{"id":1637,"date":"2014-06-01T20:03:40","date_gmt":"2014-06-01T23:03:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/?p=1637"},"modified":"2017-08-13T00:40:51","modified_gmt":"2017-08-13T03:40:51","slug":"o-critico-e-os-cranios-de-cristal","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/2014\/06\/o-critico-e-os-cranios-de-cristal\/","title":{"rendered":"O Cr\u00edtico e os Cr\u00e2nios de Cristal"},"content":{"rendered":"<p>Uma das principais caracter\u00edsticas da mediocridade \u00e9 o seu amor pela unanimidade. O med\u00edocre, n\u00e3o sendo capaz de causar emo\u00e7\u00f5es duradouras e conquistar afetos sinceros, tem verdadeira pa\u00fara de ter apontados os seus defeitos. Ele ama e deseja um ambiente confort\u00e1vel de camaradagem e reciprocidade, &#8220;eu co\u00e7o as suas costas e voc\u00ea co\u00e7a as minhas&#8221;. Nesse ambiente se busca o aplauso, a maioria \u00e9 o poder legitimador e uma simples curtida dada por um &#8220;mestre&#8221; \u00e9 exibida como um trof\u00e9u. <\/p>\n<p>Uma das fun\u00e7\u00f5es mais importantes da cr\u00edtica liter\u00e1ria \u00e9 romper este &#8220;saud\u00e1vel&#8221; conluio dos med\u00edocres. Um cr\u00edtico que repita o senso comum \u00e9 um n\u00e3o-cr\u00edtico, seu trabalho \u00e9 essencialmente in\u00fatil, e at\u00e9 nocivo. Uma cr\u00edtica exagerada e injusta tem mais valor culturalmente do que uma resenha bem comportada que falha em detectar as qualidades e os defeitos. Porque o desprop\u00f3sito causa indigna\u00e7\u00e3o, produz ondas de rea\u00e7\u00e3o, mo\u00e7\u00f5es de aplauso, sacode as cabe\u00e7as que estavam conformadas, produz luz. A fun\u00e7\u00e3o do cr\u00edtico \u00e9 explodir uma bombinha durante o sono das musas.<\/p>\n<p>Mas o med\u00edocre n\u00e3o deseja contesta\u00e7\u00f5es. Diante de opini\u00f5es contr\u00e1rias, ele deseja a censura. Uma pluralidade de opini\u00f5es \u00e9 sempre uma amea\u00e7a \u00e0 mediocridade, porque em um embate verdadeiro entre teses e realiza\u00e7\u00f5es, o med\u00edocre sempre corre o risco de ser exposto. E ele teme esta exposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O mundo liter\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 uma democracia. A maioria n\u00e3o tem nada a dizer sobre o valor intr\u00ednseco das obras. Todos sabemos que [as editoras promovem os livros que lhes interessa promover](http:\/\/noticias.uol.com.br\/opiniao\/coluna\/2014\/05\/31\/disputa-por-espaco-no-mercado-editorial-e-cruel.htm). Ademais, em um pa\u00eds que tem [mais de 1\/3 de analfabetos entre os pr\u00f3prios universit\u00e1rios](http:\/\/www.correiodopovo.com.br\/Noticias\/?Noticia=444534), o gosto popular deve ser, necessariamente, nivelado ao r\u00e9s do ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Tudo ent\u00e3o se mostra um engodo: um &#8220;mercado liter\u00e1rio&#8221; manipulado e baseado em ilus\u00f5es e simplifica\u00e7\u00f5es, onde n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para autores que n\u00e3o morem no lugar certo ou n\u00e3o abordem os temas certos. Editoras que focam na facilidade de vender tradu\u00e7\u00f5es de obras que j\u00e1 tem fama por sua rela\u00e7\u00e3o com o cinema ou pr\u00eamios liter\u00e1rios internacionais ou resvalam na rasteirice da auto-ajuda e da literatura m\u00edstico-esot\u00e9rica, que ordenha eficientemente a ignor\u00e2ncia e as supersti\u00e7\u00f5es de um povo que ainda [hostiliza atores que interpretam vil\u00f5es em novelas](http:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/cadernog\/conteudo.phtml?id=1356679).