{"id":15,"date":"2013-06-14T18:45:00","date_gmt":"2013-06-14T21:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=15"},"modified":"2017-11-02T14:08:19","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:19","slug":"o-preco-da-passagem-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/06\/o-preco-da-passagem-2\/","title":{"rendered":"O Pre\u00e7o da Passagem [2]"},"content":{"rendered":"<p>Tardou ainda por algum tempo incont\u00e1vel, mas n\u00e3o demasiado que nos desesperasse. Soou uma outra buzina de navio indo para o mesmo lado do primeiro. Ouvimos o j\u00e1 conhecido chapinhar de p\u00e1s, sentimos o farfalhar das roupas da multid\u00e3o, talvez ansiosa, acendeu-se a tr\u00eamula luz vermelha de uma lanterna e o batel encalhou na areia. Desceu o barqueiro vestido da mesma maneira monacal que os anteriores, o rosto recoberto pela sombra de uma dobra de tecido \u2014 e dentro dela um brilho desagradavelmente avermelhado e solit\u00e1rio.<\/p>\n<p>As pessoas que estavam na praia se dirigiram at\u00e9 ele, automaticamente e sem pressa. Passavam devagar, depositando o que levavam na bolsa que ele tinha \u00e0 cinta. O barco, como da primeira vez, n\u00e3o parecia reclamar do peso. Ao contemplar a cena, eu sentia temerariamente perto aqueles grupos de olhos que abominara da primeira vez que vira. Eles, mais do que qualquer outra coisa, me comandavam a criar coragem e embarcar, mesmo tendo medo de que tamb\u00e9m embarcassem.<\/p>\n<p>Por fim, quando a maioria deixara a praia, cresceu demais o medo dos grupos de olhos e resolvemos subir. Aproximamo-nos do barqueiro, por\u00e9m, de uma maneira muito irregular, a passos quase claudicantes. Ele abriu uma risada obscena ao ver-nos, mostrando uma leira desagrad\u00e1vel de dentes pontiagudos e amarelados. Estendeu a m\u00e3o para receber o pre\u00e7o e logo nos indicou o caminho, como um porteiro de hotel a um h\u00f3spede inesperado.<\/p>\n<p>Subimos. O batel oscilou com nosso peso, fazendo com que v\u00e1rios rostos se voltassem, inclusive o do barqueiro, que teve alguma dificuldade para empurr\u00e1-lo de volta para a \u00e1gua. Depois disso, o batel n\u00e3o reclamou mais da nossa presen\u00e7a, deslizou facilmente pela \u00e1gua, impelido pelas remadas desferidas pela for\u00e7a impressionante daqueles bra\u00e7os inumanos. O batel, ent\u00e3o, oscilou, indicando que estava solto sobre a l\u00edquida extens\u00e3o daquelas \u00e1guas infernais.<\/p>\n<p>Ele remava de forma decidida, como um velho e curtido marinheiro. O batel se movia muito devagar, mas de forma percept\u00edvel, sobre a \u00e1gua densa e calma. Tive a curiosidade de provar sua natureza, estendendo a m\u00e3o em sua dire\u00e7\u00e3o. O piloto o percebeu, nada disse. Apenas me devotou instantes de aten\u00e7\u00e3o. Dentro da escurid\u00e3o que era sua face, notei o brilho dos dentes anunciando um sorriso mau.<\/p>\n<p>Levava a m\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00e1gua, com as toneladas de receio que a Noite recomendava. Cada mil\u00edmetro que meu bra\u00e7o avan\u00e7ava era mais pesado que o anterior. Sentia como se estivesse tentando empurrar uma montanha. N\u00e3o porque estivesse realmente denso ou frio, apenas porque um medo desmedido me assaltava e crescia exponencialmente a cada cent\u00edmetro de avan\u00e7o. J\u00e1 podia pressentir a umidade salobra que eri\u00e7ava os pelos das costas da