{"id":159,"date":"2012-03-24T23:16:00","date_gmt":"2012-03-25T02:16:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=159"},"modified":"2017-11-02T14:09:00","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:00","slug":"sobre-preconceito-linguistico-parte-2-de-3","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2012\/03\/sobre-preconceito-linguistico-parte-2-de-3\/","title":{"rendered":"Sobre Preconceito Lingu\u00edstico \u2014 Parte 2 de 3"},"content":{"rendered":"<p>Na semana passada comecei a falar sobre o preconceito lingu\u00edstico que grassa em nosso pa\u00eds de uma forma particularmente intensa. Lembrei que a Lingu\u00edstica \u00e9 uma ci\u00eancia estabelecida solidamente h\u00e1 mais de duzentos anos, com copiosa produ\u00e7\u00e3o de conhecimento, mas que persiste uma profunda ignor\u00e2ncia sobre seus aspectos mais b\u00e1sicos, ignor\u00e2ncia alimentada pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o, que somente d\u00e3o espa\u00e7o ao discurso retr\u00f3grado e pseudocient\u00edfico daqueles que rejeitam o conhecimento cient\u00edfico por raz\u00f5es ideol\u00f3gicas. Perguntei tamb\u00e9m por que raz\u00e3o pessoas que s\u00e3o c\u00e9ticas de v\u00e1rias outras formas, e t\u00eam tanto a criticar na postura, por exemplo, dos criacionistas, n\u00e3o percebem que sua posi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Lingu\u00edstica \u00e9 id\u00eantica \u00e0 daqueles em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Biologia: rejei\u00e7\u00e3o irrefletida e <em>a priori<\/em> motivada por preconceitos e raz\u00f5es de foro \u00edntimo.<\/p>\n<blockquote>\n<p>A l\u00edngua \u00e9 um enorme <em>iceberg<\/em> flutuando no mar do tempo<br \/>\n  &#8212; Marcos Bagno<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Hoje pretendo explicar melhor em que consiste o famoso &#8220;preconceito lingu\u00edstico&#8221; que \u00e9 t\u00e3o ou mais negado que o preconceito racial.<sup id=\"fnref:1\"><a href=\"#fn:1\" rel=\"footnote\">1<\/a><\/sup> Para isso tomarei como guia a obra &#8220;Preconceito Lingu\u00edstico: O Que \u00c9, Como Se Faz&#8221;, de Marcos Bagno. Sei que alguns leitores torcer\u00e3o o nariz, pois o autor tem uma reputa\u00e7\u00e3o de &#8220;comunista&#8221; entre o baixo clero da direita hidrof\u00f3bica que cola esta acusa\u00e7\u00e3o coringa na testa de quem a incomoda, para n\u00e3o ter que discutir suas ideias.<sup id=\"fnref:2\"><a href=\"#fn:2\" rel=\"footnote\">2<\/a><\/sup> Mas eu reajo com a mesma resposta que os debatedores &#8220;c\u00e9ticos&#8221; mais afoitos costumam dar aos criacionistas mais folcl\u00f3ricos quando v\u00eam com hist\u00f3rias de &#8220;hidroplacas&#8221; e &#8220;baramins&#8221; em alguma discuss\u00e3o sobre Biologia ou Geologia: &#8220;V\u00e3o estudar para pelo menos entenderem onde est\u00e3o errando.&#8221;<\/p>\n<p>O preconceito lingu\u00edstico \u00e9 ligado \u00e0 confus\u00e3o criada entre a l\u00edngua em si e a gram\u00e1tica normativa. Mas uma receita de bolo n\u00e3o \u00e9 um bolo, um molde de roupa n\u00e3o \u00e9 uma roupa e uma gram\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 uma l\u00edngua. Esta confus\u00e3o, alimentada pela m\u00eddia e por uma s\u00e9rie de mitos que fazem parte da autoimagem (muito negativa) que o brasileiro tem de si, resulta em uma percep\u00e7\u00e3o distorcida de nossa cultura e nosso papel no seio dela. Os mitos a que Bagno se refere s\u00e3o os seguintes:<\/p>\n<dl>\n<dt>A l\u00edngua portuguesa falada no Brasil apresenta uma unidade