{"id":126,"date":"2012-08-11T19:39:00","date_gmt":"2012-08-11T22:39:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=126"},"modified":"2017-11-02T14:08:56","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:56","slug":"sou-amador-e-sempre-serei","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2012\/08\/sou-amador-e-sempre-serei\/","title":{"rendered":"Sou Amador, e Sempre Serei"},"content":{"rendered":"<p>Esta semana, enquanto discutia a opini\u00e3o de Paul Rabbit sobre James Joyce, acabei, sei l\u00e1 como, psicografando Clarice Lispector. Se eu fosse esp\u00edrita, esse seria um dos momentos em que eu me orgulharia de minha mediunidade. Com a vantagem de que o texto que escrevi expressa, praticamente sem ressalvas o pen\u00adsamento da autora \u2014 muito diferente das psicografias da moda, que em geral tem tanto a ver com a obra do autor espiritual quanto o proverbial \u00e2nus com as cal\u00e7as. Refiro-me a esta declara\u00e7\u00e3o de Clarice, numa de suas \u00faltimas entrevistas (agra\u00addecimento a Victor de Toledo Stuani por me repassar o link e a transcri\u00e7\u00e3o):<\/p>\n<blockquote>\n<p>&#8220;Eu n\u00e3o sou uma profissional, eu s\u00f3 escrevo quando eu quero. Eu sou uma amadora e fa\u00e7o quest\u00e3o de continuar sendo amadora. Profissional \u00e9 aquele que tem uma obriga\u00e7\u00e3o consigo mesmo de escrever. Ou ent\u00e3o com o outro, em rela\u00e7\u00e3o ao outro. Agora eu fa\u00e7o quest\u00e3o de n\u00e3o ser uma profissional para manter minha liberdade.&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Clarice estava se referindo ao papel que todos esperam que o profissional exer\u00e7a, n\u00e3o s\u00f3 em rela\u00e7\u00e3o ao nicho liter\u00e1rio em que foi inserido ao longo do tempo, mas tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s opini\u00f5es e imagem que precisa manter em rela\u00e7\u00e3o ao sistema. As mesmas ideias de Clarice eu expressei assim:<\/p>\n<p>E qual \u00e9 exatamente a diferen\u00e7a entre um escritor amador e um profissa? Pode parecer pouca, mas pare e pense, pense muito bem. Um autor amador como eu \u00e9 um franco atirador. Eu escrevo o que quero, como quero. Publico no blog por\u00adque quero, procuro  editora na medida do poss\u00edvel e vou levando. N\u00e3o preciso da litera\u00adtura  para nada al\u00e9m de satisfa\u00e7\u00e3o pessoal (o que inclui o sonho de algu\u00e9m  algum dia notar que sou um g\u00eanio incompreendido e assinar comigo um  con\u00adtrato de milh\u00f5es de d\u00f3lares e me dar um t\u00edtulo <i>honoris causa<\/i> da  Sorbonne).<\/p>\n<p>Por isso eu posso ousar. Se ficar ruim, \u00e9 porque \u00e9  um trabalho amador. Se ficar bom, tapinhas nas costas e nem um centavo  de reconhecimento. Posso tamb\u00e9m cri\u00adticar quem quiser, o quanto quiser  (e bobo \u00e9 quem se achar atingido por estas cr\u00ed\u00adti\u00adcas a n\u00edvel pessoal),  sabendo que minhas cr\u00edticas \u00abvalem quanto pesam\u00bb, ou seja, ser\u00e3o  julgadas pela sua propriedade e n\u00e3o pelo meu curr\u00edculo inexistente.