{"id":158,"date":"2012-03-31T09:00:00","date_gmt":"2012-03-31T12:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=158"},"modified":"2017-11-02T14:09:00","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:00","slug":"sobre-preconceito-linguistico-parte-3-de-3","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2012\/03\/sobre-preconceito-linguistico-parte-3-de-3\/","title":{"rendered":"Sobre Preconceito Lingu\u00edstico \u2014 Parte 3 de 3"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 dif\u00edcil compreender as raz\u00f5es pelas quais tantas pessoas rejeitam de forma t\u00e3o r\u00edspida um ensino progressista do portugu\u00eas, baseado nas descobertas da Lingu\u00edstica e da Pedagogia. Certa\u00admente as raz\u00f5es disto envolvem ideologia, pois um ensino que n\u00e3o discrimine os falares populares amea\u00e7a uma estrutura de humilha\u00e7\u00e3o das classes oprimidas. Ent\u00e3o, por se oporem \u00e0 inclus\u00e3o social e ao progresso do ensino, erguem bandeira de guerra contra qualquer ind\u00edcio de que se est\u00e1 buscando uma abordagem n\u00e3o Preconceituosa do fen\u00f4meno lingu\u00edstico.<\/p>\n<p>O caso recente do livro de portugu\u00eas que ensinava &#8220;n\u00f3s pega o peixe&#8221; foi um exemplo emblem\u00e1tico de como a ideologia e o preconceito deram as m\u00e3os para desqualificar uma obra que, com todos os seus defeitos, tinha o m\u00e9rito de seguir o que \u00e9 consenso no mundo cient\u00edfico em rela\u00e7\u00e3o ao ensino de l\u00ednguas.<\/p>\n<p>As vozes que se ergueram, por\u00e9m, foram todas de <em>leigos.<\/em> Ningu\u00e9m remotamente dotado de alguma forma\u00e7\u00e3o na \u00e1rea manifestou-se. As vozes ouvidas foram, em primeiro lugar, de jornalistas &#8212; que aprendem a escrever segundo \u00abmanuais de reda\u00e7\u00e3o\u00bb impositivos e s\u00e3o ensinados por fonoaudi\u00f3logas a falar com uma pron\u00fancia artificial, que busca ser neutra mas emula a da Zona Sul do Rio de Janeiro e os melhores quarteir\u00f5es da Paulic\u00e9ia. Muitos blogueiros se manifestaram, em geral pessoas das \u00e1reas de Exatas e Biol\u00f3gicas, que entendem muito de planta, de bicho e de n\u00fameros, mas n\u00e3o de intera\u00e7\u00f5es entre pessoas, ou pessoas educadas em col\u00e9gios rigorosos, em geral mantidos por entidades religiosas. Gente do tipo<br \/>\nque acha que o pessoal de Humanas \u00e9 um bando de maconheiros que se formou paquerando a professora, lendo o &#8220;Manifesto Comunista&#8221; e beijando a bunda de um bode nas sextas-feiras. Nenhuma destas pessoas parou para analisar seria\u00admente o livro citado, muito menos para tentar entender o que \u00e9 Lingu\u00edstica. Lingu\u00edstica \u00e9 uma dessas ci\u00eancias &#8220;esquerdistas&#8221;, n\u00e3o \u00e9 mesmo?<\/p>\n<p>Mas a pedagogia moderna prop\u00f5e ensinar um &#8220;vale tudo&#8221; lingu\u00edstico?<\/p>\n<p>\u00d3bvio que n\u00e3o. Seria uma insanidade derrubar a ideia de uma l\u00edngua padr\u00e3o. O fim do ensino desta \u00e9 algo que normalmente s\u00f3 ocorre com o fim de uma civiliza\u00e7\u00e3o, quando o estado falido n\u00e3o \u00e9 mais capaz de difundir sua cultura. Foi o que aconteceu com o Imp\u00e9rio Romano, levando os dialetos regionais a se dividirem em protol\u00ednguas, os \u00abromances\u00bb, e dando origem \u00e0s dez l\u00ednguas nacionais neolatinas: Portugu\u00eas, espanhol, catal\u00e3o, galego, franc\u00eas, proven\u00e7al, italiano, d\u00e1lmata (hoje extinto), romanche e romeno. N\u00e3o se quer que num futuro pr\u00f3ximo o Brasil esteja dividido em dezenas de regi\u00f5es independentes, cada qual com sua l\u00edngua neo-portuguesa.