surpreendente<\/dt>\n<dd>Este mito foi o primeiro a ser contestado pela ci\u00eancia, existindo pesquisas etnogr\u00e1ficas e lingu\u00edsticas datadas desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XX que comprovaram que: a) existem dialetos regionais no Brasil, b) os dialetos regionais se diferenciaram bastante cedo em nossa hist\u00f3ria, com base nas origens diversas dos imigrantes que se estabeleceram nas diferentes regi\u00f5es e c) apesar da for\u00e7a homogeneizante da televis\u00e3o e do r\u00e1dio, tais dialetos seguem se diferenciando.<\/dd>\n<\/dl>\n<p>\u00c9 um mito prejudicial porque, ao n\u00e3o reconhecer a variedade regional do portugu\u00eas falado, oferece um diagn\u00f3stico incorreto da situa\u00e7\u00e3o sociolingu\u00edstica dos alunos, criando mais uma dificuldade para trabalhar eficientemente o ensino da l\u00edngua padr\u00e3o. Na cabe\u00e7a dos preconceituosos, reconhecer a exist\u00eancia dos dialetos \u00e9 um &#8220;perigo&#8221; porque legitimaria o &#8220;falar errado&#8221; em detrimento do &#8220;falar certo&#8221; (conforme o entendem). Trata-se de uma concep\u00e7\u00e3o anticient\u00edfica por duas raz\u00f5es: 1) a realidade n\u00e3o precisa ser &#8220;reconhecida&#8221; para existir e 2) o diagn\u00f3stico incorreto do problema cria novos problemas em vez de preveni-los ou solucionar os existentes.<\/p>\n<dl>\n<dt>Brasileiro n\u00e3o sabe falar portugu\u00eas.<\/dt>\n<dd>A ideia de que n\u00e3o sabemos falar a nossa pr\u00f3pria l\u00edngua geralmente vem associada \u00e0 de que em Portugal, sim, se fala direito. N\u00e3o \u00e9 preciso mencionar que essa concep\u00e7\u00e3o \u00e9 fruto de uma mentalidade colonizada, que imagina que um povo &#8220;mesti\u00e7o&#8221; ou, dito de uma forma menos evidentemente racista, &#8220;tropical&#8221;, n\u00e3o seria incapaz de falar direito nem a &#8220;sua&#8221; pr\u00f3pria l\u00edngua.<sup id=\"fnref:3\"><a href=\"#fn:3\" rel=\"footnote\">3<\/a><\/sup> Obviamente ningu\u00e9m diz abertamente a raz\u00e3o pela qual o brasileiro &#8220;n\u00e3o sabe falar portugu\u00eas&#8221; porque envolveria a sugest\u00e3o de que o brasileiro \u00e9 uma esp\u00e9cie de b\u00edpede implume que s\u00f3 apreende a falar se for amestrado na escola. Muitas das pessoas que t\u00eam tal concep\u00e7\u00e3o nunca visitaram outros pa\u00edses para ver como seus habitantes tamb\u00e9m &#8220;n\u00e3o sabem falar&#8221; suas respectivas l\u00ednguas,<sup id=\"fnref:4\"><a href=\"#fn:4\" rel=\"footnote\">4<\/a><\/sup> outros aderem ao preconceito para vender livros.<\/dd>\n<\/dl>\n<p>Este preconceito n\u00e3o resiste \u00e0 compara\u00e7\u00e3o com <em>nenhum<\/em> pa\u00eds de mais de um milh\u00e3o de habitantes: italianos de diversas regi\u00f5es quase n\u00e3o se entendem em dialeto, franceses tampouco, os falares alem\u00e3es chegam a ser agrupados em duas l\u00ednguas diferentes (alto e baixo alem\u00e3o). O \u00e1rabe da Ar\u00e1bia Saudita \u00e9 inintelig\u00edvel por um eg\u00edpcio, que, por sua vez, quase nada entende da fala de um marroquino, que, por sua vez, sofre para entender um s\u00edrio. E nem se fale da salada de dialetos que cruza os B\u00e1lc\u00e3s, da \u00cdstria \u00e0 costa do Mar Negro. Por que, ent\u00e3o, diferentemente da maioria dos pa\u00edses do mundo, o Brasil teria uma &#8220;uniformidade surpreendente&#8221; de sua l\u00edngua? Se existe tal uniformidade, como tanta gente &#8220;n\u00e3o sabe falar&#8221;?