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 a mesma coisa para um profissional. Ao se dedicar a literatura  como meio de vida, como fonte permanente da grana que compra seu feij\u00e3o  (ou seu caviar, depen\u00addendo de quanto venda) o autor profissional passa a  depender de vendas regu\u00adlares. Isso inclui definir seu estilo, encontrar  seu nicho, cativar seu p\u00fablico, etc. N\u00e3o espere que um autor de FC, por  exemplo, d\u00ea uma veneta de escrever poesia er\u00f3tica, ou que um autor  regionalista se meta a fazer FC <i>hard<\/i>. Eles at\u00e9 podem querer isto, mas o  mercado n\u00e3o quer, o p\u00fablico leitor preconceituoso n\u00e3o quer. Poucos  leitores de Stephen King leriam contos rom\u00e2nticos de sua autoria. Pou\u00adcos f\u00e3s de FC levariam a s\u00e9rio uma <i>space opera<\/i> de autoria de Rachel de Queiroz.<\/p>\n<p>O mesmo se aplica \u00e0s cr\u00edticas:  quando um autor famoso e profissional fala sobre lite\u00adratura as pessoas  imaginam um mestre falando <i>ex cathedra<\/i>. Esse peso extra que as pessoas  d\u00e3o \u00e0s opini\u00f5es dos profissionais faz com que elas n\u00e3o valham ape\u00adnas o  quanto pesam, valem o peso da vendagem, dos contratos, da publi\u00adcidade,  dos diplomas (mesmo <i>honoris causa<\/i>). Uma estupidez dita por um acad\u00ea\u00admico \u00e9  estudada na imprensa. Uma cr\u00edtica muito apropriada feita por um amador  como eu ser\u00e1 sempre entendida como uma ousadia inadequada. \u00abQuem \u00e9 voc\u00ea,  seu bosta, para falar mal do livro do fulano?\u00bb<\/p>\n<p>Isso significa que o autor que deseja ser profissional precisa come\u00e7ar a censurar-se. Precisa come\u00e7ar a enquadrar-se. \u00abErotismo demais para uma obra juve\u00adnil\u00bb, \u00abfic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica ambientada no interior de Minas Gerais \u00e9 uma coisa rid\u00edcula\u00bb, \u00abningu\u00e9m est\u00e1 interessado em sua autobiografia\u00bb. E o que j\u00e1 conse\u00adguiu precisa policiar-se: \u00abn\u00e3o fale mal de fulano, porque ele \u00e9 um editor impor\u00adtante\u00bb, \u00abfa\u00e7a algumas cr\u00edticas elogiosas a sicrano e aumente suas chances de ir para a Academia\u00bb,\u00abn\u00e3o diga uma coisa dessas, que isso pode ofender os res\u00adpon\u00ads\u00e1veis pelo sistema educacional\u00bb.<\/p>\n<p>Paul Lapine tem, entre suas raras qualidades, a liberdade de atacar o sistema. Porque o sistema foi lamber suas botas para dar um sopro de vida a uma Aca\u00addemia caqu\u00e9tica, cada vez menos relevante culturalmente e inflada de autores de nulo valor (como Jos\u00e9 Sarney (devidamente posto em seu lugar por Mill\u00f4r Fer\u00adnandes), Ivo Pitanguy (enquanto literato \u00e9 um \u00f3timo m\u00e9dico), Merval Pereira, Marco Maciel, N\u00e9lson Pereira dos Santos (apesar de ser um bom cineasta) e Eva\u00adristo de Morais Filho. A verdade \u00e9 que, por mais que eu deteste o trabalho de Pavel Krolik, ele \u00e9 mais importante para a literatura do que todos esses juntos, e com um nariz de vantagem. Isso lhe d\u00e1 a ousadia de falar mal de um dos santos do c\u00e2none ocidental, traduzido ao portugu\u00eas por ningu\u00e9m menos que Ant\u00f4nio Houaiss.<\/p>\n<p>Minha opini\u00e3o sobre Joyce, id\u00eantica \u00e0 de Paul Kaninchen, jaz amparada no sagrado direito de dizer bobagens que assiste aos amadores. N\u00f3s somos livres para n\u00e3o gostar do que n\u00e3o gostamos, n\u00e3o temos a obriga\u00e7\u00e3o de elogiar o que nos enfastia. N\u00e3o somos maridos da grande literatura para suport\u00e1-la a todo custo.