{"id":14,"date":"2013-06-16T09:34:00","date_gmt":"2013-06-16T12:34:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=14"},"modified":"2017-11-02T14:08:18","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:18","slug":"o-preco-da-passagem-3","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/06\/o-preco-da-passagem-3\/","title":{"rendered":"O Pre\u00e7o da Passagem [3]"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o percebi quantos dias passei naquele lugar. Dizem-me que foram cinco. Nos primeiros dois ou tr\u00eas o homem do quepe tentou extrair de mim alguma informa\u00e7\u00e3o sobre as pessoas com quem estivesse envolvido. Mas de alguma forma, segundo consta dos relat\u00f3rios a que hoje tenho acesso, gra\u00e7as ao <em> habeas data<\/em>, eu apenas circulava em torno da ideia de ter entrado em algum barco em companhia da falecida Jurema, de ter sa\u00eddo sozinho e a deixado l\u00e1. Assinado um tal Tenente Cavalcanti.<\/p>\n<p>Os meus companheiros de partido, anos mais tarde, me felicitariam por ter sido t\u00e3o forte, ter aguentado a tortura sem revelar nenhum nome. Porque, de fato, antes do acidente, eu sabia muitas coisas e conhecia muitos nomes. Depois, n\u00e3o mais. Era como se minha vida anterior n\u00e3o existisse. Dizem que foi a tortura que me causou esta amn\u00e9sia, talvez tenha sido outra coisa.<\/p>\n<p>As marcas no meu corpo n\u00e3o evidenciam nenhuma excessiva viol\u00eancia, s\u00e3o poucas as cicatrizes e n\u00e3o sei quais delas resultaram da tortura e quais, do acidente. Os relat\u00f3rios e o testemunho de minha fam\u00edlia d\u00e3o conta de que sa\u00ed da delegacia direto para casa, o que provavelmente signica que n\u00e3o fui submetido a nada s\u00e9rio que exigisse convalescen\u00e7a. Considerando que muitos sa\u00edam em caix\u00f5es lacrados ou nunca sa\u00edam, at\u00e9 que tive sorte. Mas, sorte \u00e9 palavra que prefiro n\u00e3o usar para mais nada na vida.<\/p>\n<p>A \u00fanica lembran\u00e7a que tenho dos dias em que estive com o Tenente Cavalcanti naquele escuro cub\u00edculo de algum \u00f3rg\u00e3o da Aeron\u00e1utica, al\u00e9m do di\u00e1logo inicial, \u00e9 uma cena na qual ela se aproxima de mim, com as m\u00e3os ensang\u00fcentadas, dizendo:<\/p>\n<p>\u2014 Continuo dizendo, rapaz. Voc\u00ea \u00e9 um cabra de sorte. Enquanto eu tava l\u00e1 cuidando do alem\u00e3ozinho safado chegou esse relat\u00f3rio do DOPS. Ou algu\u00e9m l\u00e1 gosta de voc\u00ea ou voc\u00ea \u00e9 s\u00f3 um imbecil que fugiu da pol\u00edcia para n\u00e3o ser pego bolinando mo\u00e7a de fam\u00edlia.<\/p>\n<p>O tal relat\u00f3rio est\u00e1 anexado ao meu dossi\u00ea. L\u00e1 diz que n\u00e3o havia nenhum envolvimento meu com organiza\u00e7\u00f5es de esquerda \u2014 o que \u00e9 mentira. O policial rodovi\u00e1rio, em seu depoimento, dissera que nos perseguira s\u00f3 por suspeitar que eu fosse muito jovem para dirigir, o que pode ser verdade. E eu s\u00f3 fora parar diante do Tenente Cavalcanti porque o meu nome seria o de um conhecido l\u00edder de guerrilha urbana, o que tamb\u00e9m era mentira. De forma que n\u00e3o pesava contra mim nenhuma suspeita concreta, apenas mal entendidos. De