<\/p>\n<p>Tudo o que a Lingu\u00edstica procura ensinar aos professores de portugu\u00eas (mas uma minoria deles est\u00e1 disposta a aceitar isso, ou \u00e9 capaz de aprender isso) \u00e9 que a situa\u00e7\u00e3o da l\u00edngua padr\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos falares populares requer uma abordagem diferente da que vem sendo adotada em nossas escolas. Especialmente em pa\u00edses como o Brasil, nos quais a diverg\u00eancia entre a l\u00edngua culta e a coloquial j\u00e1<br \/>\nse tornou t\u00e3o grande que podemos afirmar que existe, ou est\u00e1 pr\u00f3xima de existir, uma situa\u00e7\u00e3o de &#8220;diglossia&#8221; &#8212; a coexist\u00eancia de duas l\u00ednguas.<\/p>\n<p>H\u00e1 v\u00e1rios tipos de diglossia, mas o que nos interessa \u00e9 aquela situa\u00e7\u00e3o na qual a norma padr\u00e3o \u00e9 conservadora em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o do falar do povo. A do portugu\u00eas \u00e9 intencionalmente arcaizante, tendo sido definida no s\u00e9culo XVIII, sob o paradigma da imita\u00e7\u00e3o do latim e do grego.<sup id=\"fnref:1\"><a href=\"#fn:1\" rel=\"footnote\">1<\/a><\/sup> Ao longo do s\u00e9culo XX, come\u00e7ando com a reforma ortogr\u00e1fica portuguesa de 1910 (\u00e0 qual o Brasil s\u00f3 come\u00e7ou a aderir em 1946), livramo-nos do ran\u00e7o desta ortografia, mas n\u00e3o do ran\u00e7o da gram\u00e1tica criada pelos mesmos perpetradores da ortografia etimol\u00f3gica. Isto faz com que a l\u00edngua que se pretende ensinar na escola seja diferente da l\u00edngua que as pessoas est\u00e3o acostumadas a empregar no seu dia a dia. Este tipo de situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 \u00fanico no portugu\u00eas. Isto j\u00e1 aconteceu antes em outros pa\u00edses e os resultados foram sempre os mesmos: \u00e9 in\u00fatil opor-se \u00e0 l\u00edngua do povo. Vamos analisar quatro casos bem emblem\u00e1ticos deste tipo de diglossia.<\/p>\n<p>Na Gr\u00e9cia, at\u00e9 bem recentemente, a l\u00edngua ensinada nas escolas era praticamente id\u00eantica ao grego comum antigo, o <em>koin\u00e9 hellenik\u00f3s<\/em>. Esta l\u00edngua, o <em>katharevousa<\/em> (&#8220;l\u00edngua purificada&#8221;) era muito diferente do grego falado, a ponto de as pessoas terem que estud\u00e1-lo como se fosse outra l\u00edngua. Esta situa\u00e7\u00e3o se manteve gra\u00e7as ao conservadorismo do Estado, muito mais voltado para a heran\u00e7a hist\u00f3rica do que para as necessidades presentes do pa\u00eds. Com a democratiza\u00e7\u00e3o, esta situa\u00e7\u00e3o foi resolvida e os gregos passaram a estudar a norma padr\u00e3o baseada no grego moderno.<\/p>\n<p>Na Alemanha e na It\u00e1lia, a exist\u00eancia de uma grande variedade de falares regionais, alguns muito diferentes entre si, resultado da unifica\u00e7\u00e3o tardia dos dois pa\u00edses. Em ambos os casos, por\u00e9m, havia uma \u00abnorma padr\u00e3o\u00bb anterior. Para o alem\u00e3o foi o dialeto tur\u00edngio, usado por Lutero para traduzir a B\u00edblia. Posteriormente esta norma, at\u00e9 ent\u00e3o usada somente pelos escritores e, de forma limitada, pelo teatro, foi difundida, com a pron\u00fancia prussiana, como a l\u00edngua nacional da Alemanha unificada. O italiano padr\u00e3o foi o dialeto toscano, utilizado por Dante Aligheri para a famosa &#8220;Divina Com\u00e9dia&#8221;. Em ambos os casos o