{"id":138,"date":"2012-07-06T18:30:00","date_gmt":"2012-07-06T21:30:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=138"},"modified":"2017-11-02T14:08:57","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:57","slug":"uma-brevissima-e-amadora-analise-do-conto-medieval-portugues-a-dama-pe-de-cabra","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2012\/07\/uma-brevissima-e-amadora-analise-do-conto-medieval-portugues-a-dama-pe-de-cabra\/","title":{"rendered":"Uma Brev\u00edssima e Amadora An\u00e1lise do Conto Medieval Portugu\u00eas \u00abA Dama P\u00e9 de Cabra\u00bb."},"content":{"rendered":"<blockquote>\n<p>Inclu\u00eddo nos &#8220;Livros de Linhagens&#8221; da nobreza lusitana est\u00e1 um breve relato sobre a fam\u00edlia de Diego Lopes, que inclui uma personagem que ficou c\u00e9lebre: a misteriosa mulher montanhesa com p\u00e9s de cabra. Tata-se de uma hist\u00f3ria interessante por envolver profundamente as fantasias populares lusitanas (e estas fantasias, claro, ecoam na nossa pr\u00f3pria cultura).<\/p>\n<\/blockquote>\n<h3>Aspectos culturais<\/h3>\n<p>Como se ver\u00e1, a defici\u00eancia f\u00edsica (um p\u00e9 deformado) era um sinal de defici\u00eancia moral. A Dama P\u00e9 de Cabra \u00e9 apresentada como uma esp\u00e9cie de bruxa, e o seu p\u00e9 deforme \u00e9 uma grave advert\u00eancia disso. Algumas hist\u00f3rias mais exageradas n\u00e3o apenas mencionam a defici\u00eancia como falam de uma mulher literalmente dotada de p\u00e9s de cabra \u2014 mas nesse caso o casamento n\u00e3o ocorre pelo afeto espont\u00e2neo de Diego Lopes pela dama misteriosa, mas pela promessa que ela lhe faz de honras e gl\u00f3rias caso ele a desposasse e lhe fizesse m\u00e3e.<\/p>\n<p>Interessante notar que a Dama P\u00e9 de Cabra nunca \u00e9 mencionada por seu nome nas vers\u00f5es mais antigas da hist\u00f3ria (e esta que transcrevo parece ser a mais antiga). Tampouco sua filha. Afinal, os livros de linhagens se preocupavam apenas em registrar a linhagem patriarcal da nobreza. Nascer mulher era apenas um acidente, e a Dama, mesmo protagonista da hist\u00f3ria, n\u00e3o leva um nome.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria est\u00e1 ambientada no tempo da guerra contra os mouros, antes da tomada de Toledo pelos crist\u00e3os (que foi em 1085). Isso significa que a hist\u00f3ria deve ter se passado por volta do s\u00e9culo X ou XI (mas, \u00e9 claro, sabemos que &#8220;ter se passado&#8221; \u00e9 boa vontade deste que escreve, o caso \u00e9 certamente lend\u00e1rio, ou muito modificado para tender a lenda).<\/p>\n<p>N\u00e3o consigo perceber muitos elementos semelhantes com contos de fada\/bruxaria\/cavalaria de outras culturas, e nisso reside justamente a originalidade e a beleza deste pequeno texto, que eu em breve modernizarei, para desgra\u00e7a dos descendentes de Diego Lopes e da mem\u00f3ria de Alexandre Herculano (que certamente romanceou o caso bem melhor). A diferen\u00e7a \u00e9 que a minha Dama P\u00e9 de Cabra viver\u00e1 no c\u00edrculo m\u00e1gico da Serra da Estrela, e n\u00e3o sei ainda como lhe apresentarei um Diego Lopes.