<\/p>\n<p>O cr\u00edtico teria a fun\u00e7\u00e3o de sacudir esta mesmice, enfiar os dedos nas feridas dos \u00eddolos e levantar da sarjeta algum an\u00f4nimo valioso. Mas eles n\u00e3o t\u00eam permiss\u00e3o para isso. Criticar um nome de sucesso \u00e9 considerado &#8220;despeito&#8221; ou &#8220;inveja&#8221;. Apontar talentos desconhecidos \u00e9 associado a uma tentativa de favorecer amigos, formar panelinhas ou algo assim. Qualquer tentativa de influenciar os novos autores \u00e9 rejeitada ou tachada de &#8220;arrog\u00e2ncia&#8221;. Apontar erros alheios \u00e9 &#8220;arrog\u00e2ncia&#8221;, rejeitar toda cr\u00edtica e prometer &#8220;insistir no que acredita&#8221; \u00e9 prova de &#8220;humildade&#8221;. Quem tente exercitar alguma cr\u00edtica come\u00e7a a subir o cadafalso.<\/p>\n<p>Existe uma percep\u00e7\u00e3o equivocada de que as pessoas deveriam ser recompensadas pelo seu &#8220;esfor\u00e7o&#8221; em fazer literatura. \u00c9 uma atitude t\u00edpica de gente que atravessou inteiro esse novo sistema educacional baseado em &#8220;progress\u00e3o continuada&#8221; e que, para dizer de forma educada, odeia o m\u00e9rito, abomina o talento e combate vigorosamente a excepcionalidade. Um sitema que tem uma forma e um martelo e uma miss\u00e3o de adaptar todos a um esquema inteiramente baseado na mediocridade e no nivelamento por baixo. Este sistema produz o jovem que acredita que ser criticado por suas falhas \u00e9 uma ofensa, que o seu &#8220;esfor\u00e7o&#8221; tem valor igual ao da realiza\u00e7\u00e3o dos outros e que, principalmente, n\u00e3o diferencia entre si e sua obra.<\/p>\n<p>Este \u00faltimo problema \u00e9 o maior de todos. Existe certo misticismo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 figura do escritor. Especialmente entre esses jovens mal resolvidos. Eles n\u00e3o pensam tanto em termos da obra, mas em termos do autor da obra. S\u00e3o tietes do sucesso alcan\u00e7ado por seus \u00eddolos, mas de fato pouco comentam o conte\u00fado das obras. No passado a discuss\u00e3o era se Capitu traiu Bentinho, hoje se discute como George R. Martin chegou ao sucesso que chegou.<\/p>\n<p>Esta situa\u00e7\u00e3o favorece a dita confus\u00e3o entre a obra e seu autor, o que explica a rea\u00e7\u00e3o extrema dos jovens autores quando sua obra \u00e9 criticada. N\u00e3o entra em suas cabe\u00e7as que possa haver uma solu\u00e7\u00e3o de continuidade entre o autor, o indiv\u00edduo, que pode ser um cara legal ou um filho da puta, e sua obra, que pode ser boa ou ruim. Quando voc\u00ea critica a linguagem pobre de um autor, ele se sente acusado de pobreza mental. Se diz que ele apresenta pouca maturidade estil\u00edstica, ele interpreta isto como uma acusa\u00e7\u00e3o de imaturidade.<\/p>\n<p>O passo seguinte, corol\u00e1rio de toda esta situa\u00e7\u00e3o desfavor\u00e1vel \u00e0 cr\u00edtica e \u00e0 discuss\u00e3o liter\u00e1ria, \u00e9 o autor, munido desta confus\u00e3o entre suas personalidade e seu trabalho e influenciado pela ideia de que seu esfor\u00e7o n\u00e3o pode ser menosprezado, passa a usar a pr\u00f3pria biografia como uma base para exigir legitimidade. <\/p>\n<div id=\"attachment_1638\" style=\"width: 438px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/gabe1.png\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1638\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/gabe1.png\" alt=\"Hist\u00f3ria do escritor\" width=\"428\" height=\"355\" class=\"size-full wp-image-1638\" srcset=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/gabe1.png 428w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/gabe1-120x100.png 120w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/gabe1-250x207.png 250w\" sizes=\"(max-width: 428px) 100vw, 428px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1638\" class=\"wp-caption-text\">&nbsp;<\/p><\/div>\n<p>Parece \u00f3bvio, diante deste racioc\u00ednio, que ter superado maior quantidade de obst\u00e1culos d\u00e1 mais relev\u00e2ncia ao trabalho de um autor. Desloca-se, assim, o \u00e2mbito da avalia\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria para a figura do autor, e n\u00e3o a obra.  