{"id":1521,"date":"2014-04-04T14:11:30","date_gmt":"2014-04-04T17:11:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=1521"},"modified":"2017-08-13T00:50:40","modified_gmt":"2017-08-13T03:50:40","slug":"nao-tenho-mais-medo-de-andar-na-contramao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/04\/nao-tenho-mais-medo-de-andar-na-contramao\/","title":{"rendered":"N\u00e3o Tenho Mais Medo de Andar na Contram\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Compartilharam no Facebook o conselho dado por dois autores americanos (de que nunca ouvi falar) segundo o qual devemos perder o medo de escrever sobre &#8220;what we don&#8217;t know&#8221;. Os dem\u00f4nios da tradu\u00e7\u00e3o criaram a ambiguidade entre &#8220;saber&#8221; e &#8220;conhecer&#8221; e assim surgiu um \u00f3timo tema para debate. Em ingl\u00eas tal conversa seria imposs\u00edvel, pois os dois verbos se amalgamam em um \u00fanico. Mas em portugu\u00eas h\u00e1 uma rica sem\u00e2ntica na oposi\u00e7\u00e3o deles, e podemos tergiversar sobre o proveito de escrever sobre o que n\u00e3o conhecemos ou o que n\u00e3o sabemos.<\/p>\n<p>> O desencanto \u00e9 uma forma besta de liberdade, mas como \u00e9 eficaz!<br \/>\n> <cite>An\u00f4nimo mineiro<\/cite><\/p>\n<p>Sabendo que o conselho, de toda forma, seria irrelevante para autores brasileiros, n\u00e3o s\u00f3 pela citada ambiguidade, mas tamb\u00e9m porque entre n\u00f3s o dif\u00edcil \u00e9 convencer os jovens a escreverem (e lerem) sobre sua realidade imediata, resolvi fazer uma simples ironia na postagem. Mal sabia que resultaria num bate boca virtual que inclui muita deseleg\u00e2ncia de parte a parte, inclusive minha, que n\u00e3o sou santo quanto estou dado a polemizar. Minha observa\u00e7\u00e3o foi:<\/p>\n<p>> Na verdade \u00e9 \u00f3timo que os jovens autores sejam estimulados a escrever sobre lugares e temas que n\u00e3o dominam. Significa que a maior parte do que v\u00e3o escrever ser\u00e1 ruim pacas. Fica menos concorrida a fila para quem conseguir passar por entre a floresta de &#8220;conselhos&#8221; e buscar o seu caminho.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o concordo exatamente com isso, porque \u00e9 p\u00e9ssimo que a literatura seja dominada por obras ruins, mas \u00e9 uma realidade, ainda que eu deteste. Tampouco \u00e9 v\u00e1lido supor que no meio da mediocridade os que consigam se sobressair ter\u00e3o um lugar ao sol. O que sabemos da vida \u00e9 que a mediocridade imp\u00f5e um padr\u00e3o e que, portanto, muito \u00f3timo autor ter\u00e1 que se passar por apenas &#8220;bom&#8221; para poder ser aceito, como o profissional p\u00f3s-graduado que cria um curr\u00edculo &#8220;emagrecido&#8221; para, no desespero do desemprego, poder obter uma vaga para a qual est\u00e1 superqualificado. N\u00e3o concordo mas disse, porque o t\u00f3pico andava morto e o fantasma de Nero estava soprando coisas na minha orelha. Fui l\u00e1 catar uma lira imagin\u00e1ria e postei isso.<\/p>\n<p>Como ainda n\u00e3o haviam respondido, achei que n\u00e3o tinham entendido. Resolvi ent\u00e3o esclarecer. No [artigo linkado](http:\/\/www.nytimes.com\/2014\/03\/30\/books\/review\/write-what-you-know-helpful-advice-or-idle-cliche.html) os autores eram bem claros em discernir que n\u00e3o estavam aconselhando ningu\u00e9m a escrever sobre o que n\u00e3o domina:<\/p>\n<p>> Voc\u00ea pode minerar sua vida, sim. Mas tamb\u00e9m pode observar atentamente as experi\u00eancias de outras pessoas. Pode ler e pesquisar. E pode usar sua imagina\u00e7\u00e3o. O que os bons autores sabem sobre os seus temas \u00e9 normalmente extra\u00eddo de uma combina\u00e7\u00e3o destas fontes.