{"id":1548,"date":"2014-04-21T00:02:55","date_gmt":"2014-04-21T03:02:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=1548"},"modified":"2017-11-23T20:46:02","modified_gmt":"2017-11-23T23:46:02","slug":"a-qualidade-nao-e-uma-roupa","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/04\/a-qualidade-nao-e-uma-roupa\/","title":{"rendered":"A Qualidade N\u00e3o \u00c9 uma Roupa"},"content":{"rendered":"<p>Alguns cr\u00edticos de arte costumam detectar a decad\u00eancia da arte helen\u00edstico-romana (e por conseguinte da civiliza\u00e7\u00e3o mediterr\u00e2nea antiga) justamente no momento em que acontece a separa\u00e7\u00e3o entre o a constru\u00e7\u00e3o e o ornamento. Pois a\u00ed, a arte deixou de ser vista como uma express\u00e3o para se tornar um opcional. O pragmatismo acabou triunfando sobre a beleza, favorecendo escolhas menos est\u00e9ticas para favorecer maior funcionalidade. O resultado, a longo prazo, \u00e9 o fim da bela arquitetura, substitu\u00edda pela arquitetura grandiosa e resistente, n\u00e3o necessariamente bela.<\/p>\n<p>O respons\u00e1vel por este div\u00f3rcio entre a estrutura e a beleza teria sido o concreto armado (inven\u00e7\u00e3o romana, para quem n\u00e3o sabe). Ora, sendo a decora\u00e7\u00e3o aplicada sobre a estrutura bruta de concreto, ela era uma preocupa\u00e7\u00e3o posterior, menor, talvez pass\u00edvel de cancelamento se andasse estourado o or\u00e7amento. Possivelmente seria executada com material de pior qualidade. Certamente &#8220;remov\u00edvel&#8221; (e portanto substitu\u00edvel).<\/p>\n<p>M\u00e1rio Quintana, comentando sobre isso, observou que &#8220;o aspecto mais lament\u00e1vel da arquitetura moderna \u00e9 a durabilidade do seu material.&#8221; Uma frase venenosa pois, em raz\u00e3o do emprego do concreto armado, a arquitetura moderna \u00e9 bem mais dur\u00e1vel (quando bem constru\u00edda) do que a antiga. Mas a durabilidade do concreto se d\u00e1 ao pre\u00e7o da sutileza. Assim n\u00e3o temos mais os finos detalhes de arquiteturas passadas, mas pesadas chapas de cimento a que se tenta dar fluidez, forma ou cor.<\/p>\n<p>Estas frases me vieram \u00e0 cabe\u00e7a hoje quando, pela cent\u00e9sima vez na vida, me deparei com um jovem que sonha em ser escritor, aparenta ter lido muito pouco (a julgar pela profus\u00e3o de erros ortogr\u00e1ficos de sua escrita) e que ainda tem d\u00favidas b\u00e1sicas sobre conceitos prim\u00e1rios (tipos de narrador). Quando lhe disse que era ainda cedo para ele pensar em escrever, quase me crucificaram. Por sorte j\u00e1 era P\u00e1scoa, e n\u00e3o havia mais cruzes e pregos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dos centuri\u00f5es.<\/p>\n<p>O primeiro coment\u00e1rio em defesa do garoto foi este:<\/p>\n<blockquote><p>\n  &#8220;A partir do momento que voc\u00ea consiga manter a l\u00f3gica, n\u00e3o existe uma restri\u00e7\u00e3o&#8230; Na minha opini\u00e3o s\u00f3 existe uma regra para escritores: Coer\u00eancia.&#8221;\n<\/p><\/blockquote>\n<p>Embora a coer\u00eancia seja uma boa qualidade para um escritor, h\u00e1 dois coment\u00e1rios que gostaria de fazer a respeito desta frase. Primeiro, que duvido que um desconhecedor dos aspectos mais b\u00e1sicos do idioma e das t\u00e9cnicas narrativas seria capaz de manter a coer\u00eancia e a l\u00f3gica. Segundo, que muitos bons textos liter\u00e1rios exploraram justamente a falta de coer\u00eancia (surrealistas, <em>beatnicks<\/em>, etc.). \u00c9 s\u00f3 uma opini\u00e3o minha, mas eu n\u00e3o acho que a coer\u00eancia seja mais importante do que a capacidade de encantar o leitor com uma prosa agrad\u00e1vel.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio garoto se defendeu dizendo que o &#8220;World&#8221; (sic) o ajudava com o portugu\u00eas e que n\u00e3o haveria motivo para critic\u00e1-lo pelo modo como escreve no Facebook.<\/p>\n<p>A primeira ideia \u00e9 obtusa em si, pois o &#8220;World&#8221; sequer \u00e9 um programa feito por lus\u00f3fonos e por isso falha em in\u00fameros aspectos de sua corre\u00e7\u00e3o, tanto na gram\u00e1tica quanto no reconhecimento do significado de hom\u00f3grafos pelo contexto. Mas a segunda ideia \u00e9 mais sutil, merece um par\u00e1grafo \u00e0 parte, e justifica a men\u00e7\u00e3o aos romanos e ao concreto armado.