{"id":163,"date":"2012-03-17T11:28:00","date_gmt":"2012-03-17T14:28:00","guid":{"rendered":"http:\/\/letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=163"},"modified":"2017-11-02T14:09:00","modified_gmt":"2017-11-02T17:09:00","slug":"sobre-preconceito-linguistico-parte-1-de-3","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2012\/03\/sobre-preconceito-linguistico-parte-1-de-3\/","title":{"rendered":"Sobre Preconceito Lingu\u00edstico \u2014 Parte 1 de 3"},"content":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos anos tem estado muito em evid\u00eancia o debate sobre o &#8220;preconceito lingu\u00edstico&#8221;, notadamente desde que um homem do povo (e por isso xingado de &#8220;apedeuta&#8221; por uma m\u00eddia preconceituosa e elitista) chegou ao poder. Tal debate \u00e9, por\u00e9m, feito por leigos e para leigos, <em>nunca, jamais, em hip\u00f3tese alguma<\/em> permitindo que os especialistas tenham o mesmo destaque que os palpiteiros. Fala-se sobre a l\u00edngua, sem nunca sequer mencionar que existem linguistas. O que \u00e9 mais ou menos como conversar sobre doen\u00e7as sem mencionar que existem m\u00e9dicos. Fala-se sobre gram\u00e1ticos, pol\u00edticos, escritores e professores de portugu\u00eas, \u00e9 verdade, o que equivale a, mesmo esquecendo os m\u00e9dicos, lembrar de uma s\u00e9rie de outras profiss\u00f5es relacionadas \u00e0 sa\u00fade, algumas s\u00e9rias, outras n\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando um apologista crist\u00e3o diz n\u00e3o crer na Evolu\u00e7\u00e3o e enfileira uma s\u00e9rie de coment\u00e1rios deturpados e desconexos, que evidenciam desconhecimento completo ou muito grande das coisas mais b\u00e1sicas de Biologia, as rea\u00e7\u00f5es jocosas no meio do &#8220;movimento ateu&#8221; s\u00e3o quase instant\u00e2neas. H\u00e1 quem chegue a recomendar \u00e0 criatura que &#8220;v\u00e1 estudar&#8221;, h\u00e1 quem lhe aponte as &#8220;fal\u00e1cias&#8221; de seu racioc\u00ednio ou at\u00e9 o fato de argumentar desconhecendo coisas b\u00e1sicas e imediatas, que deveriam ser evidentes no quotidiano. \u00c9 un\u00e2nime entre os que n\u00e3o s\u00e3o fundamentalistas religiosos que um criacionista \u00e9 uma pessoa que tem um s\u00e9rio problema intelectual (disson\u00e2ncia cognitiva), uma profunda ignor\u00e2ncia cient\u00edfica ou ent\u00e3o \u00e9 um manipulador que desconsidera fatos a fim de ter apelo junto \u00e0s pessoas que n\u00e3o os conhecem ou compreendem. Em uma linguagem mais direta, criacionista s\u00f3 pode ser burro, ignorante ou desonesto.<\/p>\n<p>Este estado de coisas n\u00e3o tem a ver, necessariamente, com religi\u00e3o. O criacionismo n\u00e3o \u00e9 causado pela necessidade de crer em Deus, visto que muitas pessoas creem nEle sem serem criacionistas. Na verdade o criacionismo reflete o apego a um conjunto de explica\u00e7\u00f5es que \u2014 mesmo obsoleto e em contradi\u00e7\u00e3o com aquilo que se observa na ci\u00eancia (e at\u00e9 no quotidiano, em alguns casos) \u2014 continua tendo apelo porque oferece uma vis\u00e3o de mundo mais simples, imediata e intelig\u00edvel. &#8220;Deus fez&#8221; \u00e9 uma explica\u00e7\u00e3o que n\u00e3o exige muito racioc\u00ednio, n\u00e3o humilha quem n\u00e3o tem tempo de estudar e tem, na cabe\u00e7a de muita gente, o salutar efeito de diminuir a dist\u00e2ncia entre um diploma de prim\u00e1rio e um de doutorado. Em simples palavras: o criacionismo \u00e9 uma rea\u00e7\u00e3o anti-intelectual, que procura restaurar um mundo ideal  que homens eram homens e sabiam consertar os motores de seus carros.