<br \/>\n> <cite>Zo\u00eb Heller<\/cite><\/p>\n<p>> Pode ser que o DNA da fic\u00e7\u00e3o, como o nosso pr\u00f3prio, seja uma h\u00e9lice dupla, um animal de duas cabe\u00e7as. Um filamento nasce do que os autores experimentaram. O outro nasce do que os autores gostariam de experimentar, do impulso de escrever para conhecer.<br \/>\n> <cite>Mohsin Hamid<\/cite><\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nada de novo nesses conselhos. O que h\u00e1 de novo \u00e9 um t\u00edtulo sensacionalista: *&#8221;Escreva Sobre o que Conhece\/Sabe&#8221; &#8212; Um Conselho \u00datil ou um Clich\u00ea Pregui\u00e7oso?* Pela lei do menor esfor\u00e7o todos os leitores apressados interpretariam que \u00e9 um clich\u00ea pregui\u00e7oso (em t\u00edtulos, o \u00faltimo item \u00e9 sempre favorecido subconscientemente).<\/p>\n<p>Sabendo, ent\u00e3o, que os autores n\u00e3o propunham nada de novo a n\u00e3o ser uma explica\u00e7\u00e3o do c\u00e9lebre conselho, postei que:<\/p>\n<p>> Esta parte do &#8220;pesquise e tente conhecer&#8221; \u00e9 a que falta na maioria. A maioria dos jovens autores alimenta o sonho de ser escritor sem ter que ler muito, ou pelo menos, tendo que ler apenas o que lhe interessa de forma mais imediata.<\/p>\n<p>A\u00ed, finalmente, minha provoca\u00e7\u00e3o foi notada. Surgiu uma resposta irada. Engra\u00e7ado como a ironia produz a ira em vez do riso. No calor da discuss\u00e3o, eu acabei reexplicando v\u00e1rias das coisas que estavam ditas no texto, mas que n\u00e3o teriam sido lidas por alguns que liam o t\u00f3pico e as minhas conclus\u00f5es finais ficaram t\u00e3o bacanas, em minha inadequada opini\u00e3o, que resolvi fazer este artigo.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que s\u00f3 conseguimos escrever bem sobre o que conhecemos. Alguns autores t\u00eam a ilus\u00e3o de que &#8220;inventam&#8221; mundos, mas tais mundos inventados nada s\u00e3o al\u00e9m de vers\u00f5es repaginados do mundo que conheceram. Boa parte da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica americana ecoa temas de faroeste, por exemplo, ou da Guerra Fria. Transformar os bis\u00f5es em monstros alien\u00edgenas e os \u00edndios em civiliza\u00e7\u00f5es interplanet\u00e1rias n\u00e3o muda a din\u00e2mica da hist\u00f3ria. Ent\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio que sob a capa de &#8220;outro mundo&#8221; e &#8220;outro tempo&#8221; (ou de &#8220;h\u00e1 muito tempo, em uma gal\u00e1xia muito, muito distante&#8221;, se preferir) exista uma experi\u00eancia humana real para se escrever sobre, ou seus personagens ser\u00e3o bonecas de pl\u00e1stico em um cen\u00e1rio de castelinho, encenando batalhas de mentirinha.<\/p>\n<p>Certas informa\u00e7\u00f5es podem ser supridas pela pesquisa. Voc\u00ea facilmente saber\u00e1 a cor do uniforme do Ex\u00e9rcito Brasileiro na Guerra do Paraguai, por exemplo, mas o drama de estar em um campo de batalha a milhares de quil\u00f4metros de casa, lutando uma guerra genocida em um terreno insalubre e comendo p\u00e9ssima comida, isso n\u00e3o s\u00e3o muitos os que conseguir\u00e3o alcan\u00e7ar. Talvez n\u00e3o seja preciso ter combatido uma guerra espec\u00edfica para escrever sobre ela, mas algum tipo de experi\u00eancia an\u00e1loga \u00e9 imprescind\u00edvel: um acampamento, uma caminhada, uma briga de gangue, uma fuga da pol\u00edcia, seja l\u00e1 o que for. Mas se voc\u00ea transformar os paraguaios em andromedanos e travar sua guerra em Omicron Persei 4, poder\u00e1 prescindir de saber a cor real dos uniformes (pois poder\u00e1 invent\u00e1-los), mas n\u00e3o poder\u00e1 prescindir da no\u00e7\u00e3o humana real de estar em um conflito.