{"id":129,"date":"2012-08-05T10:24:00","date_gmt":"2012-08-05T13:24:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=129"},"modified":"2017-11-02T14:08:56","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:56","slug":"marlene-numero-156","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2012\/08\/marlene-numero-156\/","title":{"rendered":"Marlene, N\u00famero 156"},"content":{"rendered":"<blockquote><p>Este texto \u00e9 um trecho avulso do romance \u00abAmores Mortos\u00bb, que est\u00e1 em fase final de revis\u00e3o. A hist\u00f3ria se passa entre 1984 e 2000 e neste trecho em especial est\u00e1 situada em 1994, pouco ap\u00f3s o Plano Real. Oswaldo (variadamente referido pelos diversos personagens do livro como Vado, Vadico, Vadinho ou Valdo) \u00e9 um sujeito que migra de emprego em emprego, por diversas cidades da Zona da Mata Mineira, geralmente trabalhando como representante comercial, vendedor de seguros ou fun\u00e7\u00f5es assemelhadas. A hist\u00f3ria acompanha, de forma n\u00e3o linear, a sua vida amorosa, que incluiu mulheres de v\u00e1rias cores, idades e tem\u00adpe\u00adra\u00admentos, e a sua busca pela paz interior, atrav\u00e9s de duas ou tr\u00eas religi\u00f5es dife\u00adrentes, inclusive atuando como pastor de uma pequena igreja em certa \u00e9poca e tendo um \u00abpapo s\u00e9rio\u00bb com Jesus no momento mais tenso de sua vida.<\/p><\/blockquote>\n<p>Ele parou o carro \u00e0 sombra de uma \u00e1rvore, como um espi\u00e3o faria, e abaixou at\u00e9 a metade o vidro. Passou os dedos pelos cabelos uma \u00faltima vez, para ver se n\u00e3o havia nenhum desleixo excessivo, e olhou pela greta em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 casa n\u00famero 156. Tirou do bolso o peda\u00e7o de papel onde anotara o endere\u00e7o e conferiu se n\u00e3o havia distraidamente invertido os n\u00fameros em sua lembran\u00e7a e respirou fundo. A casa devia ser aquela.<\/p>\n<p>A certeza acelerou o cora\u00e7\u00e3o, fez amargar a boca, causou aquele aperto por den\u00adtro que acontece nos momentos de grandes escolhas. Ainda poderia simples\u00admente ligar o carro e ir embora, depois ligar de volta dizendo que\u2026 sei l\u00e1, qual\u00adquer coisa. Por\u00e9m, se o fizesse, levaria meses ou anos ou vidas martirizando-se pela falta de ousadia. Decidiu que levaria a coisa toda at\u00e9 o fim.<\/p>\n<p>Tudo come\u00e7ara semanas antes, quando come\u00e7ara a conversar por telefone com Mar\u00adlene, que trabalhava no escrit\u00f3rio de alguma das muitas lojas a que vendia. Gos\u00adtara da voz, quisera conhecer o rosto, encontrara-o dentro de um envelope, dese\u00adjara o corpo, deixara o emprego, mas levara o n\u00famero e chegava ent\u00e3o \u00e0 casa onde ela o esperava. Marlene, auxiliar de escrit\u00f3rio em alguma loja pequena, de uma cidade razoavelmente grande para oferecer anonimato, bastante perto para possibilitar aquela aventura.<\/p>\n<p>Lamentou que os telefones celulares ainda fosssem t\u00e3o caros, ou poderia ter um no porta-luvas para discretamente chamar-lhe e perguntar alguma coisa antes de descer. Ouvir a voz dela o ajudaria a ter mais coragem, ajudaria a borrar um pouco a imagem de C\u00e2ndida de sua mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Por fim desceu, mesmo sem coragem e com as pernas bambas. Atravessou a rua depressa, com as costas queimando como se milhares de olhares mapeassem cada passo. Tocou a campainha e refugiou-se na sombra da soleira esperando que nem todas as pessoas daquele bairro, daquela cidade, do estado, do pa\u00eds, do mundo, do universo, tivessem visto, tivessem notado, tivessem anotado sua presen\u00e7a.