<\/p>\n<p>Em todos esses pa\u00edses, a solu\u00e7\u00e3o para o problema da comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 a difus\u00e3o de uma l\u00edngua padr\u00e3o, a norma culta, geralmente baseada em um dialeto de prest\u00edgio. Em nenhum desses pa\u00edses se aceita que idiotas apare\u00e7am na televis\u00e3o dizendo que o povo n\u00e3o sabe falar. Ai de quem o diga, pois as pessoas consideram os dialetos parte da sua identidade e n\u00e3o aprendem a l\u00edngua padr\u00e3o porque &#8220;n\u00e3o sabem falar&#8221; direito, mas sim porque desejam integrar-se ao conjunto da na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<dl>\n<dt>Portugu\u00eas \u00e9 muito dif\u00edcil.<\/dt>\n<dd>&#8220;A desculpa do pregui\u00e7oso \u00e9 a dificuldade&#8221;, dizia o ditado popular. A dificuldade pode ser uma ilus\u00e3o, causada pela abordagem incorreta do problema. Quem tentar carregar \u00e1gua na peneira ter\u00e1 muito mais dificuldade do que quem usar uma caneca.<\/dd>\n<\/dl>\n<p>A ideia de que o portugu\u00eas \u00e9 muito dif\u00edcil resulta do fato de o ensino de portugu\u00eas no Brasil partir de um diagn\u00f3stico errado da situa\u00e7\u00e3o do aluno, de uma apresenta\u00e7\u00e3o incorreta da mat\u00e9ria e da apresen\u00adta\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria errada. Imagina-se que o aluno, mesmo &#8220;n\u00e3o sabendo falar&#8221;, fala uma l\u00edngua que tem &#8220;surpreendente unidade&#8221;. Esta l\u00edngua lhe ser\u00e1 ent\u00e3o ensinada atrav\u00e9s de um sistema educa\u00adcional prec\u00e1rio, por profissionais mal treinados e mal remunerados. Por fim, a l\u00edngua que se ten\u00adtar\u00e1 ensinar \u00e9 uma vers\u00e3o arcaizante, desconectada da realidade do aluno. Ent\u00e3o, quando os alunos falham em massa no aprendizado, a culpa \u00e9 da l\u00edngua. Da pobre l\u00edngua, \u00fanica que n\u00e3o pode se defender. Gram\u00e1ticos e pedagogos discursam bonito. Pol\u00edticos, que fazem escolas e definem curr\u00edculos, podem defender-se. A l\u00edngua, por\u00e9m, \u00e9 um ser abstrato e leva a culpa calada.<\/p>\n<p>Nota-se o quanto esse mito est\u00e1 equivocado quando analisamos a percep\u00e7\u00e3o que os outros povos t\u00eam de nossa l\u00edngua. Numerosos levantamentos feitos internacionalmente com estudantes de diversas partes do mundo colocam em &#8220;2&#8221; o n\u00edvel de dificuldade do portugu\u00eas, numa escala de &#8220;1&#8221; a &#8220;5&#8221;. No n\u00edvel &#8220;1&#8221; ficam as l\u00ednguas de gram\u00e1tica mais simples e regular (como esperanto e indon\u00e9sio) e no n\u00edvel &#8220;5&#8221; l\u00ednguas como coreano, mandarim, japon\u00eas, canton\u00eas, s\u00e2nscrito e \u00e1rabe. Sempre em tais levantamentos o portugu\u00eas \u00e9 colocado no mesmo n\u00edvel de dificuldade do ingl\u00eas, do espanhol e do italiano, e um n\u00edvel mais f\u00e1cil que franc\u00eas, alem\u00e3o, ou holand\u00eas.<\/p>\n<dl>\n<dt>As pessoas sem instru\u00e7\u00e3o falam tudo errado.<\/dt>\n<dd>Aqui o preconceito fica um pouco mais claro. A falta de instru\u00e7\u00e3o est\u00e1 associada \u00e0 falta de contato com a l\u00edngua propagada atrav\u00e9s do sistema educacional que, obviamente, \u00e9 a l\u00edngua da elite. Existe uma estigmatiza\u00e7\u00e3o do falar das classes populares, n\u00e3o por causa de suas caracter\u00edsticas, mas por serem populares. Todos os &#8220;erros&#8221; do portugu\u00eas coloquial tamb\u00e9m s\u00e3o encontr\u00e1veis em textos de grandes escritores do passado, evidenciando que tais &#8220;erros&#8221; nada mais s\u00e3o do que