<\/p>\n<p>Um autor consegue perfeitamente imaginar lugares e situa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o viveu, extrapolando a partir do que viveu. Mas se os seus leitores foram aos lugares mencionados e \u00e0s situa\u00e7\u00f5es descritas, o autor perde credibilidade. Por exemplo, um americano escreve um romance ambientado no Rio de Janeiro, com personagens que falam espanhol, encontram on\u00e7as nos sub\u00farbios e passam por pontos tur\u00edsticos que ficam em outras cidades brasileiras. Por mais que o autor tenha uma \u00f3tima hist\u00f3ria, seus leitores brasileiros n\u00e3o v\u00e3o lev\u00e1-lo \u00e0 s\u00e9rio, e logo isso vai se espalhar pelo mundo. Mas se vai escrever sobre um lugar ou uma situa\u00e7\u00e3o inventados, onde ningu\u00e9m nunca foi ou que ningu\u00e9m viveu, a\u00ed tudo bem. Os detalhes f\u00e1ceis poder\u00e3o ser todos inventados, restar\u00e1 apenas a tarefa de humanizar seus personagens, para que n\u00e3o pare\u00e7am bonecas de pl\u00e1stico.<\/p>\n<p>Um bom exemplo de como isso pode ser feito \u00e9 a obra &#8220;O Iluminado&#8221;, de Stephen King. N\u00e3o imagino que Stephen King tenha se trancado com a fam\u00edlia em um hotel mal-assombrado do Colorado para viver a hist\u00f3ria de Jack Torrance, escritor como ele, mas sabemos de v\u00e1rias coisas a respeito de King que nos explicam como ele criou o contexto do livro:<\/p>\n<p>1. Stephen King \u00e9 americano,<br \/>\n2. Fala ingl\u00eas.<br \/>\n3. J\u00e1 havia estado no Colorado.<br \/>\n4. Neva muito no Colorado.<br \/>\n5. Nevascas costumam isolar cidades inteiras.<br \/>\n6. Pessoas isoladas contam hist\u00f3rias para distrair.<br \/>\n7. Sempre tem um mala que conta hist\u00f3rias de terror.<br \/>\n8. Sempre tem outro mala que diz que conhecia a hist\u00f3ria.<br \/>\n9. Certos hot\u00e9is do Colorado s\u00e3o considerados mal-assombrados.<br \/>\n10. Em todo hotel j\u00e1 morreu algu\u00e9m. Em hot\u00e9is centen\u00e1rios pode-se dizer que j\u00e1 morreu pelo menos uma pessoa em cada quarto.<br \/>\n11. Ficar isolado num lugar nevado deve ser aterrorizante pacas.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 preciso ser g\u00eanio para inferir de onde saiu a hist\u00f3ria do Hotel Overlook, e nem para entender a raz\u00e3o de sua for\u00e7a liter\u00e1ria (talvez seja o melhor romance do King). Obviamente n\u00e3o acho que o autor precise matar algu\u00e9m para escrever sobre um assassinato, mas que s\u00f3 pode escrever com &#8220;for\u00e7a&#8221; sobre a morte aquele que conviveu com ela de perto.<\/p>\n<p>O mesmo pode ser dito sobre o que \u00e9 considerado o melhor romance de Hemingway, &#8220;O Velho e o Mar&#8221;. Hemingway viveu v\u00e1rios anos em Cuba, no fim da vida. At\u00e9 comprou casa l\u00e1. Sabia falar espanhol desde a \u00e9poca da Guerra Civil Espanhola. Fez amizade com pescadores, ouviu suas hist\u00f3rias. N\u00e3o pescou o peixe, mas ouviu hist\u00f3rias de quem pescou. Isso lhe deu proximidade com o tema. Isso lhe deu autoridade para escolher as palavras certas.