m\u00e3o, mas n\u00e3o podia sentir \u00e1gua alguma. Ent\u00e3o, de repente, alguma coisa brilhou no fundo de minha mente \u2014 intui\u00e7\u00e3o, aviso de um mane familiar, algo assim. Retirei o bra\u00e7o com toda a rapidez que pude imaginar, a tempo de salv\u00e1-lo de algo que saltou das profundezas, espalhando gotas geladas pelo ar, alguma coisa que subiu e caiu de volta com um baque surdo e estreito. O barqueiro riu:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o fa\u00e7a isto outra vez, garoto \u2014 mas n\u00e3o era preciso que o dissesse. Alguma coisa berrava dentro de mim que n\u00e3o deveria, jamais, de jeito nenhum, tentar aquilo de novo.<\/p>\n<p>Chegamos a um navio horrorosamente recoberto de l\u00edquenes e mofos de toda esp\u00e9cie. Estava fundeado meio adernado e oscilou quando o barco come\u00e7ou a ser i\u00e7ado conosco dentro, mas por fim se equilibrou.<\/p>\n<p>Estava cheio de uma sorte de gente de olhar est\u00fapido e cansado. Quase todas muito velhas ou de apar\u00eancia doentia. Passamos por um grupo especialmente catat\u00f4nico, que pareciam pacientes de uma UTI ainda entubados, e fomos nos alojar junto a um grupo de jovens que conversavam com certa anima\u00e7\u00e3o, sob uma t\u00eanue l\u00e2mpada de luz arroxeada que, estranho, da praia n\u00e3o se avistava. Mas mesmo neles pesava o gelo de decad\u00eancia, o h\u00e1lito de derrota. Era como estar entre as m\u00famias de um museu de terrores ancestrais.<\/p>\n<p>\u2014 Que diabo de navio \u00e9 esse? \u2014 perguntei, tentando ser engra\u00e7ado.<\/p>\n<p>Um dos jovens, talvez o mais feio, mas o \u00fanico que parecia capaz de sorrir, respondeu:<\/p>\n<p>\u2014 O navio do diabo, ora.<\/p>\n<p>Tentei rir tamb\u00e9m, mas n\u00e3o pude. Meu ceticismo estava tr\u00f4pego, o materialismo hist\u00f3rico deixara de ser uma possibilidade. Olhei \u00e0 minha volta e uma agonia infinita come\u00e7ou a tomar conta de mim, risadas hediondas ressoavam nos por\u00f5es da embarca\u00e7\u00e3o, m\u00e3os duras, ou patas, batiam no conv\u00e9s, provocando-me, fazendo o arrepio da espinha aumentar, eu quase tendo vontade de pular para n\u00e3o sentir t\u00e3o perto de meus calcanhares aquelas batidas t\u00e9tricas.<\/p>\n<p>De onde vinham a noite eterna, a aus\u00eancia de estrelas, a fant\u00e1stica tropa de deserdados que se transportava naquela embarca\u00e7\u00e3o esculhambada? Como explicar a pantomima melanc\u00f3lica que tantas pessoas desempenhavam, as misteriosas e ferozes coisas que nadavam na \u00e1gua que o navio singrava? Aquela praia larga demais para ser de verdade? Se n\u00e3o fosse mesmo o navio do diabo, era um pesadelo muito real, ou uma dessas experi\u00eancias que os americanos dizem que acontecem com quem est\u00e1 morrendo.<\/p>\n<p>\u2014 Onde estamos? Fala s\u00e9rio.<\/p>\n<p>\u2014 Estamos na Barca do Inferno, amigo. Eu nunca falei t\u00e3o s\u00e9rio \u2014 atalhou um idoso de barba meio malfeita e meio arrancada. Vamos na Barca que atravessa o Mar da Morte levando as almas que chegam \u00e0 Praia do Limbo.<\/p>\n<p>\u2014 Levando para onde?<\/p>\n<p>O rapazola se divertia, como se nada daquilo o atingisse:<\/p>\n<p>\u2014 Para Dite, a metr\u00f3pole de L\u00facifer. L\u00e1.