fato eu estivera por t\u00e3o pouco tempo no movimento, segundo os companheiros de partido. Isto, claro, n\u00e3o impediria que o Tenente Cavalcanti arrancasse meus olhos e me fizesse com\u00ea-los, se quisesse, e muita gente padeceu longamente por suspeitas bem mais vagas que essas. Mas era uma \u00e9poca em que ele certamente tinha muito &#8220;trabalho&#8221; a fazer e acabei tendo a sorte de ser deixado de lado. Ou, talvez, algu\u00e9m l\u00e1 no DOPS realmente gostasse de mim.<\/p>\n<p>Minha m\u00e3e me recebeu como ao filho pr\u00f3digo. Vivi sob sua prote\u00e7\u00e3o os anos mais terr\u00edveis da ditadura. N\u00e3o sei se tive juventude, n\u00e3o sei o que fiz de minha vida naqueles anos. \u00c9 como se uma imensa amn\u00e9sia alco\u00f3lica tivesse apagado tudo de meu c\u00e9rebro. Meus parentes n\u00e3o me respondem nunca quando lhes pergunto como estava, em que pensava, o que dizia. Fecham o cenho, desconversam. Sei que minhas lembran\u00e7as s\u00f3 retornam a partir de 26 de setembro de 1984. Eu tinha, ent\u00e3o, 37 anos e acordei em uma bonita manh\u00e3 de sol, ouvindo o passo do rel\u00f3gio, bem-te-vis cantando no jardim. Mais ou menos como um paciente que renasce de um coma.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia ningu\u00e9m comigo a n\u00e3o ser uma prima gorda e de rosto espinhento que me sorria. Prima Maria das Gra\u00e7as fora quem, por alguma raz\u00e3o, reduzira as doses de meus rem\u00e9dios. Cuidara de mim todos aqueles anos, dizem-me que at\u00e9 deixou uma faculdade para me amparar durante a doen\u00e7a de meus pais. N\u00e3o sei se por conformismo ou para exercitar uma gratid\u00e3o que todos me diziam que eu devia ter, afei\u00e7oei-me a ela e ao seu rosto redondo. <\/p>\n<p>Acabamos nos casando, para sua grande, imensa, irrefreada felicidade. Ela logo tratou logo de engravidar e ter duas crian\u00e7as lindas, felizmente pouco parecidas com ela, a quem eu amei de uma forma distante e imprecisa. Tudo em minha vida parecia morti\u00e7o, p\u00e1lido, outonal \u2014 n\u00e3o conseguia amar nem mesmo aos meus filhos. Havia alguma coisa de que eu lembrava mal, alguma coisa que me fazia ter uma melancolia denitiva.<\/p>\n<p>Meu despertar acontecera apenas porque prima Maria das Gra\u00e7as, sem a fiscaliza\u00e7\u00e3o de meus falecidos pais, deixou-me sem os rem\u00e9dios que eu andara tomando por anos e que me mantinham seguro. Oh, foi no dia do vel\u00f3rio deles que acordei. De que foi mesmo que morreram? Ah, sim, um acidente de tr\u00e2nsito besta desses que acontecem. Ou teria sido outra coisa. Tento pensar nisso, mas minha mente \u00e9 fugidia sobre quase tudo agora, exceto sobre certos detalhes que eu gostaria de esquecer. Ela diz que o fez para que eu pudesse velar-lhes, mas alguns parentes, maldosamente, dizem que ela me queria para marido, coisa que aos seus trinta e cinco anos e sem beleza not\u00e1vel, ela n\u00e3o tinha mais esperan\u00e7as de conseguir, a n\u00e3o ser que fosse um jovem louco e carente.