padr\u00e3o \u00e9 conservador, embora o italiano moderno seja mais conservador, em rela\u00e7\u00e3o ao italiano medieval, que o alem\u00e3o. Italianos de hoje n\u00e3o t\u00eam grandes problemas para ler Dante, caso dominem o italiano padr\u00e3o, mas t\u00eam problema para conseguir domin\u00e1-lo porque, para os habitantes de<br \/>\nregi\u00f5es mais afastadas, especialmente no sul do pa\u00eds, trata-se quase de uma l\u00edngua estrangeira. Os alem\u00e3es permitiram que sua l\u00edngua padr\u00e3o evolu\u00edsse um pouco mais, especialmente ap\u00f3s a II Guerra Mundial, quando os movimentos migrat\u00f3rios apagaram um pouco as diferen\u00e7as dialetais milenares.<\/p>\n<p>Na R\u00fassia at\u00e9 a \u00e9poca da Revolu\u00e7\u00e3o Bolchevique a norma padr\u00e3o era extremamente arcaizante, influenciada por uma l\u00edngua falada mil anos antes (o &#8220;eslavo eclesi\u00e1stico&#8221;, tamb\u00e9m conhecido como &#8220;velho b\u00falgaro&#8221; ou<br \/>\n&#8220;eslav\u00f4nico&#8221;). O alfabeto tinha letras desnecess\u00e1rias, algumas s\u00f3 usadas para escrever palavras de origem grega, por exemplo. Quando os comunistas assumiram o poder, uma das primeiras coisas que fizeram<br \/>\nfoi simplificar a norma padr\u00e3o, reduzindo o alfabeto a 36 letras (eram 40) e mudando a ortografia de milhares de palavras por causa da elimina\u00e7\u00e3o de duas letras para vogais (que j\u00e1 n\u00e3o eram pronunciadas). Sob o dom\u00ednio sovi\u00e9tico a l\u00edngua padr\u00e3o se aproximou do uso comum, eliminando arca\u00edsmos. A reforma lingu\u00edstica do russo talvez seja o grande motivo pelo qual os conservadores se op\u00f5em \u00e0 moderniza\u00e7\u00e3o da norma culta. Esquecem-se de que movimentos semelhantes ocorreram sob regimes de direita, como a \u00c1frica do Sul dos tempos do <em>apartheid<\/em>, quando o holand\u00eas que se falava no pa\u00eds foi al\u00e7ado \u00e0 posi\u00e7\u00e3o de l\u00edngua independente, o afric\u00e2ner.<sup id=\"fnref:2\"><a href=\"#fn:2\" rel=\"footnote\">2<\/a><\/sup><\/p>\n<p>Nos quatro casos apresentados a situa\u00e7\u00e3o de diglossia era resultante de fatores diferentes. No caso do grego, houve o desenvolvimento intencional de uma norma arcaizante, algo parecido com o do portugu\u00eas. Nos casos de Alemanha e It\u00e1lia a diglossia resultou da forma\u00e7\u00e3o tardia da identidade nacional a partir de povos que falavam dialetos muito diferentes. Alguns dialetos \u00abitalianos\u00bb, por exemplo, est\u00e3o mais relacionados com os falares do sul da Fran\u00e7a (occit\u00e2nico, proven\u00e7al) do que com o italiano padr\u00e3o, enquanto outros, como o sardo, s\u00e3o de fato l\u00ednguas independentes. No caso do Russo a diglossia resultava da cont\u00ednua influ\u00eancia de um padr\u00e3o conservador, o eslavo eclesi\u00e1stico, travando a  atualiza\u00e7\u00e3o da norma culta, o que tamb\u00e9m tem certas semelhan\u00e7as com o caso da l\u00edngua portuguesa.<\/p>\n<p>Quando se tem uma situa\u00e7\u00e3o de diglossia, como nos casos apresentados, os estudantes precisam passar, no aprendizado da norma padr\u00e3o, por um processo de aprendizagem que tem semelhan\u00e7as com o do ensino de<br \/>\nl\u00ednguas estrangeiras. Em uma situa\u00e7\u00e3o de diglossia, a norma culta \u00e9, para fins pr\u00e1ticos, uma outra l\u00edngua. O &#8220;problema&#8221; da aprendizagem de portugu\u00eas no Brasil, denunciado por gram\u00e1ticos &#8220;pop&#8221; &#8212; como Pasquale Cipro Neto, S\u00e9rgio Nogueira Duarte e Luiz Ant\u00f4nio Sacconi &#8212; reflete apenas esta situa\u00e7\u00e3o: a l\u00edngua que o estudante fala \u00e9 t\u00e3o divergente da norma padr\u00e3o que n\u00e3o podemos simplesmente assumir a &#8220;L\u00edngua Portuguesa&#8221; enquanto disciplina como sendo &#8220;sua&#8221; l\u00edngua, tanto quanto o ingl\u00eas ou o espanhol n\u00e3o o s\u00e3o, com a \u00fanica diferen\u00e7a que o contato com a l\u00edngua portuguesa \u00e9 mais frequente do que com estas.