{"id":16,"date":"2013-06-13T00:38:00","date_gmt":"2013-06-13T03:38:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=16"},"modified":"2017-11-02T14:08:19","modified_gmt":"2017-11-02T17:08:19","slug":"fulano-de-tal-poeta-e-escritor","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2013\/06\/fulano-de-tal-poeta-e-escritor\/","title":{"rendered":"Fulano de Tal: Poeta e Escritor"},"content":{"rendered":"<p>Voc\u00ea j\u00e1 deve ter visto antes nas redes sociais: autor semiprofissional ou totalmente amador lan\u00e7a seus livros, lan\u00e7a saite, ou lan\u00e7a palavras na poeira, como eu. Todos procuram um lugar ao sol, mas nem todo mundo tem uma boa assessoria ou uma boa no\u00e7\u00e3o do que dizer. O resultado \u00e9 que esses autores coloquem frequentemente os p\u00e9s pelas m\u00e3os, ou digam bobagens achando que s\u00e3o naturais.<\/p>\n<p>As bobagens, curiosamente, sempre se repetem. N\u00e3o h\u00e1 bobagens ditas isoladamente por uma \u00fanica pessoa. Uma dessas bobagens que eu vejo frequentemente repetida \u00e9 a express\u00e3o &#8220;poeta e escritor&#8221; (ou vice versa). O que passava pela cabe\u00e7a de quem concebeu isto pela primeira vez?<\/p>\n<p>Antes que venham me dizer que existe uma raz\u00e3o de ser para isso, eu preciso seriamente indagar a quem pretenda defender esta discrimina\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<ol>\n<li>Acaso poetas n\u00e3o s\u00e3o escritores?<\/li>\n<li>Ou a poesia \u00e9 o \u00fanico g\u00eanero de escrita que precisa ser considerado \u00e0 parte dos outros?<\/li>\n<li>Algu\u00e9m que apenas fa\u00e7a poesia n\u00e3o \u00e9 escritor?<\/li>\n<\/ol>\n<p>Parece-me que esta express\u00e3o \u00e9 um tipo de ignor\u00e2ncia. Se estudada ou espont\u00e2nea eu n\u00e3o vou tentar adivinhar. Mas \u00e9 \u00f3bvio que ela esconde nuan\u00e7as diversas. Por exemplo: ela esconde que a maioria dos auto-intitulados &#8220;escritores&#8221; s\u00e3o, na verdade, &#8220;ficcionistas&#8221; (autores de obras de fic\u00e7\u00e3o). Mas a express\u00e3o &#8220;poeta e ficcionista&#8221; n\u00e3o soa suficientemente informativa a um grande n\u00famero de pessoas que s\u00e3o ignorantes do sentido da palavra.<\/p>\n<p>Trata-se de um tipo de redu\u00e7\u00e3o parecido com o que ocorre em rela\u00e7\u00e3o aos subg\u00eaneros da fic\u00e7\u00e3o. Cada vez \u00e9 mais comum que os jovens autores digam que escreveram &#8220;livros&#8221;, quando, de fato, escreveram romances, novelas ou noveletas. Como n\u00e3o me passa pela cabe\u00e7a desses jovens que os g\u00eaneros de fic\u00e7\u00e3o longa sejam os \u00fanicos que mere\u00e7am ser qualificados de &#8220;livros&#8221;, imagino que eles, de fato, desconhecem os nomes dos subg\u00eaneros e apenas diferenciam entre um &#8220;livro&#8221; e um texto que \u00e9 lido avulsamente (ou pode ser). Ou melhor, a diferen\u00e7a entre postagens de seus blogues e obras publicadas.<\/p>\n<p>O que se esconde por debaixo destas novas categorias n\u00e3o \u00e9 uma evolu\u00e7\u00e3o da linguagem e nem \u00e9 reflexo de mudan\u00e7as do fazer liter\u00e1rio \u2014 porque tais mudan\u00e7as n\u00e3o se processam em outras l\u00ednguas. Isso decorre apenas da falta de cultura de nossos escritores. O escritor brasileiro m\u00e9dio (n\u00e3o me refiro aos que chegam \u00e0s grandes editoras e ao estrelato) \u00e9 um ignorante, algu\u00e9m que leu pouqu\u00edssimo ou, se leu muito, leu focado em um ou dois g\u00eaneros apenas, e g\u00eaneros pobres em refer\u00eancias. O escritor brasileiro m\u00e9dio (reitero que me refiro \u00e0 massa de amadores que sonha) n\u00e3o tem referencial te\u00f3rico nenhum e ainda acha que isso lhe ajuda a ser original, como se  a ignor\u00e2ncia fosse um superpoder.<\/p>\n<p>E essa ignor\u00e2ncia faz mal \u00e0 literatura como um todo, porque perpetra e perpetua distor\u00e7\u00f5es, como a de achar que a poesia \u00e9 &#8220;outra coisa&#8221; em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 literatura ou n\u00e3o saber diferenciar g\u00eaneros textuais. Esse mal, que \u00e9 criado e perpetrado pelos autores ignorantes da pr\u00f3pria coisa que fazem, acaba respingando no p\u00fablico, que normalmente teria no literato uma refer\u00eancia da pr\u00f3pria literatura.<\/p>\n<p>Em outra \u00e9poca o escritor era tido como &#8220;intelectual&#8221;, a ponto de a publica\u00e7\u00e3o de livros valer como t\u00edtulo de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Mas se o &#8220;intelectual&#8221; \u00e9 ignorante (outro ser da estranha fauna brasileira a que se referia o Tim Maia) ele n\u00e3o pode sen\u00e3o refor\u00e7ar a ignor\u00e2ncia de quem o l\u00ea, e o resultado \u00e9 o fechamento cada vez maior dos espa\u00e7os para o conhecimento. Chega-se ao ponto em que no\u00e7\u00f5es foram esquecidas, palavras foram abandonadas, t\u00e9cnicas foram perdidas e, acima de tudo, o leitor desconhece a refer\u00eancia do bom e do ruim, do certo e do errado. <\/p>\n<p>Esse \u00e9, ali\u00e1s, o ponto em que estamos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea j\u00e1 deve ter visto antes nas redes sociais: autor semiprofissional ou totalmente amador lan\u00e7a seus livros, lan\u00e7a saite, ou lan\u00e7a palavras na poeira, como eu. Todos procuram um lugar ao sol, mas nem todo mundo tem uma boa assessoria ou uma boa no\u00e7\u00e3o do que dizer. O resultado \u00e9 que esses autores coloquem frequentemente os p\u00e9s pelas m\u00e3os, ou digam bobagens achando que s\u00e3o naturais.As bobagens, curiosamente, sempre se repetem. N\u00e3o h\u00e1 bobagens ditas isoladamente por uma \u00fanica pessoa. Uma dessas bobagens que eu vejo frequentemente repetida \u00e9 a express\u00e3o &#8220;poeta e escritor&#8221; (ou vice versa). 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