<\/p>\n<h3>Elementos lingu\u00edsticos<\/h3>\n<p>Saltam \u00e0 vista as semelhan\u00e7as com o espanhol. In\u00fameros voc\u00e1bulos do portugu\u00eas arcaico (s\u00e9culo XIII) se escrevem de forma parecida \u00e0 castelhana: &#8220;muy&#8221;, &#8220;ella&#8221; etc. Isto se explica porque, de fato, as duas l\u00ednguas eram muito mais pr\u00f3ximas naquela \u00e9poca.<\/p>\n<p>Em seguida temos varia\u00e7\u00f5es de ortografia de uma mesma palavra, &#8220;el foi&#8221;, &#8220;ell lhe disse&#8221;, &#8220;elle lho outorgou&#8221;. Tr\u00eas formas diferentes do mesmo pronome e nenhum crit\u00e9rio aparente de escolha. \u00c9 algo parecido com o que acontece na escrita de uma pessoa mal alfabetizada, que erra de v\u00e1rias maneiras diferentes uma mesma palavra. Na Idade M\u00e9dia n\u00e3o havia gram\u00e1ticas e nem academias, as pessoas escreviam como achavam que deviam e s\u00f3 o costume ditava alguma norma.<\/p>\n<p>Voc\u00ea tamb\u00e9m notar\u00e1 palavras come\u00e7adas com c\u00ea-cedilha: &#8220;em \u00e7ima de huuma pena&#8221;. Isto \u00e9 porque no portugu\u00eas antigo os grupos &#8220;ce&#8221; e &#8220;ci&#8221;, bem como o &#8220;\u00e7&#8221; eram lidos ainda com um resqu\u00edcio do &#8220;t&#8221; latino original: dependendo do dialeto a pron\u00fancia deste &#8220;c&#8221; poderia ser lido como &#8220;ts&#8221; ou &#8220;\u03b8&#8221; (o &#8220;theta&#8221; grego simboliza um &#8220;t&#8221; interdental parecido com o &#8220;th&#8221; ingl\u00eas em &#8220;them&#8221;). A palavra &#8220;cima&#8221;, por\u00e9m, deriva de um original latino que era pronunciado como &#8220;k&#8221; (e n\u00e3o de um &#8220;t&#8221;), o que confunde a cabe\u00e7a do falante e o leva a usar cedilha. Esta confus\u00e3o secular fez com que a pron\u00fancia do &#8220;c&#8221; como &#8220;ts&#8221; se tornasse pedante e desaparecesse por fim. Em espanhol europeu ainda existe esta pron\u00fancia (tamb\u00e9m do &#8220;z&#8221;) e pronunciar &#8220;cima&#8221; como hom\u00f3fono de &#8220;sima&#8221; \u00e9 considerado um v\u00edcio de linguagem.<\/p>\n<p>Os pronomes obl\u00edquos n\u00e3o ficam separados do verbo por h\u00edfen, simplesmente porque o h\u00edfen ainda n\u00e3o fora inventado. Assim temos &#8220;vioa&#8221; (viu-a), &#8220;namorousse&#8221;. A duplica\u00e7\u00e3o do &#8220;s&#8221; (nesse e em outros casos, j\u00e1 indica que o &#8220;s&#8221; intervoc\u00e1lico estava sendo sonorizado, tornando necess\u00e1rio deixar claros os casos em que fosse lido como &#8220;s&#8221; mesmo.<\/p>\n<p>No primeiro par\u00e1grafo nota-se a men\u00e7\u00e3o a &#8220;muy alto linhagem&#8221;. Em portugu\u00eas medieval, tal como em espanhol ainda hoje, estas palavras terminadas em &#8220;agem&#8221; eram todas masculinas.<\/p>\n<p>O pronome &#8220;que&#8221; escrevia-se &#8220;ca&#8221;, o que confere com a tend\u00eancia portuguesa  a pronunciar o &#8220;a&#8221; \u00e1tono como um &#8220;e&#8221;. O &#8220;Ll&#8221; indica o fonema que hoje se escreve com &#8220;lh&#8221; e o &#8220;lh&#8221; era outra coisa, porque o &#8220;h&#8221; entre uma consoante e uma vogal indicava uma breve semivogal. Alguns autores escreviam &#8220;mha&#8221; em vez de &#8220;mia&#8221;.