<\/p>\n<p>Apontou com o seu dedo magro a montanha onde ocasionalmente relampejava. Assim dita, a frase parecia casual , mas em mim ela ecoava de uma forma muito diferente. Jurema aproximou-se a tempo de ouvi-la perguntar o que significava tudo aquilo. Engoli um pigarro maior que uma bola de t\u00eanis. As coisas come\u00e7avam a criar forma em meu racioc\u00ednio. Eu ainda hesitava, sem querer dar uma resposta:<\/p>\n<p>\u2014 Mas, tinha outro barco. Um indo na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria. Quantas linhas percorrem o mar?<\/p>\n<p>\u2014 Ah, sim, claro. A Barca do Purgat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Alguma outra coisa acendeu dentro de mim, com a percep\u00e7\u00e3o de que algo estava muito errado, muito mesmo. Jurema interrompeu minhas comisera\u00e7\u00f5es objetivamente perguntando o que eu teria acabado por perguntar ao fim da hesita\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2014 Estamos no inferno?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, n\u00e3o. Ainda n\u00e3o. Isto aqui \u2014 o homem fez um gesto amplo, querendo abarcar toda a invis\u00edvel dist\u00e2ncia que nos engolfava \u2014 \u00e9 o Limiar, ou como preferirem, o meio-termo entre os mundos. Este \u00e9 o mar da morte, os que o cruzam n\u00e3o retornam. L\u00e1 era o Limbo propriamente dito, o lugar das almas que ainda est\u00e3o indecisas.<\/p>\n<p>\u2014 Explique essa hist\u00f3ria direito, estamos mortos?<\/p>\n<p>\u2014 Talvez. Ou talvez n\u00e3o. Enquanto estavam no Limbo certamente ainda estavam vivos, ou s\u00f3 rec\u00e9m-mortos. Mas ainda se podia voltar. Este barco os est\u00e1 levando al\u00e9m do Limiar, que \u00e9 precisamente L\u00e1 \u2014 e ao diz\u00ea-lo, apontou para um trecho de mar \u00e0 frente onde brilhava palidamente um de fogo-de-santelmo.<\/p>\n<p>\u2014 Quero voltar! \u2014 gritou Jurema.<\/p>\n<p>\u2014 Eu tamb\u00e9m, Jurema, mas como?<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00eas n\u00e3o v\u00e3o voltar! \u2014 gargalhou o jovem feioso, cuja face, \u00e0quela luz t\u00e3o desbotada, se revelava nalmente, dotada de uma estranheza que eu n\u00e3o sabia explicar \u2014 voc\u00eas est\u00e3o na Barca do Inferno, acabou a linha para voc\u00eas!<\/p>\n<p>\u2014 E a outra embarca\u00e7\u00e3o? Como fa\u00e7o para entrar nela?<\/p>\n<p>Um velho vestido como o sacerdote de alguma igreja minorit\u00e1ria \u2014 e desconhecida \u2014 tomou a palavra e me explicou:<\/p>\n<p>\u2014 Agora n\u00e3o d\u00e1 mais, j\u00e1 fez a sua escolha. Todos podem entrar de gra\u00e7a na Barca do Purgat\u00f3rio. S\u00f3 n\u00e3o entram os que sabem ser culpados. Porque sabem que, mesmo indo aos port\u00f5es do \u00c9den, os seus pesados cora\u00e7\u00f5es n\u00e3o permitiriam que suas almas subissem aos c\u00e9us, montadas em borboletas. Aqueles que trazem o peso de uma vida de erros s\u00f3 conseguem entrar nesse barco, feito para suportar o peso de pecados, pagam o peso de seus erros como tarifa e chegam leves ao Inferno, onde passam uma eternidade entre seus semelhantes. Somente no inferno os maus conseguem a paz de esp\u00edrito, sofrendo a exclusiva companhia de outros como eles, a guerra eterna de cada um contra todos e todos contra cada um, alian\u00e7as que nunca se mant\u00eam, objetivos que nunca s\u00e3o conclu\u00eddos pois est\u00e3o, todos, devotados a destruir, a sabotar, a impedir.<\/p>\n<p>Em algum lugar dentro mim eu gritava um &#8220;puta-que-o-pariu&#8221; e l\u00e1grimas imateriais escapavam aos borbot\u00f5es de meus inexistentes olhos. Uma vertigem me fazia enjoar:<\/p>\n<p>\u2014 Preciso sair desse barco!