{"id":1439,"date":"2014-04-13T14:00:20","date_gmt":"2014-04-13T17:00:20","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=1439"},"modified":"2017-08-13T00:48:48","modified_gmt":"2017-08-13T03:48:48","slug":"dicas-de-escrita-ou-porque-escrevo-tao-mal","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/04\/dicas-de-escrita-ou-porque-escrevo-tao-mal\/","title":{"rendered":"Dicas de Escrita, ou: Porque Escrevo T\u00e3o Mal"},"content":{"rendered":"<p>> &#8220;Se conselho fosse bom, ningu\u00e9m dava: vendia.&#8221;<br \/>\n> Sabedoria popular (essa que elege o Tiririca e assiste BBB)<\/p>\n<p>> &#8220;O segredo da propaganda \u00e9 a propaganda do segredo.&#8221;<br \/>\n> Mill\u00f4r Fernandes<\/p>\n<p>Escritores escrevem e h\u00e1 uma variedade de g\u00eaneros poss\u00edveis para a satisfa\u00e7\u00e3o de todas as categorias de pessoas dadas \u00e0 gra\u00adfor\u00adreia. Versos costumam ser o come\u00e7o de muita gente, embora hoje tenham perdido parte de sua popularidade para a microfic\u00e7\u00e3o. A fic\u00e7\u00e3o pre\u00addomina, por combinar a atra\u00e7\u00e3o dos best-sellers com a possibi\u00adlidade de extravasar a criatividade, ou seja, essa capacidade que o jovem tem de reescrever as hist\u00f3rias que leu nos livros ou viu nos filmes. S\u00f3 com o tempo o autor se revela, a maioria nunca. Da\u00ed quem come\u00e7ou poeta pode terminar escrevendo fic\u00e7\u00e3o comercial, quem come\u00e7ou escrevendo pornografia pode terminar fil\u00f3sofo. A maioria termina n\u00e3o escrevendo mais.<\/p>\n<p>Todo autor que chegou a algum lugar gosta de falar sobre o cami\u00adnho que seguiu. Entreviste um escritor, especialmente um jovem escri\u00adtor, e descobrir\u00e1 algu\u00e9m pronto a falar. Existem at\u00e9 os que falam mais do que escrevem, ou pelo menos mais do que deveriam. Mas um dia descobrem que escrever e falar s\u00e3o talentos dife\u00adrentes, nem sempre simult\u00e2neos, e muito g\u00eanio se enrola na pr\u00f3pria l\u00edngua ou perpetra bobagens quando sai de seu meio. Mas \u00e9 incomum que um fracassado ensine o sucesso.<\/p>\n<p>Lembro isso porque, depois da exalta\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria biografia, com gene\u00adro\u00adsas doses de lamentos pelos tempos dif\u00edceis, o segundo tema favo\u00adrito dos escritores \u00e9 sempre o ensino de seu segredo. Todos parecem ter vontade de fazer isso, cedo ou tarde, talvez por\u00adque ensinar \u00e9 uma forma de sentir superior, ou talvez porque quando ensinamos o que somos, almejamos reproduzir isto que nos tornamos, o que pode ser confortante para quem \u00e9 contestado.<\/p>\n<p>O ano de 2013 conheceu a pol\u00eamica da Editora Modo, que publi\u00adcou &#8220;bons conselhos&#8221; de autores por ela publicados, que inclu\u00ad\u00edam at\u00e9 mesmo que o autor n\u00e3o deveria ler, para n\u00e3o se deixar influ\u00aden\u00adciar, e que deveria evitar descrever cen\u00e1rios e perso\u00adna\u00adgens, para deixar o leitor mais livre para imaginar. Na \u00e9poca eu escrevi este artigo para questionar a validade espec\u00edfica destes conceitos, mas n\u00e3o me aprofundei em duas quest\u00f5es impor\u00adtan\u00adtes: por que escritores buscam conselhos e quem estaria mais capa\u00adcitado a fornec\u00ea-los?<\/p>\n<p>Entendo que buscar conselhos \u00e9 diferente de buscar aprendi\u00adzado. Este \u00e9 um processo solit\u00e1rio e longo, que come\u00e7a quando o jovem aprende a copiar. E copiar n\u00e3o \u00e9 vergonha. Negar o valor da c\u00f3pia seria negar o valor da leitura, pois ela \u00e9 o exerc\u00edcio de aprendizado da lite\u00adratura: tal como o desenhista come\u00e7a repro\u00addu\u00adzindo tra\u00e7os alhe\u00adios, o autor come\u00e7a plagiando his\u00adt\u00f3\u00adrias de outros. A originalidade \u00e9 um processo posterior, muito posterior, e n\u00e3o h\u00e1 nada errado nisso.<\/p>\n<p>Mas, se \u00e9 justo que o come\u00e7o do caminho seja feito pisando sobre as pegadas de outros, ser\u00e1 que todas as pegadas t\u00eam o mesmo valor? Os caminhos existentes s\u00f3 nos levam aonde outros j\u00e1 foram. Que caminho voc\u00ea prefere trilhar?