<\/p>\n<p>Usa-se o &#8220;y&#8221; em todo lugar onde a pron\u00fancia seja de semivogal, mas tamb\u00e9m em monoss\u00edlabos t\u00f4nicos (&#8220;ssy&#8221;), como se ver\u00e1 no segundo trecho. Isso parece indicar que a letra &#8220;y&#8221; n\u00e3o era usada necessariamente para indicar a dura\u00e7\u00e3o menor do fonema, mas para indicar que em certos contextos o &#8220;i&#8221; seria pronunciado diferente. Os dialetos portugueses preservam esse &#8220;i&#8221; mais fechado (nem sempre nos mesmos contextos do portugu\u00eas medieval), mas n\u00f3s n\u00e3o o temos mais.<\/p>\n<p>Usa-se &#8220;h&#8221; no come\u00e7o de algumas palavras come\u00e7adas com o fonema &#8220;u&#8221; para indicar que ele deve ser pronunciado como vogal. Ocorre que a letra &#8220;u&#8221; ainda n\u00e3o fora inventada e se usava a mesma letra para a vogal &#8220;u&#8221; e para a consoante &#8220;v&#8221;. Quando o &#8220;u&#8221; foi inventado, criou-se uma mai\u00fascula redonda para combinar com ele, e essa varia\u00e7\u00e3o redonda ficou sendo a vogal. Inventaram tamb\u00e9m uma min\u00fascula &#8220;quebrada&#8221; para combinar com o &#8220;V&#8221; e esta ficou sendo a consoante. Em portugu\u00eas medieval segue-se a conven\u00e7\u00e3o latina: usa-se &#8220;u&#8221; sempre, inclusive quando a pron\u00fancia \u00e9 de consoante: &#8220;ouuyo&#8221; \u00e9 &#8220;ouviu-o&#8221;. Mas no in\u00edcio da palavra, especialmente mai\u00fascula, usava-se uma varia\u00e7\u00e3o do &#8220;u&#8221; bastante parecida com o &#8220;v&#8221;, raz\u00e3o pela qual em alguns par\u00e1grafos voc\u00ea ver\u00e1 a letra &#8220;v&#8221;.<\/p>\n<p>Por fim, al\u00e9m da aus\u00eancia da distin\u00e7\u00e3o entre &#8220;V&#8221; e &#8220;u&#8221;, j\u00e1 explicada, notem que n\u00e3o se usa nenhum &#8220;J&#8221;, nenhum &#8220;X&#8221;, nenhum &#8220;W&#8221; e rar\u00edssimos &#8220;Q&#8221;.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o se usava o &#8220;h&#8221; inicial nos contextos em que ele era usado em latim. O verbo &#8220;auia&#8221; (havia) deriva do latim &#8220;habere&#8221;. O emprego do &#8220;h&#8221; inicial atendia a uma necessidade fon\u00e9tica, n\u00e3o etimol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Um caso \u00e0 parte \u00e9 a palavra &#8220;pee&#8221;, derivada do latim &#8220;pede&#8221;. Evidentemente a pron\u00fancia desse duplo &#8220;ee&#8221; tinha um significado. \u00c9 prov\u00e1vel que as palavras com &#8220;ee&#8221; final fossem pronunciadas de forma an\u00e1loga ao que fazemos hoje com as terminadas em &#8220;oo&#8221;.<\/p>\n<p>O verbo &#8220;ter&#8221; ainda n\u00e3o era muito usado. Era muito recente a lembran\u00e7a de seu sentido de posse material. Em vez disso usava-se mais o verbo &#8220;haver&#8221;. Diego e a misteriosa dama &#8220;ouueram&#8221; (houveram) dois filhos.