<\/p>\n<p>\u2014 Esque\u00e7a isso \u2014 repetiu o feioso jovem \u2014 desse barco voc\u00ea s\u00f3 sai a nado!<\/p>\n<p>A lembran\u00e7a do que ocorrera durante o transbordo no batel me fez entender que esta n\u00e3o seria uma op\u00e7\u00e3o: havia algo na \u00e1gua, algo que definitivamente metia medo. Mas Jurema n\u00e3o notara nada do que me acontecera ent\u00e3o, distra\u00edda em seus pensamentos. N\u00e3o sei se por desespero ou pela maldosa sugest\u00e3o daquele cara detest\u00e1vel, ela virou-se e saltou na \u00e1gua t\u00e3o r\u00e1pido que n\u00e3o tive tempo de gritar-lhe que n\u00e3o o fizesse.<\/p>\n<p>Escutei o baque de seu corpo na \u00e1gua, e no sil\u00eancio daquela cavernosa escurid\u00e3o as suas bra\u00e7adas se ouviram, r\u00e1pidas. Logo outro som apareceu, maior, mais forte. Alguns ind\u00edcios de luta, os sons desapareceram, substitu\u00eddos por outro, um estalo parecido com o de uma toalha molhada agitada no ar. Uma lufada de vento passou, e ent\u00e3o apareceu, caindo da profundidade preta que se espalhava sobre n\u00f3s, uma fant\u00e1stica criatura alada de corpo vagamente humano trazendo Jurema em seus bra\u00e7os, com algumas marcas de feridas, especialmente um par de pequenas perfura\u00e7\u00f5es na altura do pesco\u00e7o. Estava im\u00f3vel, aparentemente sem consci\u00eancia de si. Foi acomodada pela criatura sobre um rolo de cordas naquele canto do tombadilho \u2014 e nenhum dos passageiros ousou aproximar-se dela. Nem eu.<\/p>\n<p>A vis\u00e3o destes fatos me abateu totalmente. Percebi que era in\u00fatil tentar qualquer coisa e me conformei em enfrentar uma eterna e abissal tristeza. As gargalhadas de alguns dos passageiros n\u00e3o soavam como sons de gargantas humanas, mas como maquina\u00e7\u00f5es sobrenaturais de seres desprovidos de piedade. E quanto mais olhava para Jurema, menos vontade tinha de qualquer coisa, parecia que j\u00e1 ansiava pelos supl\u00edcios futuros.<\/p>\n<p>O barco se aproximava de uma margem, pouco al\u00e9m do fogo-de-santelmo. Ali brilhava a luz avermelhada de uma cratera de vulc\u00e3o, iluminando precariamente uma praia de areia negra onde pobres infelizes se exauriam, escravos, em tarefas est\u00fapidas como rolar pedras ou suportar vergastadas. Eu me agarrava \u00e0 amurada como se fosse meu \u00faltimo elo com a realidade e Jurema, pobrezinha, desesperada, envolvera-se em posi\u00e7\u00e3o fetal e exprimia-se em convuls\u00f5es terr\u00edveis.<\/p>\n<p>O rapaz feioso com que conversara, de repente, despiu sua camisa, revelando em suas costas um horr\u00edvel par de membranosas asas, semelhantes \u00e0s de um morcego. Da mesma forma outros dos passageiros o fizeram e come\u00e7aram a bater essas asas pestilentas, como se quisessem voar. Um coro de dezenas de vozes roucas de bar\u00edtono gargalhou malevolamente e eu vomitei uma refei\u00e7\u00e3o que meu corpo comera. Minha cabe\u00e7a girava como uma piorra e eu n\u00e3o conseguia concentrar o racioc\u00ednio em coisa alguma, como se estivessem me drogando, batendo ou me fazendo morrer, sozinho, em um lugar distante e solit\u00e1rio onde ningu\u00e9m velaria meu cad\u00e1ver. Quando os seres alados voejaram sobre o barco, perdi os sentidos, percebendo o cheiro de seus corpos.