<sup id=\"fnref:1\"><a href=\"#fn:1\" rel=\"footnote\">1<\/a><\/sup><\/p>\n<p>Existe, por\u00e9m, uma ci\u00eancia que sofre um ataque muito mais cerrado da pseudoci\u00eancia, um ataque muito mais cruel e eficiente. Esta ci\u00eancia foi estabelecida h\u00e1 mais de duzentos anos e; mesmo mostrando not\u00e1vel capacidade de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento, inclusive com modelos que permitem fazer predi\u00e7\u00f5es; \u00e9 praticamente ignorada fora dos meios acad\u00eamicos, enquanto seus detratores t\u00eam acesso f\u00e1cil \u00e0 m\u00eddia para propagar seus panfletos reacion\u00e1rios. E de tal forma isso, que o discurso pseudocient\u00edfico se tornou a norma e os pesquisadores precisam enfrentar o ceticismo e o descr\u00e9dito quando apresentam seus trabalhos. Ceticismo e descr\u00e9dito que chegam, inclusive, entre os pesquisadores de outras \u00e1reas do conhecimento.<\/p>\n<p>A ci\u00eancia de que estamos falando \u00e9 a Lingu\u00edstica. Fora dos c\u00edrculos acad\u00eamicos pouca gente ouve falar dela, embora seja frequente que os conhecimentos por ela produzidos se difundam, sem cr\u00e9dito, por uma variedade de meios. A Lingu\u00edstica permitiu a tradu\u00e7\u00e3o de textos em l\u00ednguas perdidas e a reconstru\u00e7\u00e3o da autoria da B\u00edblia; provou a m\u00faltipla autoria do Pentateuco e do Alcor\u00e3o; determinou as rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnicas entre os povos da Europa, do Oriente M\u00e9dio, da \u00c1sia Central e do Subcontinente Indiano; permite detectar fraudes  documentos hist\u00f3ricos; \u00e9 parte da an\u00e1lise que busca determinar a validade de uma intelig\u00eancia artificial; ajudou a desconstruir o discurso totalit\u00e1rio etc. As descobertas da Lingu\u00edstica s\u00e3o incr\u00edveis, para uma ci\u00eancia t\u00e3o recente e que estuda um fen\u00f4meno t\u00e3o complexo quanto as linguagens humanas.<\/p>\n<p>Por\u00e9m a Lingu\u00edstica desperta sua quota de rea\u00e7\u00f5es entre aqueles que sonham com um mundo ideal,  que homens eram homens e tudo que se precisava aprender era o <em>trivium<\/em> e o <em>quadrivium<\/em>.<sup id=\"fnref:2\"><a href=\"#fn:2\" rel=\"footnote\">2<\/a><\/sup><\/p>\n<p>Ocorre que a Lingu\u00edstica se insurge contra um dos \u00faltimos basti\u00f5es do preconceito  nossa sociedade. N\u00e3o \u00e9 mais aceit\u00e1vel discriminar os indiv\u00edduos por fatores como a cor de sua pele ou a religi\u00e3o, resta apenas como \u00faltima distin\u00e7\u00e3o do elitismo a afirma\u00e7\u00e3o de um sistema de castas lingu\u00edsticas, que perpetua e justifica a exclus\u00e3o de uns  favor de outros. Ao demonstrar a cientificamente a falsidade dos paradigmas em que se assenta tal divis\u00e3o, a Lingu\u00edstica atrai a ira