fen\u00f4menos lingu\u00edsticos que j\u00e1 aconteceram antes e podem acontecer de novo. A troca do &#8220;L&#8221; por &#8220;R&#8221;, por exemplo, considerada a &#8220;marca da besta&#8221; entre os &#8220;erros&#8221; de portugu\u00eas, pode ser lida abundantemente nos poetas portugueses e brasileiros entre os s\u00e9culos XV e XVIII: &#8220;frecha&#8221;, &#8220;pranta&#8221; e &#8220;frauta&#8221; se encontram aos montes em Cam\u00f5es, Bocage, S\u00e1 de Miranda, Greg\u00f3rio de Matos e Guerra e numerosos outros, provando que estas pron\u00fancias eram correntes na \u00e9poca. Tanto isso \u00e9 verdade que se voc\u00ea as digitar no seu programa de edi\u00e7\u00e3o de textos se surpreender\u00e1 ao constatar que elas n\u00e3o s\u00e3o marcadas como erros!<\/dd>\n<\/dl>\n<p>Ora, se \u00e9 v\u00e1lido admitir varia\u00e7\u00f5es como &#8220;flauta\/frauta&#8221;, &#8220;flecha\/frecha&#8221;, &#8220;planta\/pranta&#8221; e outras, por que n\u00e3o admitir &#8220;plano\/prano&#8221;, &#8220;claro\/craro&#8221; e outras? Trata-se do mesmo fen\u00f4meno lingu\u00edstico, operando da mesm\u00edssima forma. A \u00fanica diferen\u00e7a \u00e9 que as palavras do primeiro grupo foram legitimadas pela elite atrav\u00e9s de sua literatura, enquanto as do segundo grupo s\u00e3o estigmatizadas por serem encontradas somente nas variantes populares do portugu\u00eas. Mas os preconceituosos, em vez de imaginar que estamos diante da persist\u00eancia, no seio do povo, de um fen\u00f4meno lingu\u00edstico que existe h\u00e1 s\u00e9culos, prefere pensar que quem fala &#8220;craro&#8221; possui algum tipo de atraso mental. Talvez se os preconceituosos lessem mais, aprenderiam sobre a pr\u00f3pria l\u00edngua e sua hist\u00f3ria, em vez de confiar em preconceitos alimentados pela ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<dl>\n<dt>Onde melhor se fala portugu\u00eas no Brasil \u00e9 o Maranh\u00e3o.<\/dt>\n<dd>Parte do complexo de inferioridade do brasileiro em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua l\u00edngua se baseia em sempre deslocar geograficamente o lugar onde se fala o portugu\u00eas ideal. Muitas pessoas dizem que \u00e9 o Maranh\u00e3o, afinal ele \u00e9 suficientemente remoto. Em Minas Gerais muitos acreditam que os cariocas falam melhor. No Rio de Janeiro existe essa crendice sobre o Maranh\u00e3o, mas tamb\u00e9m sobre o Rio Grande do Sul. Os paulistanos estigmatizam os &#8220;caipiras&#8221; do interior, enquanto reverenciam os ga\u00fachos.<\/dd>\n<\/dl>\n<p>Em geral se acredita que onde se fala ainda o &#8220;tu&#8221; o portugu\u00eas \u00e9 melhor (tanto cariocas quanto ga\u00fachos e maranhenses o empregam ainda, embora raramente conjuguem o verbo de acordo). Esta fixa\u00e7\u00e3o com o pronome da segunda pessoa \u00e9 mais um reflexo da subservi\u00eancia a Portugal, que se manifesta no persistente luto de nossos gram\u00e1ticos pela morte do sistema pronominal cl\u00e1ssico, que ocorreu no Brasil ainda durante o s\u00e9culo XIX, mas ainda hoje n\u00e3o foi assimilada.<\/p>\n<dl>\n<dt>\u00c9 preciso falar como se escreve.