<\/p>\n<p>A qualidade n\u00e3o pode ser vista como algo separado da estrutura, a qualidade n\u00e3o \u00e9 um aplique de gesso que voc\u00ea coloca sobre uma placa feia de concreto. A qualidade n\u00e3o \u00e9 uma roupa que voc\u00ea veste em certas ocasi\u00f5es, mas em outras n\u00e3o.<\/p>\n<p>Sei que essa ideia de indissociabilidade n\u00e3o vai encontrar eco no mundo de hoje. Vivemos em um mundo feito de concreto, literal e metaforicamente. Mas tamb\u00e9m um mundo de maquiagem, roupas, cirurgias pl\u00e1sticas. De carros que mudam de desenho, mas n\u00e3o de mec\u00e2nica. De gente que pensa uma coisa e diz outra. De livros que levam na capa o nome de algu\u00e9m que o ditou, mas n\u00e3o o escreveu.<\/p>\n<p>Nesse mundo, pensar a qualidade como algo que se aluga, como algo que voc\u00ea paga algu\u00e9m para fazer, \u00e9 o mais natural. Posso pagar a algu\u00e9m para pegar meu ma\u00e7o de garranchos ou meu arquivo de cacografias batucadas e transformar isso em algo que <strong>eu<\/strong> <em>ache<\/em> que est\u00e1 bom. Mas se eu n\u00e3o tenho suficiente cultura e qualidade, como posso avaliar a qualidade daquilo que pago a algu\u00e9m para fazer por mim?<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode delegar a terceiros a qualidade. Fazer isso \u00e9 como delegar o prazer de sua namorada a um Ricard\u00e3o. Ou como pensar em ganhar uma corrida de motocicletas apenas tendo aprendido a pedalar um velotrol. Qualidade \u00e9 algo que voc\u00ea deve ter, ou n\u00e3o ser\u00e1 capaz de reconhecer. Pagar\u00e1 para que lhe forne\u00e7am, mas a sua ignor\u00e2ncia n\u00e3o o ajudar\u00e1 na escolha de quem seja competente. Ent\u00e3o voc\u00ea pagar\u00e1 quem lhe agrade, mas o seu gosto tosco o orientar\u00e1 a escolher o que tamb\u00e9m \u00e9 tosco, pobre e ruim. O revisor pegar\u00e1 o seu dinheiro e lhe dar\u00e1 o livro que voc\u00ea quer, mas voc\u00ea n\u00e3o ter\u00e1 o que sonhou. Porque a qualidade n\u00e3o \u00e9 algo evidente, a qualidade pode ser um detalhe m\u00ednimo:<\/p>\n<blockquote><p>\n  Por exemplo&#8230; se eu escrevo errado, n\u00e3o quer dizer que eu n\u00e3o saiba manter a coer\u00eancia&#8230; s\u00f3 quer dizer que n\u00e3o me detenho em detalhes&#8230;\n<\/p><\/blockquote>\n<p>A literatura \u00e9 feita de detalhes. A grosso modo, qualquer capiau consegue contar uma hist\u00f3ria. Junte uma dezena de pessoas em torno de uma fogueira de acampamento e sair\u00e3o dez hist\u00f3rias divertidas. Mas uma delas ser\u00e1 a melhor, tirar\u00e1 o sono dos presentes, ser\u00e1 levada de lembran\u00e7a por eles por uma vida inteira. Essa \u00e9 a hist\u00f3ria que tem os melhores detalhes. \u00c9 aquela hist\u00f3ria que fala de um tipo espec\u00edfico de pio de p\u00e1ssaro, de um modo peculiar com que o vento sopra, de um estalo diferente no tronco de uma \u00e1rvore. Ent\u00e3o sopra o vento, pia um p\u00e1ssaro, estala um galho e a hist\u00f3ria ganha vida. E pela vida inteira, nem vento, nem p\u00e1ssaro e nem galho deixar\u00e3o de evocar aquela fogueira.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, queridos, n\u00e3o permitam que a qualidade deixe de ser parte de sua ess\u00eancia e se transforme em algo pass\u00edvel de comprar ou alugar externamente. Porque quando ela se torna um pensamento posterior, ela tamb\u00e9m se torna algo opcional.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alguns cr\u00edticos de arte costumam detectar a decad\u00eancia da arte helen\u00edstico-romana (e por conseguinte da civiliza\u00e7\u00e3o mediterr\u00e2nea antiga) justamente no momento em que acontece a separa\u00e7\u00e3o entre o a constru\u00e7\u00e3o e o ornamento. Pois a\u00ed, a arte deixou de ser vista como uma express\u00e3o para se tornar um opcional. O pragmatismo acabou triunfando sobre a beleza, favorecendo escolhas menos est\u00e9ticas para favorecer maior funcionalidade. O resultado, a longo prazo, \u00e9 o fim da bela arquitetura, substitu\u00edda pela arquitetura grandiosa e resistente, n\u00e3o necessariamente bela. 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