dos que se aproveitam deles para exercer privil\u00e9gios ou para ganhar uns trocados. E ganha-se muito dinheiro vendendo dicion\u00e1rio e gram\u00e1tica, e cursinho e concurso e manual de reda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Refiro-me, obviamente, \u00e0 cultura de gram\u00e1tica e dicion\u00e1rio, herdeira dos sistemas medievais de ensino. Tal cultura se baseia na cren\u00e7a de que certas l\u00ednguas s\u00e3o superiores a outras,<sup id=\"fnref:3\"><a href=\"#fn:3\" rel=\"footnote\">3<\/a><\/sup> que &#8220;as pessoas&#8221; (aqui geralmente entendidas como &#8220;as pessoas das classes inferiores&#8221;) pertencem a uma esp\u00e9cie de b\u00edpede pelado e est\u00fapido que n\u00e3o saber\u00e1 se comunicar a menos que a escola ensine. Se n\u00e3o for ensinadas direitinho pelo &#8220;sistema educacional&#8221;, crescer\u00e3o falando &#8220;errado&#8221;, do jeito que puderam aprender com outros ignorantes, como seus pais, por exemplo.<\/p>\n<p>Colocando a coisa nestas palavras ela soa um pouco ofensiva. Talvez algumas pessoas que estejam lendo este texto ou\u00e7am soar o alarme: &#8220;Ei, eu <em>n\u00e3o<\/em> penso assim!&#8221; Ser\u00e1 mesmo? Fa\u00e7amos um exame de consci\u00eancia, \u00e0s vezes s\u00f3 conseguimos enxergar certos detalhes quando exagerados na caricatura. E a caricatura dessa vis\u00e3o de mundo \u00e9 o gram\u00e1tico normativo conservador, figura j\u00e1 satirizada com for\u00e7a por Monteiro Lobato, em <em>Em\u00edlia no Pa\u00eds da Gram\u00e1tica,<\/em> escrito incrivelmente em 1934. Entre esses h\u00e1 um gram\u00e1tico famoso hoje em dia, que tem por sobrenome a marca de um rem\u00e9dio que causa abortos, que tem espa\u00e7o at\u00e9 na televis\u00e3o para difundir &#8220;regrinhas&#8221; de uma gram\u00e1tica que reflete uma l\u00edngua falada no s\u00e9culo XVIII e que nem mesmo a elite fala mais.<\/p>\n<p>Um c\u00e9tico n\u00e3o pode compactuar com essa vis\u00e3o de mundo. J\u00e1 falei anteriormente sobre como o ceticismo tem sido abastardado pela conviv\u00eancia com preconceitos, a ponto de arengas c\u00e9ticas inclu\u00edrem inj\u00faria racista contra um povo historicamente discriminado. Aqui estou indo al\u00e9m: a cultura da gram\u00e1tica e do dicion\u00e1rio \u00e9 preconceituosa, embora n\u00e3o da forma grosseira como se manifesta o preconceito racial contra negros, judeus ou ciganos.<\/p>\n<p>O preconceito a que me refiro \u00e9 reflexo de uma sociedade de classes, na qual os valores e experi\u00eancias do povo s\u00e3o desconsiderados e os valores e experi\u00eancias das classes dominantes s\u00e3o impostos atrav\u00e9s de sistemas ideol\u00f3gicos. A elite \u00e9 que sabe falar, e vai ensinar o povo a falar. O &#8220;n\u00e3o saber falar&#8221; significa que, para a elite, o que quer que o povo esteja falando \u00e9 uma &#8220;n\u00e3o l\u00edngua&#8221;. A Hist\u00f3ria est\u00e1 repleta de exemplos de situa\u00e7\u00f5es nas quais a imposi\u00e7\u00e3o da l\u00edngua dominante refletiu um processo de domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Ao ser entrevistado para a <em>Veja<\/em>, o professor foi introduzido pelo seguinte coment\u00e1rio:<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u2026 professor de portugu\u00eas \u2014 idioma que, de t\u00e3o maltratado no dia a dia dos brasileiros, precisa ser divulgado e explicado para os milh\u00f5es que o t\u00eam por l\u00edngua materna.