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o acontece com quem escreve sobre o que n\u00e3o conhece. A hist\u00f3ria fica distante, fria, artificial. Bonecos de pl\u00e1stico em um castelinho de brinquedo. <\/p>\n<p>Mas, de fato, antes mesmo de chegarmos a esse n\u00edvel mais visceral, temos o problema da ambienta\u00e7\u00e3o. H\u00e1 quem acredite que se possa escrever um romance ambientado nos Estados Unidos usando exclusivamente como refer\u00eancia os romances lidos e os filmes vistos na televis\u00e3o. Engra\u00e7ado que nem mesmo os escritores americanos fazem isso. Dever\u00edamos estar cansados de ver nos filmes como escritores se mudam para cidades distantes para aprender sobre elas e ambientar hist\u00f3rias l\u00e1. Dia desses mesmo assisti um filme assim, chamado &#8220;A Entidade&#8221;. <\/p>\n<p>Nunca ter ido a um pa\u00eds e escrever sobre l\u00e1 \u00e9 algo que funcionava nos s\u00e9culos passados, quando as pessoas pouco viajavam e vers\u00f5es fantasiosas n\u00e3o se distinguiam da realidade. Bastava ambientar uma hist\u00f3ria num &#8220;pa\u00eds distante&#8221; para ganhar certa liberdade com a censura. Hoje em dia h\u00e1 muita gente que viaja (e s\u00e3o os que mais leem, cuidado!) e eles podem facilmente rir de voc\u00ea por sua ignor\u00e2ncia sobre um pa\u00eds que eles conhecem. Eu procuro evitar isso. J\u00e1 h\u00e1 motivos demais para os outros n\u00e3o gostarem do escrevo.<\/p>\n<p>Infelizmente, minhas ideias n\u00e3o t\u00eam legitimidade porque eu ainda sou um desconhecido (e n\u00e3o tenho saco para minerar dois ou tr\u00eas autores famosos que concordem comigo). De fato, eu n\u00e3o acho que isso seja relevante: o sucesso n\u00e3o vem para quem segue conselhos, mas para quem alcan\u00e7a objetivos. Se os conselhos servem, isso s\u00f3 pode ser decidido por quem os segue.<\/p>\n<p>&#8220;Se conselho fosse bom, ningu\u00e9m dava, vendia&#8221;. A frase continua v\u00e1lida, e continua cabendo a quem recebe o conselho avaliar se \u00e9 bom ou n\u00e3o. Quem d\u00e1 o conselho sempre acha que \u00e9 \u00f3timo. Eu apenas tenho a humildade de dizer que meus conselhos n\u00e3o s\u00e3o bons, mesmo porque eles s\u00f3 me trouxeram at\u00e9 onde cheguei. Mas o Facebook est\u00e1 cheio de autores de best-sellers e roteiros de Hollywood, capazes de dar conselhos muito melhores que os meus. <\/p>\n<p>Os conselhos que eu dou servem para quem pensa como eu, ou gosta do que escrevo. Ou servem para que os que pensam diferente tenham um contraponto para criticar. N\u00e3o me incomoda se discordam de mim, eu at\u00e9 me fa\u00e7o de advogado do diabo, \u00e0s vezes, j\u00e1 aprendi que nesse neg\u00f3cio de literatura, se voc\u00ea se deixa bitolar demais e segue todas as etiquetas voc\u00ea acaba um sujeito careta que escreve coisas segundo encomendas (expl\u00edcitas, do editor, ou impl\u00edcitas, &#8220;do mercado&#8221;) e n\u00e3o se realiza no que faz. Eu penso \u00e9 nesta realiza\u00e7\u00e3o pessoal. Gosto de ter orgulho do que fa\u00e7o. Mesmo que os outros n\u00e3o gostem. Hoje entendo gente que se tornou detestada por amor da autenticidade. \u00c9 duro querer ser aut\u00eantico sem ser um poeta laureado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Compartilharam no Facebook o conselho dado por dois autores americanos (de que nunca ouvi falar) segundo o qual devemos perder o medo de escrever sobre &#8220;what we don&#8217;t know&#8221;. 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