<\/p>\n<p>Ouviu passos, p\u00e9s arrastados no ch\u00e3o. Calcanhar de chinelo batendo. Passos de velha, ou passos tamb\u00e9m tremendo. A porta se abriu e l\u00e1 estava ela, a mesma Marlene da foto, ou quase ela. Os cabelos eram mais curtos, o rosto mais estreito, um cheiro que a mulher fotografada n\u00e3o tinha. Marlene sorriu-lhe dentes bonitos, sempre o grande medo que tinha nos primeiros encontros. E come\u00e7ou a destrancar os m\u00faltiplos cadeados que protegiam a entrada.<\/p>\n<p>\u2014 Tanta tranca \u2014 perguntou-lhe \u2014 \u00e9 seguro deixar meu carro na rua aqui nesse bairro?<\/p>\n<p>\u2014 Provavelmente \u2014 ela disse com uma voz que mal lembrava a do telefone \u2014 eu \u00e9 que sou meio desconfiada.<\/p>\n<p>Aberto o port\u00e3o, pisou pela primeira vez a casa dela. Piso frio, paredes manchadas pelo uso, um cheiro suave de lavanda, os m\u00f3veis simples, sof\u00e1 coberto por uma capa de tecido liso.<\/p>\n<p>\u2014 Aceita um copo de \u00e1gua?<\/p>\n<p>\u2014 Obrigado, claro, \u00e9\u2026 foi uma viagem longa.<\/p>\n<p>Ela lhe indicou que se sentasse no sof\u00e1, o que ele fez com cuidado, escorregando como se aquele assento o rejeitasse. Ela veio com o copo de \u00e1gua e sentou-se ao seu lado, sorrindo sem jeito \u00e0s vezes. Tomou a iniciativa de pegar suas m\u00e3os, estavam frias, eram magras, eram duras, terminando em unhas pintadas de vermelho escuro, que combinava t\u00e3o bem com o tom moreno da pele.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea veio mesmo.<\/p>\n<p>\u2014 Duvidava que eu viesse?<\/p>\n<p>\u2014 Claro. Por que voc\u00ea viria?<\/p>\n<p>Fez-lhe uma car\u00edcia no rosto macio, apesar de macilento.<\/p>\n<p>\u2014 Porque lhe disse que queria vir, \u00e9 suficiente.<\/p>\n<p>Ela sorriu outra vez, olhando obliquamente para algum canto da sala que ficava em outro universo:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 suficiente.<\/p>\n<p>E deixou-se escorregar at\u00e9 mais perto dele, at\u00e9 suas coxas se encostarem, separadas pelo brim das cal\u00e7as. Oswaldo se sentia com dezessete anos, como sem\u00adpre se sentia quando surpreso na vida. E a vida vivia a surprender-lhe.<\/p>\n<p>Olhou de novo para o rosto de Marlene: era bonita, mas a sua express\u00e3o sofrida o desarmava.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o ouviu uma terceira voz na casa. Arrepiou-se, fez men\u00e7\u00e3o de se levantar. Ela o segurou pela m\u00e3o e surrou-lhe ao ouvido:<\/p>\n<p>\u2014 Calma, \u00e9 s\u00f3 a minha prima que veio pegar uns discos emprestados. Ela j\u00e1 est\u00e1 indo embora.<\/p>\n<p>Oswaldo n\u00e3o se sentiu seguro com esse consolo, mas n\u00e3o tinha a chave da porta. Sentia-se um coelho pego numa armadilha. Da sala n\u00e3o podia ir a nenhum lugar, nenhum esconderijo a n\u00e3o ser suas m\u00e3os. Ouvia os passos da prima que vinha de dentro da casa com passos parecidos com os de Marlene e pensava se n\u00e3o poderia, talvez, desaparecer como um vampiro na fuma\u00e7a. N\u00e3o p\u00f4de. Ela veio, deu boa noite e dirigiu-se \u00e0 cozinha, seguida de Marlene, saindo pela outra porta, que foi trancada depois.<\/p>\n<p>\u2014 Pronto, querido \u2014 disse ainda a meia voz \u2014 agora estamos s\u00f3s.<\/p>\n<p>E sentou-se ao seu lado, oferecendo a seguran\u00e7a que tinha fugido dele ao ouvir a voz da prima. Beijou-o com l\u00e1bios firmes, olhos fechados e a alma faminta. Oswaldo, ent\u00e3o, relaxou e abra\u00e7ou. N\u00e3o dirigira quase cem quil\u00f4metros desde Juiz de Fora para acovardar-se facilmente. Qualquer coisa que tivesse de dar errado, j\u00e1 daria sem que pudesse evitar.