<\/dt>\n<dd>Se estiv\u00e9ssemos apenas falando de padronizar a pron\u00fancia da norma culta para facilitar a comunica\u00e7\u00e3o inter-regional, seria aceit\u00e1vel preconizar a pron\u00fancia baseada na ortografia, ainda que de forma limitada. Mas ocorre que nem mesmo norma culta padr\u00e3o segue tal regra. A aboli\u00e7\u00e3o dos acentos diferenciais tornou ainda mais vaga a rela\u00e7\u00e3o entre a letra e a leitura, a ponto de termos pares de palavras que se distinguem pelo timbre, mas t\u00eam a mesma grafia (&#8220;olho&#8221; e &#8220;olho&#8221;, &#8220;molho&#8221; e &#8220;molho&#8221;, &#8220;porto&#8221; e &#8220;porto&#8221;, &#8220;pelo&#8221; e &#8220;pelo&#8221;). Como ent\u00e3o cobrar que um mineiro leia &#8220;m\u00f3\u00ednho&#8221; em vez de &#8220;m\u0169e&#8221; citando que \u00e9 preciso falar como se escreve? Obviamente esta \u00e9 uma desculpa para negar voz aos dialetos regionais e for\u00e7ar a homogeneiza\u00e7\u00e3o a partir de uma norma culta ideal que n\u00e3o \u00e9 falada nem mesmo pelos cariocas e paulistas em cujos dialetos ela supostamente se baseou.<\/dd>\n<\/dl>\n<p>Ocorre que a escrita \u00e9  representa\u00e7\u00e3o da fala, tal como o desenho \u00e9 uma representa\u00e7\u00e3o do objeto. A fun\u00e7\u00e3o da escrita \u00e9 nos lembrar dos elementos que empregamos na fala, tal como o desenho nos relembra o objeto. Subordinar a fala \u00e0 escrita \u00e9 como querer que as coisas reais passem a parecer com os desenhos que s\u00e3o feitos delas. Imagine se um erro de impress\u00e3o faz com que o desenho de uma galinha saia sem crista. Quem sair\u00e1 pelo mundo amputando cristas das penosas? Existe um erro na avalia\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o da escrita em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 l\u00edngua, e certa categoria de gram\u00e1ticos &#8220;pop&#8221; e professores seus f\u00e3s<br \/>\nparece querer andar pelo mundo, de estilete \u00e0 m\u00e3o.<\/p>\n<dl>\n<dt>\u00c9 preciso saber gram\u00e1tica para falar e escrever bem.<\/dt>\n<dd>Se o bom conhecimento da gram\u00e1tica fosse requisito para falar e escrever bem, todos os bons escritores seriam ex\u00edmios gram\u00e1ticos, e um bom n\u00famero de gram\u00e1ticos teria talento liter\u00e1rio. Ocorre que nenhum gram\u00e1tico jamais escreveu coisa que preste em termos de literatura e os grandes escritores costumam ser un\u00e2nimes cr\u00edticos deles. A lista de escritores que destilaram veneno contra os gram\u00e1ticos \u00e9 extensa e not\u00e1vel, com nomes como Rubem Braga, Vin\u00edcius de Morais, Leon Eliachar, Carlos Drummond de Andrade, Machado de Assis, Monteiro Lobato, entre outros. Todos, sem exce\u00e7\u00e3o, viam a gram\u00e1tica mais como obst\u00e1culo do que como ferramenta de seu trabalho. Machado de Assis escreveu uma cr\u00f4nica sobre sua incapacidade para ajudar um sobrinho a fazer seus deveres de portugu\u00eas, por exemplo. Se nem o Bruxo conseguia se dar bem com as absurdidades da gram\u00e1tica, como podemos esperar que um aluno comum o consiga?<\/dd>\n<\/dl>\n<p>Mesmo assim, existe uma &#8220;propaganda enganosa&#8221; de que os alunos passar\u00e3o a falar e a escrever melhor se aprenderem gram\u00e1tica. Esta propaganda esconde que as gram\u00e1ticas foram inventadas muito depois da literatura (e esta muito depois da escrita). A gram\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 a base de coisa nenhuma, apenas um guia para os que desejam dominar uma determinada variedade lingu\u00edstica. A primeira gram\u00e1tica grega surgiu somente no s\u00e9culo II a.C., s\u00e9culos ap\u00f3s Homero, Xenofonte, Safo, Plat\u00e3o, Arist\u00f3teles, Eur\u00edpides, Arist\u00f3fanes, \u00c9squilo, Anacreonte, Hes\u00edodo e outros. As primeiras gram\u00e1ticas do portugu\u00eas surgiram no s\u00e9culo XVIII, s\u00e9culos ap\u00f3s S\u00e1 de Miranda, Cam\u00f5es, Dom Dinis e outros. Como explicar que tantas obras de t\u00e3o alta qualidade tivessem sido produzidas antes da exist\u00eancia de gram\u00e1ticas? Inspira\u00e7\u00e3o pelo Esp\u00edrito Santo?