\u00e1 nada envolvido quanto a voos, ou o meu blogue poderia ter sido denunciado). O verbo &#8220;tread&#8221; significa, literalmente, &#8220;pisar&#8221;, e eu logo associei express\u00f5es como &#8220;untrodden ways&#8221;, &#8220;he who treads on stars&#8221; etc. para concluir que, metaforicamente, Ashton-Smith estava falando de algo assim. Por isso, tasquei l\u00e1 esse t\u00edtulo e comecei a traduzir o conto, movido pela pai\u00adx\u00e3o, e aqui o meu grande erro: sem t\u00ea-lo lido at\u00e9 o final. Eu estava t\u00e3o empolgado com a hist\u00f3ria em si, e logo tamb\u00e9m empolgado com o tom absolutamente coloquial que eu estava conseguindo, que n\u00e3o me dei ao trabalho de l\u00ea-la inteira antes de come\u00ad\u00e7ar a traduzir: chegando l\u00e1 nos tr\u00eas quartos da hist\u00f3ria, retornei ao in\u00edcio e me pus ao tra\u00adbalho.<\/p>\n<p>Sem querer aqui entregar &#8220;spoilers&#8221; do conto (mas inevitavelmente entregando), eu s\u00f3 fui perceber, quando traduzi o \u00faltimo par\u00e1grafo, que o t\u00edtulo n\u00e3o se refere ao pro\u00adtagonista (embora ele passe metade da dura\u00e7\u00e3o do conto pisando em poeira). Esta diferen\u00e7a significa que o meu t\u00edtulo mudou completamente o foco de um persona\u00adgem a outro, orientando o meu leitor em uma dire\u00e7\u00e3o oposta \u00e0 que o original indi\u00adcava. Pior, esta orienta\u00e7\u00e3o conflitante faz com que o leitor interprete errado alguns elementos da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Eu disse que s\u00f3 percebi isto ao traduzir o \u00faltimo par\u00e1grafo, mas estou sendo condes\u00adcendente comigo mesmo: na verdade foi at\u00e9 depois. Ocorre que, ao traduzi, eu j\u00e1 n\u00e3o me lembrava do t\u00edtulo que dera \u00e0 hist\u00f3ria, e que j\u00e1 havia preenchido no formul\u00e1\u00adrio do blogue. Assim, quando copiei o texto e colei na caixa do WordPress, eu n\u00e3o percebi que estava publicando a tradu\u00e7\u00e3o com um t\u00edtulo inadequado.<\/p>\n<p>De fato eu s\u00f3 fui perceber isso quando minha p\u00e1gina do Google+ me mostrou o t\u00edtulo e eu me lembrei, vagamente, da cena final da hist\u00f3ria. Mas a\u00ed j\u00e1 era tarde. As pessoas j\u00e1 estavam enxergando o texto com aquele t\u00edtulo, e se eu fosse mudar, teria que compartilhar tudo de novo. Teria que aceitar a vergonha de uma tradu\u00e7\u00e3o t\u00e3o errada e pedir desculpas depois.<\/p>\n<p>\u00c9 isso o que estou fazendo agora, caro leitor. Com todos os defeitos que minhas tra\u00addu\u00e7\u00f5es \u00e0s vezes t\u00eam (posto que n\u00e3o sou nenhum profissional nisso), esta \u00e9 a primeira vez que eu perverto um t\u00edtulo. Ali\u00e1s, \u00e9 a primeira vez que eu perverto alguma coisa. Minhas tradu\u00e7\u00f5es buscam ser servis, buscam ser literais. N\u00e3o tento inventar o que n\u00e3o est\u00e1 no texto. Esta \u00e9, ali\u00e1s, a \u00fanica raz\u00e3o pela qual ainda n\u00e3o comecei a traduzir &#8220;The Night Land&#8221; (tamb\u00e9m do Hodgson), pois ali eu terei de fazer adapta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Pe\u00e7o sua compreens\u00e3o para o que houve, e para a altera\u00e7\u00e3o que farei hoje ainda no t\u00edtulo da tradu\u00e7\u00e3o. N\u00e3o estou cobrindo meus erros, estou s\u00f3 corrigindo-os. E at\u00e9 deixo aqui esse registro, para que todos se lembrem que o erro aconteceu.<\/p>\n<p>Errar \u00e9 humano, ainda mais quando se trabalha com a paix\u00e3o antes do m\u00e9todo, como \u00e9 o meu caso. Mas a honestidade de admitir este erro, eu creio, inspira confian\u00e7a. Tenho medo \u00e9 de gente que &#8220;n\u00e3o erra&#8221;, pois provavelmente essa gente s\u00f3 consegue se &#8220;descolar&#8221; eficientemente das consequ\u00eancias de suas patacoadas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 uma grande controv\u00e9rsia sobre as qualidades necess\u00e1rias ao bom profissional. Osten\u00adsivamente os manuais de autoajuda n\u00e3o cessam de mencionar a &#8220;paix\u00e3o&#8221; como um tal requisito. Todos dizem gostar e querer profissionais que mergulhem com &#8220;pai\u00adx\u00e3o&#8221; naquilo que fazem. Na pr\u00e1tica o que eu tenho visto ao longo de minha vida pro\u00adfissional \u00e9 o contr\u00e1rio: os mais bem-sucedidos n\u00e3o s\u00e3o os apaixonados, mas os prag\u00adm\u00e1ticos. Apaixonados tendem a comprometer-se com os resultados, pragm\u00e1ticos n\u00e3o deixam que os problemas &#8220;grudem&#8221; em si. A vida profissional \u00e9 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1242,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[46],"tags":[25,105,31],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1241"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1241"}],"version-history":[{"count":4,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1241\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4737,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1241\/revisions\/4737"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1242"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1241"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1241"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1241"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}