<\/p>\n<p>Por ela, apossei-me de minha heran\u00e7a de filho \u00fanico e, mesmo vacilante de mem\u00f3ria, busquei uma vida normal. Varri da mente as imagens leitosas de um passado que parecia outra encarna\u00e7\u00e3o, mudei de cidade, aprendi uma pross\u00e3o para passar o tempo enquanto ela, de forma misteriosa, fazia multiplicar minha heran\u00e7a em bens inesperados (qual faculdade mesmo ela cursara? Economia talvez, ou Ci\u00eancias Cont\u00e1beis). Para facilitar o meu desligamento dos traumas do passado eu me mudei para Minas Gerais, para bem longe do mar, que nunca mais vi. <\/p>\n<p>Por alguns anos a lembran\u00e7a de Jurema me abandonou. Vivi melanc\u00f3licos dias de quase felicidade, porque o esquecimento \u00e9 uma forma de felicidade. Tivemos nossos filhos aqui. Parecia que eu havia achado um caminho para viver dignamente os dias que tinha de resto na vida. Ent\u00e3o voc\u00ea apareceu.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o gostou de me rever, camarada Sanches. Depois de todos os maus peda\u00e7os por que passamos, foi um milagre termos vivido para ter esse dia.<\/p>\n<p>\u2014 Jovino, voc\u00ea n\u00e3o imagina o mal que me causou!<\/p>\n<p>\u2014 O que lhe fiz, camarada Sanches?<\/p>\n<p>\u2014 Por favor, n\u00e3o me chame por meu nome de guerra. Ele \u00e9 parte de uma dor que eu gostaria muito que tivesse passado.<\/p>\n<p>\u2014 Tudo bem, S\u00e9rgio. Eu, eu entendo. Ouvi contarem o que lhe aconteceu. Eu realmente n\u00e3o devia ter vindo aqui, reabrir as antigas feridas. Eu s\u00f3 achei que, talvez, pudesse reencontra em voc\u00ea o meu velho amigo dos tempos de escola. E Deus sabe como ando precisando de amigos. Mas, tudo bem, como disse, eu entendo sua dor. Vou me arrastar com a minha para outras bandas.<\/p>\n<p>\u2014 Jovino, por favor, agora que voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 aqui, n\u00e3o h\u00e1 mais motivo para ir embora. De qualquer forma, eu n\u00e3o vou conseguir mais esquecer as coisas que voc\u00ea me fez lembrar espontaneamente.<\/p>\n<p>\u2014 Cara, voc\u00ea ficou dopado por quase dezessete anos. N\u00e3o me admira que n\u00e3o lembre nada do que lhe passou. Mas voc\u00ea \u00e9 um her\u00f3i, S\u00e9rgio. Eu venho aqui em nome do partido lhe dizer isso. N\u00f3s reconhecemos o seu hero\u00edsmo, n\u00f3s entramos com um processo contra a Uni\u00e3o por repara\u00e7\u00f5es aos nossos antigos filiados. Voc\u00ea entre eles. Venho aqui, em companhia de nosso advogado, para colher a sua assinatura para dar mais peso \u00e0 nossa reivindica\u00e7\u00e3o. N\u00e3o sei se voc\u00ea sabe, S\u00e9rgio, mas voc\u00ea \u00e9 uma lenda viva para o Partido Socialista Revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o me fale em lendas, Jovino, quando voc\u00ea usa essa palavra eu me sinto como se alguma coisa tivesse sido fisgada no abismo.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, voc\u00ea n\u00e3o se lembrava mesmo de nada? Nada?<\/p>\n<p>\u2014 Vagamente. Mas quando eu o vi descer do carro e reconheci o emblema do partido em sua lapela eu comecei a ter lembran\u00e7as em borbot\u00f5es, como se algu\u00e9m houvesse levantado a tampa do inferno. S\u00f3 n\u00e3o me lembro do que vivi durante os dezessete anos passados entre 26 de abril de 1967 e 26 de setembro de 1984. A n\u00e3o ser por algumas sombras, vultos, palavras soltas.