<\/p>\n<dl>\n<dt>O dom\u00ednio da norma culta \u00e9 um instrumento de ascens\u00e3o social.<\/dt>\n<dd>Este mito retorna ao primeiro e ao segundo, aqui se considerando uma &#8220;boa a\u00e7\u00e3o&#8221; dar uma l\u00edngua aos &#8220;sem l\u00edngua&#8221; para permitir que eles superem sua condi\u00e7\u00e3o de pobreza e marginaliza\u00e7\u00e3o. Existe certa verdade na ideia de que a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 transformadora da sociedade, para melhor, mas n\u00e3o se deve levar isso a ferro e fogo. Se dominar a norma culta fosse um instrumento eficaz de ascens\u00e3o social, professores de portugu\u00eas (e gram\u00e1ticos, principalmente) seriam pessoas extremamente poderosas e prestigiadas.<\/dd>\n<\/dl>\n<p>A verdade fica muito longe disso, com pessoas de pouca ou nenhuma instru\u00e7\u00e3o adquirindo ou conservando popularidade e poder por v\u00e1rios meios. Mais do que isso: ningu\u00e9m corrige o falar de um pol\u00edtico poderoso, por mais que cometa solecismos e &#8220;erros de concord\u00e2ncia&#8221;. N\u00e3o dominar a norma culta n\u00e3o lhe impediu de galgar o poder e n\u00e3o o exp\u00f5e \u00e0 cr\u00edtica. Portanto, quando criticamos o falar de uma pessoa do povo, n\u00e3o estamos criticando o falar propriamente dito, mas a sua condi\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>\u00c9 fato que a profus\u00e3o de &#8220;erros&#8221; est\u00e1 relacionada ao posicionamento do falante na estrutura da sociedade: quanto mais baixo mais &#8220;erra&#8221;. N\u00e3o somente por falta de acesso \u00e0 &#8220;cultura&#8221;, mas tamb\u00e9m porque as classes dominantes n\u00e3o aceitam como leg\u00edtima a  cultura das classes subalternizadas, a n\u00e3o ser quando apropriada na forma de folclore ou artesanato.<\/p>\n<p>O preconceito lingu\u00edstico \u00e9 uma ferramenta de exclus\u00e3o e de humilha\u00e7\u00e3o daqueles que se encontram na base da pir\u00e2mide: para eles o reconhecimento s\u00f3 pode vir atrav\u00e9s do dom\u00ednio de uma norma culta que lhes \u00e9 imposta, dom\u00ednio que n\u00e3o lhes ga rante ascens\u00e3o social e n\u00e3o os isola de serem ridicularizados ainda assim, por sua &#8220;corre\u00e7\u00e3o pedante&#8221;, quando se defrontam com pessoas dotadas de poder, que n\u00e3o precisam se preocupar com todos os &#8220;esses e erres&#8221;.<\/p>\n<p>Estes oito mitos do preconceito lingu\u00edstico se sustentam em um trip\u00e9 perverso: a gram\u00e1tica tradicional, o ensino tradicional e o livro did\u00e1tico. A gram\u00e1tica tradicional (normativa, intolerante, preconceituosa, arcaizante e lus\u00f3fila) inspira um sistema educacional tradicional (excludente, intolerante, unilateral, colonizado), que alimenta a ind\u00fastria do livro did\u00e1tico (instrumental, unilateral, alienante, superficial) que, por sua vez, recorre \u00e0 gram\u00e1tica tradicional para fonte de sua ideologia e de seus m\u00e9todos. Fecha-se um c\u00edrculo vicioso dif\u00edcil de romper, pois livros que tentem desviar da norma ser\u00e3o combatidos pela m\u00eddia (que est\u00e1 associada \u00e0 ind\u00fastria do livro did\u00e1tico e ao ensino particular instrumental) e ignorados pelas escolas (que s\u00e3o cobradas pela m\u00eddia, pelos pais e pelo &#8220;mercado&#8221; de acordo com a sua fidelidade ao ensino tradicional).