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>N\u00e3o houve contesta\u00e7\u00e3o desta defini\u00e7\u00e3o por parte do professor, certamente porque ele gosta de se ver assim, como uma esp\u00e9cie de mission\u00e1rio entre os primitivos. Ser\u00e1 realmente necess\u00e1rio &#8220;divulgar e explicar&#8221; o portugu\u00eas para pessoas que o t\u00eam por l\u00edngua materna?<\/p>\n<p>Ocorre que, conforme demonstra a Lingu\u00edstica, os dialetos populares n\u00e3o s\u00e3o uma &#8220;corrup\u00e7\u00e3o&#8221; da l\u00edngua nacional pela ignor\u00e2ncia do povo: eles t\u00eam uma origem, uma hist\u00f3ria e uma l\u00f3gica interna. Os dialetos regionais j\u00e1 existiam no Brasil Col\u00f4nia, como reflexo das origens geogr\u00e1ficas diferentes dos imigrantes de cada regi\u00e3o do pa\u00eds,<sup id=\"fnref:4\"><a href=\"#fn:4\" rel=\"footnote\">4<\/a><\/sup> como se percebe facilmente estudando epis\u00f3dios como a &#8220;Guerra dos Emboabas&#8221;, no qual o falar definia a identidade das pessoas, da mesma forma que seu vestir. Ora, se sabemos que os dialetos t\u00eam uma hist\u00f3ria, como seguir afirmando que nada mais s\u00e3o do que fruto da ignor\u00e2ncia de um povo que &#8220;n\u00e3o sabe falar&#8221;? N\u00e3o podemos, eis porque segue existindo, entre os que se beneficiam dos m\u00e9todos de &#8220;ensinar a falar&#8221;, uma barragem cont\u00ednua de cr\u00edticas e desqualifica\u00e7\u00f5es contra a ci\u00eancia da Lingu\u00edstica.<\/p>\n<p>Infelizmente, por\u00e9m, quando uma ci\u00eancia come\u00e7a a detectar as estruturas de domina\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica que mant\u00eam as coisas &#8220;em seu lugar&#8221; ela come\u00e7a a ser associada com movimentos revolucion\u00e1rios que procuraram ou ainda procuram colocar outras coisas no mesmo lugar. Esse discurso da Lingu\u00edstica, que explicita como as elites estabelecem-se como portadoras da &#8220;l\u00edngua certa&#8221; e se arrogam a miss\u00e3o de ensinar o povo, passa ent\u00e3o a ser visto como perigosamente &#8220;comunista&#8221; por pessoas que n\u00e3o sabem o que \u00e9 Lingu\u00edstica e, muitas vezes, n\u00e3o sabem o que \u00e9 comunismo.<\/p>\n<p>Voc\u00ea j\u00e1 deve ter ouvido falar esse tipo de coisa por a\u00ed. \u00c9 muito frequente entre os adeptos de ci\u00eancias exatas a deprecia\u00e7\u00e3o das ci\u00eancias humanas, como se elas fossem coisa de &#8220;maconheiros comunistas gays&#8221;. N\u00e3o percebem os que dizem estas bobagens que adotam um discurso an\u00e1logo ao dos criacionistas, que rejeitam <em>a priori<\/em> e em bloco todo um ramo do conhecimento que n\u00e3o estudaram, apenas porque as teses se chocam com as suas opini\u00f5es <em>leigas.