N\u00e3o \u00e9 preciso ter muita no\u00e7\u00e3o de filosofia para perceber que este argumento \u00e9 irracional, trata-se da \u00f3bvia fal\u00e1cia do apelo \u00e0 miseric\u00f3rdia (*argumentum ad misericordiam*): &#8220;veja como eu sofri para escrever como escrevo, voc\u00ea precisa me amar assim&#8221;.  Ocorre que a literatura n\u00e3o \u00e9 um videojogo, e partir de um contexto cultural e educacional mais favor\u00e1vel n\u00e3o \u00e9 um &#8220;cheat&#8221; para passar de fase.  Ter enfrentado dificuldades para se tornar escritor aumenta o m\u00e9rito pessoal do autor, mas n\u00e3o o m\u00e9rito de sua obra. Machado de Assis comeu o p\u00e3o que o diabo amassou, mas a sua obra \u00e9 bem avaliada por suas qualidades, n\u00e3o porque ele era um negrinho pobre que venceu na vida no Brasil escravista do s\u00e9culo XIX. Houve outros negrinhos bem sucedidos, mas que nunca escreveram t\u00e3o bem quanto ele.<\/p>\n<p>Uma vez que a avalia\u00e7\u00e3o passa a ser influenciada pela vida pessoal do escritor e suas dificuldades, a cr\u00edtica objetiva se torna ileg\u00edtima, porque o cr\u00edtico s\u00f3 pode analisar o texto em si, que \u00e9 o aspecto intr\u00ednseco e expl\u00edcito que tem para avaliar:<\/p>\n<div id=\"attachment_1639\" style=\"width: 430px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/gabe2.png\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1639\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/gabe2.png\" alt=\"Best Seller\" width=\"420\" height=\"84\" class=\"size-full wp-image-1639\" srcset=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/gabe2.png 420w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/gabe2-120x24.png 120w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/gabe2-250x50.png 250w\" sizes=\"(max-width: 420px) 100vw, 420px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1639\" class=\"wp-caption-text\">&nbsp;<\/p><\/div>\n<p>Ao recusar a cr\u00edtica de quem n\u00e3o seja &#8220;autor de best-seller&#8221; o garoto tamb\u00e9m recusa toda cr\u00edtica (&#8220;muito menos tem o direito de criticar quem est\u00e1 come\u00e7ando&#8221;). N\u00e3o temos apenas a enviesada valoriza\u00e7\u00e3o da vendagem em detrimento da qualidade (uma forma disfar\u00e7ada do apelo \u00e0 multid\u00e3o, outra conhecida fal\u00e1cia), mas a ideia de que o cr\u00edtico, em si, n\u00e3o tem o direito de criticar por n\u00e3o ser capaz de produzir uma obra semelhante \u00e0 que critica.<\/p>\n<p>Este \u00e9 um pensamento desonesto tamb\u00e9m, porque o talento para enxergar um erro \u00e9 diferente do talento para fazer o certo. Um leigo pode, perfeitamente, detectar que a estrutura de uma casa est\u00e1 comprometida ao perceber que ela estala e apresenta rachaduras. Uma pessoa que n\u00e3o sabe dirigir pode, perfeitamente, perceber que o causador do acidente foi o motorista que vinha pela contra-m\u00e3o. E o cr\u00edtico, que nunca escreveu nenhuma obra liter\u00e1ria de m\u00e9rito, pode, perfeitamente, discernir quais obras t\u00eam m\u00e9rito ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de desonesto, este \u00e9 um argumento tamb\u00e9m ignorante, porque ele desconhece que a cr\u00edtica liter\u00e1ria, sendo um g\u00eanero textual (o ensaio), \u00e9 