<\/p>\n<p>Escolas que tentem inovar ter\u00e3o dificuldade para conseguir livros did\u00e1ticos e sofrer\u00e3o ataques da m\u00eddia e boicote dos pais de alunos, especialmente se tal escola for particular. E assim se perpetua a concep\u00e7\u00e3o de que o povo n\u00e3o sabe falar, uma situa\u00e7\u00e3o na qual a escola n\u00e3o sabe ensinar e um resultado de que o povo nunca saber\u00e1 o que precisaria saber: o dom\u00ednio suficiente da norma culta.<\/p>\n<div class=\"footnotes\">\n<hr \/>\n<ol>\n<li id=\"fn:1\">\n<p>Eu digo que \u00e9 at\u00e9 pode ser mais negado, porque a pr\u00e1tica de tal forma de preconceito \u00e9 uma maneira menos rude de discriminar as pessoas sem evidenciar uma posi\u00e7\u00e3o abertamente racista.&#160;<a href=\"#fnref:1\" rev=\"footnote\">&#8617;<\/a><\/p>\n<\/li>\n<li id=\"fn:2\">\n<p>Uma  reputa\u00e7\u00e3o evidentemente absurda, pois Bagno n\u00e3o \u00e9 um pol\u00edtico, mas um cientista, e quase tudo que ele escreve \u00e9 corroborado por pesquisas feitas no mundo todo. Cham\u00e1-lo &#8220;comunista&#8221; ou termo que o valha \u00e9 como acusar todo o estabelecimento universit\u00e1rio da maior parte do planeta de estar envolvido em uma conspira\u00e7\u00e3o.&#160;<a href=\"#fnref:2\" rev=\"footnote\">&#8617;<\/a><\/p>\n<\/li>\n<li id=\"fn:3\">\n<p>O  pronome possessivo vem entre aspas porque nesta s\u00e9rie estamos justamente discutindo &#8220;de quem&#8221; \u00e9 a l\u00edngua que a escola pretende ensinar.&#160;<a href=\"#fnref:3\" rev=\"footnote\">&#8617;<\/a><\/p>\n<\/li>\n<li id=\"fn:4\">\n<p>Para  os que consideram a Argentina uma esp\u00e9cie de ilha de cultura nesta  Am\u00e9rica Latina mesti\u00e7a e chucra, sugiro fortemente qu e pesquisem  sobre o <em>Voseo<\/em>, um fen\u00f4meno  lingu\u00edstico caracter\u00edstico do espanhol portenho (comum \u00e0  Argentina, ao Uruguai, ao Paraguai e ao sul da Bol\u00edvia) que  consiste na substitui\u00e7\u00e3o do &#8220;t\u00fa&#8221; e do &#8220;vosotros&#8221; por um &#8220;vos&#8221;  que se comporta de forma an\u00e1loga ao &#8220;vous&#8221; franc\u00eas e ao &#8220;voc\u00ea&#8221;  brasileiro.&#160;<a href=\"#fnref:4\" rev=\"footnote\">&#8617;<\/a><\/p>\n<\/li>\n<\/ol>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na semana passada comecei a falar sobre o preconceito lingu\u00edstico que grassa em nosso pa\u00eds de uma forma particularmente intensa. Lembrei que a Lingu\u00edstica \u00e9 uma ci\u00eancia estabelecida solidamente h\u00e1 mais de duzentos anos, com copiosa produ\u00e7\u00e3o de conhecimento, mas que persiste uma profunda ignor\u00e2ncia sobre seus aspectos mais b\u00e1sicos, ignor\u00e2ncia alimentada pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o, que somente d\u00e3o espa\u00e7o ao discurso retr\u00f3grado e pseudocient\u00edfico daqueles que rejeitam o conhecimento cient\u00edfico por raz\u00f5es ideol\u00f3gicas. Perguntei tamb\u00e9m por que raz\u00e3o pessoas que s\u00e3o c\u00e9ticas de v\u00e1rias [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[181],"tags":[77,72,74,105,62],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/159"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=159"}],"version-history":[{"count":8,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/159\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5284,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/159\/revisions\/5284"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=159"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=159"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=159"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}