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, de repente, fez-se a luz. Um policial rodovi\u00e1rio massageava meu peito, uma enfermeira punha soro em minhas veias. Vultos de pessoas transitavam em volta, mas eu os enxergava como se fossem folhas de celofane agitadas ao vento, e suas vozes eram como se estivessem al\u00e9m de uma parede. Vomitei de novo, uma enfermeira limpou meu peito. Ergui a cabe\u00e7a e consegui me ver: estava aparentemente bem. Havia sido removido das ferragens e jazia em uma maca. Tentei mexer os dedos dos p\u00e9s para certificar-me deles e senti al\u00edvio ao perceber sua fric\u00e7\u00e3o contra o solado da bota. Sem v\u00edsceras \u00e0 mostra, sem grandes fraturas. Apenas um golpe na cabe\u00e7a e um corte n\u00e3o muito extenso sobre o peito. Para acidente t\u00e3o grave, as consequ\u00eancias eram pequenas.<\/p>\n<p>\u2014 Jurema?<\/p>\n<p>N\u00e3o ouvi resposta. Tentei mover a cabe\u00e7a, mas meu pesco\u00e7o do\u00eda demais. O guarda rodovi\u00e1rio terminava de fazer as bandagens em meu peito. Reuni minhas for\u00e7as, apertei a garganta e tentei gritar. Tudo o que consegui produzir foi um leve sussurro:<\/p>\n<p>\u2014 Jurema?<\/p>\n<p>O policial me olhou. Trouxe a m\u00e3o sobre meus olhos e os fechou. N\u00e3o respondeu. Alguma coisa me foi dada para cheirar.<\/p>\n<p>Acordei no hospital, amarrado \u00e0 cama. Um homem de uniforme verde e capacete branco vigiava a porta do quarto. Eu estava sozinho.<\/p>\n<p>\u2014 Jurema?<\/p>\n<p>O policial ouviu e se aproximou. Era pouco mais velho do que eu, recruta da PE. Sua cabecinha de adolescente desaparecia sob o enorme capacete.<\/p>\n<p>\u2014 O que disse?<\/p>\n<p>\u2014 Jurema?<\/p>\n<p>\u2014 Sua namorada?<\/p>\n<p>Com apenas o aceno da cabe\u00e7a, assenti. Ao faz\u00ea-lo, uma imensa tristeza me esganava. Ele fez o aceno oposto, me fazendo arregalar os olhos e perder o controle. Ent\u00e3o, do fundo do esquecimento gritou a verdade que ainda n\u00e3o percebera e tive de solt\u00e1-la:<\/p>\n<p>\u2014 Jurema ficou no barco! Jurema ficou no barco!<\/p>\n<p>Debati-me, talvez pensando que, ao libertar-me das correias que me prendiam, pudesse de alguma forma minorar o sofrimento que me matava por dentro.<\/p>\n<p>\u2014 Jurema ficou no barco! Jurema ficou no barco!<\/p>\n<p>O soldado se desesperou tamb\u00e9m, despreparado para aquela rea\u00e7\u00e3o t\u00e3o brusca do homem que fora mandado a guardar. Recuou desajeitado, p\u00f4s a cabe\u00e7a para fora da porta e gritou por ajuda, como um menino assustado:<\/p>\n<p>\u2014 Enfermeira! O subversivo est\u00e1 louco!<\/p>\n<p>Duas entraram correndo no quarto.<\/p>\n<p>\u2014 Calma, calma! Est\u00e1 tudo bem! Tudo vai se resolver depois que falar com o delegado!<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00eas n\u00e3o entendem! Jurema! Jurema ficou no barco!<\/p>\n<p>\u2014 Que Jurema? Que barco? Voc\u00eas fugiram da blitz da pol\u00edcia num carro!<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00eas n\u00e3o entendem! Fui eu que levei Jurema para o barco! E ela ficou no barco! Eu sa\u00ed e ela ficou! Por que foi que eu sa\u00ed?<\/p>\n<p>Chorava como nunca chorara na vida. As imagens da praia queimavam meus olhos como \u00e1cido e a culpa de ter induzido minha pobre amada a embarcar para o Inferno me davam uma vertigem que n\u00e3o passava. Meu cora\u00e7\u00e3o batia pesado, o sangue corria t\u00e3o apertado que eu ouvia o barulho da sua fric\u00e7\u00e3o contra as paredes das art\u00e9rias. Uma enfermeira, a um aceno da outra, pingou algo em meu soro que me fez come\u00e7ar a amolecer. Ent\u00e3o as coisas adquiriram tons leitosos, as tintas come\u00e7aram a vazar pelos limites dos objetos e tudo se misturou como num imenso quadro abstrato, como se tivessem jogado terebintina em uma pintura.