<\/p>\n<p>Ignorar esta situa\u00e7\u00e3o \u00e9 ignorar a verdadeira causa do problema. Ignorar a verdadeira causa do problema significa que todas as estrat\u00e9gias propostas para solucion\u00e1-lo estar\u00e3o erradas, salvo um lance de sorte improv\u00e1vel. \u00c9 como trocar pe\u00e7as aleat\u00f3rias de um carro defeituoso esperando que ele funcione em algum momento. Se de fato ele vier a funcionar, ser\u00e1 somente por sorte e depois de muito tempo. De outra forma, sabendo qual pe\u00e7a trocar o carro funcionar\u00e1 muito mais r\u00e1pido e sem o desperd\u00edcio de tantas pe\u00e7as.<\/p>\n<p>O que a Lingu\u00edstica prop\u00f5e \u00e9 a abordagem cient\u00edfica do problema, para saber &#8220;qual pe\u00e7a trocar&#8221;. As rea\u00e7\u00f5es que aconteceram aos recentes casos de livros did\u00e1ticos &#8220;que ensinam o erro&#8221; foram hist\u00e9ricas, injustificadas e obscurantistas. Foram rea\u00e7\u00f5es de leigos, de pessoas que n\u00e3o sabem do que est\u00e3o falando e que se acham no direito de desqualificar uma ci\u00eancia que n\u00e3o conhecem, n\u00e3o entendem ou que rejeitam por raz\u00f5es ideol\u00f3gicas ou por mero preconceito.<\/p>\n<p>A rejei\u00e7\u00e3o da reforma do ensino da l\u00edngua portuguesa em nossas escolas \u00e9 muito parecida com a rejei\u00e7\u00e3o do ensino da Teoria da Evolu\u00e7\u00e3o pelos criacionistas. Em ambos os casos temos pessoas mal informadas ou mal intencionadas, que difundem concep\u00e7\u00f5es retr\u00f3gradas, pseudocient\u00edficas, reacion\u00e1rias,  preconceituosas e incorretas, que fazem isso porque est\u00e3o condicionadas a rejeitar este conhecimento cient\u00edfico espec\u00edfico por causa ideologia sob a qual foram criadas. O criacionista rejeita o ensino da evolu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica porque ela lhe causa inseguran\u00e7a quanto \u00e0 validade do texto sagrado de sua<br \/>\nreligi\u00e3o. O &#8220;gramatiquista&#8221; rejeita o ensino moderno do portugu\u00eas porque ele pr\u00f3prio se v\u00ea detentor de um conhecimento sobre a l\u00edngua, que ser\u00e1 obsoleto com a reforma. Em ambos os casos se recorre \u00e0 &#8220;culpa por associa\u00e7\u00e3o&#8221; para desqualificar aquilo que se rejeita por preconceito. O criacionista associa a TE \u00e0s crendices eug\u00eanicas do in\u00edcio do s\u00e9culo XX, incluindo o nazismo. O &#8220;gramatiquista&#8221; associa reformas ortogr\u00e1ficas ou mudan\u00e7as na l\u00edngua padr\u00e3o ao &#8220;comunismo&#8221;. No fundo, ambos sentam-se em cima de um grande rabo, que n\u00e3o admitem ter: sua rejei\u00e7\u00e3o ao conhecimento se deve a uma confiss\u00e3o impl\u00edcita da pr\u00f3pria impot\u00eancia. O criacionista depende da validade plena de seu texto sagrado. O &#8220;gramatiquista&#8221;, tendo sofrido tanto para aprender o que &#8220;sabe&#8221; de portugu\u00eas, teme ter de aprender de novo &#8212; e pior: teme que as novas gera\u00e7\u00f5es possam aprender sem sofrer. Assim como o veterano n\u00e3o quer abolir o trote sobre o calouro, o &#8220;gramatiquista&#8221; n\u00e3o quer abolir o sofrimento do aprendizado do portugu\u00eas.