<\/em><\/p>\n<p>Gostaria de enfatizar esta \u00faltima palavra. Debatedores como o Franciso Quiumento \u2014 mas n\u00e3o somente ele \u2014 adoram esfregar esse termo na cara de criacionistas para descartar suas opini\u00f5es. Acho justo: ningu\u00e9m confia na opini\u00e3o de um &#8220;leigo  medicina&#8221; para tratar-se ou de um &#8220;leigo  engenharia&#8221; para construir uma ponte. Natural, portanto, que o bom senso rejeite o que um &#8220;leigo  biologia&#8221; tenha a dizer. Mas ser\u00e1 que tipo de rea\u00e7\u00f5es que eu provocarei se disser que os vociferantes cr\u00edticos da Lingu\u00edstica s\u00e3o &#8220;leigos&#8221; que n\u00e3o sabem o que est\u00e3o falando? Ser\u00e1 que essas pessoas ter\u00e3o a racionalidade de reconhecerem que agem como o apologista de B\u00edblia \u00e0 m\u00e3o que grita que &#8220;A Evolu\u00e7\u00e3o \u00c9 S\u00f3 Uma Teoria&#8221;? Tenho certeza de que a maioria n\u00e3o. Tal como \u00e9 imposs\u00edvel demover o criacionista, ao menos n\u00e3o subitamente, \u00e9 imposs\u00edvel demover os cr\u00edticos da Lingu\u00edstica, porque do alto de sua ignor\u00e2ncia eles acham que est\u00e3o &#8220;certos&#8221;, que as ci\u00eancias humanas n\u00e3o s\u00e3o ci\u00eancias &#8220;de verdade&#8221;, enquanto eles t\u00eam \u00e0 m\u00e3o a r\u00e9gua exata para medir o mundo.<\/p>\n<p>Cabe perguntar qual a raz\u00e3o do preconceito contra as Ci\u00eancias Humanas por parte das pessoas que cursam Exatas ou Biol\u00f3gicas. Talvez tal preconceito seja agravado pelo reflexo das distor\u00e7\u00f5es de nosso mercado de trabalho, que tornam mais financeiramente bem sucedido um m\u00e9dico ou engenheiro do que um professor, mas o fen\u00f4meno \u00e9 encontrado tamb\u00e9m  outros lugares do mundo, o que nos sugere uma causa mais profunda do que as imperfei\u00e7\u00f5es de nossa sociedade tropical. Se eu quisesse cometer um coment\u00e1rio t\u00e3o abusivo quanto os que j\u00e1 me foram dirigidos por pessoas de Exatas ou Biol\u00f3gicas eu diria que aqueles que s\u00e3o instrumentalizados pelo sistema ser\u00e3o por ele pregados como pe\u00f5es na luta contra o conhecimento que amea\u00e7a a atual estrutura do mesmo sistema. N\u00e3o creio, por\u00e9m, que esses coment\u00e1rios sejam deliberados, mas fruto de irreflex\u00e3o e, portanto, n\u00e3o \u00e9 justo que eu reaja com um ataque desse tipo. Justo \u00e9, por\u00e9m, que eu convide as pessoas que desqualificam as Ci\u00eancias Humanas a examinar n\u00e3o as motiva\u00e7\u00f5es de tais cr\u00edticas, pois tal pedido seria falacioso, mas a validade delas.<\/p>\n<p>Na pr\u00f3xima semana volto ao tema, para falar especificamente sobre as formas como se manifesta tal preconceito.<\/p>\n<div class=\"footnotes\">\n<hr \/>\n<ol>\n<li id=\"fn:1\">\n<p>Uma das provas de que o criacionismo n\u00e3o \u00e9 um monstrengo isolado, nem a Biologia a Geni das ci\u00eancias, \u00e9 que existem v\u00e1rios outros fen\u00f4menos an\u00e1logos afetando outras ci\u00eancias, exatas, humanas e biol\u00f3gicas. A pseudoci\u00eancia existe em todos os ramos do conhecimento, sempre acompanhada de uma prega\u00e7\u00e3o panflet\u00e1ria contra o &#8220;elitismo&#8221; da ci\u00eancia estabelecida e seus controles e apresentando-se com uma humildade cativante que fala ao cora\u00e7\u00e3o do <em>leigo<\/em> com o conforto da sugest\u00e3o de que o esfor\u00e7o de estudar \u00e9 uma vaidade