<\/p>\n<p>\u2014 Espero que sua prima seja p\u00e9ssima fisionomista \u2014 comentou, cedendo pela \u00faltima vez \u00e0 covardia.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea se preocupa demais, ningu\u00e9m o conhece aqui na cidade, como voc\u00ea mesmo me disse. Sua mulher nunca vai saber.<\/p>\n<p>Beijou-a por sua vez. Apertou-a num abra\u00e7o que revelou qu\u00e3o pouca carne havia sobre seus ossos. Ent\u00e3o ela o chamou:<\/p>\n<p>\u2014 Vem.<\/p>\n<p>Levantou-se do sof\u00e1 e a seguiu pela casa, rumo ao quarto. Pelo caminho conhe\u00adceu onde habitava a voz doce que conhecera pelo telefone: um pequeno quarto com beliche, certamente o das crian\u00e7as, um banheiro pequeno onde ele mal cabe\u00adria, um quarto abarrotado de roupas e espalhadas pelo ch\u00e3o, contendo uma m\u00e1quina de costura, um quarto maior, de janela \u00fanica, com um roupeiro imenso, uma cama que parecia feita para algu\u00e9m muito maior que Marlene, t\u00e3o miu\u00addinha.<\/p>\n<p>\u2014 Quer tirar a camisa para n\u00e3o amarrotar?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o precisa.<\/p>\n<p>T\u00e3o logo ele o disse, Marlene tirou as m\u00e3os de seu colarinho e as levou \u00e0 pr\u00f3pria cin\u00adtura, tratando de abaixar as cal\u00e7as rapidamente, revelando-se para ele sem ceri\u00adm\u00f4nia. Oswaldo se sentiu ridiculamente t\u00edmido e foi tratando de desabotoar a camisa, o que s\u00f3 terminou de fezer quando ela j\u00e1 havia pendurado toda a roupa no cabide junto \u00e0 porta, e ainda n\u00e3o acabara de despir-se e ela j\u00e1 estava toda nua, de p\u00e9 com seus cento e sessenta cent\u00edmetros de ousadia. Quando final\u00admente se desvencilhou das meias, \u00faltima cobertura de sua carne, abriu-lhe os bra\u00e7os, envergonhado, como um frango exposto no balc\u00e3o do supermercado.<\/p>\n<p>\u2014 Espero que voc\u00ea n\u00e3o se decepcione \u2014 comentou, pensando nas pr\u00f3prias per\u00adnas finas, na barriguinha de cerveja que come\u00e7ava a crescer e no tamanho do pr\u00f3prio p\u00eanis, que ela poderia julgar insuficiente, considerando toda a fami\u00adli\u00ada\u00adridade que parecia ter com essas coisas.<\/p>\n<p>\u2014 Nem um pouco \u2014 ela respondeu, lan\u00e7ando-se contra seu corpo.<\/p>\n<p>O contato com uma carne estranha o fez estremecer. Mas n\u00e3o dirigira por quase cem quil\u00f4metros para falhar t\u00e3o cedo. Abra\u00e7ou-a quase como se ela fosse uma crian\u00e7a, apesar de seus trinta anos, e a p\u00f4s de p\u00e9 sobre a cama, a uma altura que per\u00admitia que suas cabe\u00e7as estivessem no mesmo n\u00edvel.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, vamos com calma, que ainda \u00e9 cedo esta noite.<\/p>\n<p>\u2014 Mas \u00e9 tarde na vida \u2014 ela respondeu, fil\u00f3sofa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ele parou o carro \u00e0 sombra de uma \u00e1rvore, como um espi\u00e3o faria, e abaixou at\u00e9 a metade o vidro. Passou os dedos pelos cabelos uma \u00faltima vez, para ver se n\u00e3o havia nenhum desleixo excessivo, e olhou pela greta em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 casa n\u00famero 156. Tirou do bolso o peda\u00e7o de papel onde anotara o endere\u00e7o e conferiu se n\u00e3o havia distraidamente invertido os n\u00fameros em sua lembran\u00e7a e respirou fundo. 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