<\/p>\n<p>Usa-se muito a conjun\u00e7\u00e3o &#8220;e&#8221;, \u00e0 maneira b\u00edblica, para introduzir novas frases, evitando-se o ponto final.  O que era f\u00e1cil de fazer, pois a pontua\u00e7\u00e3o atual e suas regras ainda n\u00e3o fora inventada. Usava-se muito os dois pontos, para indicar que uma sequencia de frases segue um mesmo racioc\u00ednio (formando o que hoje n\u00f3s agrupamos em par\u00e1grafos).<\/p>\n<p>Notem bem que os nossos famosos ditongos nasais ainda n\u00e3o existem: &#8220;prisom&#8221; (em vez de pris\u00e3o). Tampouco existem quaisquer acentos, somente o til, mas ele tinha um significado diferente. N\u00e3o eram necess\u00e1rios porque n\u00e3o havia proparox\u00edtonos (j\u00e1 que n\u00e3o havia latinismos e nem helenismos, apenas palavras devidamente moldadas pela boca do povo) e nem ox\u00edtonos (a n\u00e3o ser as palavras terminadas em consoante, inclusive verbos terminados em &#8220;s&#8221;, como &#8220;tiraras&#8221;, que deve ser lido &#8220;tirar\u00e1s&#8221;).<\/p>\n<p>Voltando ao til, ele n\u00e3o \u00e9 usado para indicar a nasaliza\u00e7\u00e3o de uma vogal, mas que uma consoante nasal estava em processo de perda. A palavra &#8220;ala\u00e3o&#8221; n\u00e3o cont\u00e9m um ditongo, mas um hiato ao final, provocado pela perda do &#8220;n&#8221; que havia entre o &#8220;a&#8221; e o &#8220;o&#8221;.<\/p>\n<h3>Transcri\u00e7\u00e3o do original<\/h3>\n<blockquote>\n<p>Este dom Diego Lopez era muy boo monteyro, e estando huum dia em sa armada e atemdemdo quamdo verria o porco ouuyo cantar muyta alta voz huuma molher em \u00e7ima de huuma pena: e el foy pera la e vioa seer muy fermosa e muy bem vistida, e namorousse logo della muy fortemente e preguntoulhe quem era: e ella lhe disse que era huuma molher de muito alto linhagem, e ell lhe disse que pois era molher d&#8217;alto linhagem que casaria com ella se ella quisesse, ca elle era senhor naquella terra toda: e ella lhe disse que o faria se lhe prometesse que numca sse santificasse, e elle lho outorgou, e ella foisse logo com elle.<br \/>\n  E esta dona era muy fermosa e muy bem feita em todo seu corpo saluamdo que auia huum pee forcado como pee de cabra. E viuerom gram tempo e ouueram dous filhos, e huum ouue nome Enheguez Guerra, e a outra foy molher e ouue nome dona. E quando comiam de suum dom Diego Lopez e sa molher assemtaua ell apar de ssy o filho, e ella assemtaua apar de ssy a filha da outra parte.<br \/>\n  E huum dia foy elle a seu monte e matou huum porco muy gramde e trouxeo pera sa casa, e poseo ante ssy hu sia comemdo com ssa molher e seus filhos: e lam\u00e7arom huum osso da mesa e veerom a pellejar huum ala\u00e3o e huuma podemga sobrelle em tall maneyra que a podenga trauou ao ala\u00e3o em a garganta e matouo.<br \/>\n  E dom Diego Lopes quamdo esto uyo teueo por millagre e synousse e disse &#8220;samta Maria vall, quem vio numca tall cousa!&#8221; E ssa molher quamdo o vyo assy sinar lam\u00e7ou ma\u00e3o na filha e no filho, e dom Diego Lopez trauou do filho e nom lho quis leixar filhar: e ella rrecudio com a filha por huuma freesta do paa\u00e7o e foysse pera as montanhas em guisa que a nom virom mais nem a filha.