<\/p>\n<p>\u2014 Sua m\u00e3e o mantinha sedado, dizendo que estava louco, porque os milicos queriam te pegar de volta para tentar lhe arrancar uma confiss\u00e3o. Mas sempre que eles chegavam em sua casa voc\u00ea estava estirado na cama, babando e delirando. Ent\u00e3o eles acharam que o Tenente Cavalcanti tinha sido duro demais com voc\u00ea logo na primeira vez, e acabaram desistindo, mas curiosamente voc\u00ea n\u00e3o se recuperou. S\u00f3 em 1984, por alguma raz\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Dizem que minha m\u00e3e me manteve sedado at\u00e9 que a minha prima, hoje minha mulher, que vinha cuidando de mim na velhice dos meus pais, resolveu tirar todo o rem\u00e9dio.<\/p>\n<p>\u2014 Nossas fontes apuraram uma hist\u00f3ria diferente, S\u00e9rgio. Na verdade, nossas fontes dizem que voc\u00ea nunca tomou rem\u00e9dio algum. At\u00e9 1984, quando a sua prima <em>come\u00e7ou<\/em> a lhe dar uns calmantes naturais e a lhe fazer massagens. Quem lhe disse isso?<\/p>\n<p>\u2014 Parentes seus, fofocas de fam\u00edlia. E as investiga\u00e7\u00f5es judiciais referentes ao processo de sua indeniza\u00e7\u00e3o. Tivemos acesso \u00e0s suas fichas m\u00e9dicas.<\/p>\n<p>\u2014 Eu n\u00e3o entendo.<\/p>\n<p>\u2014 Fora as cenas de del\u00edrio que voc\u00ea citou, certamente fruto de algum soro da verdade usado pelos torturadores, qual a \u00faltima coisa de que se lembra?<\/p>\n<p>\u2014 Eu dirigia um Aero Willys vermelho, ano 1963, ouvia Beatles no r\u00e1dio, e estava comigo Jurema.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sabe o que estava fazendo?<\/p>\n<p>\u2014 Cara, aqui em Minas Gerais, onde ningu\u00e9m me conhece, procurei esquecer os dezessete malditos anos de minha vida entre 1967 e 1984. Procurei me acostumar com esse buraco negreo em minha mem\u00f3ria. Tenho cinquenta anos, mas \u00e9 como se tivesse trinta e tr\u00eas, a idade de Cristo quando morreu.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos, tente puxar da mem\u00f3ria. A palavra Tchecoslov\u00e1quia lhe traz algum significado \u00e0 mente?<\/p>\n<p>\u2014 Raios! Voc\u00ea&#8230; sim! Naquela tarde \u00edamos a Vit\u00f3ria para pegar um carregamento de armas contrabandeadas da Tchecoeslov\u00e1quia em um navio de bandeira turca. Lembro como se fosse agora! Submetralhadoras para uso em assaltos a banco!<\/p>\n<p>\u2014 Exato, camarada!<\/p>\n<p>\u2014 Com mil diabos, eu era mesmo um subversivo!<\/p>\n<p>\u2014 Bem vindo de volta, Camarada Sanches! Vamos, n\u00e3o precisa chorar de emo\u00e7\u00e3o pelo reencontro.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 a emo\u00e7\u00e3o do reencontro. Lembrar isso me fez entender que uma parte do meu del\u00edrio n\u00e3o era del\u00edrio. Jurema! Lembro Jurema com mais defini\u00e7\u00e3o agora. Ela n\u00e3o era s\u00f3 parte de minhas alucina\u00e7\u00f5es! Jurema era a minha&#8230; noiva!?<\/p>\n<p>\u2014 Camarada, n\u00e3o quer assinar tamb\u00e9m a ficha de filia\u00e7\u00e3o ao Partido?<\/p>\n<p>\u2014 Por favor, Jovino, saia da minha casa, saia da minha vida, nunca mais apare\u00e7a. Voc\u00ea n\u00e3o tem ideia do mal que me fez.