tamb\u00e9m uma forma de literatura de n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, se o cr\u00edtico desenvolve o seu argumento com qualidade, ele est\u00e1 fazendo literatura legitimamente. <\/p>\n<p>Resta saber se um ensaio cr\u00edtico profundo e embasado seria sequer lido por estes jovens, ou se seria tido como &#8220;arrogante&#8221;, &#8220;caga-regra&#8221;, &#8220;motivado pela inveja&#8221; ou comprometido com o desejo de destruir uma pobre alma de cristal:<\/p>\n<div id=\"attachment_1640\" style=\"width: 446px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/gabe3.png\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1640\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/gabe3.png\" alt=\"Cuidado ao criticar\" width=\"436\" height=\"69\" class=\"size-full wp-image-1640\" srcset=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/gabe3.png 436w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/gabe3-120x19.png 120w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/gabe3-250x40.png 250w\" sizes=\"(max-width: 436px) 100vw, 436px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1640\" class=\"wp-caption-text\">&nbsp;<\/p><\/div>\n<p>Veladamente o cr\u00edtico recebe a not\u00edcia de que, ao criticar o trabalho de um jovem autor, ele pode ser o respons\u00e1vel pelo suic\u00eddio de uma dessas crian\u00e7as de cristal que nunca foram criticadas, jamais foram repreendidas por seus atos e acreditam que a vida \u00e9 uma grande estrada asfaltada ladeada de flores que segue direto at\u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o de todos os seus sonhos. E que andam com uma navalha afiada prontas para cortarem os seus pulsos se algu\u00e9m ousar dizer que elas n\u00e3o s\u00e3o perfeitas. S\u00f3 que essas crian\u00e7as n\u00e3o existem, nem mesmo o autor do post \u00e9 assim. Vale como uma amea\u00e7a, por\u00e9m, de que sempre se poder\u00e1 iniciar um processo contra tal cr\u00edtico pela pr\u00e1tica de *bullying* contra o jovem que se matou porque disseram que sua trilogia escrita aos quatorze anos n\u00e3o ser\u00e1 o novo &#8220;Senhor dos An\u00e9is&#8221;.<\/p>\n<p>Para os que s\u00e3o assim, eu gostaria de dizer a cada um: <\/p>\n<p>> &#8220;Matem-se! Salvem o mundo da sua irrelev\u00e2ncia, de sua autopiedade e de sua ilus\u00e3o! Matem-se ou cres\u00e7am! Matem-se ou aprendam a enfrentar estradas arriscadas, flores que t\u00eam espinhos. Matem-se na ilus\u00e3o de que s\u00e3o perfeitos ou descubram que tem defeitos, e tamb\u00e9m que t\u00eam qualidades que ningu\u00e9m lhes contou: como coragem, car\u00e1ter, perspic\u00e1cia e vontade de melhorar a cada dia.<\/p>\n<p>Mas imaginar que algu\u00e9m se imole metaforicamente, desistindo da carreira liter\u00e1ria, \u00e9 um pensamento facilmente detectado como &#8220;elitista&#8221;. O sistema educacional nos acostumou com a ideia de que ningu\u00e9m deve ficar para tr\u00e1s:<\/p>\n<div id=\"attachment_1641\" style=\"width: 437px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/gabe5.png\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1641\" loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/gabe5.png\" alt=\"A vida n\u00e3o \u00e9 uma escola\" width=\"427\" height=\"51\" class=\"size-full wp-image-1641\" srcset=\"http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/gabe5.png 427w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/gabe5-120x14.png 120w, http:\/\/www.letraseletricas.blog.br\/lit\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/gabe5-250x30.png 250w\" sizes=\"(max-width: 427px) 100vw, 427px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1641\" class=\"wp-caption-text\">&nbsp;<\/p><\/div>\n<p>\u00c0s