sem sentido. Exemplos de fen\u00f4menos tais podem ser encontrados na Hist\u00f3ria (revisionismo do Holocausto, deuses astronautas, fen\u00edcios cariocas), na Geografia (Amaz\u00f4nia pulm\u00e3o do mundo), na Medicina (homeopatia, osteopatia, auras, cura pela f\u00e9), na Geologia (terra oca, terra jovem), na Astronomia (Nibiru\/Herc\u00f3lubus) etc. Talvez os outros tipos de pseudoci\u00eancia n\u00e3o consigam ter a mesma proje\u00e7\u00e3o do criacionismo por n\u00e3o contar com o p\u00falpito para divulg\u00e1-los (inclusive o p\u00falpito eletr\u00f4nico), mas epistemologicamente falando n\u00e3o h\u00e1 uma grande diferen\u00e7a entre crer  Ad\u00e3o e Eva ou crer  crian\u00e7as \u00edndigo.&#160;<a href=\"#fnref:1\" rev=\"footnote\">&#8617;<\/a><\/p>\n<\/li>\n<li id=\"fn:2\">\n<p>O curr\u00edculo das escolas mantidas pela Igreja na Idade M\u00e9dia se baseava no estudo de dois grupos de mat\u00e9rias. As b\u00e1sicas correspondiam ao trivium, de que deriva o adjetivo &#8220;trivial&#8221;, e as demais eram consideradas avan\u00e7adas. O trivium era composto de gram\u00e1tica, l\u00f3gica e ret\u00f3rica; enquanto o quadrivium tinha de aritm\u00e9tica, geometria, m\u00fasica e astronomia. Este curr\u00edculo correspondia \u00e0s &#8220;artes liberais&#8221;, enquanto outros cursos ensinavam as &#8220;artes pr\u00e1ticas&#8221; (como a medicina e a arquitetura).&#160;<a href=\"#fnref:2\" rev=\"footnote\">&#8617;<\/a><\/p>\n<\/li>\n<li id=\"fn:3\">\n<p>Os angl\u00f3fonos, por exemplo, julgam o ingl\u00eas a l\u00edngua &#8220;mais pr\u00f3pria \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o&#8221; por possuir o maior conjunto de voc\u00e1bulos (ainda que os dicion\u00e1rios de ingl\u00eas sejam inflados por todo e qualquer termo estrangeiro que adquira certo uso corrente e que as diferentes acep\u00e7\u00f5es de uma mesma palavra sejam frequentemente postas  verbetes separados). Os franc\u00f3fonos consideram o franc\u00eas superior porque possui &#8220;o sistema de conjuga\u00e7\u00e3o verbal mais preciso entre as l\u00ednguas latinas&#8221;, entre outras bobagens. Para cada l\u00edngua h\u00e1 um meio de demonstrar sua &#8220;superioridade&#8221; segundo algum crit\u00e9rio arbitr\u00e1rio: o alem\u00e3o e sua incr\u00edvel capacidade de deriva\u00e7\u00e3o morfol\u00f3gica, o italiano e sua plasticidade sonora, o espanhol e sua estabilidade ortogr\u00e1fica e gramatical de quase oito s\u00e9culos, o grego e sua tradi\u00e7\u00e3o de dois mil e quinhentos anos etc.&#160;<a href=\"#fnref:3\" rev=\"footnote\">&#8617;<\/a><\/p>\n<\/li>\n<li id=\"fn:4\">\n<p>A influ\u00eancia a\u00e7oriana nos dialetos do extremo sul, por exemplo, ou da l\u00edngua tupi sobre os dialetos do centro-oeste e de S\u00e3o Paulo.&#160;<a href=\"#fnref:4\" rev=\"footnote\">&#8617;<\/a><\/p>\n<\/li>\n<\/ol>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos anos tem estado muito em evid\u00eancia o debate sobre o &#8220;preconceito lingu\u00edstico&#8221;, notadamente desde que um homem do povo (e por isso xingado de &#8220;apedeuta&#8221; por uma m\u00eddia preconceituosa e elitista) chegou ao poder. 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