<\/p>\n<p>\u2014 Do que voc\u00ea est\u00e1 falando, homem?<\/p>\n<p>\u2014 Jurema, Jurema est\u00e1 de volta!<\/p>\n<p>\u2014 Camarada, acho que voc\u00ea est\u00e1 com uma reca\u00edda. Isso n\u00e3o faz sentido. Acho que voc\u00ea sabe bem o porqu\u00ea: Jurema n\u00e3o pode voltar de onde est\u00e1, ela morreu em 27 de abril de 1967 naquele mesmo acidente.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, eu sei que ela morreu, mas mesmo assim ela est\u00e1 de volta. <\/p>\n<p>\u2014 Isso \u00e9 loucura, Camarada Sanches! Ai, caramba! Sua mulher vai ficar furiosa quando voltar e ver voc\u00ea delirando assim! Vai achar que foi tudo culpa minha, \u00f3 merda!<\/p>\n<p>\u2014 Senta a\u00ed, Jovino, por favor, senta a\u00ed e n\u00e3o vai embora!<\/p>\n<p>\u2014 Agora h\u00e1 pouco voc\u00ea estava praticamente me expulsando!<\/p>\n<p>\u2014 Preciso de voc\u00ea, preciso de companhia, porque Jurema est\u00e1 vindo, para acertas as contas comigo. Durante muito tempo eu estive protegido porque n\u00e3o me lembrava de nada, agora que me lembro \u00e9 como se ela pudesse me farejar, ela est\u00e1 vindo. Eu sinto, eu sei.<\/p>\n<p>\u2014 Eu vou \u00e9 embora daqui, chamar um m\u00e9dico para cuidar de voc\u00ea!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, n\u00e3o v\u00e1, Jovino. N\u00e3o v\u00e1, eu n\u00e3o vou sobreviver muito tempo sem ter algu\u00e9m para manter Jurema afastada de mim.<\/p>\n<p>\u2014 Deixe-o ir, S\u00e9rgio!<\/p>\n<p>\u2014 Q-quem diz isso?<\/p>\n<p>\u2014 Camarada, vou buscar socorro, volto j\u00e1. N\u00e3o fique a\u00ed falando sozinho. Tudo vai ficar bem.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00e1 se foder, Jovino! Deixa de ser covarde. Eu sei que voc\u00ea confessou sob totura e me implicou, desgra\u00e7ado! Foi por isso que me prenderam no hospital! Como eu queria n\u00e3o ter assinado essa porra desse requerimento de indeniza\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>\u2014 Deixe-o ir, S\u00e9rgio! <\/p>\n<p>\u2014 Ju-jurema?<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea j\u00e1 imaginava que eu apareceria. Muito bem. Consegui achar voc\u00ea, depois de todos esses anos. Como p\u00f4de me esquecer?<\/p>\n<p>\u2014 Eu esqueci mais do que isso. Foram muitos anos, muitos rem\u00e9dios.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea sabe que isso \u00e9 mentira, S\u00e9rgio. Voc\u00ea mesmo tratou de se proteger, de se envolver, de se embrulhar, de empacotar cada lembran\u00e7a minha e jogar no por\u00e3o mais fundo da sua mem\u00f3ria. Porque sabia o que tinha feito comigo, e n\u00e3o tinha coragem de enfrentar o seu destino. Mas n\u00e3o esqueci de nada!!! Eu esperei at\u00e9 esse dia para vir!<\/p>\n<p>\u2014 Por que esperou? <\/p>\n<p>\u2014 Ora, por que? Eu n\u00e3o viria para buscar um monte de carne, uma pe\u00e7a de presunto apenas. <\/p>\n<p>\u2014 Eu me lembro agora que a encontrei muitas vezes, com essa mesma roupa preta, esta maquiagem, esses cabelos soltos. Sempre achei que fosse uma dessas garotas roqueiras g\u00f3ticas. Nunca a reconheci. <\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea estaria mais perto da verdade se o estilo fosse <em>death metal.