vezes as pessoas levam a s\u00e9rio demais a met\u00e1fora de que a vida \u00e9 uma escola. T\u00e3o a s\u00e9rio que a met\u00e1fora come\u00e7a a virar catacrese. Mas a l\u00edngua n\u00e3o \u00e9 espelho perfeito da realidade, mas uma tentativa bruta de reproduzi-la. A vida \u00e9 diferente da escola. A vida n\u00e3o tem progress\u00e3o continuada, n\u00e3o tem pedagogos, n\u00e3o tem recupera\u00e7\u00e3o. Na vida \u00e9 poss\u00edvel ser reprovado, muitas vezes. A vida n\u00e3o tem did\u00e1tica para nos &#8220;ensinar&#8221; o que achamos que ela ensina e n\u00e3o costuma nos dar segundas chances.<\/p>\n<p>Sim, \u00e9 errado professores rasgarem cadernos. \u00c9 errado escolas n\u00e3o terem pedagogos para diagnosticar disl\u00e9xicos. \u00c9 um tremendo erro chamar um aluno de burro. Mas o erro desses professores foi justamente ter tratado esses alunos como a vida nos trata a todos. Com injusti\u00e7a e insensibilidade. S\u00f3 que o modelo de escola que hoje se propaga \u00e9 o oposto disso, \u00e9 a escola t\u00e3o tolerante que n\u00e3o valoriza as realiza\u00e7\u00f5es. Uma escola que d\u00e1 nota por presen\u00e7a s\u00f3 pode induzir o aluno a achar que gritar &#8220;presente&#8221; num meio liter\u00e1rio j\u00e1 \u00e9 motivo bastante para ser bem recebido. S\u00f3 que o mundo n\u00e3o e assim: o mundo est\u00e1 cagando e andando para cada um de n\u00f3s. O &#8220;mundo&#8221; abstratamente, soma das ideias e defeitos dos milh\u00f5es de humanos que o comp\u00f5em, n\u00e3o d\u00e1 aten\u00e7\u00e3o a indiv\u00edduos, n\u00e3o colhe cuidadosamente os talentos para p\u00f4r num pedestal. Tratar as pessoas assim n\u00e3o as eleva, mas as relega.<\/p>\n<p>Precisamos, urgentemente, de mais gente que critique, de mais gente que polemize. E menos gente de cristal, de porcelana, de vidro. Se os de vidro se quebrarem o mundo nada perder\u00e1. N\u00e3o h\u00e1 falta de pessoas que desejam se tornar autoras. H\u00e1 falta de pessoas capazes disso.  Os que s\u00e3o capazes, eles n\u00e3o tem apenas o talento certo, mas a atitude certa. E a atitude certa n\u00e3o \u00e9 a condescend\u00eancia, mas a ambi\u00e7\u00e3o. Infelizmente, a opini\u00e3o corrente \u00e9 a de qua humildade supera o intelecto, quando ambas t\u00eam valor e n\u00e3o necessariamente precisam vir juntas.<\/p>\n<p>Por causa desta situa\u00e7\u00e3o eu percebi que n\u00e3o devo e n\u00e3o vou mais debater literatura nas redes sociais. Continuarei a dar meus pitacos por aqui, ocasionalmente fazendo ainda mais inimigos, mas n\u00e3o vou mais discutir com quem ouve o galo cantar e n\u00e3o sabe onde, com gente que pode resolver se matar se eu n\u00e3o amar seu \u00faltimo poema. De fato h\u00e1 certa raz\u00e3o na cr\u00edtica resumida dos prints acima: escritores n\u00e3o devem debater em comunidades liter\u00e1rias, tal como jogadores profissionais n\u00e3o devem disputar partidas em meio aos dente-de-leite.<\/p>\n<p>E antes que me acusem de arrog\u00e2ncia, sim, **sou um escritor**. Posso ter apenas um livro e algumas tradu\u00e7\u00f5es avulsas publicadas. Posso ser apenas um blogueiro. Mas eu escrevo. Sou um escritor *amador*, mas sou um escritor. E mesmo que n\u00e3o fosse, o simples fato de me ver como um j\u00e1 legitima que eu escolha me abster daquilo que acho que n\u00e3o faz bem \u00e0 minha imagem. Posso n\u00e3o ter um talento grande, mas pelo menos n\u00e3o me quebro com cr\u00edticas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma das principais caracter\u00edsticas da mediocridade \u00e9 o seu amor pela unanimidade. 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