<\/p>\n<p>Acordei de novo, j\u00e1 vestido, em uma sala escura. Estava amarrado a uma cadeira. Diante de mim um homem de bigodes louros. Sobre a mesa o seu quepe: Aeron\u00e1utica. Naquele tempo todos sab\u00edamos reconhecer ins\u00edgnias, uniformes, distintivos.<\/p>\n<p>\u2014 O senhor \u00e9 um homem de muita sorte, camarada S\u00e9rgio Fernandes.<\/p>\n<p>\u2014 Jurema ficou no barco! \u2014 foi tudo quanto pude sussurrar.<\/p>\n<p>\u2014 Ora, n\u00e3o seja infantil. J\u00e1 faz duas semanas que o senhor s\u00f3 fala nessa Jurema. Rapaz, se ajeite, oxente. Ela morreu, infelizmente, mas agora tenha ten\u00eancia de homem, pare de chorar que eu tenho at\u00e9 vergonha de bater num cabra chor\u00e3o como voc\u00ea.<\/p>\n<p>\u2014 Mas fui eu quem a p\u00f4s no barco! \u2014 insisti.<\/p>\n<p>\u2014 Escute aqui, seu caga-n&#8217;\u00e1gua! N\u00e3o tem nenhuma porra de barco na hist\u00f3ria! \u00c9 melhor voc\u00ea parar de se fazer de louquinho, eu n\u00e3o tenho remorso de bater em maluco n\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Jurema entrou comigo no barco. S\u00f3 eu sa\u00ed.<\/p>\n<p>O louro bigodudo me deu um forte tapa no rosto. N\u00e3o muito forte, o suficiente para me fazer ver estrelas. Os seguintes foram, aos poucos, ganhando for\u00e7a. Ele sabia progredir em viol\u00eancia com uma calma de sommelier, n\u00e3o desperdi\u00e7ando o sabor dos momentos.<\/p>\n<p>\u2014 Tome ten\u00eancia de homem, cabra!<\/p>\n<p>\u2014 Eu s\u00f3 queria que Jurema tivesse sa\u00eddo do barco\u2026<\/p>\n<p>\u2014 O \u00fanico barco em que voc\u00eas estavam era o barco furado da subvers\u00e3o, rapaz. E agora ele afundou. Voc\u00ea est\u00e1 aqui comigo e tenho a miss\u00e3o de saber quem voc\u00ea \u00e9 e o que estava fazendo naquele carro.<\/p>\n<p>\u2014 S\u00f3 eu sa\u00ed, ela ficou. Foi tudo culpa minha.<\/p>\n<p>\u2014 Muito bem, temos um subversivo que admite a culpa\u2026 \u2014 ele parecia rir, mas era imposs\u00edvel saber o que sentia \u2014 Diga-me, Sr. Fernandes. De que exatamente \u00e9 culpado?<\/p>\n<p>\u2014 Eu levei Jurema para o barco\u2026<\/p>\n<p>Alguma coisa bateu com tanta for\u00e7a em minha cabe\u00e7a que eu perdi os sentidos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tardou ainda por algum tempo incont\u00e1vel, mas n\u00e3o demasiado que nos desesperasse. Soou uma outra buzina de navio indo para o mesmo lado do primeiro. Ouvimos o j\u00e1 conhecido chapinhar de p\u00e1s, sentimos o farfalhar das roupas da multid\u00e3o, talvez ansiosa, acendeu-se a tr\u00eamula luz vermelha de uma lanterna e o batel encalhou na areia. Desceu o barqueiro vestido da mesma maneira monacal que os anteriores, o rosto recoberto pela sombra de uma dobra de tecido \u2014 e dentro dela um brilho desagradavelmente avermelhado e solit\u00e1rio.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[149],"tags":[13,16,18,17,14,15,12,19,11,9,10],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4176,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15\/revisions\/4176"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}