<\/em><\/p>\n<p>\u2014 Jovino n\u00e3o a viu.<\/p>\n<p>\u2014 Ele n\u00e3o tem o que \u00e9 preciso para me ver.<\/p>\n<p>\u2014 Uma sensibilidade especial, algum tipo de dom?<\/p>\n<p>\u2014 Nenhum dom, apenas a experi\u00eancia de estar estado no Limbo.<\/p>\n<p>\u2014 Eu, eu me lembro vagamente. Uma areia com gosto de cinza, um c\u00e9u sempre negro, um mar perigoso em que as almas se perdiam, uma oportunidade n\u00e3o aproveitada, um erro terr\u00edvel, um acidente tr\u00e1gico.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea sabe muito bem que n\u00e3o foi um acidente.<\/p>\n<p>\u2014 O que foi?<\/p>\n<p>\u2014 Foi a coisa mais antinatural que o Inferno j\u00e1 viu em mil\u00eanios. O suic\u00eddio de uma pessoa viva nas \u00e1guas do Estige Por ter me suicidado eu mereci o inferno, mas por ter me suicidado naquelas \u00e1guas eu me tornei algo t\u00e3o bizarro que at\u00e9 os dem\u00f4nios respeitam. Por isso sou livre para vagar pelo mundo, e para vir buscar voc\u00ea.<\/p>\n<p>\u2014 Imagino que devo passar por l\u00e1 outra vez. Bem, voc\u00ea me permite ao menos que eu deixe algum registro, para que ningu\u00e9m pense que fui v\u00edtima de um crime hediondo, ou que me suicidei. Para que um inocente n\u00e3o seja incriminado, ou a Igreja me negue ritual?<\/p>\n<p>\u2014 Escreve a hist\u00f3ria de sua vida, se queres. Tenho tempo e estarei contigo enquanto escreves. Mas adianto que as suas preocupa\u00e7\u00f5es s\u00e3o ris\u00edveis e n\u00e3o fazem sentido. Melhor deixar uma nota breve.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 bem, vou escrever: No dia 29 de novembro de 1997, s\u00e1bado, \u00e0s 15h30, veio o Anjo da Morte me buscar-me, na pessoa de Jurema, a mulher que por tantos anos eu balbuciei em del\u00edrio que a deixara no barco. Eu a vira v\u00e1rias vezes ao longo dos anos, mas n\u00e3o a reconhecera por causa de meu profundo esquecimento, mas tamb\u00e9m pelas mudan\u00e7as em sua apar\u00eancia. Somente quando recuperei a mem\u00f3ria de meu passado ela me ouviu e veio at\u00e9 mim, revelando-se quem era. Ent\u00e3o vi suas enormes asas de penas negras. Ela veio como aparecia em meus sonhos \u2014 talvez seja esse o \u00faltimo desejo que Deus atende aos desgra\u00e7ados. Veio como uma bela mulher, de vestido negro, olhos tristes e imensos, unhas pintadas de negro. Com longos cabelos negros tamb\u00e9m, belos de algum modo. Eu me entrego conformado porque nada resta a fazer. Sabendo que encontrarei meu destino, e o al\u00edvio de um sofrimento que n\u00e3o me deixa. Me rendo ao meu destino ignorado\u2026&#8221;<\/p>\n<p>\u2014 Ignorado n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 O que quer dizer, esse &#8220;n\u00e3o&#8221;?<\/p>\n<p>\u2014 Quando eu me revelar em minha forma real, voc\u00ea saber\u00e1 quem veio por voc\u00ea, e para onde voc\u00ea vai!<\/p>\n<p>###P\u00f3s-Escrito.