{"id":132,"date":"2012-07-24T08:12:00","date_gmt":"2012-07-24T11:12:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=132"},"modified":"2017-11-02T14:08:56","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:56","slug":"sera-que-somos-tao-sofisticados","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2012\/07\/sera-que-somos-tao-sofisticados\/","title":{"rendered":"Ser\u00e1 que Somos T\u00e3o Sofisticados?"},"content":{"rendered":"<p>Ser\u00e1  que somos t\u00e3o sofisticados assim? A maioria dos autores celebrados por  nossa cr\u00edtica pratica um tipo de prosa quase ileg\u00edvel, caracterizado  pela explora\u00e7\u00e3o intensa, quase joyceana, tanto da sintaxe quanto da  sem\u00e2ntica, aliado a um \u00e2ngulo narrativo sempre obl\u00edquo e a uma sequ\u00eancia  fragment\u00e1ria. Os autores que praticam uma narrativa mais tradicional  n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o valorizados, n\u00e3o s\u00e3o considerados mais como geniais, mesmo que suas obras exalem compet\u00eancia, como se o seu estilo estivesse ultrapassado, mas o  Finnegans Wake j\u00e1 passou de oitenta anos de idade, Ulysses j\u00e1 \u00e9 quase  centen\u00e1rio, o movimento concretista brasileiro j\u00e1 come\u00e7ou a enterrar os  seus criadores, vitimados pela velhice. Alguma coisa me parece deslocada: soa-me como se houvesse dentro da academia uma fac\u00e7\u00e3o afastada do mundo real e preocupada em escrever livros que ningu\u00e9m ler\u00e1.<\/p>\n<p>A quem interessa uma  literatura t\u00e3o dif\u00edcil? Quem l\u00ea essas obras quebra-cabe\u00e7a? Suspeito que  s\u00e3o realmente poucos os leitores e suspeito mais: suspeito que sob a  capa desta complexidade artificial  muitas vezes reside uma superficialidade f\u00fatil, uma falta de boa  hist\u00f3ria para contar, um conservadorismo est\u00e9tico e conceitual que j\u00e1 se  petrificou.<\/p>\n<p>Sempre fui um cr\u00edtico do excesso de formalismo, at\u00e9 por raz\u00f5es ideol\u00f3gicas. Se ainda houvesse no mundo alguma coisa parecida com as escolas liter\u00e1rias do passado eu estaria tentando seguir uma escola oposta \u00e0 que estou criticando. Mas o mundo de hoje \u00e9 fragment\u00e1rio e os diversos autores ficam sozinhos, dialogando <i>contra<\/i> o nada. Ent\u00e3o quando voc\u00ea pensa diferente, fica f\u00e1cil os que pensam igual o tacharem de imodesto ou at\u00e9 de termos menos elegantes: nesse mundo em que a comunica\u00e7\u00e3o se tornou t\u00e3o f\u00e1cil, pode ser uma atividade bem solit\u00e1ria a de autor.<\/p>\n<p>Enquanto pululam autores interessados em  reinventar e reinverter ideias de como esconder o que n\u00e3o querem dizer, o  mercado segue dominado pela literatura estrangeira. Boa parte de nossos autores locais parece ter desistido de lutar pela alma do leitor comum, abandonaram-no ao massacre da cultura importada, <i>talvez porque eles pr\u00f3prios tenham se abandonado a tal massacre. <\/i>E n\u00e3o deixa de ser curioso que os escritores dos \u00abpa\u00edses centrais\u00bb n\u00e3o tenham essa preocupa\u00e7\u00e3o  de numerar cap\u00edtulos usando uma t\u00e1bua Ouija, de desencavar paralelismos  sem\u00e2nticos a cada par\u00e1grafo, de referenciar cinco deuses mitol\u00f3gicos  Ashanti em cada p\u00e1gina ou de narrar como em um sonho de Freud. O formalismo est\u00e1 fora de moda nas literaturas que imitamos. Nossa  literatura tem uma vanguarda t\u00e3o vanguarda que deixou para tr\u00e1s at\u00e9  mesmo as vanguardas mais avan\u00e7adas. Avan\u00e7ou tanto que deixou todo mundo  para tr\u00e1s e se perdeu na floresta.<\/p>\n<p>N\u00e3o fa\u00e7o parte desta  vanguarda. Sou um construtor de personagens e de cenas. N\u00e3o curto esse  lance de palavras valise ou de emprego do quiasmo como recurso  expressivo. Minha literatura \u00e9 bem mais simples e por isso eu nem tentei  sair na Granta. Mas n\u00e3o estou com isso tentando dizer que considero a ignor\u00e2ncia um fator positivo. N\u00e3o saber as coisas n\u00e3o \u00e9 uma distin\u00e7\u00e3o. Arte \u00abna\u00eff\u00bb \u00e9 um conceito que n\u00e3o faz sentido para mim: ou o artista tem uma forma\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o tem. Supor que seja poss\u00edvel algum tipo de inoc\u00eancia criativa \u00e9, em si, uma inoc\u00eancia. Minha forma\u00e7\u00e3o certamente \u00e9 incompleta e divergente porque n\u00e3o li os livros can\u00f4nicos e, se os li, foi fora da ordem recomendada, fora do contexto recomendado. Como resultado, fiquei pensando diferente do que eu deveria estar pensando se tivesse seguido a programa\u00e7\u00e3o determinada.<\/p>\n<p>E na minha programa\u00e7\u00e3o, consta que a literatura deva ter uma preocupa\u00e7\u00e3o social, nacional e humana. Que isto vai acima da preocupa\u00e7\u00e3o formal, que isto \u00e9 mais importante do que mostrar que consegue empregar uma rara figura de linguagem extra\u00edda da antiga literatura oriental, mais importante do que demonstrar erudi\u00e7\u00e3o sobre povos e culturas que n\u00e3o fazem parte de nossa realidade imediata e nem de nossa hist\u00f3ria. Com um pouco de ousadia e iconoclasmo, chego a dizer que existe em mim uma certa influ\u00eancia do realismo socialista, s\u00f3 me falta aperfei\u00e7oar a ideia um pouco e tolerar que minha vers\u00e3o deste seja \u00abtropicalizada\u00bb com algumas caracter\u00edsticas dos autores que mais me influenciaram: Guimar\u00e3es Rosa, Lima Barreto, Fernando Pessoa, Machado de Assis, Ignacio de Loyola Brand\u00e3o, Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira \u2014 e mais alguns que eu sempre esque\u00e7o quando come\u00e7o a fazer uma lista. E julgo curioso tamb\u00e9m que quando come\u00e7o a fazer tais listas, embora eu tenha lido muito autor gringo, eu s\u00f3 consigo encontrar seis nomes entre eles que ressoaram nas cordas de meu cora\u00e7\u00e3o, cinco g\u00eanios e outro nem tanto, mas gosto n\u00e3o se discute: Jorge Luis Borges, John Banville, Stephen King, D. H. Lawrence, Evgeni Evtushenko e Julio Cort\u00e1zar. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ser\u00e1 que somos t\u00e3o sofisticados assim? A maioria dos autores celebrados por nossa cr\u00edtica pratica um tipo de prosa quase ileg\u00edvel, caracterizado pela explora\u00e7\u00e3o intensa, quase joyceana, tanto da sintaxe quanto da sem\u00e2ntica, aliado a um \u00e2ngulo narrativo sempre obl\u00edquo e a uma sequ\u00eancia fragment\u00e1ria. 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