<\/p>\n<p>Mas a grande pergunta que precisa ser respondida para que possamos fechar esta humilde s\u00e9rie de reflex\u00f5es sobre o tema &#8220;preconceito lingu\u00edstico&#8221; \u00e9: *de que forma reconhecer uma situa\u00e7\u00e3o de diglossia resolve o problema da falta de dom\u00ednio da l\u00edngua culta pelos nossos estudantes?<\/p>\n<p>Na raiz desta d\u00favida h\u00e1 o medo de que o reconhecimento da diglossia seja uma esp\u00e9cie de Caixa de Pandora, que levar\u00e1 \u00e0 degenera\u00e7\u00e3o da norma culta, ao esquecimento da literatura e a uma s\u00e9rie de males<br \/>\nterr\u00edveis e inomin\u00e1veis. Como vimos nos exemplos da Gr\u00e9cia e da R\u00fassia, as atualiza\u00e7\u00f5es da norma culta n\u00e3o produziram nenhum efeito negativo. No caso da l\u00edngua grega, os estudantes seguem incapazes de ler Homero diretamente, tal qual j\u00e1 n\u00e3o conseguiam antes. Mas hoje conseguem ler e escrever melhor a l\u00edngua que usam no dia a dia. Para quem queira ler Homero, as universidades oferecem edi\u00e7\u00f5es cr\u00edticas contendo o texto original e uma vers\u00e3o modernizada. No caso do russo, os livros apenas tiveram que ser reimpressos na nova ortografia e os russos n\u00e3o leem menos hoje do que liam nos tempos do czar.<\/p>\n<p>Ambos os povos sa\u00edram de uma situa\u00e7\u00e3o que era de fato diglossia (caso grego) ou caminhava para tornar-se (caso russo) e a literatura de ambas as l\u00ednguas s\u00f3 teve a ganhar com isso. N\u00e3o houve degenera\u00e7\u00e3o da norma culta porque a l\u00edngua j\u00e1 havia de fato mudado, s\u00f3 faltava aceitar que isso ocorrera. N\u00e3o houve o esquecimento da literatura, porque o que faz os jovens lerem n\u00e3o \u00e9 o arca\u00edsmo da norma padr\u00e3o, mas uma tradi\u00e7\u00e3o (inclusive familiar) de valoriza\u00e7\u00e3o da leitura &#8212; que existia tanto na Gr\u00e9cia quanto na R\u00fassia, mas n\u00e3o se consolidou ainda entre n\u00f3s. No entanto, a solu\u00e7\u00e3o da diglossia pode n\u00e3o ser desej\u00e1vel nos casos, <em>como o nosso<\/em>, em que a l\u00edngua sofreu e est\u00e1 sofrendo um processo de dialeta\u00e7\u00e3o<br \/>\nimportante. Em tal situa\u00e7\u00e3o, an\u00e1loga \u00e0s de It\u00e1lia e Alemanha, ensinar uma norma culta \u00fatil para a comunica\u00e7\u00e3o entre as diversas regi\u00f5es e estratos sociais \u00e9 uma forma de manter a unidade<br \/>\nnacional.<\/p>\n<p>O que vem sendo proposto j\u00e1 h\u00e1 alguns anos pelos autores antenados com a Lingu\u00edstica, para grande ira dos gram\u00e1ticos normativos carran\u00e7as, n\u00e3o \u00e9 a substitui\u00e7\u00e3o da norma culta por alguma outra forma lingu\u00edstica, mas, sim, a ado\u00e7\u00e3o de uma estrat\u00e9gia de ensino do portugu\u00eas empregando  t\u00e9cnicas normalmente empregadas no ensino de l\u00ednguas estrangeiras \u2014 entre elas a separa\u00e7\u00e3o conceitual entre a l\u00edngua que o aluno fala e aquela que a escola pretende ensinar, conscientizando desde cedo o estudante da dicotomia existente entre o universo coloquial e o universo da l\u00edngua formal padr\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>Faz-se isto por v\u00e1rias raz\u00f5es. Primeiro porque se \u00e9 poss\u00edvel ensinar ingl\u00eas ao estudante brasileiro, tem de ser poss\u00edvel ensinar-lhe portugu\u00eas, que \u00e9 uma l\u00edngua muito mais parecida com o que ele emprega no seu dia a dia. Segundo porque \u00e9 uma quest\u00e3o de respeito: o aluno n\u00e3o \u00e9 um animal est\u00fapido que tem de &#8220;aprender a falar&#8221; na escola, ele \u00e9 um indiv\u00edduo que fala o dialeto peculiar \u00e0 sua regi\u00e3o, na variante correspondente aos grupos sociais que frequenta. Terceiro porque reconhecer a realidade tal como \u00e9<br \/>\nser\u00e1 o primeiro passo para buscar influenci\u00e1-la no sentido desejado.