<\/p>\n<p>Continuo, por\u00e9m, mantendo a minha opini\u00e3o sobre Ulysses, e n\u00e3o \u00e9 um cr\u00edtico brit\u00e2nico especialista em Joyce que vai me intimidar. Certamente h\u00e1 pessoas que gostam de Ulysses, tanto quanto h\u00e1 quem goste de vela quente e chicotada nas costas. <i>De gustibus non eramus disputandum.<\/i><\/p>\n<p>H\u00e1, por\u00e9m, uma diferen\u00e7a fenomenal entre a opini\u00e3o do Paolo Coniglio e a minha: eu desgosto de Joyce enquanto leitor, pois esse n\u00e3o \u00e9 o tipo de literatura que me comprazo em ler (mas reconhe\u00e7o que Ulysses possui boas ideias, mistu\u00adradas com outras horr\u00edveis e outras med\u00edocres). J\u00e1 o Pablo Conejo desgosta dele com a \u00abotoridade\u00bb de um acad\u00eamico, e um acad\u00eamico precisa entender que nem todas as obras foram feitas para serem lidas pelo grande p\u00fablico, nem todo autor \u00e9 assunto para se conversar na padaria. Se algu\u00e9m me desancar pela minha opini\u00e3o eu aguento o tranco sozinho e me refugio, acuado, na desculpa de que sou s\u00f3 um leitor, que tamb\u00e9m amadoristicamente escreve e palpita, mas o desancamento do Paul Konijn pelo cr\u00edtico ingl\u00eas salpica na Academia que o elegeu porque sugere que o mago \u00e9 um simpl\u00f3rio, um tosco, algu\u00e9m que se iguala ao leitor de tabloides. Para vender ao leitor de tabloides, diga-se de pas\u00adsa\u00adgem. Um mercen\u00e1rio.<\/p>\n<p>Na qualidade de n\u00e3o acad\u00eamico e de amador, eu ainda tenho tempo de dizer boba\u00adgens e n\u00e3o tenho assessoria que me impe\u00e7a. O mesmo n\u00e3o se pode dizer de Paul Lapine, o prestidigitador. Que est\u00e1 come\u00e7ando a enfrentar, l\u00e1 fora, o mesmo n\u00edvel de rejei\u00e7\u00e3o nos meios liter\u00e1rios de que j\u00e1 desfrutava por aqui. A ABL ainda se arrepender\u00e1 de t\u00ea-lo eleito, mas n\u00e3o antes de arrepender-se de ter eleito o Merval.<\/p>\n<p>URUBUSERVA\u00c7\u00d5ES: N\u00e3o \u00e9 curioso que a ABL eleja com tanta facilidade pol\u00ed\u00adti\u00adcos e personalidades de direita, mesmo com nulo valor liter\u00e1rio (al\u00e9m dos cita\u00addos, a Academia tamb\u00e9m j\u00e1 agraciou um general da Junta, o Aur\u00e9lio Lira Tava\u00adres, mas ignorou solenemente o Carlos Drummond de Andrade, que, afinal, era comunista).<\/p>\n<p>Utilizei pseud\u00f4nimos poliglotas para o autor em quest\u00e3o por duas raz\u00f5es. Pri\u00admeiro porque ele \u00e9 mais reconhecido por vender no mundo inteiro do que pelo valor de suas obras. Segundo que ele disse as bobagens que disse para se pro\u00admo\u00adver, obviamente, e eu n\u00e3o quero ajudar a encher a sua bola, nem mesmo se isso encher a minha tamb\u00e9m. Na qualidade de amador, reservo-me o direito disso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esta semana, enquanto discutia a opini\u00e3o de Paul Rabbit sobre James Joyce, acabei, sei l\u00e1 como, psicografando Clarice Lispector. Se eu fosse esp\u00edrita, esse seria um dos momentos em que eu me orgulharia de minha mediunidade. Com a vantagem de que o texto que escrevi expressa, praticamente sem ressalvas o pen\u00adsamento da autora \u2014 muito diferente das psicografias da moda, que em geral tem tanto a ver com a obra do autor espiritual quanto o proverbial \u00e2nus com as cal\u00e7as. 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