<br \/>\n  Depois a cabo de tempo foy este dom Diego Lopez a fazer mall aos mouros, e premderomno e leuaromno pera Tolledo preso. E a seu filho Enheguez Guerra pesaua muito de ssa prisom, e veo fallar com os da terra per que maneyra o poderiam auer fora da prisom. E elles disserom que nom sabiam maneyra por que o podessem aver, saluamdo sse fosse aas montanhas e achasse sa madre, e que ella lhe daria como o tirasse. E ell foy alaa soo em \u00e7ima de seu cauallo, e achoua em \u00e7ima de huuma pena: e ella lhe disse &#8220;filho Enheguez Guerra, vem a mym ca bem sey eu ao que ueens:&#8221; e ell foy pera ella e ella lhe disse &#8220;veens a preguntar como tiraras teu padre da prisom.&#8221; Emtom chamou huum cauallo que amdaua solto pello momte que avia nome Pardallo e chamouo per seu nome: e ella meteo huum freo ao cauallo que tiinha, e disselhe que nom fezesse for\u00e7a pollo dessellar nem pollo desemfrear nem por lhe dar de comer nem de beuer nem de ferrar: e disselhe que este cauallo lhe duraria em toda sa vida, e que nunca emtraria em lide que nom vem\u00e7esse delle. E disselhe que caualgasse em elle e que o poria em Tolledo ante a porta hu jazia seu padre logo em esse dia, e que ante a porta hu o caualo o posesse que alli de\u00e7esse e que acharia seu padre estar em huum curral, e que o filhasse pella ma\u00e3o e fezesse que queria fallar com elle, que o fosse tirando comtra a porta hu estaua ho cauallo, e que desque alli fosse que cauallgasse em o cauallo e que posesse seu padre ante ssy e que ante noite seria em sa terra com seu padre: e assy foy. E depois a cabo de tempo morreo dom Diego Lopez e ficou a terra a seu filho dom Enheguez Guerra.<\/p>\n<\/blockquote>\n<h3>Aspectos l\u00e9xicos<\/h3>\n<p>Conforme prometido, vamos \u00e0s palavras de sentido peculiar.<\/p>\n<dl>\n<dt>&#8220;Monteyro&#8221;<\/dt>\n<dd>significa ca\u00e7ador. Deriva de &#8220;monte&#8221;, porque j\u00e1 na Idade M\u00e9dia as terras baixas estavam ocupadas pela agricultura e as florestas estavam cada vez mais reduzidas \u00e0s regi\u00f5es montanhosas.<\/dd>\n<dt>&#8220;Atemder&#8221;<\/dt>\n<dd>significa &#8220;esperar&#8221;.<\/dd>\n<dt>&#8220;Pena&#8221;<\/dt>\n<dd>Cognata do espanhol &#8220;pe\u00f1a&#8221;, que significa &#8220;rochedo&#8221;.<\/dd>\n<dt>&#8220;Namorarse&#8221;<\/dt>\n<dd>significa apenas &#8220;afei\u00e7oar-se&#8221;, \u00e9 o antepassado de &#8220;enamorar-se&#8221;.<\/dd>\n<dt>&#8220;Pois&#8221;<\/dt>\n<dd>significa &#8220;j\u00e1 que&#8221; ou &#8220;uma vez que&#8221;, no contexto empregado.<\/dd>\n<dt>&#8220;Ala\u00e3o&#8221; e &#8220;podemga&#8221;<\/dt>\n<dd>s\u00e3o ra\u00e7as de c\u00e3es. Era costume, mesmo entre os nobres, comer com c\u00e3es para jogar-lhes os ossos e, eventualmente, deixar que lambessem a gordura de suas m\u00e3os. O inesperado do acontecimento \u00e9 que o podengo, um c\u00e3o de ca\u00e7a muito manso, apesar de arisco, tenha ataco e matado um c\u00e3o de guarda &#8220;alano&#8221;.