<\/p>\n<p>Tendo em vista estes objetivos, n\u00e3o \u00e9 nenhum absurdo que um livro did\u00e1tico contenha a frase \u00abn\u00f3s pega o peixe\u00bb (ali\u00e1s, na pron\u00fancia de meu dialeto \u00e9 \u00abn\u00f3is p\u00e9ga o p\u00eaxe\u00bb), se ela for usada para ilustrar a diferen\u00e7a entre o coloquial e o formal. Absurdo \u00e9 escrever um livro did\u00e1tico que fica de costas para a<br \/>\nrealidade do aluno e seguir culpando-o pela pr\u00f3pria dificuldade de aprender algo que lhe \u00e9 ensinado errado. Absurdo \u00e9 n\u00e3o ter a compet\u00eancia de ensinar e dizer que a culpa \u00e9 do portugu\u00eas, por ser uma l\u00edngua dif\u00edcil. Dif\u00edcil \u00e9 abrir a cabe\u00e7a de gente preconceituosa, que se acha detentora de alguma migalha de saber.<\/p>\n<div class=\"footnotes\">\n<hr \/>\n<ol>\n<li id=\"fn:1\">\n<p>Ent\u00e3o se desenvolveu a &#8220;ortografia etimol\u00f3gica&#8221; (na verdade pseudoetimol\u00f3gica), em que as palavras eram grafadas de forma a lembrar sua origem, \u00e0s vezes em desacordo com a pron\u00fancia: <em>pharmacia, machina, mysterio, hybrido, orthographia, sceptico, asthma, physico, Hespanha, bahia, propheta, photographia, diccionario, eschola<\/em> e <em>choro musical<\/em>.&#160;<a href=\"#fnref:1\" rev=\"footnote\">&#8617;<\/a><\/p>\n<\/li>\n<li id=\"fn:2\">\n<p>Apesar da ideologia racista predominante na \u00c1frica do Sul de ent\u00e3o, o afric\u00e2ner \u00e9 um idioma de base fon\u00e9tica e l\u00e9xica holandesa, com grande influ\u00eancia inglesa na gram\u00e1tica e significativa  contribui\u00e7\u00e3o de vocabul\u00e1rio de l\u00ednguas africanas.&#160;<a href=\"#fnref:2\" rev=\"footnote\">&#8617;<\/a><\/p>\n<\/li>\n<\/ol>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 dif\u00edcil compreender as raz\u00f5es pelas quais tantas pessoas rejeitam de forma t\u00e3o r\u00edspida um ensino progressista do portugu\u00eas, baseado nas descobertas da Lingu\u00edstica e da Pedagogia. Certa\u00admente as raz\u00f5es disto envolvem ideologia, pois um ensino que n\u00e3o discrimine os falares populares amea\u00e7a uma estrutura de humilha\u00e7\u00e3o das classes oprimidas. Ent\u00e3o, por se oporem \u00e0 inclus\u00e3o social e ao progresso do ensino, erguem bandeira de guerra contra qualquer ind\u00edcio de que se est\u00e1 buscando uma abordagem n\u00e3o Preconceituosa do fen\u00f4meno lingu\u00edstico. O caso recente do [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[181],"tags":[77,72,74,105,62],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/158"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=158"}],"version-history":[{"count":5,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/158\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5283,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/158\/revisions\/5283"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=158"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=158"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=158"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}