<\/p>\n<p>Atendendo ao chamado do Sr. Jovino Arantes Silva e de seu advogado, Dr. Eduardo de Oliveira Alves, o Sargento Rodrigues e o Soldado Inoc\u00eancio compareceram \u00e0 resid\u00eancia do artes\u00e3o e ex ativista pol\u00edtico, S\u00e9rgio Raimundo de Albuquerque Fernandes, esposo da empres\u00e1ria Maria das Gra\u00e7as Rolim Fernandes. Ao chegar \u00e0 resid\u00eancia do Sr. Fernandes, os agentes o encontraram ca\u00eddo em dec\u00fabito dorsal na varanda de sua casa, vestindo uma bermuda jeans e uma camisa p\u00f3lo verde e cal\u00e7ado de sand\u00e1lias de couro do tipo franciscano. Ambas as suas m\u00e3os estavam crispadas em torno do pesco\u00e7o, como se tentassem remover um n\u00f3 de forca invis\u00edvel. Seu rosto apresentava uma express\u00e3o torturada, cheia do mais profundo pavor, evidenciando a agonia que deve ter padecido em seus \u00faltimos instantes de vida. O legista relatou n\u00e3o haver nenhum ferimento vis\u00edvel, marca de estrangulamento, nem qualquer ind\u00edcio de envenenamento. A causa mortis foi dada como enfarte agudo do mioc\u00e1rdio, embora n\u00e3o se tivesse not\u00edcia de que o Sr. Fernandes tivesse apresentado anteriormente qualquer enfermidade card\u00edaca. Sendo sabida a sofrida hist\u00f3ria de vida do Sr. Fernandes, uma fragilidade do cora\u00e7\u00e3o, ainda que inaparente, n\u00e3o era de todo inesperada. Durante a aut\u00f3psia o legista conseguiu, por\u00e9m, recolher um ind\u00edcio inesperado, que tem desafiado interpreta\u00e7\u00f5es: a m\u00e3o direita do Sr. Fernandes continha uma \u00fanica pena negra, que n\u00e3o se conseguiu identificar a qual ave pertence. Trata-se de uma pena realmente curiosa n\u00e3o apenas por n\u00e3o ter sido ainda identificada por nenhum ornitologista consultado, mas tamb\u00e9m por um fen\u00f4meno curioso que p\u00f4de ser observado nos dias seguintes ao fato por todos os que foram \u00e0 delegacia, onde estava guardada em uma jarra herm\u00e9tica: mesmo na aus\u00eancia absoluta de qualquer agita\u00e7\u00e3o do frasco, e sem a possibilidade de qualquer corrente de ar penetr\u00e1-lo, a pena manteve-se continuamente em movimento, reduzindo gradualmente sua agita\u00e7\u00e3o at\u00e9 finalmente parar. Na noite seguinte ao seu \u00faltimo estertor, ela desapareceu misteriosamente. A pol\u00edcia acredita que algum dos ornitologistas subornou um policial para apossar-se dela. Um inqu\u00e9rito est\u00e1 em curso para apurar responsabilidades. Seja quem for que levou a pena, n\u00e3o se deu ao trabalho de levar a jarra e nem sequer de violar o lacre de sua tampa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o percebi quantos dias passei naquele lugar. Dizem-me que foram cinco. Nos primeiros dois ou tr\u00eas o homem do quepe tentou extrair de mim alguma informa\u00e7\u00e3o sobre as pessoas com quem estivesse envolvido. Mas de alguma forma, segundo consta dos relat\u00f3rios a que hoje tenho acesso, gra\u00e7as ao <em> habeas data<\/em>, eu apenas circulava em torno da ideia de ter entrado em algum barco em companhia da falecida Jurema, de ter sa\u00eddo sozinho e a deixado l\u00e1. Assinado um tal Tenente Cavalcanti.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[149],"tags":[13,16,18,17,14,15,12,19,11,9,10],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4175,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14\/revisions\/4175"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}