<\/dd>\n<dt>&#8220;Filhar&#8221;<\/dt>\n<dd>verbo cognato do nosso atual &#8220;filar&#8221;, quer dizer &#8220;tomar&#8221; ou &#8220;levar&#8221; (que \u00e9 o que os filadores fazem com o que nos filam, ou &#8220;filham&#8221;).<\/dd>\n<dt>&#8220;Recudir&#8221;<\/dt>\n<dd>&#8220;recuar&#8221;<\/dd>\n<dt>&#8220;Freesta&#8221;<\/dt>\n<dd>(do latim &#8220;fenestra&#8221;) \u00e9 &#8220;janela&#8221;.<\/dd>\n<dt>&#8220;Pa\u00e7o&#8221;<\/dt>\n<dd>a forma popular de &#8220;pal\u00e1cio&#8221; (esta palavra foi reinjetada no portugu\u00eas depois, como um novo aportuguesamento erudito de &#8220;palatium&#8221;).<\/dd>\n<dt>&#8220;Em guisa que&#8221;<\/dt>\n<dd>significa &#8220;de modo que&#8221;.<\/dd>\n<dt>&#8220;Pesar&#8221;<\/dt>\n<dd>significa &#8220;ficar triste&#8221;.<\/dd>\n<dt>&#8220;Pardallo&#8221;<\/dt>\n<dd>o nome do cavalo significa &#8220;pardal&#8221;.<\/dd>\n<dt>&#8220;Hu&#8221;<\/dt>\n<dd>significa &#8220;onde&#8221;.<\/dd>\n<dt>&#8220;Curral&#8221;<\/dt>\n<dd>N\u00e3o imaginemos que os mouros mantinham dom Diego em um &#8220;curral&#8221; com o sentido que hoje a palavra tem, mas sim meramente em um cercado ou pali\u00e7ada (esque\u00e7am essa hist\u00f3ria de masmorra, castelos eram caros de construir e a maioria das pris\u00f5es medievais eram simples pali\u00e7adas).<\/dd>\n<dt>&#8220;Jazer&#8221;<\/dt>\n<dd>Dom Diego &#8220;jazia&#8221; l\u00e1, mas n\u00e3o estava morto, visto que a palavra n\u00e3o tinha ainda o sentido f\u00fanebre de hoje.<\/dd>\n<\/dl>\n<p>Uma observa\u00e7\u00e3o importante diz respeito aos sobrenomes. Notem que eles n\u00e3o existiam. O pai se chama &#8220;Diego Lopes&#8221; (provavelmente porque seu pai era um tal Lopo), mas o filho se chama &#8220;Enheguez Guerra&#8221; (provavelmente por ser famoso no combate). Os &#8220;sobrenomes&#8221; medievais s\u00e3o apelidos, n\u00e3o tem conota\u00e7\u00e3o familiar ainda. As fam\u00edlias nobres ainda n\u00e3o haviam adotado o costume de identificar-se pelo nome da vila ou feudo onde tinham propriedade, e as fam\u00edlias plebeias n\u00e3o tinham grande necessidade de identificar-se.<\/p>\n<h3>Conclus\u00e3o<\/h3>\n<p>A an\u00e1lise deste texto nos mostra  que, se n\u00e3o tivesse acontecido a contamina\u00e7\u00e3o etimol\u00f3gica ocorrida entre os s\u00e9culos XVII e XIX e nem o influxo de latinismos eruditos e helenismos cient\u00edficos, o portugu\u00eas seria uma l\u00edngua dominada por proparox\u00edtonos, com poucos acentos gr\u00e1ficos, relativamente simples de se escrever e muito mais bonita.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Inclu\u00eddo nos &#8220;Livros de Linhagens&#8221; da nobreza lusitana est\u00e1 um breve relato sobre a fam\u00edlia de Diego Lopes, que inclui uma personagem que ficou c\u00e9lebre: a misteriosa mulher montanhesa com p\u00e9s de cabra. Tata-se de uma hist\u00f3ria interessante por envolver profundamente as fantasias populares lusitanas (e estas fantasias, claro, ecoam na nossa pr\u00f3pria cultura). Aspectos culturais Como se ver\u00e1, a defici\u00eancia f\u00edsica (um p\u00e9 deformado) era um sinal de defici\u00eancia moral. 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