<\/p>\n<p>Reconhe\u00e7o que \u00e9 muito bom trilhar o caminho dos mestres, mas nem todos t\u00eam est\u00f4mago para Machado de Assis. Considero-me feliz por ter lido a S\u00e9rie Vaga-Lume na adolesc\u00eancia: os livros bons para aprendizado n\u00e3o s\u00e3o aqueles que t\u00eam qualidade absoluta, mas aqueles que nos abrem a mente. Nesse sentido, L\u00facia Machado de Almeida pode ter mais valor que E\u00e7a de Queir\u00f3s. Tal como o talento do professor \u00e9 diferente do realizador. Livros n\u00e3o t\u00e3o bons podem ser melhores para iniciar leitores e escritores. Mas livros real\u00admente ruins n\u00e3o iniciam ningu\u00e9m em nada. <\/p>\n<p>Quando um escritor comenta sobre o caminho que seguiu, \u00e9 l\u00edcito que perguntemos aonde deu este caminho, e por que lugares passou. Os conselhos n\u00e3o t\u00eam valor intr\u00ednseco: valem tanto quanto quem os d\u00e1 e tanto quanto sua obra. Por esta raz\u00e3o eu acredito que se atrever a dar conselhos \u00e9 uma ousadia imensa, que eu espero de autores estabelecidos e bem-sucedidos, n\u00e3o de algu\u00e9m que acabou de publi\u00adcar sua primeira obra juvenil, por uma editora de fundo de quintal. Ainda mais que os conselhos dados pelos grandes escrito\u00adres costumam se chocar frontalmente com as &#8220;receitas de bolo&#8221; que aparecem nas redes sociais.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, amigo\/a que est\u00e1 come\u00e7ando a escrever, se em algum momento surgir a necessidade de ouvir uma orienta\u00e7\u00e3o sobre como escrever, prefira as que foram dadas por gente que gostaria de imitar, n\u00e3o por quem imita os mesmos autores que voc\u00ea l\u00ea. Quando algu\u00e9m me pede conselhos, eu apenas passo adiante os conselhos do Kurt Vonnegut. Se a pessoa n\u00e3o souber quem foi Kurt Vonnegut, \u00e9 porque os conselhos ainda n\u00e3o v\u00e3o adiantar. Mas se a pessoa j\u00e1 conhece os conselhos, j\u00e1 n\u00e3o precisa deles h\u00e1 muito tempo.<\/p>\n<p><em>**&#8221;Creative Writing 101&#8243; (Kurt Vonnegut, Jr.)**<\/p>\n<p>1. Use o tempo de um completo estranho de uma forma que ele ou ela n\u00e3o sinta que o tempo foi esperdi\u00e7ado.<br \/>\n2. D\u00ea ao leitor pelo menos um personagem por quem possa torcer.<br \/>\n3. Todo personagem deve querer alguma coisa, mesmo que s\u00f3 um copo d\u2019\u00e1gua.<br \/>\n4. Cada frase deve fazer uma de duas coisas: caracterizar um personagem ou avan\u00e7ar a a\u00e7\u00e3o.<br \/>\n5. Comece o mais perto poss\u00edvel do fim.<br \/>\n6. Seja um s\u00e1dico. N\u00e3o importa o quanto seus protagonistas sejam doces e inocentes, fa\u00e7a com que lhes aconte\u00e7am coisas horr\u00ed\u00adveis, para que o leitor veja do que eles s\u00e3o feitos.<br \/>\n7. Escreve para agradar somente a uma pessoa. Se abrir a janela e tentar transar com o mundo, por assim dizer, sua hist\u00f3ria vai pegar uma pneumonia.<br \/>\n8. D\u00ea aos leitores o m\u00e1ximo de informa\u00e7\u00e3o, o mais r\u00e1pido poss\u00ed\u00advel. Foda-se o suspense. O leitor deve ter tal com\u00adpre\u00aden\u00ads\u00e3o do que est\u00e1 acontecendo, onde e porque, que poderia ter\u00adminar a hist\u00f3ria sozinho, se baratas comessem as \u00faltimas folhas.<\/p>\n<p>A maior contista americana de minha gera\u00e7\u00e3o foi Flannery O\u2019Connor (1925-1964). Ela quebrou praticamente cada uma destas minhas regras, a n\u00e3o ser a primeira. Grandes autores tendem a fazer isso.<\/em><\/p>\n<p>Eu valorizo conselhos como os do Kurt. Que hoje est\u00e1 esquecido porque ningu\u00e9m tolera ler suas obras complexas e interessantes. Mas se voc\u00ea n\u00e3o perdeu ainda a capacidade de destrinchar obras interessantes, experimente &#8220;Player Piano&#8221; ou &#8220;Matadouro Cinco&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escritores escrevem e h\u00e1 uma variedade de g\u00eaneros poss\u00edveis para a satisfa\u00e7\u00e3o de todas as categorias de pessoas dadas \u00e0 gra\u00adfor\u00adreia. 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